segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Ligia, uma musa de Tom Jobim

Ela conheceu o maestro em 1968 no bar Veloso
 e ficou conhecida por ter inspirado “Lígia”

11.01.2016 – em O Globo


A boca é carnuda e aparece no retrato em preto e branco meio entreaberta, num leve sorriso, mostrando os dentes grandes. O cabelo é solto e despenteado e, na mão, ela segura um cigarro. Mas a arma da femme fatale está nos olhos: grandes, de ressaca, que tragam tudo, como Capitu. Tom Jobim trocou o verde pelo castanho, mas teria traduzido o olhar após cruzar com ele pela primeira vez numa tarde chuvosa no bar Veloso: “Mas teus olhos castanhos/Me metem mais medo que um dia de sol/É... Lígia... Lígia”.

A foto ficou escondida por 19 anos, período em que a Lígia da música (na verdade, Lygia Marina de Moraes) esteve casada com o escritor Fernando Sabino, que morria de ciúmes dela. A fotografia, de 1971, foi feita por seu primeiro marido, o cineasta Fernando Amaral, e é um retrato da Lygia que fulminou corações e foi eternizada como uma das musas de Tom, que idealizou em “Lígia” um amor que nunca aconteceu. “Eu nunca sonhei com você/Nunca fui ao cinema/Não gosto de samba, não vou a Ipanema/Não gosto de chuva nem gosto de sol”.

O quadro está na parede de um dos quartos do seu apartamento, na Rua Joaquim Nabuco, em Ipanema.

‒ Fernando (Sabino) achava que era foto de uma devassa, de uma mulher boêmia com um cigarro na mão e olhar de mormaço ‒ afirma a musa de grandes olhos verdes, que tem 1,75 de altura e nenhuma plástica.

Aos 68 anos, mãe do fotógrafo Luís Moraes (filho de Amaral) e avó de Sara e Lucas (de 2 e 4 anos), ela conserva, além da beleza, um ar brejeiro. Diretora da Casa de Cultura Laura Alvim desde 2007 (no dia 1º de fevereiro, como consequência da dança das cadeiras no governo do estado, ela deixará o cargo), Lygia conta, sentada na sala de seu apartamento, com vista para uma linha de mar sobre os prédios vizinhos e iluminada pelo sol de fim de tarde, que com Tom rolou só um beijo.

Era 1968 e Lygia tinha namorado, enquanto Tom era casado. O encontro, que teria motivado um amor platônico do maestro, é descrito no livro recém-lançado “Musas de músicas: a mulher por trás da canção” (Editora Tinta Negra), da jornalista Rosane Queiroz. Os dois se conheceram no Veloso. Ela tomava um chope com uma amiga, depois de deixar a escola onde dava aula. Tom, em outra mesa, passou a trocar olhares e, num certo momento, foi até ela.

‒ Eu disse para ele: “é uma coincidência encontrar você aqui. Acabei de sair do colégio e a Beth (filha do Tom) é minha aluna. Ele teve um ataque de risos e falou: “é a primeira vez na minha vida que uma paquera vira reunião de pais e mestres” ‒ lembra Lygia, rindo como se tivesse sido ontem.

Muitos chopes depois, ele chamou as duas para irem com ele até a casa de Clarice Lispector, no Leme, onde Tom terminaria de dar uma entrevista.

‒ Quase morri! Como pode, na mesma noite, conhecer o Tom e ser apresentada a Clarice pelo Tom? ‒ diz Lygia, recordando que Clarice não gostou nada da história e que, horas depois, ele deu uma carona até sua casa, em Botafogo, num Fusca azul. ‒ Tom me deixou em casa, me deu um beijo, claro, mas imagina se eu, uma menina, ia me meter nessa confusão!

Poema assinado

Tom deixou de lembrança daquele dia um poema, escrito na casa de Clarice Lispector, que foi emoldurado por Lygia e leva a assinatura A.C.J. “Teus olhos verdes são maiores que o mar/Se um dia eu fosse tão forte quanto você/Eu te desprezaria e viveria no espaço/Ou talvez então eu te amasse/Ai que saudade me dá/Da vida que eu nunca tive”. Já a versão de que Tom escreveu “Lígia” inspirado nela não é aceita por todos. Depois de lançar uma biografia de Fernando Sabino, o jornalista Arnaldo Bloch recebeu um telefonema de Chico Buarque contestando a tese.


A foto que irritava Fernando Sabino – Reprodução

Lygia diz que, tempos após o flerte no Veloso, Tom ligou para Sabino pedindo o telefone dela, sem saber que os dois estavam juntos. O escritor teria dado o número errado não só uma, mas duas vezes. Desse caso, ela afirma que nasceu o verso: “e quando eu lhe telefonei, desliguei, foi engano”. Parceiro de Tom, Chico disse que quem compôs esse verso foi ele.

Para Rosane Queiroz, Lygia não é menos musa de Tom com a polêmica:

‒ Para mim, o Tom tinha uma atração platônica pela Lygia, e isso ficou conscientemente ou inconscientemente impresso na letra ‒ diz Rosane, recordando que Ruy Castro já registrou em livro que Tom vivia de olho em Lygia.

