quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Uma pequena história


O anel


Era uma vez um castelo. E neste castelo havia um teto. E o teto estava quebrado. As mulheres ficavam tagarelando. Os homens só pensavam em guerra. O tempo estava cinza e uma chuva fina irritante começou a cair. Os animais não procriavam e as plantações não tinham frutos a dar. A comida começou a faltar neste reino.

O rei daquele lugar achou que tudo ia mal e pensando muito, mandou buscar um sábio que vivia longe. O sábio veio, chegou com seus sapatos enlameados e ouviu do rei um pedido.

- Oh, sábio! Esta situação está uma droga! Faça algo para mudar esta situação!

O sábio foi e voltou ao seu atelier, com ele trouxe um anel. Nele estava escrito: “Isto também passará”.

- Isso também passará? Pois que passe então! Gritou o rei, colocando o anel no dedo.

Algum tempo se passou e alguém consertou o teto do castelo. As mulheres voltaram a olhar para os homens e os homens voltaram a pensar no amor. Os animais voltaram a procriar. E até as plantas floresceram. Estabeleceram-se contatos comerciais com um país distante que produzia vinho. A fartura de alimentos sugeriu uma festa e com ela comemoravam a vida

No momento de maior harmonia, o rei lembrou-se de chamar o sábio.

- Oh sábio! Esta situação está uma delícia! Faça algo para que esta situação perdure.

Ao que o sábio respondeu:

- Oh grande rei: Isto também passará!

(Autor desconhecido)

P.S. Esta história se passa num reino imaginário, mas poderia ter acontecido em qualquer país que tenha uma economia de mercado, como o Brasil, por exemplo. Numa hora tudo está mal, mas, com certeza, outra tudo estará novamente bem, mas isso também passará...



terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Na Prisão


Karl Liebknecht*

Vós me roubais a terra mas não o céu.
Não me resta dele mais do que um pedaço estreito
onde cravo meus olhos
através das grades
de uma janela de ferro
encurvada nas paredes pesadas...
Mas para mim é o bastante
ver o azul resplandecente do céu
de onde vem a luz,
que me ofusca quando me aproximo,
e de onde às vezes também
cai dançando um ligeiro murmúrio de pássaros...
Basta-me
que uma gralha negra, tagarela,
amiga fiel dos dias de cárcere,
me faça ver um ser alcançando um voo livre,
e que uma nuvem viajante
me ofereça a imagem das coisas mutáveis.
Não vejo mais do que um pequeno espaço do céu.
À noite passada
a estrela mais clara brilhava neste espaço,
a mais clara estrela resplandecia,
e seus raios brotavam das extremidades do firmamento
dominando o mundo,
mais claros, mais cálidos,
com um resplendor mais juvenil na minha estreita cela
do que para vós que estais em liberdade.
A estrela projetava aqui sua pequena mancha de luz.
Vós me roubais a terra, mas não o céu...
Não vejo dele mais do que um pequeno pedaço
através das grades
de uma janela de ferro...
Mas esta luz devolve os sentidos a este corpo,
animado por uma alma livre
como jamais tivestes,
vós que acreditastes
que poderíeis aniquilar-me
nas grades desta prisão!


*Karl Liebknecht (Leipzig, 13 de agosto de 1871 ‒ 15 de janeiro de 1919) foi um político e dirigente socialista alemão.


Estante à mesa



Os pratos descritos por seus escritores preferidos dizem muito mais do que você imagina.

Como água para chocolate

Laura Esquiavel.

→ O humor da personagem principal reflete no gosto de seus alimentos, podendo causar situações constrangedoras. Sob o pano de fundo da Revolução Mexicana, a escritora dá pistas do contexto por meio da alimentação de suas personagens;

O corpo

Stephen King

→ Nesta narrativa do livro Quatro estações, a pitoresca competição de quem come mais torta de uvas ocasionou uma série de vômitos que imortalizou o conto do escritor. A história acontece em 1959, período em que eram muito comuns essas competições pelos estados do interior americano.


