quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Duas peças

 Luís Fernando Veríssimo

 

Pai e Filha, 1951, 52, por aí. 

Pai – Minha filha, você vai usar... isso? 

Filha – Vou, pai. 

Pai – Mas aparece o umbigo! 

Filha – Que que tem? 

Pai – Você vai andar por aí com o umbigo de fora? 

Filha – Por aí, não. Só na praia. Todo mundo está usando duas-peças, pai. 

Pai – Minha filha... Pelo seu pai. Pelo nome da família. Pelo seu bom nome. Use maiô de uma peça só. 

Filha – Não quero! 

Pai – Então este ano não tem praia! 

Filha – Mas pai! 

Filha – Pai, vou usar maiô de uma peça. 

Pai – Muito bem, minha filha. Gostei da sua independência. Por que ser como todas as outras? Uma peça. Ótimo. Você até vai chamar mais atenção. 

Filha – Só não decidi ainda qual das duas, a de cima ou a de baixo. 

******* 

Luís Fernando Veríssimo. Zoeira. 5ͣ  edição. Porto Alegre: L&PM, 1987. Pág. 67.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Nada mais importa

 Marquinhos PQD* e Arlindo Cruz 

Nada mais importa,

se a solidão vier bater na sua porta,

se um novo amor fizer chover na sua horta,

faça o favor de ser feliz. 

Meu coração tão infeliz,

diz que nada mais importa,

se a saudade no teu peito não suporta,

é o nosso adeus escrito certo em linhas tortas,

eu quis amar, você não quis. 

E tanto faz se o seu olhar entristeceu e derramou,

pois este pranto você  fez por merecer,

e o meu olhar, de tão sofrido, já secou,

e o que eu chorei só me ajudou a te esquecer.

Seu amor não valeu o que aconteceu. 

Nada mais importa,

nasceu torto e ninguém mais desentorta,

quando o mal é na raiz, a gente corta.

Foi assim que eu aprendi. 

Meu coração tão infeliz me diz

que nada mais importa,

se a saudade o teu peito não suporta

é o nosso adeus escrito certo em linhas tortas

eu quis amar, você não quis. 

E tanto faz se o teu olhar me entristeceu e derramou,

pois este pranto você fez por merecer

e o meu olhar, de tão sofrido, já secou

e o que eu chorei só me ajudou a te esquecer.

seu amor não valeu o que aconteceu. 

Nada mais importa.

Nasceu torto e ninguém mais desentorta,

quando o mal é na raiz a gente corta,

foi assim que eu aprendi. 

Nada mais importa,

pois agora já é tarde, Inês é morta.

Tô legal, meu coração já não comporta

mais um pingo de ilusão. 

Nada mais importa,

nossa rima já não faz nenhum sentido,

nosso caso tá pra lá de resolvido,

aprendi outra lição... 

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P.S.: Escute essa música nas vozes do cantor Reinaldo ou do próprio autor: Marquinhos PQD.

Marquinhos PQD – O Globo 

Marquinhos PQD: Nome completo: Marcos de Souza Nunes; 

Nascimento: 1ͦ. de janeiro de 1959, no Rio de Janeiro (criado em Realengo, na Zona Oeste); 

Apelido “PQD”: Veio de seu tempo como paraquedista do Exército Brasileiro, onde serviu no batalhão Dompsa, que é a sigla para Batalhão de Dobragem, Manutenção de Paraquedas e Suprimento pelo Ar (ou Companhia/Batalhão DoMPSA) do Exército Brasileiro. realizando manutenção e dobragem de paraquedas. Seu número era 33446, do turno 1980/1; 

Marquinho PQD iniciou a carreira musical em 1983, quando o grupo Fundo de Quintal gravou o samba “Fase de Amor”, composta por ele junto com Chiquinho e Fernando Piolho. 

Falecimento: Faleceu em 29 de setembro de 2025, aos 66 anos, no Rio de Janeiro. 


As cortinas do espetáculo

 Nílson Souza

(...) 

Cenário: o menino, a bola e a parede: 

‒ Lá vai o número 10, ídolo da torcida. Dribla um, dribla dois, dá uma caneta no zagueiro. Entra na área e solta a bomba! 

