segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Fábulas modernas



A fábula dos lobos

Numa noite de inverno, um velho apache chamou seu neto para junto da fogueira para lhe falar do combate que acontece dentro das pessoas. Ele disse:
- A batalha é entre os dois lobos que vivem dentro de cada um de nós. Um é mau e suas manifestações são a raiva, a inveja, o ciúme, a tristeza, o desgosto, a cobiça, a arrogância, a pena de si mesmo, a culpa, o ressentimento, a inferioridade e o orgulho falso.
- E o outro? - perguntou o neto.
- O outro é bom. É alegria, fraternidade, paz, esperança, serenidade, humildade, bondade, benevolência, empatia, generosidade, verdade, compaixão e fé.
O neto pensou nessa luta e perguntou novamente ao avô:
- E qual o lobo que vence a batalha, vovô?
- Aquele que tu alimentas!

O velho e o neto


Um jovem, cansado de não conseguir um emprego há tempos, foi buscar conselho com seu velho avô, que vivia sozinho numa cidadezinha pequena de interior. Ao chegar lá, o jovem passou a monologar:
- Estou cansado de tudo isso, há anos que venho tentando conseguir um emprego de qualidade, mas até então não o consigo, não entendo por quê? Sou jovem, tive, ao longo de toda minha vida, os melhores professores particulares, estudei nas melhores escolas e conheço pessoas influentes e, mesmo assim, preferem contratar outros que, já tendo sido informado disso, não possuem a mesma qualificação que eu!
O avô, que até então escutava o neto em silêncio, finalmente começou a formar sua frase lentamente:
- Ora, meu neto, é verdade que tiveste a melhor educação que poderias ter, os melhores professores e contato com pessoas importantíssimas, porém, quantas vezes, ao longo da tua vida, tu escolheste ir atrás dessa educação por si só? Estudar ao invés de brincar? Tirar dúvidas ao invés de ignorar? Aperfeiçoar ao invés de renunciar?
E com isso, o jovem percebeu a sua própria ignorância.

Moral da história:

Mesmo estando na estrada certa,
tu serás atropelado se ficares apenas sentado nela.

A cobra e o pirilampo*


Era uma vez uma cobra que começou a perseguir um pirilampo. Ele fugia com medo da feroz predadora, mas a cobra não desistia.
Um dia, já sem forças, o pirilampo parou e disse à cobra:
- Posso fazer-te três perguntas?
- Podes. Não costumo abrir esse precedente, mas já que te vou comer, podes perguntar.
- Eu pertenço à tua cadeia alimentar?
- Não.
- Eu fiz-te alguma coisa?
- Não.
- Então porque é que tu me queres comer?
- Porque não suporto ver-te brilhar!

Moral da história:

E é assim que, diariamente, tropeçamos em cobras!

*O vaga-lume ou pirilampo é o mesmo inseto.

O gato e o rato


O ratinho estava na toca, encurralado pelo gato, que, do lado de fora, miava:
− Miau, miau, miau...
O tempo passava, e ele ouvia:
− Miau, miau, miau...
Depois de várias horas e já com muita fome o rato ouviu:
− Au! Au! Au!...
Então deduziu: Se há cão lá fora, o gato foi embora. Saiu disparado em busca de comida. Nem saiu bem da toca e o gato: Nhac! Inconformado, já na boca do gato, perguntou:
− Porra, gato! Que sacanagem é essa?
E o gato respondeu:
− Meu camaradinha, neste mundo globalizado de hoje, quem não fala pelo menos dois idiomas, morre de fome!


O dia da inauguração do mundo



O mundo estava pronto
ao findar do sexto dia.
Água e terra, lado a lado
na mais perfeita harmonia.

Então uma pedra falou
com sua voz um tanto aguda:
“eu gostaria de andar!”
E Deus fez a tartaruga.

E depois uma montanha
com sua voz trovejante
pediu para ser bicho,
e Deus criou o elefante.

E a lua que se refletia
em águas claras, pacatas
disse que queria nadar
e se fez peixe de prata.

E quando a folhinha verde
expressou os sonhos seus
de saltitar entre os galhos
se tornou um louva-a-deus.

E as nuvens que cobriam
de branco o céu inteiro
resolveram se transformar
num rebanho de cordeiros.

