segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

“Seja cara de pau”

 Diz autor de livro com dicas para tímidos

Autor do Manual de Sobrevivência dos Tímidos, Bruno Maron também é designer e quadrinista da Folha de S.Paulo. Hoje, mais velho, supera melhor a timidez: 

Manual de Sobrevivência dos Tímidos é um livro escrito e ilustrado por Bruno Maron. Organizado em seis capítulos, a obra faz uma abordagem bem-humorada e certeira sobre como funciona a timidez. Maron também apresenta conselhos surrealistas sobre como fugir ou enfrentar a socialização. 

P.: Em outra entrevista você afirmou que, na época da faculdade, sentia que não era humano. O que você quis dizer com isso? 

R.: Eu não me considerava à altura dos acontecimentos, me considerava menor, quase como se eu não fosse humano ou como se fosse um ser humano de segunda categoria. É uma bad trip que é uma espiral. A timidez é um vórtice de desespero e, nos casos mais graves, um buraco negro. 

P.: Você acha que os tímidos são um pouco egocêntricos, por se preocuparem demais com o que os outros vão dizer?

R.: Eles se acham o centro do mundo (risos). O tímido tem a falsa ilusão de ser o centro do mundo. 

P.: Como fugir daquelas situações sociais inevitáveis, como a conversa com o vizinho no elevador? 

R.: O ideal é tentar evitar papo furado e encontros insignificantes. Às vezes, eu me pegava sofrendo porque interagia com uma pessoa de quem eu não gostava. E o tímido não consegue se impor. Então, primeiramente, tem de identificar quem é chato nesse sentido e tentar evitar. Mas, se por acaso você o encontra, sempre tem a desculpa do “tenho que ir nessa”. Tem de inventar algo para sair daquilo, senão você é vampirizado por aquela pessoa chata. 

P.: O que a timidez trouxe para você como benefício?

R.: Ela me fez criar uma vida interior. Passei a me interessar por muitas coisas que de repente um cara que só se preocupava em pegação não se preocupava, como astronomia, por exemplo. Também corri atrás de quadrinhos, que eram uma espécie de refúgio. A introspecção nos ajuda a entender as relações humanas, a finitude do homem e a hierarquizar os valores das coisas. 

P.: Que conselho você daria para o Bruno de 16 anos, muito mais tímido do que o Bruno de 36?

R.: Seja cara de pau. Tem um bando de gente muito pior do que você que está conseguindo um monte de coisa. Então, é só ter mais cara de pau que você vai conseguir. 

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