(Trecho do “O Livro dos Abraços”, de Eduardo Galeano)
A palavra e a publicidade
Se você busca a verdade, beba a cerveja Heineken. Quer autenticidade? Fume cigarros Winston. Busca a rebeldia? Compre uma máquina Canon. Está inconformado com a situação do mundo? Coma um hambúrguer da Burger King. Deseja afirmar sua personalidade? Use um cartão Visa. Quer defender o meio ambiente? Espelhe-se no exemplo da Shell. Hoje em dia, a publicidade tem a seu cargo o dicionário da linguagem universal. Se ela, a publicidade, fosse Pinóquio, seu nariz daria várias voltas ao mundo.
Mutilado Capilar
Os barbeiros me humilham cobrando meia tarifa.
Faz vinte anos que o espelho delatou os primeiros clarões debaixo da melena frondosa.
Hoje o luminoso reflexo de minha calva em vitrines e janelas e janelinhas me provoca estremecimento e horror.
Cada fio de cabelo que perco, cada um dos últimos cabelos, é um companheiro que tomba, e antes de tombar teve nome ou pelo menos número.
A frase de um amigo piedoso me consola:
- Se o cabelo fosse importante, estaria dentro da cabeça, e não fora.
Também me consolo comprovando que em todos esses anos caíram muitos de meus cabelos, mas nenhuma de minhas ideias, o que acaba sendo uma alegria, quando a gente pensa em todos os arrependidos que andam por aí.
Textos de Eduardo Galeano
Eduardo Hughes Galeano (03.09.1940, Montevidéu, Uruguai – 13.04.2015, Montevidéu, Uruguai) foi um jornalista e escritor uruguaio. É autor de mais de 40 livros, que já foram traduzidos em diversos idiomas. Suas obras transcendem gêneros ortodoxos, combinando ficção, jornalismo, análise política e História.

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