A entrevista para o “Musas de Músicas” aconteceu no Astor, em Ipanema, e Rosane lembra que Lygia chegou como se houvesse “comprado o bar”, parando o lugar:

‒ Ser musa é um estado de espírito, que Lygia traduz muito bem. Ela chega e não passa despercebida e, ao mesmo tempo, não faz questão de chamar atenção. Ela está sempre muito bem humorada, sorrindo e muito bem acompanhada. Tem amigos, amores... Musa é isso aí!

A vida da musa deu uma reviravolta na última semana, quando foi avisada pela nova secretária de Cultura, Eva Doris, que deixará a Laura Alvim, espaço com três cinemas, duas salas de teatro e galeria de arte. Ela ainda não sabe exatamente os rumos que a vida vai tomar a partir de fevereiro, mas quer continuar trabalhando, até porque “precisa viajar":

‒ Tenho duas coisas de que não abro mão: viagens e meu uísque ‒ diz Lygia, que já foi dos “Estados Unidos ao Japão”.

Bom humor e ternura

Ela está hoje no terceiro casamento. O primeiro acabou porque era muito jovem para lidar com os altos e baixos da vida de um cineasta. O segundo, com Sabino, terminou tumultuado, com o escritor retirando de sua obra todas as menções à ex-mulher. Foi decisão dela se separar, o que aconteceu depois de o escritor sofrer um massacre pelo lançamento do livro sobre a ex-ministra Zélia Cardoso de Mello:

‒ Ali ele começou a ir ladeira abaixo. Ficou recluso, não via os amigos, não saía mais de casa. Ele não soube lidar, foi uma pena. E eu caí fora.

Ela e o marido José Luiz Peixoto, de 73 anos, moram em casas separadas.

‒ Lygia é muito inteligente, informada, e, acima de tudo, terna. Ela tem humor, um modo gostoso de viver. Ultrapassa bem as dificuldades, assim como faz com os maridos! ‒ diz o advogado, espirituoso como a mulher. ‒ Deve ter virado a cabeça de muitos homens...

Se pudesse, ela agora cairia fora é do Rio. Ainda toma chope na Fiorentina, mas não vai mais à praia, nem curte o verão carioca e o carnaval. As queixas vão da areia cheia ao jeito de vestir dos cariocas (“me incomoda essa coisa do Rio balneário”), passando pelos serviços (“as pessoas não são treinadas para nada”).

‒ O Rio acabou. Eu vivo dizendo isso, e as pessoas ficam injuriadas. A inadequação carioca extrapolou ‒ reclama Lygia, cujas críticas costumam causar estranhamento. ‒ Ainda carrego essa cruz de garota de Ipanema! Talvez por eu ser, eu possa reclamar.

Era fim de tarde na terça-feira e Lygia servia um uísque para ela e o marido na sala, uma espécie de galeria da sua história, com muitos quadros nas paredes (inclusive um de Tom), CDs na estante e livros espalhados pelo chão. Por fim, revela que pensa em escrever um livro com crônicas e memórias. O título? Talvez “Quase 70”:

‒ Seria uma condensação dessa vida tão eclética. Eu vivi, chorei, me apaixonei. Minha vida é tão divertida!

Ligia

Tom Jobim

Eu nunca sonhei com você,
Nunca fui ao cinema.
Não gosto de samba, não vou a Ipanema,
Não gosto de chuva nem gosto de sol.

E quando eu lhe telefonei, desliguei foi engano,
O seu nome não sei.
Esqueci no piano as bobagens de amor
Que eu iria dizer, não... Lígia... Lígia...

Eu nunca quis tê-la ao meu lado
Num fim de semana.
Um chope gelado em Copacabana,
Andar pela praia até o Leblon.

E quando eu me apaixonei,
Não passou de ilusão, o seu nome rasguei.
Fiz um samba canção das mentiras de amor
Que aprendí com você...
É... Lígia... Lígia...
  
*Você se aproxima de mim
Com esses modos estranhos e eu digo que sim.
Mas teus olhos castanhos,
Me metem mais medo
que um dia de sol
É... Lígia... Lígia...

**E quando você me envolver
Nos seus braços serenos,
Eu vou me render,
Mas seus olhos morenos
Me metem mais medo que um raio de sol
É... Lígia... Lígia...


*   1ª versão;

**2ª versão.


Lygia e Tom Jobim




domingo, 12 de fevereiro de 2017

Marinha libera ficha do “Almirante Negro”



Arquivo Nacional/Correio da Manhã/ 3 de dezembro de 1963.

O líder da Revolta da Chibata, João Cândido Felisberto,
concede entrevista a um jornalista em 1963.

Após 97 anos (2008), documentos sobre o líder da Revolta da Chibata, que levou ao fim dos castigos corporais na Marinha, são divulgados.

Expulso da Marinha, João Cândido viveu as décadas seguintes em dificuldades, até ser redescoberto pelo jornalista Edmar Morel.

Marcelo Beraba da Sucursal do Rio

A Marinha liberou, após 97 anos, documentos referentes ao marinheiro de 1ª classe João Cândido Felisberto (1880-1969), o “almirante negro”, líder da Revolta da Chibata, e ajudou a localizar sua ficha no Arquivo Nacional. Os documentos agora tornados públicos só haviam sido consultados por oficiais e historiadores da Marinha e usados para corroborar a versão oficial do episódio que acabou com os castigos corporais nos navios de guerra.

