Figura quase celestial que descia a ladeira local de saia branca, deixando um rastro de admiração por onde passava. Aquela imagem de pureza e elegância ficou guardada como uma fotografia nítida na memória do garoto por quase duas décadas.
Foi somente em 1968 que essa lembrança de infância ganhou melodia e versos definitivos. Tibério Gaspar, já adulto e inserido na efervescência cultural do Rio de Janeiro, uniu-se ao pianista Antônio Adolfo para dar vida à canção. Naquele momento, a composição passou pelo filtro: A sonoridade do nome original, Brasilina, embora carregasse a identidade da mulher real, não parecia encaixar na cadência que a música pedia. Havia uma busca por algo mais rítmico, que evocasse ao mesmo tempo o respeito e a leveza do interior.
Foi nessa lapidação poética que Brasilina se transformou em Sá Marina, o “Sá”, esse tratamento carinhoso e arcaico para as senhoras de prestígio, deu à musa uma aura de lenda. A música “Sá Marina” nasceu, então, e se tornou um clássico absoluto da música popular brasileira.
Quando a canção estourou na voz de Wilson Simonal e se tornou um fenômeno mundial em 1968, o interesse pela identidade da verdadeira musa cresceu. No entanto, o tempo é implacável, e as décadas haviam transformado a jovem professora em uma senhora que já não guardava as mesmas feições da juventude.
Procurada para entrevistas e registros fotográficos que revelariam sua face ao Brasil, Brasilina tomou uma decisão de uma sensibilidade ímpar: ela escolheu o silêncio.
Ao recusar a exposição, ela protegeu não a si mesma, mas a própria canção. Brasilina compreendeu que o público precisava da imagem eterna daquela moça de saia branca flutuando pela ladeira de Anta, e que sua imagem presente poderia romper o feitiço da obra de arte.
Ela preferiu habitar para sempre o imaginário coletivo como a “Sá Marina” da música, provando que, às vezes, a melhor maneira de se tornar imortal é permitir que a poesia ocupe o lugar da realidade.
Texto da internet
Sá Marina
Antônio Adolfo e Tibério Gaspar
Descendo a rua da ladeira
Só quem viu, que pode contar.
Cheirando a flor de laranjeira,
Sá Marina vem pra dançar…
De saia branca costumeira,
Gira ao sol, que parou pra olhar.
Com seu jeitinho tão faceira,
Fez o povo inteiro cantar…
Roda pela vida afora
E põe pra fora esaa alegria.
Dança que amanhece o dia
Pra se cantar.
Gira, que essa gente aflita,
Se agita e segue no seu passo,
Mostra toda essa poesia do olhar.
Deixando versos na partida
E só cantigas pra se cantar.
Naquela tarde de domingo,
Fez o povo inteiro chorar.
E fez o povo inteiro chorar.
E fez o povo inteiro chorar…
P.S.: A professora Brasilina foi a musa inspiradora da famosa canção “Sá Marina” (1968), sucesso na voz de Wilson Simonal. Ela era uma mulher loira e bonita que vivia em Anta, um distrito de Sapucaia (RJ), e causou um amor platônico no compositor Tibério Gaspar quando ele tinha 8 anos de idade.

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