Dona Flor e seus dois maridos

Jorge Amado

→ Dona Flor dava aula de culinária para as mulheres da alta sociedade baiana. Por isso, os pratos citados no livro nos mostram como eram os hábitos alimentares boêmios da Bahia dos anos 1940.

Noite na taverna

Álvares de Azevedo

→ Ao transportar o seu apreço pela bebida para a história, o escritor cita o vinho quase 40 vezes. Diz a lenda que ele bebia vinho dentro de um crânio roubado do antigo Cemitérios dos Aflitos, onde aconteciam reuniões da Sociedade Epicureia, grupo formado por Azevedo, Bernardo Guimarães e Aureliano Lessa.

No caminho de Swann

Marcel Proust

→ O ato de levar o doce madeleine à boca faz o personagem mergulhar em um emaranhado de memórias da infância. Segundo o escritor, o paladar tem função de convocar o passado. E o bolinho se tornou mais do que um gatilho de lembrança, sendo personagem importante da obra.

(Da Revista da Cultura – outubro de 2013 –
na matéria Os talheres da Literatura, de Denise Godinho)




Tese de um pensador


Vinte lições de viver

Tese de um pensador russo chamado Guerdjef (1877 (?) – 1949), que no início do século passado já falava em autoconhecimento e na importância de se saber viver.


Dizia ele: “Uma boa vida tem como base o sentido do que queremos para nós em cada momento e daquilo que realmente vale como principal”.

Assim sendo, ele traçou 20 regras de vida que foram colocadas em destaque no Instituto Francês de Ansiedade e Stress em Paris. Dizem os experts em comportamento que quem já consegue assimilar 10 delas, com certeza, aprendeu a viver com qualidade interna. Ei-las:

Assim sendo, ele traçou 20 regras de vida que foram colocadas em destaque no Instituto Francês de Ansiedade e Stress em Paris. Dizem os experts em comportamento que quem já consegue assimilar 10 delas, com certeza, aprendeu a viver com qualidade interna. Ei-las:


01. Faça pausas de dez minutos a cada duas horas de trabalho, no máximo. Repita essas pausas na vida diária e pense em você, analisando suas atitudes.

02. Aprenda a dizer não sem se sentir culpado ou achar que magoou alguém. Querer agradar a todos é um desgaste enorme.

03. Planeje seu dia, sim, mas deixe sempre um bom espaço para o improviso, consciente que nem tudo depende de você.

04. Concentre-se em apenas uma tarefa de cada vez. Por mais ágeis que sejam seus quadros mentais, você se exaure.

05. Esqueça, de uma vez por todas, que você é imprescindível. No trabalho, em casa, no grupo habitual. Por mais que isso lhe desagrade, tudo anda sem a sua atuação.

06. Abra mão de ser o responsável pelo prazer de todos. Não é você a fonte dos desejos, o eterno mestre de cerimônias.

07. Peça ajuda sempre que necessário, tendo o bom senso de pedir às pessoas certas.

08. Diferencie problemas imaginários de problemas reais e elimine os primeiros, porque são puras perdas de tempo e ocupam um espaço mental precioso para coisas mais importantes.

09. Tente descobrir o prazer de fatos cotidianos como dormir, comer e beber, sem também achar que seja o máximo a se conseguir na vida.

10. Evite se envolver na ansiedade e tensão alheias. Espere um pouco e depois retome o diálogo.

11. Família não é você. Está junto de você, compõe o seu mundo, mas não é a sua própria identidade.

12. Entenda que princípios e convicções fechadas podem ser um grande peso, a trava do movimento e da busca.

13. É preciso ter sempre alguém em que se possa confiar e falar abertamente ao menos de alguns problemas pessoais.