A liberação é um fato novo. Durante todo este tempo, os pesquisadores e os filhos de João Cândido esbarraram em negativas da Marinha, que jamais aceitou a elevação dos revoltosos à condição de heróis. O próprio João Cândido nunca conseguiu ter acesso à documentação. Em depoimento no MIS do Rio em 1968, ele reclamou: “... os [arquivos] da Marinha são negativos, João Cândido nunca existiu na Marinha”.

O documento mais importante é a ficha funcional. João Cândido entrou para a Marinha como grumete em 10 de dezembro de 1895, chegou a ser promovido a cabo, mas depois foi rebaixado. Nos 15 anos em que permaneceu na Armada, ele foi castigado em nove ocasiões com prisões que variaram de dois a quatro dias em celas solitárias “a pão e água” e duas vezes com o rebaixamento de cabo para marinheiro.

Não há registro, na sua ficha de 24 páginas escritas à mão, de que tenha sido espancado, como era comum. Extinto em 1889 logo após a Proclamação da República, o castigo físico foi restabelecido pelo Governo Provisório no ano seguinte. A rebelião dos marinheiros em 22 de dezembro de 1910 já vinha sendo alimentada ao longo destes 20 anos, mas só foi deflagrada depois que o marinheiro Marcelino Rodrigues foi punido com 250 chibatadas.

A ficha de João Cândido registra dez elogios e uma promoção a cabo (1903), revogada definitivamente em 1907. O último elogio por bom comportamento é de setembro, três meses antes de liderar a rebelião.

João Cândido participou de dezenas de manobras em toda a costa brasileira, navegou pelos rios das bacias do Amazonas e do Prata e esteve duas vezes em longas viagens pela Europa.

Historiadores


João Cândido em 1969

O mérito da revelação dos documentos e da ficha funcional de João Cândido se deve a uma equipe de cinco historiadores da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) encabeçada por Marco Morel, 47.

Contratado pelo Projeto Memória da Fundação do Banco do Brasil para fazer uma pesquisa sobre o líder da revolta, Morel conseguiu autorização de um dos dois filhos vivos de João Cândido, Adalberto, para ter acesso aos documentos.

O pedido foi baseado na Lei 11.111 de 2005, que normatiza a liberação de documentos oficiais. O trabalho de pesquisa para o Projeto Memória está sendo feito junto com Tânia Bessone, também professora da Uerj, e três doutorandos. Uma delas, Silvia Capanema, descobriu na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, outra preciosidade: uma série de 12 artigos de memórias assinados por João Cândido publicados em 1912 na “Gazeta de Notícias”. Falta digitalizá-los.

Há algumas coincidências nesta história. João Cândido viveu as décadas que se seguiram à expulsão da Marinha em desgraça. Nem as empresas comerciais de navegação lhe davam emprego. Foi redescoberto pelo jornalista Edmar Morel (1912-1989), autor do livro que passou a identificar a rebelião: “A Revolta da Chibata” (1959).

Edmar foi encontrá-lo como carregador no antigo mercado de peixes da Praça 15, no centro do Rio. De lá via bem próxima a Ilha das Cobras, onde esteve preso, foi torturado e quase morreu. A ilha abriga hoje, entre outras seções da Marinha, o Serviço de Documentação.

O historiador Marco Morel é neto de Edmar Morel. Também jornalista no início da vida profissional, dedicou-se ao ensino e à pesquisa histórica. Sua especialização é o Brasil do século 19, mas, por causa do avô, interessou-se por João Cândido. Ele doou o acervo de Edmar Morel à Biblioteca Nacional.

São Paulo, domingo, 09 de março de 2008.




sábado, 11 de fevereiro de 2017

Londres bombardeada



Um Heinkel He 111, bombardeio nazista, sobrevoa Londres no outono de 1940. O rio Tâmisa pode ser visto ao longo da imagem.

Há 80 anos, no auge da Segunda Guerra Mundial, aviões da Alemanha nazista iniciavam uma operação de bombardeios a Londres que duraria oito meses e ficaria conhecida como a “Blitz de Londres”. Segundo o jornal britânico The Guardian, no fim da tarde do dia 7 de setembro, aeronaves alemãs voaram baixo, sobre o rio Tâmisa, e iniciaram o ataque despejando bombas no porto da cidade.

“Foi a cena mais incrível, impressionante e arrebatadora”, escreveu Colin Perry, morador de Londres na época, em memórias publicadas anos mais tarde. “Diretamente sobre mim, havia literalmente centenas de aviões. O céu estava cheio deles”.

“Eu ainda posso lembrar muito vivamente. Nós vivíamos em Abbey Wood. Minha mãe estava fazendo pão na cozinha. Eu estava brincando do lado de fora e o meu pai estava escavando o jardim. De repente, ele correu para dentro. Ele tinha visto aviões. 'Rápido, rápido, rápido, entrem no abrigo antiaéreo', e nós corremos para o abrigo em nosso jardim”, contou ao The Guardian Mavis Fabbling, 80 anos, moradora de Londres na época.

Segundo o jornal, a capital britânica já havia sido bombardeada anteriormente, mas o ataque do dia 7 de setembro de 1940 foi a primeira operação concentrada. Ela foi ordenada por Hitler no dia 5, em retaliação ao bombardeio da força aérea britânica a Berlim, realizado dias antes.

A primeira noite da chamada “Blitz de Londres” provocou a morte de 430 pessoas, incluindo sete bombeiros, afundou 60 barcos e destruiu o porto da cidade. No dia seguinte, novos bombardeiros mataram mais 400 pessoas.

