domingo, 5 de abril de 2026

Ser professor

 

Há profissões que operam à vista: constroem pontes, curam feridas, erguem edifícios. O trabalho do professor, ao contrário, acontece no invisível ‒ e talvez por isso seja tão frequentemente subestimado. Ele não entrega objetos, entrega deslocamentos. Não forma apenas competências; insinua perguntas que o aluno carregará por décadas, às vezes sem saber de onde vieram. Um bom professor não é o que ocupa espaços, mas o que cria espaço dentro do outro. Sua matéria-prima não é o conteúdo, mas a escuta; seu instrumento mais sofisticado, a dúvida. Ensinar, nesse sentido, é um gesto quase indisciplinado: introduz fissuras no pensamento automático, desorganiza certezas confortáveis, amplia o campo do possível. A memória que fica raramente é a aula perfeita. É o comentário lateral, a provocação fora de hora, o olhar que reconhece uma inteligência ainda em estado bruto. Professores não só moldam; tensionam. Não conduzem pelo caminho seguro; apontam o risco de pensar por conta própria ‒ o que, convenhamos, é muito mais perigoso e muito mais libertador. Num tempo que valoriza respostas rápidas e resultados mensuráveis, o professor insiste no que não se mede: a lenta maturação de uma ideia, a coragem de sustentar uma pergunta, o direito de não saber imediatamente. É um trabalho de longo prazo, quase clandestino, cujo impacto só se revela quando já não há mais sala de aula. No fim, talvez ensinar seja isso: desaparecer aos poucos enquanto o outro começa, finalmente, a aparecer. 

Valéria Surreaux,

Do leitor, Correio do Povo, abril de 2026


sábado, 4 de abril de 2026

Teste do gato preguiçoso

Teste que realizam na Universidade de Salamanca, Espanha, para quem vai ingressar no curso de Linguística. Tente ler sem errar...

O gato assim fez.


O gato é fez.


O gato como fez.


O gato se fez.


O gato mantém fez.


O gato um fez.


O gato folgado fez.


O gato ocupado fez.


O gato por fez.


O gato quarenta fez.


O gato segundos fez. 

Segue...


Agora leia somente a terceira palavra de cada uma das frases,

de cima para baixo,  e não resistirás à vontade de reenviá-lo.

Diga que não é verdade?

Crônica do Tempo

Um pequeno drama brasileiro

Rolando Boldrin.

Pra mim, o mundo é um relógio, e o dinheiro é a mola que controla os relógios desta vida. 

Se o senhor tiver tempo pra ouvir minha historia, eu começo lhe contando que toda minha vida foi um desencontro entre o tempo e as oportunidades. 

Deus nosso senhor que me perdoe a sinceridade, mas até hoje não entendi por que é que pra tudo na minha vida eu sempre cheguei muito tarde ou muito cedo. 

Pra começar, nasci fora de tempo, sou de sete meses, e se foi cedo demais pra dar dores e tristezas à minha mãe com essa minha pressa de nascer, foi tarde demais pra dar alegria ao meu pai, coitado, ele morreu antes de me conhecer, ai começa o meu rosário com o tempo. 

Já na idade de ir pra escola, foi um tormento, minha mãe, coitada, corria pra lá e pra cá comigo de mão dada e sempre recebendo o mesmo desengano, coitada. “Não pode, dona, só pro ano que vem, é cedo ainda” ou, então, “Tarde demais, dona, as matriculas já estão todas fechadas”. 

Com o tempo, eu fui crescendo, já mocinho, eu procurava emprego, porta de oficina, serviço diferente, coisa de pequena paga e aquelas palavras do tempo me seguindo, sempre acontecendo comigo como um relógio do destino. “Olha, moço, não têm vagas, se você tivesse sido esperto... Agora o quadro de funcionários já está completo”. 

Eu me lembro que até pra o amor eu me atrasei, quando pra aquela garota, que eu gostava, me declarei, ela falou pra mim: “Você chegou tarde demais, já dei meu coração pra outro rapaz”. 

Mesmo assim, um dia me casei e desse casamento nasceu um menino muito bonito, foi a única coisa que me chegou na hora certa, porque ele foi a porta aberta para o meu riso, riso que eu já nem sabia mais como era o jeito. Dei a ele o nome de Vitório, ia ser meu grande vingador, pra me vingar do tempo, das horas, dos relógios e até dos segundos, pra me vingar dos donos desse relógio que é o mundo, o meu grande vingador... 

Vitório foi crescendo como pôde, logo já tinha cinco anos, e a vida, o tempo, como um inimigo traidor, sempre me espiando. Um dia, meu filho adoeceu como toda criança e eu trabalhava num faz-de-tudo, pra nada lhe faltar, num dia só, eu fui camelô, entregador de encomenda, jardineiro, tudo! 

