Eu chamaria a sua atenção com um título instigante, com uma capa bem elaborada, com uma ilustração cativante. Você não passaria pela minha estante sem me perceber, sem se voltar para mim, sem atender ao meu chamado silencioso e, ao mesmo tempo, incisivo: “Ei, psiu! Olhe pra mim! Aproxime-se! Não se constranja. Pode me tocar. Venha descobrir as muitas vidas que você poderá viver nas minhas páginas”.
Se eu fosse um livro...
Eu olharia firme nos seus olhos para ver o que se passa no seu cérebro e no seu coração enquanto você me lê. Os olhos, ainda que às vezes possam parecer oblíquos e dissimulados, raramente enganam. Alguém já disse, muito apropriadamente, que eles são os espelhos da alma. Espelhos mágicos: revelam os sentimentos contidos, as emoções mais autênticas, a curiosidade, o prazer, a verdadeira natureza de qualquer leitor.
Se eu fosse um livro...
Eu logo descobriria quem você é, por que me tomou em suas mãos, por que me acaricia com tanta ternura, por que aspira o meu perfume, por que me envolve com esse olhar penetrante, curioso, interessado, às vezes desconfiado, às vezes encantado e não raro apaixonado.
Se eu fosse um livro...
Eu retribuiria o seu interesse, as sua atenção, o seu tempo e a sua companhia. Comigo, você jamais se aborreceria. Eu te ofereceria aventuras, descobertas, surpresas, deleite, conforto e também amparo e consolo quando você recorresse a mim para serenar alguma inquietude da vida. Eu tentaria ser o seu amigo mais leal e devotado, aquele que escuta sem questionar, que fica a seu lado até você recuperar o fôlego e a paz.
Se eu fosse um livro...
Eu faria você voltar a ser criança, como sugeriu o grande cronista Rubem Alves: ler é brincar. Um livro é um brinquedo feito de letras. Eu faria você sonhar, como recomendou o poeta Fernando Pessoa no seu Livro do Desassossego: ler é sonhar pela mão de outrem. Inspirado em Paulo Freire, eu faria tudo para que sua leitura se transformasse num verdadeiro ato de amor.
Se eu fosse um livro... Eu pediria aos deuses da literatura para reencarnar como leitor.
(...)
Da crônica “Transmutação”, de Nílson Souza,
no jornal Zero Hora, 29 de abril de 2026.

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