(noticias.terra.com.br)

Imagens de uma cidade quase destruída


Londres bombardeada


Bombardeio da Biblioteca da Holland House. Londres, 1940.


Refúgio no metrô


Inglesa toma chá depois do bombardeio a Londres em 1940.


Esse garoto foi fotografado lendo
sobre os restos de uma livraria em Londres,
bombardeada durante a guerra.


Um voluntário civil do Royal Observer Corps 
vigiando o céu de Londres.

Uma moda lançada nos horrores da guerra


Relato do jornalista Samuel Wainer

Na Inglaterra, testemunhei o espírito de sacrifício de um povo que sempre soube preservar seu orgulho. Como, por exemplo, o couro se transformara numa preciosidade, os ingleses aboliram os cintos e, em seu lugar, passaram a usar velhas gravatas. Usavam-nas como se estivessem no rigor da moda. Como os casacos se desgastavam nos cotovelos, os ingleses inventaram um pequeno pedaço de couro como proteção, algo que ainda hoje se usa. Eram provas de que o povo se mantivera criativo em meio aos horrores da guerra.

(Do livro “Minha razão de viver – Memórias de um repórter”,
de Samuel Wainer) 


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Brasileiros do Século na Literatura



Especialistas consagraram nomes esperados e incluíram algumas surpresas entre os 30 selecionados. Mas a palavra final será do leitor.

Paulo César Teixeira e Liza Souza

(Revista IstoÉ, de 1999)

E o prêmio vai para…

Guimarães Rosa → Médico e diplomata, João Guimarães Rosa (1908-1967) fez da saga do homem rústico do interior de Minas (o escritor nasceu em Cordisburgo) uma obra-prima da literatura universal. Em Grande sertão: veredas, de 1956, revela minucioso conhecimento de plantas, bichos e até da cartografia da paisagem sertaneja. O idioma peculiar dos personagens é recriado até virar uma prosa quase experimental, próxima à poesia. 28 votos.

Mário de Andrade → Um dos principais nomes do Modernismo, o paulistano Mário Raul de Morais Andrade (1893-1945) adotou a narrativa fragmentada e abrasileirou a prosa com expressões de cunho popular. Foi contista e poeta, além de pesquisador de música e folclore. Escreveu Macunaíma (1928), romance em que utiliza um mito indígena para sintetizar a essência do caráter do homem brasileiro. 28 votos.

Clarice Lispector → Instrospectiva, de estilo marcadamente pessoal, assim era Clarice Lispector (1925-1977), que tinha só dois meses de vida quando veio da Ucrânia para o Brasil. Em sua obra, o esmagamento fortuito de uma barata pode conduzir a uma reflexão angustiada sobre a existência de Deus, assim como o enterro de um cão força o dono a meditar a respeito do sentimento de culpa. 27 votos.

Carlos Drummond de Andrade → Um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, mineiro de Itabira (1902-1987), viveu a infância numa fazenda e formou-se em Farmácia. Em Belo Horizonte, fundou A revista, em 1925, apoiando o Modernismo. Em 1933, mudou-se para o Rio, onde virou funcionário público do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Em A rosa do povo (1945), engajou-se ao lado dos que lutam por um mundo justo e belo. Em Claro enigma (1951), flagrou o vazio da vida, sem abandonar o humor. 26 votos.

João Cabral de Melo Neto → Nascido no Recife (PE), 1920-1999, é o poeta do verso "nítido e preciso", como ele próprio define. Contrário à ideia de inspiração, não tolera o sentimentalismo. Faz poesia de crítica social, com destaque para Morte e vida severina, que virou peça de teatro musicada por Chico Buarque nos anos 60. 25 votos.

Graciliano Ramos → Autor de Vidas secas e São Bernardo, alagoano de Quebrângulo (1892-1953), foi prefeito de Palmeira dos Índios (AL), em 1927. Lançou-se escritor, aos 40 anos, em Caetés. Em 1936, acusado de comunista pelo governo de Getúlio Vargas, foi preso em Maceió. A experiência foi relatada em Memórias do cárcere (1953). 24 votos.

Érico Veríssimo → Durante décadas, era um dos raros escritores brasileiros que conseguia viver do ofício. Gaúcho de Cruz Alta (1905-1975), influenciado por Adous Huxley e Somerset Maugham, na primeira fase de sua obra adotou técnicas do romance moderno (como a narrativa de diversas histórias paralelas). A obra-prima, no entanto, é O tempo e o vento, romance épico sobre a colonização do Rio Grande do Sul. 24 votos.

Manuel Bandeira → Um dos principais poetas do Modernismo, nascido no Recife (1886-1968), peregrinou por casas de saúde para tratar de graves problemas pulmonares, que se transformaram em poemas como Pneumotórax. Vou-me embora para Pasárgada é um de seus poemas mais conhecidos. 24 votos.

Jorge Amado → Lirismo, sensualidade e crítica social marcam a obra desse baiano de Itabuna, nascido em 1912-2001, um dos mais populares escritores brasileiros. Dona flor e seus dois maridos e Gabriela se transformaram em sucesso no cinema e na televisão. 23 votos.

Cecília Meireles → Carioca (1901-1964), sua obra reflete atmosfera de sonho e fantasia. Embora tenha sido influenciada no início pelo simbolismo, é apontada como a poetisa moderna, de estilo pessoal e inovador. 21 votos.

