domingo, 4 de setembro de 2016

Os duelos de Olavo Bilac


            

Pardal Mallet

Em 1889, o jornalista João Carlos Pardal Mallet desafiou Olavo Bilac a um duelo, ofendido com a saída do poeta do jornal A Rua, sob sua direção. Marcado para 19 de setembro, o confronto foi adiado duas vezes porque a polícia os vigiava. Finalmente, no dia 24 de setembro, Pardais Mallet e Bilac, sem testemunhas, se enfrentaram com espadas. A luta durou apenas 4 segundos. Mallet foi ferido na barriga, sem gravidade. Foi o bastante para que, conforme as normas do duelo, a luta terminasse.

(Do Blog Recanto das Letras)


Olavo Bilac

O duelo romanceado

Bilac ria sozinho ao se lembrar da história. Ela vinha enriquecer sua teoria de que os poetas não eram seres etéreos, desligados do mundo, mas homens de carne e osso, capazes de covardia ou bravura conforme o caso. O que lhe trouxe à memória seu inacreditável duelo com Pardal Mallet em 1889, um dois meses antes da Proclamação da República.

Não fora um duelo de mots d´esprit, nem de rimas nem de copos, como era comum – mas um duelo para valer, a espada, que terminara em sangue. E olhe que Bilac e Pardal eram amigos do peito, colegas de redação, passavam dia e noite juntos rindo na Ouvidor. O motivo, aliás, fora o Cidade do Rio. Pardal Mallet deixara o jornal de José do Patrocínio para fundar o seu próprio jornal, A Rua, e levara Bilac consigo. Mas Bilac não conseguia ficar muito tempo longe de Patrocínio, sua maior admiração. Logo voltou para o Cidade do Rio e, o que é pior, rebocou os colegas que tinham ido com ele. A Rua fechou.

Na Paschoal, que eles ainda frequentavam, Pardal culpou Bilac pelo fracasso de sua folha. Os dois discutiram e se mimosearam com expletivos:

“Suja-laudas!”, vociferou Pardal.

“Troca-tintas!”, invectivou Bilac.

“Pelintra!’, bramiu Pardal.

“Biltre!”, berrou Bilac.

“Caolho!”, rugiu Pardal.

“Cínico! Patife! Torpe! Vil! Embusteiro! Não sei estou que não lhe parto a cara!”, ejaculou Bilac.

Espelhos tremeram, os pingentes dos lustres repicaram e temeu-se pela sorte do célebre empadário. Dois ou três amigos acudiram com os panos quentes. Bilac pôs-se de perfil e foi taxativo:

“Não tenho prateleira para guardar insultos!”

Se houvesse ali uma bate-barbas, Bilac levaria a pior, por não usar barbas, ao passo que Pardal cultivava um belo cavanhaque louro. E uma briga a bengaladas, com as maçarandubas de castão de chumbo, estava fora de questão entre dois homens que, minutos antes, amavam-se como irmão. Então Bilac e Pardal tiraram as luvas, esbofetearam-se mutuamente e levaram a querela para o campo de honra.

(...)

Protegidos pela madrugada, cada qual no seu tilburi, os dois tomaram rumo da Lapa, para a casa de um amigo na rua do Riachuelo. Como combinado, o amigo os recebeu e saiu em busca de um médico, com instruções de ficar à espera na rua e só entra quando fosse chamado. O duelo seria ao primeiro sangue – ou seja, até que um dos dois fosse ferido.

(...)

Sem outra palavra, resignados e já com saudades de si mesmos, despiram os casacos, coletes, gravatas, colarinhos, punhos e camisas. De peito nu e calças presas pelos suspensórios, fecharam as cortinas, afastaram os móveis e escolheram os floretes. Cumprimentaram-se tristes e sem se olhar. Deram dois passos para trás, brandiram as lâminas e avançaram.

Mas nenhum dos dois era d´Artagnan. O Rio também não era Paris e a chué rua Riachuelo não era o Jardim de Luxemburgo. Na verdade, à luz do gás que ampliava suas sombras, o maior risco era o de um daqueles espadachins de araque furar o olho ou o braço ou o baço do outro sem querer. Por sorte, o combate durou apenas quatro segundos.

No primeiro bote de Bilac, pardal esqueceu-se de saltar de lado e a espada do poeta atingiu-o de raspão, sob a última costela. Pálido de espanto, Bilac viu sangue no amigo. Atirou longe o florete e partiu aos prantos para socorrê-lo. Pardal deixou-se abraçar, beijar e ensopar-se pelas lágrimas do poeta. Bilac carregou-o nos braços, depositou-o no sofá e correu para a rua, despenteado e seminu, clamando pelo dono da casa e pelo médico.