E chegava em casa cansado e cheirando mal de suor, pra lhe abraçar e lhe beijar, e o coitadinho, doentinho dava dó, estava sofrendo. 

Então, trouxe o médico para vê-lo, que logo ele me disse, como homem bom que era: “Corre, vá logo comprar esse remédio, quem sabe com isso ele não melhora”.Como eu não tinha dinheiro para o remédio, peguei um despertador lá de casa, a única coisa de valor, pensando que podia vendê-lo num brechó e sai correndo muito. Até hoje não entendi porque ouvi uns gritos na rua: “Pega ladrão!” e gente se aproximando de mim, quem sabe pensando que eu era de fato algum ladrão, e foi soco, bordoada e quando eu pude perceber, já estava de pé na frente de um delegado. 

‒ Doutor, meu filho tá doente, tá morrendo, por favor, eu tenho aqui a receita olha, ‒ e supliquei já chorando e o delegado, já acreditando em mim, disse ao guarda: “Pega o carro, leva o moço” e me dando do seu dinheiro, disse: “Corre, compra o remédio do seu filho”. E eu fui correndo e comprei o remédio e voltei como um raio, mas, como sempre na vida, eu corri contra o tempo, esse covarde! 

Quando abracei meu filho foi que eu vi, mais uma vez eu tinha chegado tarde...

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Era uma vez uma choupana

 

A história do casamento de Maria Benedita é curta; e, posto Sofia a ache vulgar, vale a pena dizê-la. Fique desde já admitido que, se não fosse a epidemia das Alagoas, talvez não chegasse a haver casamento; donde se conclui que as catástrofes são úteis, e até necessárias. Sobejam exemplos; mas basta um contozinho que ouvi em criança, e que aqui lhes dou em duas linhas. 

Era uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona, ‒ um triste molambo de mulher ‒ chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era dela. 

‒ É minha, sim, meu senhor; é tudo o que eu possuía neste mundo. 

‒ Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto? 

O padre que me contou isto certamente emendou o texto original; não é preciso estar embriagado para acender um charuto nas misérias alheias. Bom padre Chagas! ‒ Chamava-se Chagas. ‒ Padre mais que bom, que assim me incutiste por muitos anos essa ideia consoladora, de que ninguém, em seu juízo, faz render o mal dos outros; não contando o respeito que aquele bêbado tinha ao princípio da propriedade, ‒ a ponto de não acender o charuto sem pedir licença à dona das ruínas. Tudo ideias consoladoras. Bom padre Chagas! 

(Texto de Machado de Assis no livro Quincas Borba)

quarta-feira, 1 de abril de 2026

A causa do resfriado

 

O resfriado é uma infecção viral das vias aéreas superiores, causada principalmente por rinovírus, embora mais de 200 tipos de vírus (como adenovírus e parainfluenza) possam provocá-lo. Diferente da gripe, os resfriados são mais leves, com sintomas que incluem coriza, espirros, dor de garganta e febre baixa.  

Causas e Transmissão: 

Vírus: O rinovírus é responsável pela maioria dos casos. 

Contágio: Transmitido pelo ar através de gotículas de tosse/espirro ou por contato físico com secreções nasais de uma pessoa infectada (tocando olhos, nariz ou boca). 

Ambientes: A infecção é comum na primavera e no outono, espalhando-se rapidamente em ambientes fechados.  

A melhor prevenção inclui lavar as mãos frequentemente e evitar contato direto com pessoas infectadas.  

O resfriado comum é uma infecção causada por uma grande variedade de vírus, sendo o rinovírus o mais comum entre eles. Essa condição acomete pessoas de qualquer idade e gênero e pode ter relação com a chegada dos dias frios e amenos, devido ao fato de que, durante o inverno, as pessoas passam mais tempo em locais fechados e sem circulação de ar, o que facilita a transmissão desses microrganismos. 

Apesar de muita gente confundir, o resfriado não é a mesma coisa que a gripe. Isso porque, no primeiro caso, os principais sintomas costumam ser relacionados à região do nariz, enquanto a gripe, causada pelo vírus Influenza, também pode vir acompanhada de febre e evoluir para pneumonia, otite e sinusite.

Quais são as causas do resfriado? 

O resfriado é uma doença infecciosa provocada por mais de 200 tipos conhecidos de vírus, sendo o rinovírus o mais comum. Outros incluem o adenovírus e o parainfluenza. 

De modo geral, um resfriado dura de sete a dez dias, porém, é possível tomar alguns cuidados para uma melhor recuperação, como manter-se hidratado, dormir oito horas por noite e seguir uma alimentação leve. 

