O cenário é triste. A paisagem inóspita circunda a posição avançada da fronteira. Casebres, uma cerca rústica, onde vive um punhado de sentinelas no deserto.
É ali um ponto vulnerável da Pátria. Com o comandante, são dezesseis homens vigilantes, numa hora em que perigos extremos ameaçam o Império. Os centros povoados estão longe, léguas e léguas. Os batalhões do governo gastariam dias para alcançar aquele posto lindeiro.
Um dia, o capitão Urbieda, com duzentos e cinquenta paraguaios, marcha na direção de Dourados. Ele sabe - e é ele mesmo quem o conta, para maior esplendor da tragédia do nosso patrício - que o ataque será decisivo, que o desequilíbrio de número é enorme, e, por isso, imagina que não terá de bater-se. Convida, por intermédio de um enviado, Antônio João a render-se. Quer poupá-lo e a seus subordinados.
O brasileiro surpreendendo-o, pergunta:
- Trazeis ordem do governo Imperial para que eu me renda ou entregue a praça?
O agente, mal refeito do espanto que lhe causa a indagação, retruca:
- Não. Mas trazemos duzentos e cinquenta homens para tomá-lo à força das armas.
- Então, meus senhores - responde o tenente da Cavalaria Brasileira -, retirai-vos.
- Enquanto me bater este coração, filho do País em que pisais, só obedeço à intimação dos meus próprios chefes e superiores.
- Preparar! Apontar!...
A uma descarga de quinze tiros respondeu uma descarga de duzentas cinquenta armas, e mais outra, até cessar a fuzilaria por falta de quem lhe respondesse. Ficou desse entrevero o bilhete de Antônio João:
“Sei que morro,
mas o meu sangue e de meus companheiros
servirá de protesto solene contra a
invasão do solo de minha Pátria”.
Tenente Antônio João
O Tenente Antônio João Ribeiro, patrono do Quadro Auxiliar de Oficiais, nasceu em Poconé (MT) em 24 de novembro de 1823. Naquele momento da História do Brasil, meados do Século XIX, existiam várias localidades brasileiras na região sul de Mato Grosso, entre elas uma diminuta colônia militar – a Colônia Militar de Dourados. Criada por decreto de 1856 e inaugurada em 1861, foi cenário de uma das páginas mais significativas da nossa História Militar. Foi lá que o Tenente Antônio João, comandando um destacamento de apenas 15 homens, empreendeu heroica resistência contra o invasor estrangeiro – superior em efetivos e meios.
Era um homem de forte personalidade e muita energia. Depois de ter assentado praça voluntariamente, em 1841, recebeu seguidas promoções por méritos: em 29 de julho de 1852, foi promovido a alferes e, em 1860, com menos de vinte anos de serviço, alcançou o posto de tenente. No dia 28 de dezembro de 1864, o Tenente Antônio João, então comandante da Colônia Militar de Dourados, tomou conhecimento da aproximação de uma força inimiga, de aproximadamente 300 homens, durante a Guerra da Tríplice Aliança. Determinou, então, que os poucos habitantes se retirassem para lugar mais seguro, permanecendo na Colônia com pequeno efetivo para resistir à invasão. Informou os superiores sobre a situação por meio de bilhete escrito a lápis que continha a frase que se tornaria imortal – “Sei que morro, mas o meu sangue e o de meus companheiros servirá de protesto solene contra a invasão do solo de minha Pátria”. No dia seguinte, as forças inimigas atacaram Dourados. Intimado a render-se, o Tenente Antônio João optou por combater e sacrificar a própria vida.
Antônio João, que honrou o Corpo de Oficiais do Exército Imperial, foi militar exemplar, simples, forjado na dureza das lides castrenses. A Instituição reconheceu seus méritos tornando-o Patrono do Quadro Auxiliar de Oficiais.

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