14. Saiba a hora certa de sair de cena, de retirar-se do palco, de deixar a roda. Nunca perca o sentido da importância sutil de uma saída.

15. Não queira saber se falaram mal de você e nem se atormente com esse lixo. Escute o que falaram bem com reserva, sem qualquer convencimento.

16. Competir no lazer, no trabalho, na vida a dois, é ótimo... para quem quer ficar esgotado e perder o melhor da vida.

17. A rigidez é boa na pedra, não no homem. A ele cabe firmeza, o que é muito diferente.

18. Uma hora de intenso prazer substitui com folga três horas de sono perdido. O prazer recompõe mais que o sono. Logo, não perca uma oportunidade de divertir-se.

19. Não abandone suas três grandes e inabaláveis amigas: a intuição, a inocência e a fé.

20. Entenda de uma vez por todas, definitiva e conclusivamente: Você é o que se fizer de você mesmo!

Conselhos de Gurdjieff a sua filha

01. Fixa tua atenção em ti mesma, sê consciente em cada instante do que pensas, sentes, desejas e fazes.

02. Termina sempre o que começaste.

03. Faze o que estiveres fazendo o melhor possível.

04. Não te prendas a nada que com o tempo venha a te destruir.

05. Desenvolve tua generosidade sem testemunhas.

06. Trata cada pessoa como um parente próximo.

07. Arruma o que desarrumaste.

08. Aprende a receber, agradece cada dom.

09. Para de te autodefinir.

10. Não mintas, nem roubes, pois estarás mentindo e roubando a ti mesmo.

11. Ajuda teu próximo sem torná-lo dependente.

12. Não desejes que te imitem.

13. Faze planos de trabalho e cumpre-os.

14. Não ocupes demasiado espaço.

15. Não faças ruídos nem gestos desnecessários.

16. Se não tens fé, finge tê-la.

17. Não te deixes impressionar por personalidades fortes.

18. Não te apropries de nada nem de ninguém.

19. Reparte equitativamente.

20. Não seduzas.

21. Come e dorme o estritamente necessário.

22. Não fales de teus problemas pessoais.

23. Não emitas juízos nem críticas quando desconheceres a maior parte dos fatos.

24. Não estabeleças amizades inúteis.

25. Não sigas modas.

26. Não te vendas.

27. Respeita os contratos que firmaste.

28. Sê pontual.

29. Não invejes os bens ou sucesso do próximo.

30. Fala só o necessário.

31. Não penses nos benefícios que advirão da tua obra.

32. Nunca faças ameaças.

33. Realiza tuas promessas.

34. Coloca-te no lugar do outro em uma discussão.

35. Admite que alguém te supere.

36. Não elimines, mas transforma.

37. Vence teus medos, cada um deles é um desejo camuflado.

38. Ajuda o outro a se ajudar a si mesmo.

39. Vence tuas antipatias e te acerca de quem queres rejeitar.

40. Não reajas ao que digam de bom ou de mau sobre ti.

41. Transforma teu orgulho em dignidade.

42. Transforma tua cólera em criatividade.

43. Transforma tua avareza em respeito pela beleza.

44. Transforma tua inveja em admiração pelos valores alheios.

45. Transforma teu ódio em caridade.

46. Não te vanglories nem te insultes.

47. Trata o que não te pertence como se te pertencesse.

48. Não te queixes.

49. Desenvolve tua imaginação.

50. Não dês ordens só pelo prazer de ser obedecido.

51. Paga pelos serviços que te prestam.

52. Não faças propaganda de tuas obras ou ideias.

53. Não trates de despertar, nos outros em relação a ti, emoções como piedade, admiração, simpatia e cumplicidade.

54. Não chames atenção por tua aparência.

55. Nunca contradigas, cala-te.

56. Não contraias dívidas, compra e paga em seguida.

57. Se ofenderes alguém, pede desculpas.

58. Se ofendeste publicamente, desculpa-te igualmente em público.