E o sol, com pinta de rei,
quis também sua mutação:
por ter uma juba dourada
Deus fez do sol um leão.

E no seu galho uma flor
com vozinha de opereta
pediu que queria voar.
E Deus fez a borboleta.

E a estrela brilhante
vendo a onda se elevar
pediu para descer às águas
e hoje é “estrela-do-mar”.

E um anjo que estava perto
(até nem me lembro o nome),
gritou que queria ser Deus.
De castigo virou homem.

Luiz Coronel

Mãe do presidiário



Mãe, querida mãe, hoje das mães é dia,
dou-te tristezas, mato-te a alegria,
pois estou te vendo através duma prisão.
Se morresse pequenino, ao ter nascido,
Certamente, não estaria, assim, ferido
o teu materno e puro coração.

Mãe, eu fui ingrato e hoje reconheço,
que nem sequer o teu perdão mereço,
pois tanto... tanto mal eu te causei.
Por fim abandonei-te já envelhecida,
por qualquer mundana pervertida,
que na estrada do mal eu encontrei.

Lembra-me, ainda, daquela noite triste,
que eu não saísse, chorando me pediste,
como se algo estivesse a acontecer,
e eu não quis ouvir o teu lamento,
louco com a mundana em pensamento,
parti, querida mãe, para nunca mais te ver...

Foi nessa mesma noite, fria e calma,
que saí, após te torturar a alma,
com outro homem a mundana encontrei.
Aproximei-me dela mais um pouco,
como fera acuada, e quase louco,
sem dó nem piedade, eu a matei.

Então, querida mãe, começou o meu castigo,
por não ouvir o teu sábio conselho amigo,
fui preso e maltratado como um cão,
e, aqui, pago a desobediência,
e tua ausência a torturar-me o coração.

Mas, a maior desgraça que me bate à porta,
é não saber se ainda és viva ou morta,
pois até hoje nunca mais te vi.
E tu, talvez, eu nunca mais te veja,
para poder pedir perdão a ti...

A um canto da cela eu adormeci chorando,
Quando, em sonho, uma voz ouço chamando,
volvendo o olhar, vejo celestial visão:
é minha mãe, transpondo aquela dura porta,
fala-me sorrindo: “filho, eu já estou morta,
mas vim aqui trazer-te o meu coração!
para poder a ti deixar o meu perdão...

Israel de Castro,
poeta pernambucano.

Olhos espichados...

J.J. Oliveira Gonçalves

 
  
Nos olhos espichados do meu cão,
Há sempre uma loquaz filosofia!
Em rondas, muita vez, de solidão,
Minh'alma, desconfio: ele espia!

Os olhos vão, lá longe, na distância,
Ah, como a perscrutar o dia-a-dia!
Talvez, recordações lendas da infância
Talvez, uma saudade que os crucia!

Somos tão parecidos... Ele e eu...
E ambos nos olhamos com ternura
A vida (nós pensamos): que aventura!

Silente, eu agradeço o afeto teu...
Desde que a gente vê: se conheceu
Recíproca é a amizade e a ventura!

Da rua eu te trouxe... Dei-te abrigo

E o Criador me deu um Fiel Amigo!

*****

Na foto acima, dois de meus grandes amigos: o Daschund Nego Dão, falecido em 2010, aos 14 anos de idade; e Lobinha*, Vira-lata, dez anos, apanhada no calçadão de Ipanema, em Porto Alegre: Grandes, inesquecíveis e amados amigos!

*Também já faleceu... bem velhinha...

Nilo S. Moraes


O meu cavalo



Bernardo Guimarães (1825-1884) matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo. Durante o curso jurídico não se distinguiu como estudante, dedicando-se à literatura, principalmente à poesia, colaborando em revistas, onde se revelou um crítico mordaz.

Nessa fase fagueira da existência, o poeta, influenciado pelo modelo de Bron, entregou-se à vida boêmia, juntamente com Álvares de Azevedo, Aureliano Lessa e outros, cuja saúde foi prejudicada pelas extravagâncias e estroinices que praticavam.

