quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Travessias

O lobo, a cabra e a couve.


Um lobo, uma cabra e uma couve têm de atravessar um rio num barco que transporta um de cada vez, incluindo o barqueiro. Como é que o barqueiro os levará para o outro lado de forma que a cabra não coma a couve e o lobo não coma a cabra?

Como é evidente neste problema, o lobo não pode ser deixado sozinho com a cabra, nem a cabra com a couve.

A primeira versão escrita deste problema é atribuída a Alcuino de York (Problema 18 de  Propositiones ad Acuendos Juvenes, século IX).

Na sua resolução, Alcuino começa por transportar a cabra, depois volta para transportar o lobo para a outra margem, trazendo a cabra de volta, depois leva a couve, voltando por fim para vir buscar a cabra.

A raposa, o ganso e o cesto de milho.

Um fazendeiro tinha de atravessar o rio com uma raposa, um ganso e um cesto de milho. O seu barco só podia transportar um objeto além do homem. Quantas viagens é que ele fez?

Começa transportando o ganso, depois volta para transportar a raposa para outra margem, trazendo de volta o ganso, depois leva o cesto de milho, voltando para trazer o ganso.

O pai e duas filhas.

Um senhor de 80 kg e duas filhas com 40 kg precisam atravessar uma ilha com um barco. Só que tem um problema, o barco só suporta 80 Kg. Como farão para atravessar?

Ele deve mandar as duas filhas, depois um filha deve voltar com o barco; agora ele vai, manda a outra filha voltar também, e por fim irão as duas filhas juntas.

Três soldados e Dois rapazes

Três soldados têm de atravessar um rio que não tem ponte. Dois rapazes concordaram em ajudar os soldados, mas o barco é tão pequeno que só dá para um soldado ou para os dois rapazes. Um soldado e um rapaz não podem estar no barco ao mesmo tempo. Dado que nenhum dos soldados sabe nadar, parece que nestas circunstâncias apenas um soldado conseguirá atravessar o rio. No entanto, os três soldados acabam por conseguir atravessar o rio e devolvem o barco aos rapazes.










Solução:

1) Os dois rapazes levam o barco até o outro lado do rio, um rapaz fica na margem oposta, e o outro volta para trazer o barco para os soldados.

2) Aí um soldado, o primeiro, atravessa o rio sozinho; e o outro rapaz traz o barco de volta.

3) Os dois rapazes atravessam novamente o rio. Um fica na outra margem, e o outro traz o barco de volta.

4) Atravessa o segundo soldado. O rapaz do outro lado traz o barco de volta.

5) Voltam os dois rapazes, repetindo a mesma operação. Um fica e outro traz o barco de volta para a travessia do terceiro e último soldado, que entrega o barco para o rapaz, que volta para a margem onde estava atracado o barco.

Raul Pompeia



Depressivo, escritor se matou após controvérsia política.

Raul Pompeia teve sua carreira de escritor e jornalista interrompida por causa de um discurso inflamado que fez no cemitério São João Batista, em Botafogo, no sepultamento do ex-presidente Floriano Peixoto, a quem ele apoiava como político, afinal tinha cargo de confiança no governo e era época de eleição. O candidato eleito foi prudente de Moraes, que, por sinal, nada gostou e demitiu Pompeia das funções de Diretor da Biblioteca Nacional e de professor de Mitologia da Escola Nacional de Belas Artes.

Isso o deixou impaciente, mais ainda com os ataques pessoais dos colegas e a recusa deles de publicar seus escritos para explicar o porquê do discurso no cemitério. Atuante nos debates de seu tempo, defensor do abolicionismo e da República, Pompeia era de pavio curto. Ele já tinha uma doença chamada depressão. Quando ficava depressivo, sua mãe o tratava.

No dia de Natal de 1895, chegou em casa e falou para ela: “Mãe, as provas estão corrigidas e pagas”. Eram as provas de “O Ateneu”, que havia vendido no ano anterior aos livreiros Alves e Cia. A mãe e as irmãs perguntavam o que tinha acontecido, ele só respondia que estava tudo bem. Todas o vigiavam e rezavam o tempo inteiro, e ele mergulhado naquela crise terrível de neurastenia. Pompeia recolheu-se em seguida ao quarto com sacada que dava para a rua. Decidido, escreveu algumas linhas que lacrou num envelope para ser entregue à redação de A Notícia:

“À ilustrada redação d′A Notícia.