59. Se te dás conta de que te equivocaste, não insistas por orgulho no erro e desiste imediatamente de teus propósitos.

60. Não defendas tuas antigas ideias só porque tu as enunciaste.

61. Não conserves objetos inúteis.

62. Não te enfeites com as ideias alheias.

63. Não tires fotos com personagens famosos.

64. Não prestes contas a ninguém, sê teu próprio juiz.

65. Nunca te definas pelo que possuis.

66. Nunca fales de ti sem te conceder a possibilidade de mudança.

67. Aceita que nada é teu.

68. Quando pedirem a tua opinião sobre alguém, fala somente de suas qualidades.

69. Quando adoeceres, em vez de odiar esse mal, considera-o teu mestre.

70. Não olhes com dissimulação, olha fixamente.

71. Não te esqueças de teus mortos, mas limita-os em um espaço que não lhes permita invadir toda a tua vida.

72. Em tua moradia, reserva sempre um lugar ao sagrado.

73. Quando realizares um serviço, não ressaltes teus esforços.

74. Se decidires trabalhar para alguém, trata de fazê-lo com prazer.

75. Se estás em dúvida entre fazer ou não fazer algo, arrisca-te e faz.

76. Não queiras ser tudo para teu cônjuge; admite que busque em outras pessoas o que não lhe podes dar.

77. Quando alguém tenha seu público, não tentes contradizê-lo e roubar-lhe a audiência.

78. Vive dos teus próprios ganhos.

79. Não te vanglories de aventuras amorosas.

80. Não exaltes as tuas debilidades.

81. Não visites alguém só para preencheres o teu tempo.

82. Obtém para repartir.

83. Se estás meditando e um diabo se aproxima, bota-o a meditar também…

Fonte indicada: Alquimia e Mitologia




segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Tratamento com cubo de gelo


Coloque um cubo de gelo neste ponto entre a cabeça e o pescoço
e isto vai acontecer!


O tratamento que vamos ensinar neste texto é a prova de como o corpo humano é surpreendente. É uma técnica muito simples baseada na acupuntura. Quem já fez esse tratamento o elogia bastante.

E qual é a lógica dele?

Os chineses entendem que no nosso corpo existem diversos pontos de energia. Esses pontos estariam relacionados ao funcionamento de órgãos e ao equilíbrio energético de todo o organismo.

O ponto feng fu seria um desses pontos e estaria localizado na parte de trás do pescoço, próximo à nuca. Para os chineses, o feng fu é um local de alta concentração energética. E, ao ser estimulado, ele é capaz de rejuvenescer e restaurar as energias do corpo.

A execução dessa técnica é muito simples. Veja como praticá-la:

→ Escolha uma posição confortável, pode ser sentado ou de barriga para baixo.

→ Aplique um cubo de gelo no ponto feng fu (ver imagem) durante 20 minutos. Se lhe for mais conveniente, pode usar um pano ou um saquinho de plástico para envolver o cubo de gelo.

→ Ao fim dos primeiros 30 segundos de estímulo do feng fu com gelo, você começará a sentir um leve calor no ponto.

→ Faça a aplicação um dia sim, um dia não e duas vezes por dia: a primeira em jejum, logo ao acordar, e a segunda à noite, antes de ir dormir.

Nos primeiros dias, há a possibilidade de uma leve sensação de euforia devido à libertação de endorfinas.

Agora veja alguns benefícios da aplicação de gelo no pescoço (feng fu):

→ Melhora a qualidade do sono. 

→ Dá vitalidade ao corpo.

→ Relaxa.

→ Melhora a digestão.

→ Ajuda a evitar gripes e resfriados.

→ Alivia dores (de coluna, cabeça, articulações).

→ Ajudar a melhorar doenças respiratórias, cardiovasculares e intestinais.

→ Colabora também para melhorar problemas de tireoide, artrite, hipertensão e asma.

