domingo, 5 de abril de 2026

Ser professor

 

Há profissões que operam à vista: constroem pontes, curam feridas, erguem edifícios. O trabalho do professor, ao contrário, acontece no invisível ‒ e talvez por isso seja tão frequentemente subestimado. Ele não entrega objetos, entrega deslocamentos. Não forma apenas competências; insinua perguntas que o aluno carregará por décadas, às vezes sem saber de onde vieram. Um bom professor não é o que ocupa espaços, mas o que cria espaço dentro do outro. Sua matéria-prima não é o conteúdo, mas a escuta; seu instrumento mais sofisticado, a dúvida. Ensinar, nesse sentido, é um gesto quase indisciplinado: introduz fissuras no pensamento automático, desorganiza certezas confortáveis, amplia o campo do possível. A memória que fica raramente é a aula perfeita. É o comentário lateral, a provocação fora de hora, o olhar que reconhece uma inteligência ainda em estado bruto. Professores não só moldam; tensionam. Não conduzem pelo caminho seguro; apontam o risco de pensar por conta própria ‒ o que, convenhamos, é muito mais perigoso e muito mais libertador. Num tempo que valoriza respostas rápidas e resultados mensuráveis, o professor insiste no que não se mede: a lenta maturação de uma ideia, a coragem de sustentar uma pergunta, o direito de não saber imediatamente. É um trabalho de longo prazo, quase clandestino, cujo impacto só se revela quando já não há mais sala de aula. No fim, talvez ensinar seja isso: desaparecer aos poucos enquanto o outro começa, finalmente, a aparecer. 

Valéria Surreaux,

Do leitor, Correio do Povo, abril de 2026


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