Cumpro o dever de comunicar que, não havendo sido publicado o segundo artigo da minha colaboração, aceita, aliás, em termos benévolos, considero como sem efeito essa aceitação e agradeço a inserção do 25 de dezembro de 1895. RAUL Pompeia.”

Tomou então a pena e rascunhou em meia folha de papel um curto bilhete, complemento do anterior, para reforçar as razões de seu gesto, a destacar o ponto central da enorme confusão de ideias que lhe rondava a mente.

“À Notícia e ao Brasil declaro que sou um homem de honra”. Depois de datar e assinar, recostou-se a um divã e deu um tiro no peito. Eram 13h. Uma vez, dissera: “As horas da Vida são doze. Mas uma hora existe que não incluímos nos reguladores da existência: é a hora da morte.”

José Mário dos Santos*

*Diretor do centro Cultural Raul Pompeia, de Angra dos Reis (RJ), e organizador de um livro com as duas novelas escritas pelo autor, “Uma Tragédia no Amazonas” (1880) e “As Joias da Coroa” (1882), a ser lançada em breve.

(No Caderno de Sábado do Correio do Povo, dezembro de 2018)

Raul Pompeia


Por Daniele Fernanda Feliz Moreira*

→ Raul d’Ávila Pompeia foi um escritor brasileiro autor de uma das maiores obras do Realismo brasileiro, “O Ateneu” 1888. Filho de família abastada, pai magistrado e mãe dona de casa herdeira de ricos comerciantes portugueses, Raul Pompeia nasceu em 1863, em Angra dos Reis, e mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro em 1867, onde é matriculado em um colégio interno, concluindo depois os estudos secundários no Colégio Imperial Pedro II. Foi ainda como estudante do Pedro II, em 1880, com apenas 17 anos, que publicou seu primeiro romance, “Uma Tragédia no Amazonas”.

→ Concluídos os estudos secundários, Raul segue para São Paulo, para cursar Direito na Faculdade do Largo do São Francisco, instituição onde também havia se formado seu pai. É inicialmente bem recebido por entre os professores, contudo passa a enfrentar problemas no curso por conta de seus posicionamentos políticos contundentes em defesa da abolição da escravatura e da causa republicana.

→ Divergiu de colegas republicanos paulistas em virtude de estes não apoiarem também a abolição da escravatura. Alguns professores se incomodavam com o temperamento de Pompeia, tido como impávido, e criticavam as ideias propagadas por ele e por colegas de forma direta e sem rodeios. Pompeia e outros colegas foram reprovados no terceiro ano do curso. Os alunos receberam apoio da imprensa da época, pediram reexame e conseguiram aprovação com nota mínima, mas foi novamente reprovado no ano seguinte, agora juntamente a outros 94 estudantes, partindo, então, para terminar o curso na Faculdade de Direito de Recife.

→ Após concluído o curso, Pompeia não chegou a exercer a profissão de advogado e passou a escrever para vários jornais da época. Entre estes, o jornal Gazeta de Notícias, veículo pelo qual viria mais tarde a publicar “O Ateneu”, uma crônica que lhe consagrou por entre a crítica da época.

→ Após a queda do Império, com o início da ditadura de Floriano Peixoto, Pompeia é nomeado presidente da Academia de Belas Artes. O governo de Floriano Peixoto, contudo, enfrentava fortes resistências, por entre as quais figuravam vários nomes de amigos próximos de Raul Pompeia, fato que levou ao rompimento de diversas dessas relações de amizade. Após a saída de Floriano Peixoto, com a entrada de Prudente de Morais, Pompeia é desligado do cargo que ocupava como diretor da Biblioteca Nacional, após um inflamado discurso em que saía em defesa de Floriano Peixoto. Os vários atritos políticos com os amigos, por entre os quais, Olavo Bilac e Luís Murat, este amigo dos tempos da faculdade em São Paulo, levaram Pompeia ao suicídio em 1895, no escritório da casa onde residia com sua mãe, deixando um bilhete em que se lia “Ao Jornal A Notícia, e ao Brasil, declaro que sou um homem de honra”.

