terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A Rua das Rimas

 Guilherme de Almeida

A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino

é uma rua de poeta, reta, quieta, discreta,

direita, estreita, bem feita, perfeita,
com pregões matinais de jornais, aventais nos portais,

animais e varais nos quintais;
e acácias paralelas, todas elas belas, singelas, amarelas,
douradas, descabeladas, debruçadas como namoradas para as calçadas;
e um passo, de espaço a espaço, no mormaço de aço baço e lasso;
e algum piano provinciano, quotidiano, desumano,

mas brando e brando,
soltando, de vez em quando,

na luz rara de opala de uma sala uma escala clara que embala;
e, no ar de uma tarde que arde, o alarde das crianças do arrabalde;

e de noite, no ócio capadócio,

junto aos lampiões espiões,

os bordões dos violões;
e a serenata ao luar de prata (mulata ingrata que mata…);
e depois o silêncio, o denso, o intenso, o imenso silêncio…

A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino

é uma rua qualquer onde desfolha um malmequer  uma mulher que bem me quer;
é uma rua, como todas as ruas, com suas duas calças nuas,

correndo paralelamente, como a sorte diferente de toda gente, para a frente,

para o infinito; mas uma rua que tem escrito um nome bonito, bendito,

que sempre repito e que rima com mocidade, liberdade, tranquilidade: RUA DA FELICIDADE…

*******

Guilherme de Andrade de Almeida (Campinas, 24 de julho de 1890 ‒ São Paulo, 11 de julho de 1969) foi um poeta, cronista, jornalista, crítico de cinema, ensaísta e tradutor brasileiro. É considerado um verdadeiro comunicador, tendo utilizado, sem preconceitos, quase todos os meios de comunicação disponíveis em seu tempo: livro, jornal, revista, cinema, teatro, rádio, letra de música e hinos. 

É de sua autoria a letra da Canção do Expedicionário com música de Spártaco Rossi, referente à participação dos pracinhas brasileiros na Segunda Guerra Mundial.

Nenhum comentário:

Postar um comentário