Contraindicações:

→ Gravidez, presença de marca-passo, epilepsia e esquizofrenia.

Este é um blog (Dicas) de notícias sobre tratamentos caseiros. Ele não substitui um especialista. Consulte sempre seu médico.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Espantando o condor*

Luís Fernando Veríssimo


Cinema Imperial - 1960

Não quero reacender velhas discussões, mas havia, sim, quartos na boate Maipu. Subia-se por aquela escada até o salão, depois tinha outra escada igual para os quartos. Onde se acabava de fazer o que se tinha começado no salão, só que sem a música. Frequentei os quartos do Maipu. E não eram quartos secretos, só para amigos da casa e clientes escolhidos. Eu era um frequentador comum, sem nada, infelizmente, que justificasse um tratamento especial da gerência ou das mulheres. Olhava com uma certa admiração os assíduos, geralmente com cabelo “abotoado” atrás e casaco acinturado, que mereciam os privilégios do lugar. Estes só dançavam quando o “jazz” parava e entravam a “típica” e o tango. Todas as boates da cidade tinham um “jazz” e uma “típica”, quando não tinham também um “regional”. Mas subir as escadas para um quarto do Maipu não era privilégio de ninguém. Era só combinar com a moça.

O último bonde passava pelo abrigo ali pela uma. Aos sábados, tinha um mais tarde. Aos sábados a gente saía da sessão da meia-noite dos cinemas e corria para não perder o último bonde. As sessões da meia-noite, muitas vezes, eram de filmes “científicos”, lembra? Era a sacanagem que ainda não ousava dizer seu nome. Sessões separadas para homens e mulheres. Os adolescentes que hoje podem escolher entre Taradas Que Dão de Quatro e Te Lambo Toda para ver em qualquer cinema e têm sexo em profusão na revista da família não sabem o que era a nossa luta desesperada pela mulher nua. A mulher nua era racionada. Aparecia um seio da Martinne Carol no Ópera e nós estávamos fazendo fila na primeira sessão da tarde. As coxas da Silvana Mangano no Rex e corríamos para lá. Tínhamos vagas notícias de revistas dinamarquesas que mostravam tudo, mas onde encontrá-las? Não me lembro bem do que tratavam os “filmes científicos”, mas acho que eram alertas contra as doenças venéreas, com demonstrações gráficas das suas consequências, e, portanto, mais brochantes que qualquer outra coisa. Mas quem brochava, naquela época? Me lembro da adolescência como uma ereção ininterrupta. Bom, nada. Era um martírio.

Os bondes. Aquele cheiro metálico dos bondes, o barulho que eles faziam, os gemidos, o “pscht” dos freios. Nossa admiração pelos fiscais que pulavam de um bonde em movimento para outro, fazendo anotações misteriosas nas suas planilhas. O bonde Petrópolis, depois de vir numa boa velocidade pela Oswaldo Aranha, passando pelo Pronto-Socorro, pelo muro daquela área reservada para o Hospital de Clínicas, que nunca era construído, pelo cinema Rio Branco, pelo bar que ficava no pé da rua que dava no Colégio Americano e, lá em cima, no IPA, e tinha o melhor sorvete da cidade, começava a subir, lentamente, a Protásio Alves. Como era lenta a subida do bonde Petrópolis pela Protásio Alves. Mas não me lembro de achar que era uma perda de tempo. Aproveitava-se para pensar na vida, ou no que passava por vida na adolescência. Nada como um bonde lento para meditar sobre o significado de todas as coisas. Sempre imaginei que se alinha Petrópolis fosse um pouco mais longa eu teria decifrado o Universo. Como eu descia na João Abbott o Universo permaneceu indecifrado.

Descer do bonde em movimento era uma obrigação da juventude, quase uma prova de macheza. Mas o desafio maior era subir no bonde em movimento. Corria-se de costas ao lado do bonde, agarrava-se com uma mão a barra vertical da porta, pulava-se, girando o corpo no ar, e caía-se de pé no estribo, virado para frente. Alguns caíam embaixo do bonde, mas quem diz que na província não havia aventura?