Chegaram a fundar a sociedade Epicureia que tinha por fim realizar os sonhos do autor de Dom João. Reuniram-se em vários pontos, de preferência nos arrabaldes, e entregavam-se a toda a sorte de desvarios, chegando, certa ocasião, à loucura de ficarem encerrados durante quinze dias, à luz de candeeiros.

Estava Bernardo Guimarães, em companhia de alguns amigos, na redação do Correio Mercantil, quando lhe entregaram uma carta.

O romancista leu-a, empalideceu e desatou em pranto. Alguns minutos depois enxugou as lágrimas, pediu papel e encheu três ou quatro páginas com a sua letra rasgada e tortuosa. E soluçava enquanto redigia.

- Vamos ao café!

No botequim do Braguinha, sito ao largo do Rocio, leu o que havia escrito: era a poesia O meu cavalo, que consta de um dos seus livros, como composta em Minas.

A carta que recebera na redação do Correio Mercantil dava-lhe a triste noticia da morte do seu alazão.

(MOTA, Artur. Vultos e livros. Em MASUCCI, Fulco.
Anedotas históricas brasileiras)

Meu Cisne, é hora de dizer-te adeus!
De tudo que abandono
Não és por certo quem menos saudades
Mereces a teu dono.
.............................
Lá nos viçosos campos
Por onde entre colinas graciosas
O Quebranzol sereno remanseia,
E as ondas vagarosas
A luz de um céu esplendido alardeja,
Achei-te outrora livre como o vento
Em largo campo aberto,
Garboso chefe de formosa tribo,
Pascendo em paz as ervas do deserto.

Ao teu relincho qual clarim sonoro,
Retroando no fundo das valadas,
Alegres acudiam
Pela devesa as trépidas manadas,
E o bando das selváticas amantes,
Em torno arrebanhadas,
O colo luzidio
Airosas recurvando,
A crina ao vento dando,
Tu conduzias, rei das solidões,
Pelos infindos, verdes chapadões.

Mas, ah! foi esse o derradeiro dia
Da grata liberdade,
E dócil te curvaste à lei tirana,
De que tanto se ufana a humanidade.
A fronte altiva ao freio abandonaste,
Do homem à vontade
Curvaste o colo, e os passos regulaste.
Recebeste nos pés o férreo cravo;
De rei, que eras, te tornaste escravo!
Escravo, oh! não! deixaste sem queixume
De teu rio natal saudosas margens,
E a vida rude e inquieta,
Em que folgavas nas incultas vargens,
Para ser companheiro do poeta.

E pois adeus! pelas montanhas pátrias,
Em teu dorso possante
Não mais me levarás de hoje em diante,
Vagando a esmo nos estreitos vales,
Devaneando,
Cantarolando
Ou já cismando amores,
Ou da montanha aos ventos rugidores
Entregando a lembrança de meus males.

Embalado em teu rápido galope,
Não mais irei sozinho demandando
Do Itamonte o descalvado tope,
A escutar pelos penedos broncos
A voz dos ventos lôbrega ululando
Ou da cascata os roncos
Na profundez do abismo trovejando.

À minha voz com ímpeto brioso,
Resfolegando,
Caracolando,
Comigo te lançavas pelas sendas
Escabrosas das broncas serranias,
E nas quebradas invias
Como um tufão veloz desparecias;
A basta e longa cauda
Te ondeava, bem como alva cascata,
Que em rotas catadupas espumando
Dos montes se desata;
Aos ventos sibilando a coma esparsa,
A esvoaçar-te no garboso colo,
Dir-se-ia nívea garça
No voo apenas desflorando o solo.
E então cuidava, vendo às minhas plantas
Baixar a terra no horizonte raso,
Ir voando do Pégaso nas asas
Aos cumes do Parnaso.

Oh! se o destino te chamasse à guerra ...
Foras nos campos do sangrento Marte
Cavalgadura digna de Sesóstris,
De César, de Alexandre ou Bonaparte.

Mas se nas lides da feroz Belona
Não respiraste o pó de cem batalhas,
Se os pés não ensopaste em sangue humano,
Ao rebentar de bombas e metralhas,
Em mais doces conquistas
Já fizeste proezas nunca vistas.

(Cantá-las eu não posso, nem desejo;
Das línguas maldizentes tenho medo;
Es tu só que as conheces; e estou certo
Que guardarás fiel o meu segredo.)
.............................