*Mestre em Ciências Humanas (CEFETRJ, 2014); Especialista em Linguística, Letras e Artes (CEFETRJ, 2013); Graduada em Letras - Literatura e Língua Portuguesa (UFRJ, 2011).



segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Trapezista

Luis Fernando Veríssimo


Querida, eu juro que não era eu. Que coisa ridícula! Se você estivesse aqui – Alô? Alô? – olha, se você estivesse aqui ia ver a minha cara, inocente como o Diabo. O quê? Mas como, ironia? “Como o Diabo” é força de expressão, que diabo. Você acha que eu ia brincar numa hora desta? Alô! Eu juro, pelo que há de mais sagrado, pelo túmulo de minha mãe, pela nossa conta no banco, pela cabeça dos nossos filhos, que não era eu naquela foto de carnaval no Cascalho que saiu na Folha da Manhã. O quê? Alô! Alô! Como é que eu sei qual é a foto? Mas você não acaba de dizer… Ah, você não chegou a dizer… ah, você não chegou a dizer qual era o jornal. Bom, bem. Você não vai acreditar mas acontece que eu também vi a foto. Não desliga! Eu também vi a foto e tive a mesma reação. Que sujeito parecido comigo, pensei. Podia ser gêmeo. Agora, querida, nunca, em nenhum momento, está ouvindo? Em nenhum momento me passou pela cabeça a ideia de que você fosse pensar – querida, eu estou até começando a achar graça −, que você fosse pensar que aquele era eu. Por amor de Deus. Pra começo de conversa, você pode me imaginar de pareô vermelho e colar havaiano, pulando no Cascalho com uma bandida em cada braço? Não, faça-me o favor. E a cara das bandidas! Francamente, já que você não confia na minha fidelidade, que confiasse no meu bom gosto, poxa! O quê? Querida, eu não disse “pareô vermelho”. Tenho a mais absoluta, a mais tranquila, a mais inabalável certeza que eu disse apenas “pareô”. Como é que eu podia saber que era vermelho se a fotografia não era em cores, certo? Alô? Alô? Não desliga! Não… Olha, se você desligar está tudo acabado. Tudo acabado. Você não precisa nem voltar da praia. Fica aí com as crianças e funda uma colônia de pescadores. Não, estou falando sério. Perdi a paciência. Afinal, se você não confia em mim não adianta nada a gente continuar. Um casamento deve se… se… como é mesmo a palavra?… se alicerçar na confiança mútua. O casamento é como um número de trapézio, um precisa confiar no outro até de olhos fechados. É isso mesmo. E sabe de outra coisa? Eu não precisava ficar na cidade durante o carnaval. Foi tudo mentira. Eu não tinha trabalho acumulado no escritório coisíssima nenhuma. Eu fiquei sabe para quê? Para testar você. Ficar na cidade foi como dar um salto mortal, sem rede, só para saber se você me pegaria no ar. Um teste do nosso amor. E você falhou. Você me decepcionou. Não vou nem gritar por socorro. Não, não me interrompa. Desculpas não adiantam mais. O próximo som que você ouvir será do meu corpo se estatelando, com o baque surdo da desilusão, no duro chão da realidade. Alô? Eu disse que o próximo som... que… O quê? Você não estava ouvindo nada? Qual foi a última coisa que você ouviu, coração? Pois sim, eu não falei – tenho certeza absoluta que não falei – em “pareô vermelho”. Sei lá que cor era o pareô daquele cretino na foto. Você precisa acreditar em mim, querida. O casamento é como um número de… Sim. Não. Claro. Como? Não. Certo. Quando você voltar pode perguntar para o… Você quer que eu jure? De novo? Pois eu juro. Passei sábado, domingo, segunda e terça no escritório. Não vi carnaval nem pela janela. Só vim em casa tomar um banho e comer um sanduíche e vou logo voltar para lá. Como? Você telefonou para o escritório? Meu bem, é claro que a telefonista não estava trabalhando, não é, bem? Ha, ha, você é demais. Olha, querida? Alô? Sábado eu estou aí. Um beijo nas crianças. Socorro. Eu disse, um beijo.

