A história por trás da primeira musica gay brasileira
A história da música “Mulato Bamba”, lançada em 1932, representa um capítulo corajoso e vanguardista da cultura brasileira, sendo reconhecida como a primeira música gay do nosso cancioneiro a tratar o tema com dignidade. Para entender como essa obra surgiu, é preciso mergulhar na trajetória de seu criador, Noel Rosa, um jovem que desafiou todas as convenções de sua época.
Nascido em Vila Isabel, Noel carregava no rosto uma marca profunda: uma deformidade no queixo causada por um acidente com fórceps durante o parto. Essa característica física o tornou alvo de olhares e comentários, o que provavelmente desenvolveu nele uma sensibilidade única para com todos aqueles que eram considerados "diferentes" ou excluídos pela sociedade.
Embora tenha ingressado na Faculdade de Medicina para seguir uma carreira tradicional, Noel rapidamente percebeu que sua alma pertencia às ruas. Ele abandonou os estudos e o estetoscópio para se entregar completamente à boemia, trocando o futuro de médico pelo posto de maior cronista da vida carioca.
Nas madrugadas da Lapa e do Centro do Rio, Noel Rosa encontrou sua verdadeira faculdade. Diferente dos homens de sua classe social, ele não sentia qualquer desconforto em circular pelos ambientes mais pobres e marginalizados.
Noel valorizava profundamente as companhias do bar e estabeleceu laços de amizade genuína com prostitutas, malandros e homossexuais, pessoas que a elite da época tentava esconder ou criminalizar. Para o “Poeta da Vila”, o valor de um ser humano não estava em sua conta bancária ou em quem ele amava, mas sim na sua capacidade de improvisar um verso, na sua lealdade e no seu caráter.
Foi nesse cenário de total liberdade e falta de preconceitos que Noel se tornou próximo de figuras como Madame Satã, um homem negro e assumidamente homossexual que era temido pela polícia e respeitado por todos pela sua força física e domínio da capoeira.
Noel admirava como Satã conseguia ser, ao mesmo tempo, uma figura de extrema sensibilidade artística e um “bamba” inquestionável que não levava desaforo para casa.
Inspirado por essa complexidade, Noel Rosa escreveu “Mulato Bamba” em 1932, compondo um retrato histórico que subvertia a masculinidade tóxica daquele tempo. A letra é direta e detalhada: ela descreve um mulato forte do Salgueiro, extremamente elegante, que cuida das roupas no tintureiro e vive da malandragem do baralho.
O ponto central da composição, no entanto, é o fato de que esse homem rejeita as normas do romance heterossexual. Noel escreveu explicitamente que as morenas do lugar viviam a se lamentar porque sabiam que ele “não quer se apaixonar por mulher”. O texto da música reforça que, embora fosse um “mulato de fato” capaz de enfrentar qualquer valente, ele “não queria saber de fita nem com mulher bonita”, sentindo-se aborrecido e perseguido pelo interesse feminino.
Ao descrever esse personagem como um “bamba”, Noel elevou a figura do homossexual ao topo da hierarquia do morro, mostrando que a sua orientação sexual não diminuía em nada o seu respeito e sua valentia.
Para lançar essa obra sem sofrer uma censura imediata em uma sociedade extremamente conservadora, Noel contou com a parceria do cantor Mário Reis. Mário era o intérprete mais sofisticado daquela era, conhecido por cantar de forma suave e “falada”, o que trouxe uma modernidade e uma leveza necessárias para que a mensagem da letra fosse transmitida como uma crônica de costumes, e não como um escândalo. Assim, em 1932, a primeira música gay brasileira chegava às vitrolas de todo o país.
Enquanto sua arte rompia barreiras, a saúde de Noel, debilitada pelo cigarro, pelas noitadas constantes e pelo descaso com o tratamento de uma tuberculose, começava a falhar. O gênio que humanizou os excluídos e cantou a verdade das ruas faleceu precocemente em 4 de maio de 1937, com apenas 26 anos.
Madame Satã viveu intensamente até os 76 anos, vindo a falecer somente em 1976, mas deixando para sempre o seu espírito valente eternizado nos versos de Noel.
Felipe Mathias
Mulato Bamba
Noel Rosa
Esse mulato forte é do
Salgueiro,
Passear no tintureiro era o seu esporte.
Já nasceu com sorte e desde pirralho
Vive às custas do baralho,
Nunca viu trabalho.
E quando tira samba é novidade,
Quer no morro ou na cidade,
Ele sempre foi o bamba.
As morenas do lugar vivem a se lamentar
Por saber que ele não quer se apaixonar por mulher.
O mulato é de fato, e sabe
fazer frente a qualquer valente,
Mas não quer saber de fita nem com mulher bonita.
Sei que ele anda agora
aborrecido
Porque vive perseguido sempre a toda hora.
Ele vai-se embora para se livrar
Do feitiço e do azar das morenas de lá.
Eu sei que o morro inteiro
vai sentir
Quando o mulato partir
Dando adeus para o Salgueiro.
As morenas vão chorar,
Vão pedir pra ele voltar
E ele então diz com desdém:
‒ Quem tudo quer, nada tem.

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