Nelson Rodrigues → (1912-1980) Pernambucano que escandalizou as platéias do País com peças trágicas, protagonizadas por personagens incestuosos, é também um escritor talentoso. Entre os romances (na verdade, folhetins publicados em jornal e mais tarde editados em livros), destaque para Meu destino é pecar (1944), A mulher que amou demais (1949) e Asfalto selvagem (1960). 20 votos.

Lygia Fagundes Telles → Paulistana de 1923, começou como contista aos 15 anos, gênero em que se destacaria depois com Histórias do desencontro(1958) e O jardim selvagem (1965). Escreveu também romances como Ciranda de pedra (1955) e As meninas (1973). 18 votos.

Oswald de Andrade → Poeta, romancista e ensaísta que encarnou o espírito rebelde do Modernismo (1890-1954), era antes de tudo um agitador cultural. Inventou a Antropofagia – em vez de imitar, o melhor é devorar criticamente a cultura das metrópoles. 18 votos.

Monteiro Lobato → Paulista de Taubaté (1882-1948), escreveu livros infantis muito populares, como O sítio do picapau-amarelo, gênero que ele considerava "vasto e nunca tentado" e que consolidou no Brasil. Seu nome está ligado também ao personagem Jeca Tatu (arquétipo do homem puro do interior, marginalizado e empobrecido) e a campanhas como a de busca de petróleo em território nacional. 17 votos.

Vinícius de Moraes → Mais popular como letrista de canções da bossa nova, esse advogado e diplomata carioca (1913-1980) destacou-se antes como poeta. Até 1938, com Novos poemas, fazia poesia mística, e a partir de 1943, com Cinco elegias, os versos chegaram mais perto do mundo material.16 votos.

Euclides da Cunha → (1866-1909) Como repórter, acompanhou a fase derradeira da revolta de Canudos, em 1897. Suas reportagens foram reunidas em livro, após sua morte, em Os sertões (publicado em 1902), obra fundamental de denúncia das reais condições de vida no Nordeste. 16 votos.

José Lins do Rego → As lembranças de infância constituem a matéria-prima da ficção do paraibano José Lins do Rego (1901-1957), que fez uma série de romances sobre o ciclo da decadência da cana-de-açúcar, na Zona da Mata nordestina. O principal título é Menino de engenho (1932). 16 votos.

Lima Barreto → Carioca (1881-1922), o pai era zelador de um manicômio. Ele próprio foi internado, dependente da bebida. Não foi reconhecido em vida, mas é admirado hoje como escritor de dramas humildes, ao qual não faltou sarcasmo para retratar os meios políticos de sua época. 15 votos.

Machado de Assis → Para muitos, o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Nascido no morro Jumento, no Rio (1939-1908), filho de um mulato e de uma lavadeira portuguesa, foi o primeiro presidente e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, em 1896. Escreveu Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1900). 14 votos.

Rachel de Queiroz → Sua obra revela a miséria do nordestino. Cearense de 1910-2003, descendente de José de Alencar (uma das avós era prima do escritor), é a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras (1977). 14 votos.

Rubem Fonseca → Diz a lenda que todo autêntico carioca nasceu em Minas. É o caso de Fonseca, de Juiz de Fora, em 1925. De estilo áspero e contundente, escreveu Feliz ano novo (1975). 12 votos.

Mário Quintana → Poeta gaúcho (1906-1994), de humor sutil e fina sensibilidade, morou a vida toda em hotéis de Porto Alegre, cenário e inspiração de sua obra. 10 votos.

Dionélio Machado → Esse gaúcho de Quaraí (1895-1985), escritor e psiquiatra, em Os ratos (1935) descreve em minúcias a angústia de um modesto funcionário público preocupado por não ter como pagar o leiteiro na manhã seguinte. 10 votos.

Murilo Mendes → Mineiro de Juiz de Fora (1901-1975), integrado ao movimento Modernista, compôs desde sátiras e poemas-piadas até versos de inspiração religiosa. 10 votos.

Antônio Calado → Natural de Niterói (RJ) (1917-1997), foi jornalista, teatrólogo e ficcionista. Sua obra mais conhecida é Quarup (1967), romance sobre as mazelas políticas do País cujo desfecho se dá numa das mais importantes festas de nossos índios. 9 votos.

Ferreira Gullar → Poeta maranhense de 1930-2016, fez parte do movimento Concretista. Afastou-se depois para assumir uma postura de engajamento político. 9 votos.

Ariano Suassuna → Dramaturgo, poeta e romancista, nascido em 1927 em João Pessoa (PB), sua obra é marcada pela fé no catolicismo. Trouxe à tona as raízes árabes da cultura popular do Nordeste. Faleceu em 2014. 8 votos.

Gilberto Freyre → 1900-1987. Sociólogo e escritor, é autor de Casa-Grande & senzala, principal obra sobre as raízes étnicas do País. 8 votos.

Darci Ribeiro → 1922-1997, Antropólogo, educador e escritor, é um dos políticos mais importantes do final do século. Projetou a Universidade de Brasília e escreveu O povo brasileiro. 8 votos.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Todo cuidado é pouco

(Delegado Jorge Lordello, autor do livro Como conviver com a violência dá dicas de como sobreviver na selva urbana.)