Não um, mas três médicos estavam de prontidão com o amigo, na calçada da rua do Riachuelo. Um deles tratou do ferimento de Pardal, o que lhe tomou apenas alguns segundos, e cuidou de acalmar Bilac, o que lhe tomou muito mais tempo. Os outros dois lavraram um atestado certificando que o sr. Pardal Mallet fora ferido em duelo pelo sr. Olavo Bilac e que, com isso, estavam ambos desagravados e podiam voltar a ser amigos.

Com o dia quase amanhecendo, Bilac e Pardal saíram abraçados e felizes pela rua rumo ao Largos da Carioca, flertando com as últimas estrelas e chutando cambucás podres pelo caminho. De repente, o Rio era Paris e eles, dois bravos mosqueteiros de Dumas pére. Sim, a vida é que era adorável.

(Do livro “Bilac vê estrelas”, de Ruy Castro)

Duelo entre cavalheiros

Horas depois de proclamada a República, o jornalista João Carlos Pardal Mallet entrou eufórico na redação do jornal Cidade do Rio e abraçou, com emoção cívica, o poeta Olavo Bilac. Quem visse a cena jamais imaginaria que, há menos de dois meses, os dois amigos cruzavam armas em duelo. O desafio partiu de Pardal Mallet, 25 anos, ofendido com a saída de Bilac, 24 anos, do jornal A Rua, sob sua direção. Marcado de início para 19 de setembro, o combate teve de ser adiado duas vezes porque a polícia, disposta a fazer cumprir a proibição que tenta pôr fim à moda dos duelos, vigiava de perto os padrinhos. Finalmente, no dia 24, ao nascer do dia, Pardal Mallet e Bilac se enfrentaram, sem testemunhas, espada na mão. Durou apenas quatro segundos a refrega: logo na primeira estocada, Mallet foi ferido na barriga, sem gravidade. Era o bastante para que, conforme as regras, a luta terminasse aí. O difícil, para os dois contendores, for disfarçar o alívio que sentiram.

(Veja na História)


Raul Pompeia

Em 1892, Olavo Bilac e o escritor Raul Pompeia (1863-1895) tiveram uma grande desavença. Um texto de uma revista dirigida por Bilac criticou Pompeia. Acusava-o de sofrer de "amolecimento cerebral" por masturbar-se muito à noite ao lembrar-se de beldades que via na rua. Pompeia, que tinha dificuldades com as mulheres, revidou dizendo que o seu desafeto (Bilac) era "marcado pelo estigma do incesto". Era uma referência a Bilac, que dizia não precisar de filhos, pois já tinha seu sobrinho. Para resolver a questão, organizaram um duelo de espada, que não foi realizado.

Entre Eros e Tânatos: o duelo de Olavo Bilac com Raul Pompeia

Luiz Roberto Benatti

Enquanto que o Rio de Janeiro imperial arrumava-se para vestir-se com o dólmã republicano, dividiam-se nos bares, nas ruas e nos lares florianistas de antiflorianistas. Poetas e escritores bebericavam ou se embriagavam à tarde nos grandes botecos recortados à moda francesa: Mallet, Pompeia, Bilac. A Confeitaria Cailteau, da Rua do Ouvidor, era a Petiskeira desses escritores boêmios. Mais tarde, mordido por cobra pernambucana, Bandeira os chamou de parnasianos aguados. Bilac cofiava o bigode vasto como se fosse um Salvador Dali carioca; Pompeia corrigia o prumo do pince-nez míope. Escreviam para as revistas da moda lidas em particular por charmosas moças pré-casadoiras. Havia sempre alguém para arrumar o salão para a dança dos desafetos. Numa dessas ocasiões, Oscar Rosas cobriu na redação do Jornal do comércio a ausência etílica de Bilac (março de 1892) e escreveu que Pompeia gostava de se masturbar em seu quarto solitário, à noite e numa cama fresca, amoroso e sensual, inspirado na recordação das beldades entrevistas durante o dia. O bicho mordeu Pompeia que se fechou no mutismo esquizoide, prometeu vingança e, tanto fez, que armou o duelo. Pistola ou espada? No contra-ataque, Pompeia escreveu que Bilac cometia incesto com um sobrinho. A fofoca permite que Tânatos saia da caverna escura e venha gritar aqui fora que somos todos santos de pau oco. Vai daqui, vai de lá, sempre que a dupla vingadora anunciava dia e hora do duelo em tal ou qual lugar, a polícia chegava antes para impedir o homicídio. Escolheram a espada, embora não soubessem manejá-la, porque nela a peleja cessa tão logo um dos contendores atinja o outro ainda que seja de modo leve. Três anos depois, mortificado por artigo de Luís Murat, em dezembro de 1895, Pompeia cometeu suicídio. Bilac morreu solteirão da silva e virou professor honorário da Universidade de São Paulo.