A bola bate no paredão de alvenaria e volta forte na direção do chutador. Ágil, o garoto usa as duas mãos para proteger o rosto. 

‒ Defesa es-pe-ta-cu-lar do goleiro! ‒ acrescenta com igual agilidade verbal. 

E dá sequência ao seu show solitário de palavras e movimentos. Antes de colocar a bola em jogo novamente, imita o som de um apito. 

‒ Prrriiiii! 

Retorna para o locutor improvisado: 

‒ Penalidade máxima! ‒ grita. 

Agora parece que o placar do jogo imaginário sairá do zero. Mas o artilheiro/goleiro/árbitro/narrador tem mais surpresas. Começa botando suspense na descrição da cobrança do pênalti: 

‒ Toma longa distância. Caminha devagarinho para a bola. Para. Corre. Ameaça bater. O goleiro não se mexe. Chuta... 

Silêncio total no estádio do fundo do quintal, lotado por um homem só.

‒ Isolou! Isolou! ‒ grita o narrador. E inventa um bordão de sua própria lavra para impressionar o público, que vem a ser ele mesmo. 

‒ Bateu lá onde o diabo perdeu as chuteiras. Bota no forno esse pé, ô ruindade! 

Apesar da indignação, o jogo continua. O menino polivalente pisa na bola, levanta com um toque de ponta de dedos, lança para o alto, apara no peito e arremata sem deixar cair: 

‒ Craque! Esse é craque! ‒ diz para si mesmo. 

Só que desta vez a bola não volta. Fica presa no caibro que segura a ponta do telhado. Num primeiro momento, o narrador comemora: 

‒ No ângulo. Lá onde a coruja dorme! Golaço! Golaço! Sabe de quem? Sabe de quem? 

Porém, antes de sair o nome do artilheiro, ouve-se um chiado no estádio, que fica novamente silencioso. O menino olha pra cima e se dá conta de que a bola ficara presa num prego. 

‒ Fim de jogo! ‒ exclama, desapontado. 

Mas ainda encontra ânimo para um fecho solene: 

‒ Fecham-se as cortinas do espetáculo! 

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(Do jornal Zero hora, 20 de outubro de 2026)

Noel Rosa:

 A história por trás do sorriso do poeta

Caricatura – Arquivo do  O Globo

Na Rua Teodoro da Silva, em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, ficava a casa onde nasceu, em 11 de dezembro de 1910, Noel Rosa. Hoje, o antigo imóvel deu lugar a um prédio, e a memória daquela residência sobrevive nos registros históricos. 

Noel nasceu em uma família de classe média. Seu avô era médico, sua avó tocava piano, seu pai tinha uma loja e sua mãe tocava bandolim. Mas qual seria o destino daquele menino: médico ou artista? Noel escolheu a música e ajudou a mudar a história do samba. 

O pesquisador Ricardo Cravo Albin destaca um aspecto importante de sua trajetória: Noel representava também a presença de jovens brancos de classe média na música popular, num período em que esse universo era associado principalmente a artistas de origens humildes e compositores negros e mestiços. 

Mas a história de Noel também foi marcada por uma dificuldade física. 

Durante o parto, o uso do fórceps provocou um afundamento em seu maxilar. Ele passou por operações na infância, mas o problema persistiu. E foi aí que apareceu uma das características mais marcantes de sua personalidade: a capacidade de rir de si mesmo. 

Em vez de permitir que sua condição o definisse, Noel fazia piadas sobre a própria aparência e brincava com as pessoas ao seu redor. Seu humor, por vezes sarcástico, revelava uma inteligência afiada e uma maneira singular de enfrentar as adversidades. 

Noel Rosa morreu em 4 de maio de 1937 aos 26 anos, mas deixou uma obra que atravessou gerações. Talvez sua grandeza também esteja nisso: ele transformou em arte sua maneira de observar o mundo, sem perder a ironia, a leveza e a capacidade de rir da própria vida. 

Por trás do grande compositor, havia um homem que não permitiu que suas limitações se tornassem maiores do que seu talento. 

******* 

Piada de Noel Rosa sobre ele mesmo: “Eu não tenho do que me queixar!”