(Do livro “As Mentiras que os Homens Contam”)

Gafieira Elite



→ Instalada no mesmo local desde sua fundação, a Gafieira Elite − que viveu seu apogeu com memoráveis bailes orquestrados, serviu de cenário para filmagens e para iniciar amizades − continua animando as noites cariocas e diversificando sua programação, para atrair cada vez mais as novas gerações.

→ Inaugurada com o nome de Elite Club em julho de 1930 pelo proprietário, o português Júlio Simões, logo passou a receber a visita dos mais importantes personagens do mundo artístico. Certa vez, chegou à entrada um jornalista meio embriagado e vestido de maneira inadequada. Ao ser interpelado, ficou irritado e exclamou que “Aquilo era um lugar de gafe, e não um clube de dança!”. O caso acabou sendo citado no jornal e foi a deixa para Seu Júlio rebatizar a casa de Gafieira Elite. Por volta dos anos 50, a Gafieira foi vendida a Juan Page e continua com a mesma família até hoje, sendo gerenciada atualmente por Ester Page.

→ Os bailes da Elite eram sempre animados por grandes orquestras, havia concurso de Musa ou Rainha da Gafieira, dançarinos profissionais davam show na pista e grandes cantores lá se apresentaram, legitimando o sucesso da casa. Para controlar a animação do eclético público, foi criado um estatuto com regras de comportamento que incluíam desde o modo de se vestir aos acalorados beijos na boca. As normas eram tão importantes que o tema serviu de inspiração para Billy Blanco compor a música “Estatuto da Gafieira”. Com o passar dos tempos, algumas regras tiveram que ser abolidas − como entrar de tênis, por exemplo − mas os beijos muito quentes ainda são evitados.

→ Outra adaptação foi feita na programação da casa, que mantém os bailes tradicionais apenas no primeiro e terceiro domingos de cada mês, na chamada Domingueira da Paulinha. Nos outros dias, a juventude lota a pista com festas temáticas e animadas até o dia seguinte clarear. A garotada adora saber que está curtindo o lugar que seus avós frequentavam.

→ Seja através dos mais jovens ou dos mais idosos, como muitos casais que voltam aos bailes para reviver as lembranças do lugar onde se conheceram, a Gafieira Elite vai continuar exercendo sua eterna vocação, proporcionando ao seu cativo público momentos inesquecíveis de pura diversão.


(do Blog Guia Cultural do Centro Histórico do Rio de Janeiro)

Atualmente, com sua charmosa decadência, o local tem um perfil jovem, alternativo e descontraído. As festas sazonais que acontecem nos finais de semana tem como repertório a música brasileira dançante, como Novos Baianos, Mutantes, Chico Science & Nação Zumbi, entre outros. Os preços são acessíveis, inclusive, no bar, que vende três garrafas de cerveja por R$10.

Pelo palco da Gafieira passou muita gente consagrada da música brasileira. Entre tantos, Orquestra Raul de Barros, Orquestra Maestro cipó, Orquestra Tabajara, Caetano Veloso, João Bosco, Beth Carvalho, Billy Blanco, Elba Ramalho e muito, muito mais.


Orquestra Tabajara

Baile no Elite*

João Nogueira e Nei Lopes

Fui a um baile no Elite, atendendo a um convite
Do Manoel Garçom (Meu Deus do Céu, que baile bom!).
Que coisa bacana, já no Campo de Santana
Ouvir o velho e bom som: trombone, sax e pistom.
O traje era esporte, que o calor estava forte,
Mas eu fui de jaquetão, para causar boa impressão.
Naquele tempo era o requinte o linho S-120,
E eu não gostava de blusão (É uma questão de opinião).

Passei pela portaria, subi a velha escadaria
E penetrei no salão. (Quase morri do coração!)**
Quando dei de cara com a Orquestra Tabajara,
E o popular Jamelão, cantando só samba-canção.
Norato e Norega, Macaxeira e Zé Bodega
Nas palhetas e metais (E tinha muitos outros mais.)
No clarinete, o Severino solava um choro tão divino
Desses que já não tem mais (E ele era ainda bem rapaz...).