Olavo Bilac (1865-1918), O Príncipe dos Poetas Brasileiros, foi jornalista, poeta e membro fundador da Academia Brasileira de Letras.


De pé, da direita para esquerda:

Rodolfo Amoedo, Artur Azevedo, Inglês de Sousa, Olavo Bilac, José Veríssimo, Sousa Bandeira, Filinto de Almeida, Guimarães Passos, Valentim Magalhães, Rodolfo Bernadelli, Rodrigo Octávio, Heitor Peixoto.

Sentados, na mesma ordem:

João Ribeiro, Machado de Assis, Lúcio de Mendonça e Silva Ramos.



Empatia

Martha Medeiros


As pessoas se preocupam em ser simpáticas, mas pouco se esforçam para ser empáticas, e algumas talvez nem saibam direito o que o termo significa. Empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro, de compreendê-lo emocionalmente. Vai muito além da identificação. Podemos até não sintonizar com alguém, mas nada impede que entendamos as razões pelas quais ele se comporta de determinado jeito, o que o faz sofrer, os direitos que ele tem.

Nada impede?

Desculpe, foi força de expressão. O narcisismo, por exemplo, impede a empatia. A pessoa é tão autofocada, que para ela só existem dois tipos de gente: os seus iguais e o resto, sendo que o resto não merece um segundo olhar. Narciso acha feio o que não é espelho. Ele se retroalimenta de aplausos, elogios e concordâncias, e assim vai erguendo uma parede que o blinda contra qualquer sentimento que não lhe diga respeito. Se pisam no seu pé, reclama e exige que os holofotes se voltem para essa agressão gravíssima. Se pisarem no pé do outro, é porque o outro fez por merecer.

Afora o narcisismo, existe outro impedimento para a empatia: a ignorância. Pessoas que não circulam, não possuem amigos, não se informam, não leem, enfim, pessoas que não abrem seus horizontes tornam-se preconceituosas e mantêm-se na estreiteza da sua existência. Qualquer estranho que possua hábitos diferentes será criticado em vez de respeitado. Os ignorantes têm medo do desconhecido e o evitam

E afora o narcisismo e a ignorância, há o mau-caratismo daqueles que, mesmo tendo o dever de pensar no bem público, colocam seus próprios interesses acima do de todos, e aí os exemplos se empilham: políticos corruptos, empresários que só visam ao lucro sem respeitar a legislação, pessoas que “compram” vagas de emprego e de estudo que deveriam ser conquistadas através dos trâmites usuais, sem falar em atitudes prosaicas como furar fila, estacionar em vaga para deficientes, terminar namoros pelo Facebook, faltar compromissos sem avisar antes, enfim, aquelas “coisinhas” que se faz no automático sem pensar que há alguém do outro lado do balcão que irá se sentir prejudicado ou magoado.

É um assunto recorrente: precisamos de mais gentileza etc. e tal. Para muitos, puxar uma cadeira para a moça sentar ou juntar um pacote que alguém deixou cair, basta. Sim, somos todos gentis, mas colocar-se no lugar do outro vai muito além da polidez e é o que realmente pode melhorar o mundo em que vivemos. A cada pequeno gesto diário, a cada decisão que tomamos, estamos interferindo na vida alheia. Logo, sejamos mais empáticos do que simpáticos.

Ninguém espera que você e eu passemos a agir como heróis ou santos, apenas que tenhamos consciência de que só desenvolvendo a empatia é que se cria uma corrente de acertos e de responsabilidade – colocar-se no lugar do outro não é uma simples gentileza que se faz, é a solução para sairmos dessa barbárie disfarçada e sermos uma sociedade civilizada de fato.

(Revista O Globo – 3.2.2013)


sábado, 3 de setembro de 2016

Sai pra lá, Atchim!



Bastam alguns dias de frio e chuva para as crianças chegarem em casa com o nariz escorrendo, tosse e dor de garganta. Às vezes, uma febre acompanha. As mudanças bruscas de temperatura deixam todos mais suscetíveis às doenças das vias aéreas. Mas fica a dúvida: será gripe, resfriado oi crise alérgica? Para saber, é preciso prestar atenção nos sinais.

A gripe é uma infecção respiratória aguda, e seus sintomas incluem tosse, obstrução nasal, coriza (nariz escorrendo), dor de garganta e febre. Em crianças, os sintomas da gripe e do resfriado podem ser semelhantes. Uma das importantes diferenças, segundo o otorrinolaringologista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Otávio Piltcher, é que na gripe, os sinais aparecem intensa e rapidamente.