Ricardo Cravo Albin é um advogado, jornalista, historiador, crítico, radialista e musicólogo brasileiro, sendo considerado um dos maiores pesquisadores da Música Popular Brasileira. Sua maior obra é o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, com cerca de sete mil verbetes e referência na área musical.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Garoto safado

 

A diretora de uma escola rural do interior de uma cidade nordestina, chama o pai de um aluno para reclamar do seu filho, personagem de um fato desagradável acontecido no colégio: 

‒ Bom dia, diretora, porque eu estou sendo chamado aqui, o que é que o sem-vergonha lá de casa aprontou agora? 

‒ Estou chamando o senhor aqui, é que o seu filho foi apanhado com duas meninas dentro do banheiro da escola. 

‒ Tá no sangue, puxou o pai. E o que ele estava fazendo de tão grave assim, dentro do banheiro, com essas duas meninas? 

‒ Eles estavam se maquiando durante o período de aula!

Nomes bíblicos

 Por Ricardo Salles

Os nomes abaixo são bíblicos; a maioria vem do hebraico ou do aramaico, línguas do antigo Testamento. Veja o seu significado provável. 

01. Abel ► filho (tem provável origem remota assíria [aplu,‛filho’ ou suméria [ibila, ‛filho’]. 

02. Adão ► homem (do hebraico adam, idem).   

03. Ana ► misericórdia (do hebraico hanna, idem; parece ser redução de hananyah, ‛Javé compadeceu-se’, que, por sua vez, é o étimo de Ananias). 

04. Ariel ► leão de Deus (do hebraico ‛ariel’ [idem, em que o elemento ari-[redução de aryeh] significa ‛leão’). 

05. Débora ► abelha (do hebraico d’borah, idem). 

06. Esaú ► peludo (do hebraico ‛echaw’, idem). 

07 Filipe ► amador de cavalos (termo de origem grega, Phílippos, formado dos elementos philo-, radical de gostar, amar, e hippos, ‛cavalo’). 

08. Jonas ► pomba (do hebraico yonah, idem). 

09. Mateus ► presente de Deus (é, na realidade, a forma grega do hebraico Mattai, redução de Mattenai, ‛presente, dádiva de Deus’; há outros antropônimos de origem grega com o mesmo significado, como, por exemplo, Teodoro, formado dos elementos theos, ‛Deus’ e doron, ‛dom’). 

10. Paulo ► pequeno (do adjetivo latino paulus, -a, -um, ‛pequeno, pouco considerável’; é o nome latino do soldado Saulo, perseguidor dos cristãos, convertido depois do episódio da visão da luz no caminho de Damasco). 

11. Raquel ► ovelha (do hebraico rakhel, idem). 

12. Salomão ► prosperidade (do hebraico ch’lomo, derivado de uma forma que significa prosperidade naquele idioma). 

13. Sara ► princesa (do hebraico charah ou charay, conforme a fonte, que propriamente significa ‛soberana’). 

14. Susana ► lírio (Souzanna é forma grega do hebraico chúchan, ‛lírio’). 

15. Tomás ► irmão gêmeo (do aramaico tomá, ‛gêmeo’ que, em grego, foi traduzido como Dídimo [‛gêmeo’], nome pelo qual também é conhecido esse apóstolo de Cristo; Tomé é a forma galega, muito usada em Portugal). 

Da Seleções do Reader’s Digest, dezembro de 2018)

domingo, 18 de outubro de 2026

Dia da Língua Portuguesa

 5 de maio 

Texto de Eduardo Affonso

Volta e meia alguém olha atravessado quando escrevo “leiaute”, “becape” ou “apigreide” – possivelmente uma pessoa que não se avexa de escrever “futebol”, “nocaute” e “sanduíche”. 

Deve se achar um craque no idioma, me esnobando sem saber que “craque” se escrevia “crack” no tempo em que “gol” era “goal”, “beque” era “back” e “pênalti” era “penalty”. E possivelmente ignorando que esnobar venha de “snob”. 

Quem é contra a invasão das palavras estrangeiras (ou do seu aportuguesamento) parece desconsiderar que todas as línguas do mundo se tocam, como se falar fosse um enorme beijo planetário. 