Diferentemente da gripe, ainda não há vacinas que sejam capazes de evitar os resfriados. 

Entre os principais sintomas de resfriado estão: 

Febre baixa, garganta irritada, coceira no nariz, congestão nasal, coriza, espirros, olhos lacrimejando, sensação de mal-estar. 

Embora não haja um tratamento específico para curar o resfriado, a recuperação ocorre espontaneamente, ou seja, o corpo combate o vírus por conta própria. 

O Pescador e o Gênio

 Mário Corso

O pescador puxa a rede para dentro do barco. Entre os peixes há uma garrafa antiga. Ele retira a rolha e aparece um gênio. 

‒ Você me libertou, por isso lhe concedo dois desejos. 

‒ Dois? Sempre escutei que são três. 

‒ Acontece, o pessoal escuta isso em contos de fadas, mas não vai buscar informação científica de boas fontes. Na norma são dois pedidos. Vale desde o reinado de Nabucodonosor. E eu sou um gênio, não venha me ensinar meu serviço. 

‒ Desculpa, é a minha primeira vez com um gênio. 

‒ Sem problema. Devo informar que você não pode me pedir para matar ou ferir pessoas. Não podes pedir para alongar a sua vida. Não podes pedir para que alguém se apaixone por ti, tampouco obter favores sexuais de alguma pessoa. Não podes falar com os mortos. Não podes voltar no tempo nem ir para o futuro. Não podes pedir para rejuvenescer. Não podes pedir ações que possam ferir animais. 

‒ Então, se eu pedir um banquete, teria que ser vegano? 

‒ Exatamente, vejo que pegaste o espírito da coisa. 

Complementando, não posso fornecer nem álcool nem drogas. 

‒ E se pedir uma Ferrari? 

‒ Desculpa, mas o uso dela excede a cota de emissões de carbono. Poderia até consultar o comitê ecológico, mas o prazo é ao redor de ter anos úteis. Interessa? 

‒ E um título para o Internacional, pode ser? 

‒ Infelizmente a casa não trabalha com futebol. 

‒ E se eu pedir dinheiro? 

‒ Não posso me envolver em fraude fiscal, não posso criar dinheiro nem roubar, de modo que fica difícil. 

‒ Mas o que posso pedir? 

‒ Qualquer coisa. 

‒ Mas é uma qualquer coisa muito chinfrim. 

‒ Que nada, use sua imaginação. 

‒ Sinceramente, seus poderes são limitados. 

‒ Trata-se das novas limitações éticas do código dos gênios. Eu posso tudo, mas nem tudo é permitido. 

‒ Minha mulher queria muito operar os seios. 

‒ Bah, se ela estivesse doente eu curava, mas plástica o plano não cobre. 

Neste momento o pescador se deu conta que esse gênio era o mesmo do que o mundo sempre foi para com ele: sonhar com queijo e receber tofu. 

‒ Desejo que você entre de volta na garrafa. 

‒ Seu desejo é uma ordem. 

Em um segundo, o gênio estava dentro da garrafa. 

O pescador pegou a rolha e a recolocou na garrafa e a jogou de volta ao mar. 

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Do jornal Zero Hora, abril de 2026

segunda-feira, 30 de março de 2026

Anatomia de um narcisista

 

► Fora de casa é carismático e exemplar. 

► Usa o seu charme como ferramenta de controle. 

► Inverte a sua culpa para a vítima. 

► Minimiza as dores e os sentimentos alheios. 

► É um controlador disfarçado de protetor. 

► Tem duas versões na ponta da língua: a pública e a privada. 

► Precisa parecer perfeito para não ser responsável. 

► Sempre manipula suas narrativas. 

► Nunca assume seus erros, a culpa sempre é do outro. 

► Sempre usa o silêncio, ameaça ou vitimização como estratégia. 

► Desqualifica o outro emocionalmente. 

► Isola qualquer mulher das redes de apoio. 

► Faz a vítima duvidar da própria percepção dos fatos. 

Narcisistas não constroem relações. 

Eles constroem imagens. 

@SingularHeart

A lenda de Narciso, da mitologia grega, conta a história de um jovem de beleza extraordinária, filho do rio Cefiso e da ninfa Liríope, que desprezava seus pretendentes. Amaldiçoado após esnobar a ninfa Eco, Narciso apaixonou-se pelo próprio reflexo em uma fonte, definhando de amor e morrendo à beira da água, transformando-se na flor de narciso. 

Narcisista é alguém com um padrão de grandiosidade, necessidade excessiva de admiração e falta de empatia pelos outros. Eles possuem uma imagem idealizada e falsa de si mesmos, usada para esconder uma profunda insegurança e vazio interno. Geralmente arrogantes, buscam validação constante e podem ser manipuladores em relacionamentos.