 Na infância, é muito difícil diferenciar gripe e resfriado, pois em crianças pequenas a febre alta pode ser sinal de resfriado ou gripe – afirma Piltcher.

Segundo Piltcher, os surtos de gripe costumam aparecer mais, no Estado, no outono e no inverno. Quando os sintomas permanecem por mais tempo, o mais indicado é levar a criança ao médico.

 Alguns vírus são muito agressivos, como o influenza, o parainfluenza, o sincicial respiratório e o adenovírus, e podem fazer com os recém-nascidos e as crianças que ainda estão sendo amamentadas sejam hospitalizadas – afirma o pediatra Dilton Francisco de Araújo, professor da FFFCMPA e chefe do Serviço de Pediatria do Hospital da Criança Santo Antônio.

Araújo alerta que a gripe e o resfriado, quando não tratados, podem se agravar, podendo evoluir para bronquiolite (infecção nos bronquíolos) ou broncopneumonia bacteriana. Nesses casos, a criança precisa ser hospitalizada. Por isso, é preciso estar atento aos primeiros sinais de doença respiratória. Entre as crianças mais suscetíveis a todas essas doenças, estão as alérgicas.

Se, mesmo depois de analisar todos os sintomas da doença, a dúvida sobre se é gripe, resfriado ou crise alérgica permanecer, é melhor visitar o médico. Segundo Araújo, os pais devem levar o filho à emergência de algum hospital nos casos mais agudos, quando a criança está com febre, muito cansada, fazendo grande esforço para respirar, com cianose (cor arroxeada em torno dos lábios) e tosse. E sempre que tiver dúvida, uma consulta com o pediatra é bem-vinda.

Dicas de prevenção e tratamento

Gripe

 Tosse

 Dor de garganta

 Febre alta

 Coriza (nariz escorrendo)

 Mal-estar geral

 Dor no corpo

Como prevenir


 Lave sempre as mãos para tocar em seu filho.

  O ambiente em que a criança fica deve ser bem limpo, arejado, aquecido. No local, ainda devem ser evitados itens que podem causar alergia, como tapetes, cortina, tecidos de lã e travesseiros de pele.

  Ofereça uma alimentação protéica e calórica adequada para a idade. Até os seis meses, é muito importante a criança ser alimentada com leite materno.

  Esteja em dia com o calendário de vacinação. Converse com o pediatra de seu filho se ele deve ser vacinado contra o vírus da gripe (influenza).

  Evite ambientes frequentado por tabagistas.

Resfriado

→ Febre variável

 Dor de garganta

 Coriza (nariz escorrendo)

Como tratar

 Nos casos em que não foi possível evitar e a gripe ou o resfriado se instalaram, fique atento:

 Não leve seu filho à creche, para que ele não seja exposto a outros ciclos infecciosos e não contamine os colegas.

 Mantenha-o bem hidratado, oferecendo bastante água, chá e suco.

 Alimente-o corretamente com proteínas, vegetais, carboidratos e frutas.

 Coloque roupas quentes e mantenha-o aquecido.

→ Evite que a criança seja exposta a baixas temperaturas, evitando áreas com vento e correntes de ar.

(Caderno Meu filho, de ZH, de 02.07.2007)

Resfriado Comum

Sinônimo: Rinite catarral aguda

Definição: Infecção viral causada mais comumente por um rinovírus que geralmente acomete as cavidades nasais e estruturas de vizinhança (Seios paranasais, ouvido e faringe).

Sintomas: Obstrução nasal e rinorréia de variável intensidade, consistência e coloração. Usualmente o corrimento nasal é claro e seroso nos primeiros dias, podendo passar a muco-purulento devido a infecção secundária por germes e saprófitas nasais. Espirros são comuns, assim como cefaléia e dor de garganta. Febre, quando presente, é de baixa intensidade e cede rapidamente com antitérmicos. O exame nasal revela mucosa nasal hiperemiada e edemaciada recoberta pela secreção descrita. O quadro costuma ceder em cerca de 7-10 dias a não ser que ocorra infecção bacteriana secundária.

Diagnóstico: História e exame físico.

Tratamento: Sintomático.

1 – Analgésico antitérmico: paracetamol em crianças e em adultos, paracetamol ou ácido acetil-salicílico;

2 – Higiene nasal com solução salina;

3 – Aumentar ingestão de líquidos e repouso;

4 – Descongestionante nasal tópico em casos mais severos por tempo limitado (3 a dias).