As matinés de domingo no Imperial, seguida de um “ice cream” na Confeitaria Central. Nas matinés, antes de começar o filme, os rapazes ficavam de pé nas fileiras, virados para trás, para verem as meninas e serem vistos. De gravata, posto que era domingo, e com o Gumex brilhando no cabelo. Chaveiro com correntinha. A correntinha sendo enrolada e desenrolada no dedo, como uma hélice. As piadas, depois que começava o filme. Mulher bonita na tela era sempre recebida com o som do ar sendo sugado por todas as bocas masculinas da plateia, menos dos que estavam com a namorada. E, às vezes, até estes, se a mulher era irresistível ou o decote era maior. Beijos eram saudados com um grito de gol. E máximo do humor sofisticado era espantar o pássaro da apresentação da “Condor Films”. Algo mudou na nossa alma quando paramos de espantar o condor. E nos filmes musicais, sempre que alguém começava a cantar passava um murmúrio de impaciência pela plateia. As músicas não eram bem-vindas nos filmes musicais, em Porto Alegre.

E sempre à procura do sexo. O cabaré era o último recurso. A Cabo Rocha* e a Pantaleão Telles* eram as zonas do chamado “baixo meretrício”, onde íamos com o entendimento tácito que poderíamos, um dia, deixar o pênis gangrenado em algum ralo. Nos cabarés as mulheres eram de uma certa classe, às vezes até argentinas. Mas a glória era conseguir mulher sem pagar. Quem tinha automóvel “garceava”, lembra? O sonho era ter um “chateau”, um apartamento só para levar “as mina”, com luz indireta, eletrola e rum para o “Cuba Libre”. O que mais havia na vida? Essa época toda acabou numa madrugada dos anos 60, com a cara dentro da sopa do Treviso.

E, como no poema de John Updike, nós nem sabíamos que éramos uma geração.


*Crônica inserida no jornal Zero Hora dos anos 70, início dos anos 80.

*Cabo Rocha: Atual rua professor Freitas e Castro, no Bairro Azenha.

*Pantaleão Telles: Atual rua Washington Luiz, Centro Histórico de Porto Alegre.



sábado, 7 de janeiro de 2017

A mente humana



A mente apaga registros duplicados

Por Airton Luiz Mendonça

(Artigo do jornal O Estado de São Paulo)

O cérebro humano mede o tempo por meio da observação dos movimentos. Se alguém colocar você dentro de uma sala branca vazia, sem nenhuma mobília, sem portas ou janelas, sem relógio.... você começará a perder a noção do tempo. Por alguns dias, sua mente detectará a passagem do tempo sentindo as reações internas do seu corpo, incluindo os batimentos cardíacos, ciclos de sono, fome, sede e pressão sanguínea. Isso acontece porque nossa noção de passagem do tempo deriva do movimento dos objetos, pessoas, sinais naturais e da repetição de eventos cíclicos, como o nascer e o pôr do sol.

Compreendido este ponto, há outra coisa que você tem que considerar: Nosso cérebro é extremamente otimizado. Ele evita fazer duas vezes o mesmo trabalho. Um adulto médio tem entre 40 e 60 mil pensamentos por dia. Qualquer um de nós ficaria louco se o cérebro tivesse que processar conscientemente tal quantidade. Por isso, a maior parte destes pensamentos é automatizada e não aparece no índice de eventos do dia e, portanto, quando você vive uma experiência pela primeira vez, ele dedica muitos recursos para compreender o que está acontecendo. É quando você se sente mais vivo.

Conforme a mesma experiência vai se repetindo, ele vai simplesmente colocando suas reações no modo automático e 'apagando' as experiências duplicadas. Se você entendeu estes dois pontos, já vai compreender porque parece que o tempo acelera, quando ficamos mais velhos e porque os Natais chegam cada vez mais rapidamente.