Adeus, ó Cisne, sempre na minh'alma
De ti conservarei viva saudade;
E se eu puder, nas asas de um soneto,
Teu nome mandarei à eternidade.

Fica-te em paz, e em teus últimos dias
Livre-te o céu do mísero destino
Que teve o decantado lazarento
De mestre Tolentino.

Ouro Preto, 1858*

*Vide penúltimo, parágrafo do texto acima.

Comportamento Geral

1973

Gonzaguinha*


Gonzaguinha por Jorge Inácio

Você deve notar que não tem mais tutu
e dizer que não está preocupado.
Você deve lutar pela xepa da feira
e dizer que está recompensado.
Você deve estampar sempre um ar de alegria
e dizer: tudo tem melhorado.
Você deve rezar pelo bem do patrão
e esquecer que está desempregado.

Você merece, você merece,
tudo vai bem, tudo legal,
cerveja, samba e amanhã, seu Zé,
se acabarem com o seu Carnaval?

Você merece, você merece,
tudo vai bem, tudo legal,
cerveja, samba, e amanhã, seu Zé,
se acabarem com teu Carnaval?

Você deve aprender a baixar a cabeça
e dizer sempre: “muito obrigado”.
São palavras que ainda te deixam dizer
por ser homem bem disciplinado.
Deve, pois, só fazer pelo bem da Nação,
tudo aquilo que for ordenado.
Pra ganhar um “Fuscão” no juízo final
e diploma de bem comportado.

Você merece, você merece,
tudo vai bem, tudo legal,
cerveja, samba e amanhã, seu Zé,
se acabarem teu Carnaval?

Você merece, você merece,
tudo vai bem, tudo legal,
cerveja, samba e amanhã, seu Zé,
se acabarem com o teu Carnaval?

Em 1973, Gonzaguinha participou do programa Flávio Cavalcanti apresentando a música Comportamento Geral num dos concursos promovidos pelo programa. Alguns jurados ficaram apavorados com a letra.

Ao domingos, a TV Piratini recebia, por satélite, o programa do Flávio Cavalcanti, que era produzido pela TV Tupy, do Rio de Janeiro. Eu assisti, nesse dia, ao programa e vi que, após cantar a sua música, Gonzaguinha foi enfrentado, “corajosamente”, por alguns jurados do programa, principalmente pelo maestro Érlon Chaves. Isso que vivíamos o auge da ditadura militar com Médici no poder. Foi uma entregação geral, só faltou os jurados pedirem a presença da polícia para levar Gonzaguinha em cana, pois a música havia passado pela censura. No meio do palco, tenso e calado, Gonzaguinha ouvia, dos jurados mais alienados,  criticas à sua música de algo que “não” estava acontecendo no Brasil.

No final, após rebater as críticas, Gonzaguinha olhou firme para os jurados e disse, irônico: “Vocês merecem!”, e saiu do palco, em silêncio...

Nilo S. Moraes

* Gonzaguinha era filho adotivo de Luiz Gonzaga, “O Rei do Baião”.

Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, mais conhecido como Gonzaguinha, (Rio de Janeiro, 22 de setembro de 1945 – Renascença, Paraná, 29 de abril de 1991) foi um cantor e compositor brasileiro. 

Frases de livros de Machado de Assis



Frase final de Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881:

“Não tive filhos não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.”

“Botas... as botas apertadas são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar.”

“Não é amigo aquele que alardeia a amizade: é traficante; a amizade sente-se, não se diz.”

“Não te irrites se te pagarem mal um benefício; antes cair das nuvens que de um terceiro andar.”

“Há coisas que melhor se dizem calando.”

“Pensamentos valem e vivem pela observação exata ou nova, pela reflexão aguda ou profunda; não menos querem a originalidade, a simplicidade e a graça do dizer.”

“Trata de saborear a vida; e fica sabendo, que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la.”

“E enquanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monótono, tudo rindo, cansativo; mas uma boa distribuição de lágrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma do mundo a variedade necessária, e faz-se o equilíbrio da vida.”

“O tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo: uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo. Também se pode bordar nada...”

“É melhor, muito melhor, contentar-se com a realidade; se ela não é tão brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir.”

“Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho, há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!”

“Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito.”