5 – Casos agudos: Claritin-D

Gripe

Sinônimo: Influenza

Definição: Infecção viral provocada por vírus do tipo influenza A,B,C ou suas variantes onde ocorre necrose do epitélio ciliado do trato respiratório superior, descamação e re-epitelização do mesmo.

Sintomas: Os mesmos do resfriado comum, porém com maior intensidade. A febre e prostração são mais significativas e mais comumente ocorrem infecções associadas de via aérea superior e inferior.

Diagnóstico: História e exame físico.

Tratamento:

Semelhante ao do resfriado comum, sendo muito importante o repouso.

Vacinas:

Faça, anualmente, a vacina contra a gripe. O vírus muda a cada ano, tomando vacinas, você cada vez mais estará protegido contra a gripe.


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Aula de Direito



Uma manhã, quando nosso novo professor de “Introdução ao Direito” entrou na sala, a primeira coisa que fez foi perguntar o nome a um aluno que estava sentado na primeira fila:

- Como te chamas?

- Chamo-me Juan, senhor.

- Saia de minha aula e não quero que voltes nunca mais! - gritou o desagradável professor.

Juan estava desconcertado.

Quando deu de si, levantou-se rapidamente, recolheu suas coisas e saiu da sala.

Todos estávamos assustados e indignados, porém ninguém falou nada.

- Agora sim! - e perguntou o professor - para que servem as leis?...

Seguíamos assustados, porém pouco a pouco começamos a responder à sua pergunta:

- Para que haja uma ordem em nossa sociedade.

- Não! - respondia o professor.

- Para cumpri-las.

- Não!

- Para que as pessoas erradas paguem por seus atos.

- Não!

- Será que ninguém sabe responder a esta pergunta?!

- Para que haja justiça - falou timidamente uma garota.

- Até que enfim! É isso, para que haja justiça. E agora, para que serve a justiça?

Todos começávamos a ficar incomodados pela atitude tão grosseira. Porém, seguíamos respondendo:

- Para salvaguardar os direitos humanos...

- Bem, que mais? - perguntava o professor.

- Para diferençar o certo do errado... Para premiar a quem faz o bem...

- Ok, não está mal, porém respondam a esta pergunta: agi corretamente ao expulsar Juan da sala de aula?

Todos ficamos calados, ninguém respondia.

- Quero uma resposta decidida e unânime!

- Não! - respondemos todos a uma só voz.

- Poderia dizer-se que cometi uma injustiça?

- Sim!

- E por que ninguém fez nada a respeito? Para que queremos leis e regras se não dispomos da vontade necessária para praticá-las?

- Cada um de vocês tem a obrigação de reclamar quando presenciar uma injustiça. Todos e não voltem a ficar calados, nunca mais!

- Vá buscar o Juan - disse, olhando-me fixamente.

Naquele dia, recebi a lição mais prática no meu curso de Direito. Quando não defendemos nossos direitos perdemos a dignidade e a dignidade não se negocia.


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Veneráveis Mártires Gaúchos


Pe. Manuel Gómez Gonzalez e coroinha Adílio Daronch

de Nonoai, RS.









Há oitenta e dois anos, no sertão do Alto Uruguai, região norte do Estado do Rio Grande do Sul, dava-se um crime bárbaro: Pe. Manuel Gómez González e seu coroinha Adílio Daronch eram assassinados com requintes de crueldade. Este tempo não foi suficiente para apagar da memória popular o exemplo de coragem, profetismo e espírito missionário dos Mártires do Alto Uruguai.

Pe. Manuel Gómez Gonzalez, filho de José e Josefa, nasceu em 29 de maio de 1877, em São José de Ribarteme, Diocese de Tuy, na Espanha. Recebeu o batismo no dia seguinte. Seu sonho de menino de ser padre realizou-o em 24 de maio de 1902.

Em 1904, depois de exercer seu ministério sacerdotal em sua terra natal, passou para a Arquidiocese de Braga, Portugal, onde foi pároco das Paróquias Nossa Senhora do Extremo (1905-1911), e de Santo André e São Miguel de Taias e Barrocas (1911-1913).

Em 1913, devido à perseguição religiosa à Igreja Católica Portuguesa, obteve licença para vir ao Brasil. Chegando ao Brasil, apresenta-se ao Bispo de Rio de Janeiro e é encaminhado ao Bispo de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, que o nomeia pároco de Soledade - RS em 23 de janeiro de 1914.

Há 29 de dezembro de 1915 é nomeado pároco da Paróquia de Nonoai, região norte do estado. Em Nonoai desempenhou sua missão evangelizando seu povo com esmero e dedicação até 1924.