Prepare sua carteira: Evite andar com vários cartões de crédito e de banco. Ter muitos cartões aumenta o risco de sofrer um sequestro relâmpago. “O bandido vai querer sacar todos, por isso é aconselhável fazer um rodízio de cartão de crédito e deixar o do banco em casa.”, explica. “Muitas vezes, a pessoa tem o hábito de realizar vários saques pequenos para as despesas do dia-a-dia. Sugiro um saque um pouco maior para evitar idas frequentes a caixas eletrônicos.” Vários documentos também podem ficar em casa, como o título de eleitor e o CIC. “Atualmente, a nova carteira de habilitação substitui a de identidade. Mas como, infelizmente, alguns policiais ainda não sabem disso, tenha sempre uma cópia do RG.” Outro documento que pode ser cópia é o do carro: “Mas com um detalhe: a autenticação deve ser do Detran ou Ciretran”.

Lar, doce lar: Ao sair para o trabalho, não custa verificar se não há alguém suspeito na rua. Se o carro estiver estacionado na calçada, veja se há alguém por perto e evite ir com as chaves na mão. Ao chegar do trabalho, tenha a certeza de que ninguém está próximo ao portão de entrada. “Às vezes, o motorista embica o carro na calçada e atrapalha a passagem de um pedestre. Se for um marginal, é a chance que ele tem para a abordagem. Lembre-se que nesse caso você está parado ou parando”. Diz o delegado.

Cartões de visita: Lordello aconselha que os executivos tomem cuidado com seus cartões de visitas. Aparentemente inofensivos, esses papéis fartamente distribuídos podem causar problemas se caírem em mãos erradas. “Evite colocar muitas informações, como endereço e vários números de telefone, até mesmo de celular. Deixe apenas seu nome e o telefone comercial. Em alguns casos, até sugiro que não se coloque o cargo ou o nome da empresa, pois podem sugerir que a pessoa ganha muito bem”, diz. “Qualquer informação que queira acrescentar, escreva-a no verso do cartão antes de entregá-lo para outra pessoa.”

Pegadinha: Na rua, o conselho é o mesmo das nossas avós: não conversar com estranhos. “Na pesquisa, pude notar que boa parte dos assaltos acontece quando a vítima estava parada ou parando. É a tática mais comum para desviar a atenção. Costumo brincar dizendo que quem dá ouvidos a estranhos na rua corre o risco de ser assaltado ou de participar de uma pegadinha de TV.” Nesses casos, ao perceber que algum estranho vem e sua direção, simplesmente mude seu trajeto.

Ruas calmas: Quando o assunto é segurança nas ruas e avenidas, Lordello faz questão de diferenciar duas situações: a primeira é em locais sem movimento e a outra é no trânsito caótico das grandes cidades. “Se não tiver tráfego, é aconselhável que o motorista reduza a velocidade de acordo com o semáforo, de modo que dê tempo para passar por ele sem ter de parar antes da faixa”. explica. Ele conta o caso de um senhor que adotou essa tática em um bairro pouco movimentado de São Paulo: “Enquanto reduzia a velocidade, percebeu que uma senhora em outro carro o ultrapassou e ficou na posição de pole position, como chamo. De repente surgiu um marginal da esquina e anunciou o assalto. Assustada, ela deve ter esboçado alguma reação. O bandido a matou com um tiro nas costas. “Essa tática serve para quem dirige de madrugada. “Ao atravessar um sinal vermelho, a pessoa corre o risco de levar uma multa ou de causar um acidente”, observa.

→ Trânsito caótico: Quando o trânsito é pesado, Lordello aconselha que o motorista fique na faixa da direita, para evitar aproximação pela janela do lado do motorista. “Fiz um desenho de um cruzamento e coloquei alguns carros parados à espera de o sinal abrir. Mostrei-o a vários assaltantes e pedi que me indicassem quais seriam os alvos. Não deu outra: os que estavam na primeira fila da esquerda”, conta. No trânsito, em geral, o delegado sugere que o condutor procure parar nas faixas do meio ou da direita e deixar um espaço de dois carros antes da faixa de pedestres. “Não se preocupe se quem estiver no carro de trás buzinar. Em alguns casos, ele não terá certeza de que você deixou essa distância e o carro do lado não vai fazer isso, uma vez que está vendo você e até porque fica com vergonha”, comenta. Outra sugestão é andar com vidros fechados e, se possível, com aquela película que reveste os vidros, tornando-os mais escuros. “Com isso, ninguém vai saber se você está sozinho ou não.”



Trovas de Jorge Murad


O teu modo de viver,
criticá-lo a mim não cabe:
não sei, não quero saber,
tenho raiva de quem sabe...

Você ‒ terceira pessoa?
Parece até brincadeira!
Para mim ‒ ora, essa é boa ‒
você ‒ é sempre a primeira.

Eu, que já fui coroinha,
em alto e bom som proclamo:
não troco qualquer raínha
pela "coroa" que eu amo...

Se o amor é um sacrifício,
não duvides nem um pouco:
iria até para o hospício,
para amar-te como um louco.

Os teus cílios, tua cor,
tuas unhas, teus feitiços,
e até mesmo o teu amor
são todos eles postiços...

Joias desaparecidas
não se encontram nunca mais,
mas as mulheres perdidas
a gente encontra demais...

Se amor se paga com amor,
como diz ditado antigo,
meu benzinho, por favor,
acerte as contas comigo!

Dançou um baião-de-dois
num forró a Dona Inês,
e nove meses depois
o baião era de três...