Refeito dessa surpresa, me aboletei na mesa,
Que eu tinha já reservado (Até paguei adiantado).
Manoel, que é dos nossos, trouxe um pires de tremoços,
Uma cerveja e um traçado (Pra eu não pegar um resfriado).
Tomei minha Brahma, levantei, tirei a dama,
E iniciei meu bailado (No puladinho e no cruzado).
Até Trajano e Mário Jorge, que são caras que não fogem,
Foram se embora humilhados (Eu tava mesmo endiabrado!).

Quando o astro-rei já raiava e a Tabajara caprichava
Seus acordes finais (Para tristeza dos casais).
Toquei a pequena, feito artista de cinema,
Em cenas sentimentais (À luz de um abajur lilás).
Num quarto sem forro, perto do pronto-socorro,
Uma sirene me acordou (Em estado desesperador!).
Me levantei, lavei o rosto, quase morto de desgosto,
Pois foi um sonho e se acabou
(Seu Nélson Motta deu a nota
que hoje o som é rock and roll.)***
(O papo e pop e o hip-hop já chegou e dominou.)****
A Tabajara é muito cara e o velho tempo já passou...).


→ Gafieira Elite continua recebendo muitas presenças ilustres e tem Alcione como madrinha da Casa. O palco do local se chama João Nogueira. Para atrair os jovens, o espaço vem recebendo festas alternativas, mantendo a boemia carioca viva.

*Esta música está na Internet na voz de vários intérpretes, principalmente na voz dos autores: João Nogueira e Nei Lopes.

**Este breque não existe na gravação de João Nogueira, só na de Nei Lopes.

***Este breque existe na gravação de João Nogueira.

**** Este breque existe na gravação de Nei Lopes.

Gafieira Elite

Casa de dança de salão funciona desde 1930 em sobrado histórico e tem ambiente bem animado, música e cervejas.
Endereço: Rua Frei Caneca, 4 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20211-030
Horário: abre sexta-feira às 23 horas
Telefone: (21) 98181-8030 e (21) 3902-9364


sábado, 22 de dezembro de 2018

Canção do Exílio às Avessas



Em 1992, quando o país inteiro pintou a cara de verde e amarelo pra exigir a saída do Collor da Presidência, o Jô Soares Onze e meia foi chamado de “sucursal noturna do impeachment”. O despudor, a arrogância, a ostentação e as atividades ilícitas do período Collor foram acompanhados também na minha coluna de humor da Veja. Alguns desses textos foram aproveitados no livro Humor nos tempos do Collor (o título é uma brincadeira com O amor nos tempos do Cólera, de Gabriel García Márquez), uma antologia de textos do Millôr, do Veríssimo e meu sobre o período, publicada pela L&PM..

Collor ficara particularmente irritado com a paródia do poema “Canção do exílio”, do Gonçalves Dias, que fiz na minha coluna, brincando com a sua morada em Brasília, a Casa da Dinda. O título era “Canção do exílio às avessas”:

(Texto do livro “O Livro de Jô uma autobiografia desautorizada,
Volume 2, de Jô Soares e Matinas Suziki Jr.)

Canção do Exílio às Avessas*

Jô Soares

Minha Dinda tem cascatas
Onde canta o curió
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.
Minha Dinda tem coqueiros
Da Ilha de Marajó
As aves, aqui, gorjeiam
Não fazem cocoricó.

O meu céu tem mais estrelas
Minha várzea tem mais cores.
Este bosque reduzido
deve ter custado horrores.
E depois de tanta planta,
Orquídea, fruta e cipó,
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.

Minha Dinda tem piscina,
Heliporto e tem jardim
feito pela Brasil's Garden:
Não foram pagos por mim.
Em cismar sozinho à noite
sem gravata e paletó
Olho aquelas cachoeiras
Onde canta o curió.

No meio daquelas plantas
Eu jamais me sinto só.
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.
Pois no meu jardim tem lagos
Onde canta o curió
E as aves que lá gorjeiam
São tão pobres que dão dó.

Minha Dinda tem primores
De floresta tropical.
Tudo ali foi transplantado,
Nem parece natural.
Olho a jabuticabeira
dos tempos da minha avó.
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.