As palavras saltam de uma língua para outra, gotículas de saliva circulando em beijos mais ou menos ardentes, dependendo da afinidade entre os falantes. E o português é uma língua que beija bem. 

Quando falamos “azul”, estamos falando árabe. E quando folheamos um almanaque, procuramos um alfaiate, subimos uma alvenaria, colocamos um fio de azeite, espetamos um alfinete na almofada, anotamos um algarismo. 

Falamos francês quando vamos ao balé, usamos casaco marrom, fazemos uma maquete com vidro fumê, quando comemos um croquete ou pedimos uma omelete ao garçom; quando acendemos o abajur pra tomar um champanhe reclinados no divã ou quando um sutiã provoca um frisson. 

Falamos tupi ao pedir um açaí, um suco de abacaxi ou de pitanga; quando vemos um urubu ou um sabiá, ficamos de tocaia, votamos no Tiririca, botamos o braço na tipoia, armamos um sururu, comemos mandioca (ou aipim), regamos uma samambaia, deixamos a peteca cair. Quando comemos moqueca capixaba, tocamos cuíca, cantamos a Garota de Ipanema. 

Dá pra imaginar a Bahia sem a capoeira, o acarajé, o dendê, o vatapá, o axé, o afoxé, os orixás, o agogô, os atabaques, os abadás, os babalorixás, as mandingas, os balangandãs? Tudo isso veio no coração dos infames “navios negreiros”. 

As palavras estrangeiras sempre entraram sem pedir licença, feito uma tsunami. E muitas vezes nos pegando de surpresa, como numa blitz. 

Posso estar falando grego, e estou mesmo. Sou ateu, apoio a eutanásia, gosto de metáforas, adoro bibliotecas, detesto conversar ao telefone, já passei por várias cirurgias. E não consigo imaginar que palavras usaríamos para a pizza, a lasanha, o risoto, se a máfia da língua italiana não tivesse contrabandeado esse vocabulário junto com a sua culinária. 

Há, claro, os exageros. Ninguém precisa de um “delivery” se pode fazer uma “entrega”, ou anunciar uma “sale” se se trata de uma “liquidação”. Pra que sair pra night de bike, se dava tranquilamente pra sair pra noite de bicicleta? 

Mas a língua portuguesa também se insinua dentro das bocas falantes de outros idiomas. Os japoneses chamam capitão de “kapitan”, copo de “koppu”, pão de “pan”, sabão de “shabon”. Tudo culpa nossa. Como o café, que deixou de ser apenas o grão e a bebida, para ser também o lugar onde é bebido. E a banana, tão fácil de pronunciar quanto de descascar, e que por isso foi incorporada tal e qual a um sem-fim de idiomas. E o caju, que virou “cashew” em inglês (eles nunca iam acertar a pronúncia mesmo). 

“Fetish” vem do nosso fetiche, e não o contrário. “Mandarim”, seja o idioma, seja o funcionário que manda, vem do portuguesíssimo verbo “mandar”. O americano chama melaço de “molasses”, mosquito de “mosquito” e piranha, de “piranha” – não chega a ser a conquista da América, mas é um começo. 

Tudo isso é a propósito do 5 de maio, Dia da Língua Portuguesa, cada vez mais inculta e nem por isso menos bela. Uma língua viva, vibrante, maleável, promíscua – vai de boca em boca, bebendo de todas as fontes, lambendo o que vê pela frente. 

Mais de oitocentos anos, e com um tesão de vinte e poucos. 

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Eduardo Affonso é professor, cronista e arquiteto mineiro. É uma das vozes mais originais e bem-humoradas da crônica contemporânea brasileira. Ele se destaca nacionalmente por suas reflexões irônicas sobre o comportamento humano, sua análise lúdica das redes sociais e sua paixão pela etimologia e pelo aportuguesamento criativo de termos estrangeiros. Nasceu em 1959, em Belo Horizonte/MG. Mudou-se para o Rio de Janeiro /RJ, onde se estabeleceu profissionalmente, graduou-se e fixou sua residência de longo prazo. Graduou-se em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU/UFRJ).