E o alfaiate explicou,
com palavras ressentidas:
‒ Já que o senhor não pagou,
tomarei outras medidas.

Um pau d'água renitente
diz, sobre o álcool: ora essa,
se ele mata lentamente,
não faz mal... Não tenho pressa.

Que a mulher tem duas caras,
isto não é mais segredo:
a primeira mostra às claras,
e a outra... de manhã cedo.

Peça por peça, uma artista,
na comédia, estuda à beça,
entretanto, na revista,
retira peça por peça...

No meio da rapaziada,
de cabeleira polpuda,
até a própria piada
é piada cabeluda...

Não há, no mundo, presente,
nenhuma coisa mais bela
que o que Deus, onipotente,
fez de uma simples costela...

‒ Estou esperando alguém!
Minha mulher me falou.
Pensei que fosse um neném,
mas era a sogra. Michou!

Quando conto uma piada,
não há riso que resista,
porque a sogra, coitada,
é sempre a protagonista.

Um garoto esfomeado,
tirando um caqui da cesta,
exclamou compenetrado:
‒ Tomate metido a besta!

A piada é uma desgraça,
quando a graça não contém;
a gente até acha graça,
da graça que ela não tem.

A cara da dona Rosa
tem tanto pé-de-galinha,
que ela anda receosa
do galo lá da vizinha...

Sobre a cova abandonada
do corneteiro Clemêncio,
há uma corneta calada,
que tanto tocou silêncio.

Para uma moça bonita,
perguntou certo paquera:
‒ É senhora ou senhorita?
‒ Senhorita, eu? Já era!

Se alguém me chamar de “pão”,
apesar de pitoresco,
fico fulo e com razão:
pão só é bom quando é fresco.

Há sempre um televizinho
no lar da viúva Aimée;
mas já corre um burburinho
de que ela não tem TV...

Diz o freguês, distraído,
ao garçom - que é de veneta:
‒ Não deixei nada esquecido?
‒ Não, senhor! Nem a gorjeta!

Fui contar à cozinheira
uma piada imoral
e ela me disse, fagueira,
que ainda faltava sal...

Um hospital de poesia
deveria ser montado,
assim para lá iria
o verso de pé quebrado...

‒ Vamos ao circo? ‒ disseste,
mas o encontro não se deu,
pois o bolo tu me deste,
e o palhaço banquei eu...

Quando passas no mercado,
um fruteiro que tem gosto,
olha todo embasbacado
para as maçãs do teu rosto.

Minha boca é a fechadura,
e o teu beijo a chave certa;
só teu beijo, criatura,
me deixa de boca aberta.

Seja de noite ou de dia,
quando por mim você passa
logo eu digo: ‒ Ave Maria!
Que moça cheia de graça!

Mexem contigo na rua,
piadas, ditos e graças,
mas a culpa é toda tua,
“mexes” demais quando passas.

Uma promessa ‒ que é fogo!
eu fiz à Virgem Maria:
que, se eu ganhasse no jogo,
nunca mais eu jogaria...

Amor é como pipoca,
sossegado no começo,
mas se o fogo se lhe toca,
vira a gente pelo avesso.

Acredite quem quiser,
se o meu casório malogra,
eu abandono a mulher
e caso com minha sogra...

A noiva fez tal dieta
para casar-se, afinal,
que a sua turma, indiscreta,
jogou-lhe arroz integral!



Do Blog “Falando de Trovas”

O maior portal de trovas do Brasil, desde 2005


Jorge Murad nasceu no Rio de Janeiro/RJ (antiga Guanabara) a 13 de abril de 1910, filho de libaneses: Murad Sallum Lasmar e Maria Antun Lasmar. Foi ator, radialista, compositor, humorista, trocadilhista, foi um homem de rádio, televisão e teatro com pleno destaque, além de excelente trovador.

Como se não bastara, foi também jogador de futebol, dos bons, tendo jogado com o célebre Leônidas da Silva, o "Diamante Negro". Como compositor teve inúmeras melodias carnavalescas de sucesso. No rádio manteve durante 28 anos o programa "Pensão do Salomão".

No cinema, trabalhou em filmes como "Alô, alô, Brasil" e "Estudantes", ao lado de famosos comediantes. Trabalhou em mais dez deles. Livros, deixou cinco: "Arak-said!", "Salomão a Varejo", "Anedotas de Papagaio', "Humuradas" e "Anedotas da Guerra'.

Faleceu em 25 de abril de 1998. Era irmão de Anís Murad, Magnífico Trovador. Como se nota, uma família com a arte no sangue.


O humor de Jorge Murad



Frases soltas

Ter pai pobre, vá lá, mas sogro?!...

Prometeu, cumpriu?!...

Herrar é umano...

Você tem bom papo ou boa tireoide?!...

Afinal de contas, a Glória é ou não é passageira?!...

Se tamanho fosse documento, elefante seria o dono do circo...

Quem encobre erro médico é a terra...

Viúvo que casa duas vezes não merece ficar viúvo...

Homem de voz fina, mulher de fala grossa e gente cortês – fuja dos três...

Um homem só é velho quando o seu caderninho de telefones só tem endereços de médicos...

A vida é curta, curta a vida...

Não há homem impotente. Há mulher incompetente...

Antes à tarde do que nunca...

A melhor hora de um homem: uma e um quarto...