Até os lagos das carpas
São de água mineral.
Da janela do meu quarto
Redescubro o Pantanal.
Também adoro as palmeiras
Onde canta o curió.
Não permita Deus que eu tenha
De voltar pra Maceió.

Finalmente, aqui na Dinda,
Sou tratado a pão-de-ló.
Só faltava envolver tudo
Numa nuvem de ouro em pó.
E depois de ser cuidado
Pelo PC, com xodó,
Não permita Deus que eu tenha
De acabar no xilindró.

(Do livro “Humor nos tempos do Collor)

* Canção do Exílio As Avessas é uma paródia de Jô Soares, usando como texto base a Canção do Exílio de Gonçalves Dias. Esse texto é um dos inúmeros textos parodísticos criados a partir do texto do poeta maranhense.


sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

As irmãs Batista



→ Dircinha e Linda Batista são casos exemplares de artistas que brilham em determinada época e, depois, são atropelados pelo tempo. Depois de fazerem sucesso entre os anos 1930 e 1950, sucumbiram às mudanças ocorridas no cenário musical na década de 1960. Mas não só: também sofreram com problemas psiquiátricos graves. A história das cantoras é lembrada neste episódio da série “A mulher na música brasileira”.


A cena era chocante e assustadora. No centro da sala, uma mulher gorda, o corpo coberto de feridas, os cabelos desgrenhados, dizia palavrões e ameaçava com uma espécie de borduna a todos que se aproximavam. Próximo, outra mulher vestida com trapos, ria histericamente e dizia palavras desconexas. A um canto, encolhida e catatônica, uma terceira mulher extremamente magra permanecia calada, o olhar perdido. As três mulheres eram irmãs − e pelo menos duas tinham sido famosas: as cantoras Dircinha (63 anos) e Linda Batista (66), e Odete (70), a mais velha.

O apartamento 301 do prédio nº 625 da rua Barata Ribeiro, em Copacabana, estava semidestruído, tacos estavam soltos, as paredes rabiscadas e descascadas, janela quebradas, móveis arrebentados. Com dificuldades, o cantor José Ricardo, o delgado Rui Dourado e soldados do Corpo de Bombeiros conseguiram levar as irmãs até uma ambulância do Inamps, que as conduziu ao Hospital Psiquiátrico Pinel. Do Pinel, Linda foi levada às pressas para a Unidade de Terapia Intensiva da Clínica Rio-Cor. A agitação e a agressividade que a dominavam eram agravadas pela arritmia e pelo diabetes. Seu estado foi considerado crítico pelos médicos que a atenderam. Dircinha e Odete foram levadas para a Casa de Saúde Doutor Eiras. Ambas estavam devastadas pela arteriosclerose e pela desnutrição em grau elevado.

Quem poderia imaginar que ali estavam duas das maiores cantoras brasileiras? Duas cantoras que desfrutaram de fama, riqueza e prestígio, que se tornaram as preferidas de Getúlio Vargas. Que cantaram e interpretaram grandes e inesquecíveis sucessos, até hoje lembrados. Como chegaram àquele ponto?

(Do livro “As Divas da Rádio Nacional”, de Ronaldo Conde Aguiar)


Linda Batista - 1952

→ Florinda Grandino de Oliveira (São Paulo, 14 de junho de 1919 − Rio de Janeiro, 17 de abril de 1988), mais conhecida como Linda Batista, foi uma cantora e compositora brasileira. Era filha de Batista Júnior e irmã de Dircinha Batista.

→ Faleceu em 17 de abril de 1988, vítima de embolia pulmonar, na cidade do Rio de Janeiro.


A família Batista: Batista Júnior e seus bonecos,
e suas filhas: Dircinha, à esquerda e Linda, à direita.


À direita, no microfone, Dircinha Batista.

→ Dirce Grandino de Oliveira, conhecida como Dircinha Batista, à direita, no microfone, (São Paulo, 7 de abril de 1922 − Rio de Janeiro, 18 de junho de 1999) foi uma atriz e cantora brasileira.