No exercício de seu ministério em Nonoai se cruzam os caminhos de Pe. Manuel e de Adílio Daronch, outro jovem mártir. Adílio nasceu no dia 25 de outubro de 1908, em Dona Francisca, Município de Cachoeira do Sul – RS. Seus pais, Pedro Daronch e Judite Segabinazzi, tinham 08 filhos: Ermínia, Abílio, Adílio, Zulmira, Anita, Carmelinda, João e Vilma. Em 1911, a família transferiu-se para Passo Fundo e, em 1913, para Nonoai. Fazia parte do grupo de adolescentes que acompanhavam o Pe. Manuel em visita às comunidades do interior, inclusive a dos índios Kaingang. Além de servir o Altar, Adílio e outros colegas, eram alunos da escola pelo padre fundada e dos quais era também professor.

Pe. Manuel sabia do perigo que enfrentava. Não foi nada fácil como ele próprio expressa numa de suas cartas, datada há 11 de janeiro de 1916, a Dom Miguel Lima Verde, bispo de Santa Maria: "Com bastante dificuldade terei que lutar, mas tudo desaparecerá com a ajuda de Deus" (Carta ao Bispo de Santa Maria, D. Miguel de Lima Valverde, datada de 11 de janeiro de 1916). Pe. Manuel refere-se ao contexto histórico da Revolução de 1923.

Enio Felipin e Teresinha Derosso, em recente publicação, descrevem esse cenário com detalhes:

"O Rio Grande do Sul viu seu chão, manchado pelo sangue de homens, tombados pela cruel Revolução de 1893, que teve como marca a degola, dilacerando vidas e trazendo desgraça e tristeza para muitas famílias. Essa Revolução deixou sentimentos de vingança e violência em muitos corações, que teve quase continuidade na Revolução de 1923, ocorrendo nesta, muito banditismo misturado às causas do combate. Homens violentos e vingativos, sem seleção alguma, integravam os corpos provisórios da infantaria, espalhando a morte e o terror por onde passavam... A região norte do Estado, o Alto Uruguai, foi a primeira a sofrer pela revolução, por anos de sangue, saques e baixas vinganças. As cidades de Passo Fundo e Palmeira das Missões foram atacadas pelos caudilhos Mena Barreto e Leonel da Rocha. O general Fermino de Paula defendeu Passo Fundo e o general Valzumiro Dutra defendeu Palmeira. Eram maragatos e chimangos promovendo cenas de sangue, fazendo o povo sofrer muito. Até o padre Manuel Roda, pároco de Palmeira, sofreu perseguições pelos revolucionários, retirando-se para a Argentina."

(DEROSSO, Teresinha e FELIPIN, Enio. Mártires da Fé: Pe. Manuel Gómez Gonzalez e Coroinha Adílio Daronch - Gráfica e Editora Pluma, 2003, pp. 22-23)

Em 1924, devido à vacância da Paróquia de Palmeira das Missões, o Bispo de Santa Maria, determinou ao Pe. Manuel para atender os cristãos do sertão do Alto Uruguai. Lá foi ele com a missão de batizar, celebrar casamentos e primeiras comunhões, e catequizar o povo daquela vasta região, mas sabendo do perigo que devia enfrentar. Noutra carta expressa sua angústia: "Devido ao meu estado de saúde, a anormalidade deste município e não havendo garantias de vida, por estar toda esta zona desde Nonoai até Palmeira em poder dos revolucionários... e temendo ser agredido na estrada... ou ficar de a pé, suplico a Vossa Excelência Reverendíssima, humildemente me dispense deste cargo ao menos enquanto durar este estado anormal..." (Carta ao Bispo de Santa Maria, datada há 08 de agosto de 1923). Encorajado pela fé pôs-se à missão.

Foi a caminho dessa missão e numa perseguição pelas comunidades de colonos, próximo de Três Passos, distante 250 km de Nonoai, sua paróquia, que Pe. Manuel e seu coroinha Adílio caíram numa emboscada armada por soldados provisórios. Foram amarrados, maltratados... Tudo terminou com dois tiros no sacerdote e três tiros no menino de 15 anos. Era dia 21 de maio de 1924. Foram sepultados no mesmo cemitério que iriam abençoar.

Manuel, homem de fé, com bondade e paciência, soube exercer seu trabalho pastoral. Reativou o apostolado, realizou um fecundo trabalho com as crianças, abrindo uma escola gratuita. De espírito humanitário trabalhou pelo bem da cidade e do seu povo: constrói uma olaria, hotel e, com a ajuda da comunidade, construiu casas para os sem-teto de Nonoai. De preocupação inovadora, introduziu o cultivo de novos produtos junto aos agricultores de sua região. Incansável propagador da paz fez ecoar sua voz por todos os cantos: "Peço a Deus que isto que se está dando em nosso Estado cesse quanto antes e venha uma paz para ambos os partidos". (Carta ao Bispo de Santa Maria, D. Ático Eusébio da Rocha, datada de 18 de julho de 1923).

