Texto de Paulo Mendes
A vida pode ser estressante, corrida, atribulada, cheia de compromissos. Mas pode ser, também, um jogo de bola ao cair da tarde, no lusco-fusco, no início da noite, num parque, numa quadra improvisada ou até mesmo num campinho rústico ao lado das taquareiras, num arrabalde de fronteira. No interior ou nas cidades. Um momento de sentir o mundo girar, como a bola, em mais um ano de Copa, ser dominada com habilidade e, num chutaço, ir morrer nas redes da goleira adversária. Como nos tempos de criança, quando jogávamos a valer, de pés descalços em pedaços de terra batida, em potreiros cheios de esterco de gado. Ali, só parávamos quando a mãe chamava para a janta e a contenda findava, independentemente do placar. A bola era de plástico, era pequena, era até furada, ou remendada com tentos, ou inventada, de trapos. As goleiras, de taquara. Virávamos Garrinchas, Pelés, Rivelinos. Éramos crianças e sonhávamos com o mundo que tínhamos pela frente. Como as bolas que davam mil voltas no ar. Hoje, a lâmpada prolonga a farra para muito além da escuridão. Outrora, até enxergar a bola, antes que a noite nossa alegria engolisse com sua boca de breu. Sobrou uma bola na garganta e uma voz engasgada gritando “gol”.
Do caderno +Domingo, Correio do Povo,
abril de 2026.

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