Se você pensa que a mulher não sabe guardar segredo, pergunte a idade dela?!...

A pessoa que escreveu essa maravilhosa frase: “Lar, doce lar”, será que tinha sogra?!...

A mulher moderna, hoje vai à praia, usa no corpo justamente o que faz no mar: nada...

De espetáculos

O ator cômico, indeciso, para o público:
‒ Estão realmente aplaudindo ou matando mosquitos?!...

O palhaço para a senhora que ria desbragadamente:
‒ Cuidado, madame, tem alguém que vai se sentar aí depois da senhora!...

O ator, em cena, um tanto quanto inquieto, para uma senhora em pé na plateia:
‒ A senhora pode se sentar agora. Todos já viram a sua capa de pele!...

Uma atriz para a rival:
‒ É verdade que você, para subir tanto, deixou o vestido descer outro tanto?!...

O crítico para a atriz:
‒ Eu soube que você comemorou o seu 21° aniversário. Muito bem, antes tarde do que nunca!...

O cômico, vendo que o espectador vai saindo antes da hora – naturalmente por não estar gostando do espetáculo – saiu-se com esta:
‒ É por aí mesmo. Procure a porta da esquerda onde está a letra H!...

O crítico para a cantora:
‒ Você, realmente, tem um bom ouvido para a música. Mas, infelizmente, não tem uma boa garganta!...

O cômico, para a plateia da boate onde não havia quase ninguém:
‒ Boa noite, mesas e garçons!...

E aquele ator, furioso, para o crítico:
‒ Se você tivesse, ainda, os seus próprios dentes, eu o faria engolir as suas palavras...

Estava tão frio naquela noite que a atriz que faz o “stripease”, fez o contrário: veio nua e foi se vestindo...

Estrearam o filme num Drive-In. Ninguém viu!...

‒ Você não acha que está numa linda noite para se desperdiçá-la vendo televisão? Vamos a um cinema?!...

Frases feitas e contrafeitas

A árvore que dá sombra a uma pessoa cansada – quebra um galho...

O piloto que ganha uma corrida de automóvel, não completa o circuito – corta uma volta para ganhar.

O mendigo é imortal – não tem onde cair morto.

O escafandrista desistiu de mergulhar – tirou o corpo fora.

O coveiro disse que exumar cadáveres faz parte do seu trabalho – são ossos do ofício...

O menino não foi ao aniversário do amigo – deu bolo.

O dono do armazém ficou rico – está por cima da carne seca!...

A girafa brigou com o elefante – deu-lhe um pescoção...

O camarada perdeu a última barca – ficou a ver navios...

O jogador disse que aquele filme – era um chute...

Existem pessoas que só brigam nas ruas – vão às vias de fato...

Há vendedor que, às vezes, para vender uma cueca – sua a camisa...

À vezes a entrada dos fundos – é a única saída...

O macaco, naquele dia, - estava com a macaca...

O bicheiro, machucado, disse – que deu galo na cabeça...

O alfaiate arranjou uma namorada – sob medida.

A garota, de peruca, – estava com cabelinho na venta...

Aquele cabeçudo disse que – não lhe cabe a carapuça...

O oculista, despedido, ‒ foi para o olho da rua...

Gostou tanto da operação plástica no rosto – que ficou de queixo caído...

O dentista, entusiasmado, disse que o cliente – ficou de boca aberta...

O oculista disse à garota, que foi – amor à primeira vista...

Na peça, o ator que tinha o menor papel – fez um papelão...

O jardineiro, quando briga, ‒ planta a mão na cara...

A florista comentou que aquele freguês – não era flor que se cheire...

O boxer, delicado, ‒ beijou a lona.

O centroavante assassino – matou a bola no peito...

O goleiro, esfomeado, – engoliu um frango...

Já vi padeiro – pão-duro...
Mulher – com pé-de-galinha...
Já vi fruteiro – maduro...
e costureira – sem linha...

(Do livro “Jorge Murad – Piadas e Trovas”)

P.S. O citado livro de Jorge Murad, capa abaixo, foi conseguido em um Sebo no centro do Rio de Janeiro, na Rua do Lavradio, quase na Praça Tiradentes.


Jorge Murad nasceu em 13 de abril de 1910, no Rio de Janeiro. Radialista, humorista consagrado, trovador, autor de livros e de peças teatrais, além de produtor de televisão e compositor de sambas e marchinhas, iniciou sua carreira em 1929, apresentando-se no Programa Casé.

Animador de programas na Rádio Clube e na Rádio Phillips, recebeu o apelido de O Sultão da Alegria, por seu repertório de anedotas, em programas que se tornaram famosos como Fala meu louro e Pensão do Salomão, líder de audiência na época. Autor das peças teatrais Carioca da gema, Rumo à Turquia e Dois boêmios do outro mundo, escreveu também vários livros humorísticos como Salada de risos, Salomão a varejo e Anedotas de guerra, tendo sido, por esse último, laureado com a Cruz de Guerra, durante a Segunda Guerra Mundial. No cinema nacional atuou em filmes como: Alô, alô, Brasil, Alô, alô, carnaval e Banana da terra.

Faleceu no dia 25 de abril de 1998, no Rio de Janeiro.

A coleção Jorge Murad é composta por um grande volume de fotografias e documentos textuais, objetos tridimensionais, que incluem placas comemorativas, troféus e medalhas, além de discos e documentos bibliográficos.