Adílio, testemunho leigo, deixou-se seduzir pelo Senhor e colocou-se a serviço de seu Altar redentor. Vítima inocente de uma época de violências mostrou sua coragem e sua fé. Um exemplo de zeloso cuidado com as coisas de Deus. Nele nossos adolescentes e jovens devem buscar a inspiração para seus ideais.

E, por fim, poderíamos dizer que "destruíram os corpos, mas continua a seiva viva do testemunho a correr nas pessoas que conheceram e que crêem no projeto dos dois ‘mártires’".

São testemunhos assim que atraem milhares de romeiros e romeiras devotos todos os anos ao Santuário Nossa Senhora da Luz e dos Servos de Deus Pe. Manuel e Coroinha Adílio, em especial, por ocasião da Romaria no terceiro domingo de maio.
  
Restos Mortais dos mártires:

Estão na Capela dos Mártires, anexo ao Santuário N. S. da Luz, em Nonoai, RS. Para comunicar graças alcançadas sobre os mártires e maiores informações: Paróquia e Santuário Nossa Senhora da Luz Av. Rocha Loires, 340 – Caixa Postal, 22 99.600-000 – NONOAI – RS
Fone: (54)362-1284/362-2516

Ave Maria do Peão


Odilon Ramos

 

Ao reponte do sol que descamba o dia, se aprochega do arremate pelos campos e nos matos da querência, no revoar da bicharada voltando aos ninhos, é hora de recolhimento.

No rancho que há no interior de mim mesmo eu, gaúcho de fé, me arrincono e medito. Despindo o poncho da vaidade e do orgulho, tiro o chapéu, apago o pito e me achego pra uma prosa com o Patrão Maior. Na sua presença meu sangue quente de farrapo se faz manso caudal. Entrego-lhe minha alma afoita de alcançar lonjuras e abrir cancha em busca do destino. Renuncio à minha xucra rebeldia e me faço doce de volta e macio de tranco para dizer-lhe: Gracias, Patrão, por tudo que me deste por esta querência, Senhor, que meus ancestrais regaram com seu sangue e que aprendi a amar desde piá.

Pelos meus parceiros desta ronda da vida sempre de prontidão para me amadrinharem na campereada mais custosa ou para matearem comigo na hora do sossego. Reparte com eles, Patrão, esta fé que me deste e este orgulho pela minha querência. Ajuda, Patrão, a manter acessa esta chama concede sempre ao gaúcho a força no braço e o tino pra saber o que é correto. Dá-nos consciência para preservar a nossa cultura livre da invasão dos modismos, conserva a essência e a beleza da nossa tradição.

E agora, com licença, Patrão, que vou aproveitar a olada para um dedo de prosa com Nossa Senhora.

Ave Maria,
Primeira Prenda do céu,
contigo está o Senhor
na estância maior.
Tu és bendita entre todas as prendas
e bendito é o piá que
trouxeste ao mundo, Jesus.
Maria, Mãe de Deus,
e Mãe de todos nós
roga pela querência
e pelos gaudérios
que aqui moram,
nesta hora e no instante
da última cavalgada,
Amém!


   
                                               

Um tempo sem nome



O namoro do Chico Buarque com a cantora ruiva Thais Gulin (hoje ex-namorada)  rendeu para nós este primor de blues Essa pequena, cuja letra vai aí abaixo. Mas rendeu também a uma interessante crônica Um tempo sem nome da escritora Rosiska Darcy de Oliveira sobre “o novo conceito de envelhecer”. Também segue abaixo. 

Essa Pequena

Chico Buarque*

Meu tempo é curto, o tempo dela sobra.
Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora.
Temo que não dure muito a nossa novela, mas...
Eu sou tão feliz com ela.

Meu dia voa, e ela não acorda.
Vou até a esquina, ela quer ir pra Flórida.
Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas...
Não canso de contemplá-la...

Feito avarento, conto os meus minutos,
Cada segundo que se esvai,
Cuidando dela, que anda noutro mundo.
Ela que esbanja suas horas ao vento, aiii...!

Às vezes, ela pinta a boca e sai.
Fique à vontade, eu digo, take your time
Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas...
  O blues já valeu a pena.

