sábado, 11 de junho de 2016

Lição de Ética




O queniano Abel Mutai, medalha de ouro nos 3 mil metros com obstáculos em Londres, estava a pouca distância da linha de chegada e, confuso com a sinalização, parou para posar para fotos pensando que havia cumprido a prova. Logo atrás vinha o corredor espanhol Ivan Fernandez Anaya.

Anaya gritou para Mutai avisando que ele não tinha cruzado a linha de chegada, mas o queniano não entendia espanhol. Anaya, então, empurrou Mutai para a vitória. Na entrevista coletiva, um jornalista perguntou para Anaya: “Por que o senhor fez isso?” “Isso o quê?” – respondeu Anaya. “O senhor deixou o queniano ganhar” – insistiu o repórter. “Eu não o deixei ganhar” – reiterou Anaya. De novo, o jornalista: “Mas o senhor podia ter vencido. Está na regra, e o queniano não notou...” E Anaya mostrou como foi educado, sem lições de espertezas domésticas (como no Brasil): “Se eu ganhasse desse jeito, o que iria falar para a minha mãe?”

Mais tarde, o treinador de Anaya cobrou-lhe o gesto: “Eu não treinei você para deixar o outro ganhar. Você tinha a obrigação da vitória”. E Anaya encerrou a conversa com uma lição de ética: “Eu acordei orgulhoso, sem ter vergonha da minha derrota. Eu não perdi, apenas não ganhei”.

Quem quiser saber mais sobre exemplos éticos como o do corredor Anaya, vale a pena ler “Ética e Vergonha na Cara”, dos professores Clóvis de Barros Filho e Mário Sérgio Cortella. Foi escrito em 2014, mas está atualizadíssimo.


(Da coluna de Rogério Mendelski do Correio do Povo)





Jogar lixo no chão, colar na prova, oferecer dinheiro em troca de algum benefício - todos esses são comportamentos que podem ser facilmente percebidos em nosso dia a dia, quase como se fossem situações corriqueiras e típicas da cultura brasileira. Mas de que maneira isso se reflete na formação de crianças e jovens? A corrupção estaria mais próxima de nossa vida cotidiana do que gostaríamos de supor? Como Mario Sergio Cortella e Clóvis de Barros Filho discutem nesse livro, seja em casa, seja na escola ou no trabalho, muitas vezes os meios utilizados para alcançar um objetivo acabam sendo tratados como uma questão menor diante dos resultados obtidos. Os autores lançam uma importante reflexão sobre o modo como orientamos nossas escolhas, mostrando de que forma a vergonha encontra seu lugar na ética, a fim de que possamos pensar e agir para além do comodismo e dos prazeres individuais.


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