terça-feira, 28 de junho de 2016

O Analista de Bagé


Luis Fernando Veríssimo




Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vêm de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas. Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem educada), mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.
Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.
– Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.
– O senhor quer que eu deite logo no divã?
– Bom, se o amigo quiser dançar uma marca, antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.
– Certo, certo. Eu...
– Aceita um mate?
– Um quê? Ah, não. Obrigado.
– Pos desembucha.
– Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?
– Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.
– Certo. Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe
– Outro.
– Outro?
– Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.
– E
o senhor acha...
– Eu acho uma pôca vergonha.
– Mas...
– Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!

xxxxxx

Contam que outra vez um casal pediu para consultar, juntos, o analista de Bagé. Ele, a princípio, não achou muito ortodoxo.
– Quem gosta de aglomeramento é mosca em bicheira... Mas acabou concordando.
– Se abanquem, se abanquem no más. Mas que parelha buenacha, tchê! Qual é o causo?
– Bem – disse o home – é que nós tivemos um desentendimento...
– Mas tu também é um bagual. Tu não sabe que em mulher e cavalo novo não se mete a espora?
– Eu não meti a espora. Não é, meu bem?
– Não fala comigo!
– Mas essa aí tá mais nervosa que gato em dia de faxina.
– Ela tem um problema de carência afetiva...
– Eu não sou de muita frescura. Lá de onde eu venho, carência afetiva é falta de homem.
– Nós estamos justamente atravessando uma crise de relacionamento porque ela tem procurado experiências extraconjugais e...
– Epa. Opa. Quer dizer que a negra velha é que nem luva de maquinista? Tão folgada que qualquer um bota a mão?
– Nós somos pessoas modernas. Ela está tentando encontrar o verdadeiro eu, entende?
– Ela tá procurando o verdadeiro tu nos outros?
– O verdadeiro eu, não. O verdadeiro eu dela.
– Mas isto tá ficando mais enrolado que linguiça de venda. Te deita no pelego.
– Eu?
– Ela. Tu espera na salinha.

Saindo do armário

Outra vez entrou um senhor no consultório, deitou no divã e contou que ultimamente estava se comportando de modo estranho.
– Me aposentei, doutor. E um dia, não sei por quê, me deu vontade de pintar o cabelo de caju.
– Sei – disse o analista de Bagé, sem tirar a bomba de chimarrão da boca.
– Comecei a usar roupas assim. Camisa aberta até aqui embaixo...
– Tô ouvindo.
– Medalhão no peito...
– Pensei que fosse devoção.
– E me deu esta vontade de só andar com rapazes...
– Sim.
– Me diga, doutor. Eu sou homossexual?
– Não existe gaúcho homossexual.
– Mas a gente vê tantos por aí...
– São as correntes migratórias. Tu não tem nada, índio velho. Precisa é arranjar um passatempo. Colecionar selo. Ou medalhão, pra não perder os que já tem. Vai pra casa e sossega, tchê!
– Se eu fosse homossexual, nem sei o que fazia. Acho que me jogava por essa janela!
Aí o analista de Bagé tapou a janela com o corpo e ameaçou:
– Te fresqueia. Te fresqueia!

Salinha cheia



– Se abanque, no más – disse o analista de Bagé, indicando o divã.
– Eu, ahn, prefiro ficar de pé – disse o moço.
– Se abanque, índio velho, que ta incluído no preço.
– Não, obrigado...
– Deita aí! – disse o analista de Bagé, empurrando o paciente, que caiu de costas no pelego.
O analista de Bagé sentou na sua banqueta e começou a picar fumo para o palheiro. Como o moço não dissesse nada, falou:
– E então? Desembucha.
– É que eu tenho um probleminha...
– Probleminha só pode ser o moleque pequeno.
– "Moleque?"
– A peça. O trabuco. O Oduvaldo.
– Ah. Não, não é isso.
– Então o que é, tchê? Depressa que eu to com a salinha cheia de louco.
– Bem, é que eu...
– O quê?
– Eu desde pequeno tenho este problema de incontinência...
– Incontinência?
– Eu ainda faço xixi na cama...
Nisso o analista pulou e gritou:
– Meu pelego!
E levantou o divã por uma ponta, despejando o paciente no chão.


O analista de Bagé e Luis Fernando por Edegar Vasques




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