*****


Um tempo sem nome

Rosiska Darcy de Oliveira, O Globo, 21/01/12

Com seu cabelo cinza, rugas novas e os mesmos olhos verdes, cantando madrigais para a moça do cabelo cor de abóbora, Chico Buarque de Holanda vai bater de frente com as patrulhas do senso comum. Elas torcem o nariz para mais essa audácia do trovador. O casal cinza e cor de abóbora segue seu caminho e tomara que ele continue cantando “eu sou tão feliz com ela” sem encontrar resposta ao “que será que dá dentro da gente que não devia”.

Afinal, é o olhar estrangeiro que nos faz estrangeiros a nós mesmos e cria os interditos que balizam o que supostamente é ou deixa de ser adequado a uma faixa etária. O olhar alheio é mais cruel que a decadência das formas. É ele que mina a autoimagem, que nos  constitui como velhos, desconhece e, de certa forma, proíbe a verdade de um corpo sujeito à impiedade dos anos sem que envelheça o alumbramento diante da vida.

Proust, que de gente entendia como ninguém, descreve o envelhecer como o mais abstrato dos sentimentos humanos. O príncipe Fabrizio Salinas, o Leopardo criado por Tommasi di Lampedusa, não ouvia o barulho dos grãos de areia que escorrem na ampulheta. Não fora o entorno e seus espelhos, netos que nascem, amigos que morrem, não fosse o tempo “um  senhor tão bonito quanto a cara do meu filho”, segundo Caetano, quem, por si mesmo, se perceberia envelhecer? Morreríamos nos acreditando jovens como sempre fomos.

A vida sobrepõe uma série de experiências que não se anulam, ao contrário, se mesclam e compõem uma identidade. O idoso não anula dentro de si a criança e o adolescente, todos reais e atuais, fantasmas saudosos de um corpo que os acolhia, hoje inquilinos de uma pele em que não se reconhecem. E, se é verdade que o envelhecer é um fato e uma foto, é também verdade que quem não se reconhece na foto, se reconhece na memória e no frescor das emoções que persistem. É assim que, vulcânica, a adolescência pode brotar em um homem ou uma mulher de meia-idade, fazendo projetos que mal cabem em uma vida inteira.

Essa doce liberdade de se reinventar a cada dia poderia prescindir do esforço patético de camuflar com cirurgias e botoxes - obras na casa demolida - a inexorável escultura do tempo. O medo pânico de envelhecer, que fez da cirurgia estética um próspero campo da  medicina e de uma vendedora de cosméticos a mulher mais rica do mundo, se explica justamente pela depreciação cultural e social que  o avançar na idade provoca.

Ninguém quer parecer idoso, já que ser idoso está associado a uma sequência de perdas que começam com a da beleza e a da saúde. Verdadeira até  então, essa depreciação vai sendo desmentida por uma saudável evolução das mentalidades: a velhice não é mais o que era antes. Nem  é mais quando era antes. Os dois ritos de passagem  que a anunciavam, o fim do trabalho e da libido, estão, ambos, perdendo autoridade.

Quem se aposenta continua a viver em um mundo irreconhecível que propõe novos interesses e atividades. A curiosidade se aguça na medida em  que se é desafiado por bem mais que o tradicional choque de gerações  com seus conflitos e desentendimentos. Uma verdadeira mudança de era  nos leva de roldão, oferecendo-nos ao mesmo tempo o privilégio e o susto de dela participar.

A libido, seja por uma maior liberalização dos costumes, seja por  progressos da medicina, reclama seus direitos na terceira idade com  uma naturalidade que em outros tempos já foi chamada de despudor.  Esmaece a fronteira entre as fases da vida. É o conceito de velhice  que envelhece. Envelhecer como sinônimo de decadência deixou de ser  uma profecia que se autorrealiza. Sem, no entanto, impedir a lucidez  sobre o desfecho.

“Meu  tempo é curto e o tempo dela sobra”, lamenta-se o trovador, que não ignora a traição que nosso corpo nos reserva. Nosso melhor amigo, que conhecemos melhor que nossa própria alma, companheiro dos maiores prazeres, um dia nos trairá, adverte o imperador Adriano em suas memórias escritas por Marguerite Yourcenar.

Todos os corpos são traidores. Essa traição, incontornável, que não é segredo para ninguém, não justifica transformar nossos dias em sala  de espera, espectadores conformados e passivos da degradação das  células e dos projetos de futuro, aguardando o dia da  traição. Chico, à beira dos setenta anos, criando com brilho, ora literatura, ora música, cantando um novo amor, é a  quintessência desse fenômeno, um tempo da vida que não se parece em nada com o que um dia se  chamou de velhice. Esse tempo ainda não encontrou seu nome. Por  enquanto podemos chamá-lo apenas de vida.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora
e foi eleita para a Academia Brasileira de Letras

* Caricatura do Chico por João Bosco