quarta-feira, 8 de abril de 2026

Viver do Amor

 Chico Buarque

Pra se viver do amor.

Há que esquecer o amor.

Há que se amar,

Sem amar,

Sem prazer,

E com despertador,

‒ como um funcionário.

 

Há que penar no amor,

Pra se ganhar no amor.

Há que apanhar,

E sangrar,

E suar,

Como um trabalhador.

 

Ai, o amor,

Jamais foi um sonho.

O amor, eu bem sei,

Já provei,

E é um veneno medonho.

 

É por isso que se há de entender,

Que amar não é um ócio,

E compreender,

Que o amor não é um vício,

O amor é sacrifício,

O amor é sacerdócio,

Amar

É iluminar a dor,

‒ como um missionário.

*******

P.S.: Esta música é da “Ópera do Malandro”, uma peça brasileira do gênero musical escrita por Chico Buarque de Holanda, em 1978, e dirigida por Luís Antônio Martinez Corrêa.  

A música “Viver do Amor”, de Chico Buarque, composta para a Ópera do Malandro, aborda o amor não como um sentimento idealizado, mas como um ofício penoso, rotineiro e sacrificial. A letra compara o relacionamento ao trabalho braçal e burocrático, exigindo disciplina, sofrimento (“apanhar e sangrar”) e persistência diária, em vez de prazer espontâneo.  

Em “Viver do Amor”, Chico Buarque rompe com a visão idealizada do amor ao retratá-lo como uma tarefa exigente, distante do romantismo tradicional. A música compara o amor a profissões que exigem disciplina e sacrifício, como fica claro no verso: “há que se amar sem amar, sem prazer e com despertador – como um funcionário”. Aqui, Chico sugere que manter uma relação amorosa depende de esforço diário, rotina e até mesmo de abrir mão de desejos pessoais, afastando-se da ideia de paixão espontânea e prazerosa.

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