→ Vítima de parada cardíaca, a cantora Dircinha Batista morreu às 2h30 de ontem, 18 de junho de 1999, no hospital São Lucas, em Copacabana, na zona sul do Rio. A cantora, que tinha 77 anos e sofria de uma grave disfunção cardíaca, deu entrada na Unidade Coronariana do hospital por volta da 1h, com edema pulmonar agudo e insuficiência respiratória.

P.S. A coleção Irmãs Batista foi doada ao MIS-RJ, em 1988, por Hermínio Bello de Carvalho e é composta por troféus, discos, documentos iconográficos e textuais, entre roteiros, letras de músicas, além de revistas e álbuns com recortes de jornais sobre suas trajetórias artísticas.


Getúlio Vargas, Hermínio Bello de Carvalho e Linda Batista


Ingresso no portão celestial



O Céu estava ficando muito congestionado, então Deus decidiu modificar as normas para ingresso no portão celestial. A nova lei consistia no seguinte: para ser admitido no Céu, o dia da sua morte deveria ter sido um dia realmente terrível. A lei entraria em vigor à meia-noite do dia seguinte.

Sendo assim, a meia-noite e 1 minuto do dia seguinte chega a primeira pessoa nos portões do Céu. O anjo encarregado do portão, lembrando-se da nova lei, prontamente perguntou ao homem:

 Antes de você entrar, eu preciso que me conte como foi o dia em que você morreu.

 Sem problemas, disse o homem. Há algum tempo eu vinha desconfiando que minha mulher estivesse tendo um caso. Eu acreditava que todos os dias na hora do almoço ela trazia seu amante pro nosso apartamento que ficava no 25° andar de um prédio e fazia sexo com ele. Então ontem eu estava indo pra casa para pegá-los. Bem, cheguei lá e entrei rapidamente, começando a procurar o tal rapaz. Minha esposa estava seminua e gritando comigo enquanto eu dava uma busca por todo o apartamento. Mas não conseguia encontrá-lo de jeito nenhum! Quando eu estava quase para desistir, olhei para a sacada do apartamento e percebi que havia uns dedos dependurados. O diabo do rapaz achava que poderia se esconder de mim! Então, eu corri lá para sacada e bati nos seus dedos até que ele largou e caiu lá de cima. Mas você não pode imaginar sua sorte, pois ele caiu em cima de alguns galhos que amorteceram sua queda e ele não morreu. Num acesso de raiva eu entrei no apartamento e peguei a coisa mais pesada que tivesse pra jogar em cima dele. Desliguei a geladeira da tomada e com raiva a atirei lá do 25° andar bem em cima dele. A emoção do momento foi tão grande que em seguida eu tive um ataque do coração e morri quase que instantaneamente.

O anjo sentou e pensou por alguns instantes. Tecnicamente o rapaz teve realmente um péssimo dia e o crime dele foi passional, então o anjo disse:

 OK, senhor, bem-vindo ao Reino dos Céus! − e deixou-o entrar.

Poucos segundos depois, chegou o próximo da fila.

 Ok, eis as regras: antes de deixá-lo entrar, preciso ouvir a respeito do dia de sua morte.

 Claro. Respondeu o homem. Eu estava na sacada do meu apartamento no 26° andar fazendo meus exercícios diários quando escorreguei e cai pela lateral da sacada! Por sorte, no entanto, eu fui capaz de me segurar na sacada imediatamente abaixo da minha. Qual não foi a minha surpresa quando apareceu um homem maluco e ficou batendo nos meus dedos até que eu soltasse e obviamente caísse lá de cima. Eu caí em cima de algumas árvores e galhos que amorteceram minha queda, de modo que eu não morri de imediato. Quando eu estava lá, de rosto pra cima, incapaz de me mover e gemendo de dor eu vi o homem empurrar uma geladeira pela sacada e ela caiu exatamente em cima de mim e me matou.

O anjo quieto e rindo para si mesmo enquanto o homem terminava sua história pensou e disse:

 Muito bem, bem-vindo ao Reino dos Céus! − e deixou o homem entrar.

Poucos segundos depois, o terceiro homem da fila chega ao portão.

 Conte-me como foi o dia em que você morreu.

 Tá legal, mas você não vai acreditar: Eu estava pelado dentro de uma geladeira...