segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Por que o gaúcho chama dinheiro de Pila

 

Poucas expressões são tão características do falar gaúcho quanto “me empresta uns pilas” ou “não tenho um pila no bolso”. O curioso é que essa palavra, tão comum no Rio Grande do Sul, tem uma origem que vai muito além da simples gíria popular ‒ ela carrega uma história política e cultural genuinamente gaúcha. 

O termo “pila” surgiu em referência ao médico e político porto-alegrense Raul Pilla (1892–1973), uma figura marcante da política rio-grandense e nacional nas primeiras décadas do século XX. Fundador do Partido Libertador, Pilla defendia ideias liberais e federalistas e foi um dos grandes opositores do governo de Getúlio Vargas. 

Durante períodos de turbulência política, especialmente nas décadas de 1920 e 1930, correligionários de Raul Pilla passaram por graves dificuldades financeiras. Em meio à repressão e ao exílio, alguns partidários chegaram a emitir títulos e vales com o nome de Pilla, usados entre eles como forma de pagamento ou crédito ‒ uma espécie de “moeda simbólica” entre os libertadores. 

Esses papéis, conhecidos popularmente como “pilas”, começaram a circular de mão em mão dentro do grupo, e o sobrenome do líder acabou se transformando em sinônimo de dinheiro. Com o tempo, o uso se espalhou entre a população gaúcha, especialmente em Porto Alegre e na Campanha, e o termo se firmou no vocabulário cotidiano. 

Assim, o que começou como uma referência a um político histórico virou uma das marcas da fala gaúcha. Mesmo depois do fim do Partido Libertador e da morte de Raul Pilla, a palavra seguiu viva ‒ atravessou gerações, mudanças de moeda e fronteiras linguísticas. 

Hoje, quando o gaúcho diz que “ganhou uns pilas”, ele está, sem perceber, repetindo um pedaço da própria história do Rio Grande do Sul. A gíria sobreviveu ao tempo e se tornou um símbolo da identidade linguística e cultural do povo gaúcho ‒ uma herança que une política, humor e tradição em uma única palavra. 

(Bairrismo gaúcho)

Raul Pilla (Porto Alegre, 20 de janeiro,  de 1892 – Porto Alegre, 7 de junho de 1973) foi um médico, jornalista, professor e político brasileiro. Um dos maiores defensores da adoção do regime parlamentarista no nosso País. Pilla era chamado de O Papa do parlamentarismo no Brasil. 

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P.S.: Há uns dez atrás, eu, editor deste almanaque, estou num domingo ensolarado na praia de Ipanema, zona sul do Rio de Janeiro, quando uma turista se encantou com a túnica alaranjada do vendedor de Mate Leão. Ela fez várias propostas até fechar o negócio em 100 reais, um bom valor para a época. O vendedor acabou topando na hora. 

Mais tarde, eu resolvo também tomar um mate leão e comento com o vendedor que me atendeu da proposta que um colega seu recebeu de vender a sua túnica por 100 pilas. O cara arregalou os olhos, comentando: “Cem pilas! E isso em reais dá quanto?”. Respondo: “Já vi que não entendes nada de gauchês!”

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