Mário Corso
Não passa semana sem termos manchete da morte de uma mulher por seu companheiro, ou ex-companheiro. O tema varia quando é seguido de suicídio, de filicídio, do assassinato do novo companheiro da ex-esposa, dos pais ou dos irmãos delas. Enfim, de qualquer um que represente, aos olhos do homem, apoio àquela que ousa deixa-lo. É um crime que, por si só, abre a porta para outros.
Campanhas têm sido tentadas, se elas têm sucesso, são muito discretos. De qualquer forma, as iniciativas são melhores do que nada, é um começo.
Por que esses homens matam suas mulheres? Se fala em sentimento de posse, em ódio pelas mulheres, em não saber ouvir um não de uma mulher. Não excluo esses argumentos, mas eles sozinhos não dão conta da equação.
O que pesa, nesses crimes, é algo mais fundo: a tentativa desesperada de retomar a masculinidade sentida como perdida. No abandono pela mulher, homens frágeis na sua virilidade sentem-se simbolicamente feminizados. Funciona, na cabeça deles, como se o jogo tivesse virado: antes provedores, controladores, agora eles são os passivos, os rejeitados.
A dita masculinidade frágil é isso. São homens que não se sentem intrinsicamente homens. Só se sentem homens se tiverem uma mulher como fiadora do seu papel. Por isso, insistem obsessivamente em manter os relacionamentos. Por isso, para eles, o abandono é decisivo. Eles não perdem apenas a mulher, eles perdem o chão da sua identidade. É como se o mundo estivesse de ponta-cabeça.
Enquanto o arquétipo feminino passa pelo poder de dar a vida, o do homem passa por tirar a vida ‒ ser um guerreiro. Por isso, em uma masculinidade acuada, matar lhe restituiria imaginariamente a masculinidade. Eles sabem que vão ser presos, mas isso é tão menor perto da loucura de que estão tomados.
A dificuldade em reduzir os feminicídios é estrutural. Estamos vivendo um momento de transição em que a nova forma de ser homem ainda não se consolidou, e a velha ainda não foi embora.
Campanhas ajudam, leis duras também. Mas o que realmente fará diferença é a construção de uma nova subjetividade masculina, capaz de sustentar a perda, a rejeição e a solidão sem recorrer à violência, sem enlouquecer.
Crônica do jornal Zero Hora, de fevereiro de 2026.

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