Tinha
no nome seu destino líquido:
mar,
rio e lago.
Pois se chamava Mário Lago.
Viu
a luz sob o signo de Peixes.
Brilhava
no céu a constelação de Aquário.
Veio
morar no Rio.
Quando
discutia, sempre levava um banho.
Pois
era de um temperamento transbordante.
Sua
arte preferida: água-forte.
Seu
provérbio predileto: “Quem tem capa, escapa”.
Sua
piada favorita: “Ser como o rio: seguir o curso sem deixar o leito”.
Pois
estudava: engenharia hidráulica.
Quando
conheceu uma moça de primeira água.
Foi
na onda.
Teve
que desistir dos estudos quando estava na bica para se formar.
Então
arranjou um emprego em Ribeirão das Lajes.
Donde
desceu até ser leiteiro.
Encarregado
de pôr água no leite.
Ficou
noivo e deu à moça uma água marinha.
Mas
ela o traiu com um escafandrista.
E
fugiu sem dizer água vai.
Foi
aquela água.
Desde
então ele só vivia na chuva.
Virou
pau d’água.
Portanto,
com hidrofobia.
Foi
morar numa água furtada.
Deu-lhe
água no pulmão.
Rim
flutuante.
Água
no joelho.
Hidropsia.
Bolha
de água.
Gota.
Catarata.
Morreu afogado.
(Millôr Fernandes, em “Pif-Paf” O Cruzeiro de 1951)

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