Quando começamos a dirigir automóveis, tudo parece muito complicado, nossa atenção parece ser requisitada ao máximo. Então, um dia dirigimos trocando de marcha, olhando os semáforos, lendo os sinais ou até falando ao celular ao mesmo tempo.

Como acontece? Simples: o cérebro já sabe o que está escrito nas placas (você não lê com os olhos, mas com a imagem anterior, na mente); O cérebro já sabe qual marcha trocar (ele simplesmente pega suas experiências passadas e usa, no lugar de repetir realmente a experiência). Ou seja, você não vivenciou aquela experiência, pelo menos para a mente. Aqueles críticos segundos de troca de marcha, leitura de placa são apagados de sua noção de passagem do tempo. Quando você começa a repetir algo exatamente igual, a mente apaga a experiência repetida.

Conforme envelhecemos, as coisas começam a se repetir ‒ as mesmas ruas, pessoas, problemas, desafios, programas de televisão, reclamações, ‒... enfim... as experiências novas (aquelas que fazem a mente parar e pensar de verdade, fazendo com que seu dia pareça ter sido longo e cheio de novidades), vão diminuindo. Até que tanta coisa se repete que fica difícil dizer o que tivemos de novidade na semana, no ano ou, para algumas pessoas, na década. Em outras palavras, o que faz o tempo parecer que acelera é a...

Rotina

A rotina é essencial para a vida e otimiza muita coisa, mas a maioria das pessoas ama tanto a rotina que, ao longo da vida, seu diário acaba sendo um livro de um só capítulo, repetido todos os anos. Felizmente há um antídoto para a aceleração do tempo: M & M (Mude e Marque). Mude, fazendo algo diferente e marque, fazendo um ritual, uma festa ou registros com fotos.

Mude de paisagem, tire férias com a família (sugiro que você tire férias sempre e, preferencialmente, para um lugar quente, um ano, e frio no seguinte) e marque com fotos, cartões postais e cartas.

Tenha filhos (eles destroem a rotina) e sempre faça festas de aniversário para eles, e para você (marcando o evento e diferenciando o dia). Use e abuse dos rituais para tornar momentos especiais diferentes de momentos usuais. Faça festas de noivado, casamento, 15 anos, bodas disso ou daquilo, bota-foras, participe do aniversário de formatura de sua turma, visite parentes distantes, entre na universidade com 60 anos, troque a cor do cabelo, deixe a barba, tire a barba, compre enfeites diferentes no Natal, vá a shows, cozinhe uma receita nova, tirada de um livro novo. Escolha roupas diferentes, não pinte a casa da mesma cor, faça diferente. Beije diferente sua paixão e viva com ela momentos diferentes. Vá a mercados diferentes, leia livros diferentes, busque experiências diferentes. Seja diferente.

Se você tiver dinheiro, especialmente se já estiver aposentado, vá com seu marido, esposa ou amigos para outras cidades ou países, veja outras culturas, visite museus estranhos, deguste pratos esquisitos... em outras palavras...VIVA! Porque se você viver intensamente as diferenças, o tempo vai parecer mais longo. E se tiver a sorte de estar casado(a) com alguém disposto(a) a viver e buscar coisas diferentes, seu livro será muito mais longo, muito mais interessante e muito mais vivo... do que a maioria dos livros da vida que existem por aí.

Cerque-se de amigos

Amigos com gostos diferentes, vindos de lugares diferentes, com religiões diferentes e que gostam de comidas diferentes. Enfim, acho que você já entendeu o recado, não é? Boa sorte em suas experiências para expandir seu tempo, com qualidade, emoção, rituais e vida.

Escreva em tamanhos diferentes e em cores diferentes! Crie, recorte, pinte, rasgue, molhe, dobre, picote, invente, reinvente... viva!