terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O carioca na visão de uma estrangeira



Cristo Redentor - Foto Veja Rio

Olhar estrangeiro

Priscilla Ann Goslin*

Hora marcada no Rio é “por volta de”. Àqueles com que jamais vou me encontrar de novo cabe um “a gente se vê” ou um “te ligo”. Assim é o Rio, mermão. Valeu, beleza!

Vinte anos atrás, eu me aventurei a escrever um livro que ensinasse aos recém-chegados à Cidade Maravilhosa o jeito de ser dos cariocas. Para uma americana de ascendência finlandesa e nenhum samba no pé, era como traduzir o intraduzível – decodificar espírito dos habitantes da cidade mais incoerente da Via Láctea.

Na ocasião, ainda estagiária em carioquice, sofria de uma boa dose de ingenuidade. Pensava: “Será que serei banida?”. Não fui. Além do privilégio de morar na cidade de encantos mil, acabei sendo abraçada pelos mais roxos dos cariocas da gema nesta minha aventura insólita. Fiz o livro para os turistas, mas aí os cariocas começaram a rir.

– Cara, nunca reparei que balanço meu cabelo quando saio do mar... Pô, achava que todo mundo puxava conversa com estranhos na rua... Qual é, não são todos que saem pra night de chinelo de dedo?

É preciso um olhar estrangeiro para ver o que é vedado aos nativos.

Mas o que é ser carioca? Falou bem o nosso saudoso Vinicius de Moraes: “Ser carioca é, antes de mais nada, um estado de espírito”.

O espírito carioca é indomável e contagioso. Ninguém passa imune. Até os quadris mais desajeitados vão se soltando, sem falar da alma. Para o estrangeiro, ser carioca é retornar ao seu id primordial. É descartar as camadas de restrições autoimpostas pela moralidade anglo-saxã. Leveza pura. Sim, foram os franceses que criaram o termo joie de vivre, mas os cariocas aperfeiçoaram a arte.

Carioca vive com entusiasmo e uma espécie de otimismo ensolarado, capaz de apreciar a beleza nas pequenas coisas, convencido de que o universo é essencialmente uma entidade benigna. Enfim, a maior carioquice é achar natural deparar todos os dias com a beleza das paisagens. Ser carioca é amar a cidade incondicionalmente. E, quanto mais carioca você é, mais você ama o Rio.

Pelo olhar de fora, o Rio de Janeiro transcende as cidades normais. Existe uma sinergia perfeita entre o habitante e seu meio. Todos os sentidos são alimentados pelo clima, pela música, pelo samba, pela comida, pelo futebol, pela praia, pelos sorrisos à toa, pela constante onda de bom humor que envolve a cidade. Ela te acolhe, te faz sentir bem com a vida. Para o estrangeiro, é uma atração visceral. Essa é a essência que faz da carioquice uma cultura divertida, diferente de tudo o mais.

Vim para o Rio pela primeira vez com 6 semanas de idade e, mesmo tendo passado muitos anos nos Estados Unidos, nunca mais me curei. Como a minha visão é suspeita, perguntei a um amigo britânico, Chistopher Pillitz, portenho de criação e fotógrafo com mais de oitenta países na mira de sua lente, qual era a sua cidade predileta. Resposta? Rio de Janeiro. Ele diz: “A vida do carioca é boa, mesmo que não seja”.

Infelizmente, nem um Maraca repleto de velas acesas para São Jorge é suficientemente poderoso para proteger o carioca, no seu dia a dia, do crescimento desordenado que vem transformando o sonho de Vinicius num inferno de Dante. Mas, olha só, cidade perfeita não existe. Carioca, eternamente otimista que é, prefere encarar os obstáculos à sua felicidade como um porém. O Baixo Gávea tá inundado? Duas horas parado num engarrafamento? Alvo de assalto naquela saidinha de banco? Calma, vai melhorar.

No decorrer destas duas décadas desde que escrevi meu livro, a cidade mudou bastante, mas o delicioso encanto e a eterna informalidade continuam intocadas. Como qualquer carioca, arrasto o chiado com orgulho. Já aprendi a chamar o garçom pelo nome e meus amigos de mermão. Encaro o “código secreto” do carioca numa boa. Sei que hora marcada no Rio é “por volta de”, e “tô chegando” significa que fulano está começando a pensar em se levantar do sofá. As frases “te ligo” e “a gente se vê” correm soltas para aqueles com quem jamais vou me encontra de novo.

Hoje, atribuo o que defino como minha esquizofrenia cultural à dicotomia criada pelo meu inerente sentido de ordem e minha fascinação pelo caos que só uma cidade trepidante como o Rio de Janeiro pode oferecer.

– Valeu, mermão, Beleza! Aparece lá em casa.

 *****


*Pricilla Ann Goslin, americana de Minnesota, em quatro décadas de Rio se tornou Ph.D. em carioquice e escreveu o best-seller How to Be a Carioca.




domingo, 14 de fevereiro de 2016

Páginas de saudade



Mário de Alencar
(1872-1925)

Comecei a escrever estas páginas algumas horas antes de morrer Machado de Assis; retomei-as um mês depois, e pelo tempo adiante, sem outro pensamento que o de fazer falar a saudade. Vão como saíram, um pouco desconexas, conforme é o caráter delas, de páginas soltas. Não cuidei de escrever sobre a obra do escritor, senão do homem, contando as impressões da nossa convivência de alguns anos. Era inevitável por isso falar também de mim; mas estou que o fiz o estritamente necessário e ninguém achará que pretendi pôr-me em realce à conta da lembrança do meu grande amigo.

Venho da casa de Machado de Assis. Lá estive todo o dia de sábado, ontem e hoje, e agora estou sem ânimo de continuar a ver-lhe o sofrimento; tenho receio de assistir ao fim que eu desejo não tarde. Eu, seu amigo e seu admirador grande, desejo que ele morra, mas não tenho coragem de o ver morrer. O meu pensamento está com ele, e escrever sobre ele agora é um modo de acompanhá-lo, de velar carinhosamente a seu lado nos últimos instantes em que possa ainda aquele nobre e alto espírito pousar no frágil corpo trabalhado. Ele ignora o horrível mal que o vai devastando; porém sofre; e o que ele temia era o sofrimento físico, que anula o valor moral e afeia e entorpece a criatura. Ouvi-lhe uma vez estas palavras acerca de Arthur de Oliveira: – Levou tempo a morrer de uma moléstia grave. Uma moléstia grave não se contenta de uma merenda ligeira, à ponta de uma mesa; não, ela quer comer sentada e a fartar, e devagarinho, saboreando.

Não lhe perdoou essa ironia o acaso, mestre ou inimigo de ironias. Era fina e justa a imagem, e a sorte, para mostrar que o era, deu-lhe uma moléstia grave por companheira inseparável dos seus últimos dias. Não bastava que ele sofresse na alma; e eu sei quanto ele sofreu, desde que ficou só no mundo, há cinco anos. Ouvia-lhe as falas íntimas e posso afirmar que lhe fiquei conhecendo a feição de bondade que ele trazia talvez velada para o mundo.

Era essencialmente bom e puro, de uma delicadeza e sensibilidade que não podia, por mais que o quisesse, acomodar-se à rudeza das cousas e dos homens. Essa mesma delicadeza e sensibilidade o fez tímido e aparentemente fraco, a ele que foi um forte. Contradição da natureza, que tão bem se exprimiu no genial humor de toda a sua obra. Os que só conhecerem o escritor não adivinharão o homem, e os que só tiverem lido superficialmente o homem e o escritor entenderão que houve nele duas figuras distintas e opostas, que entretanto não eram nem distintas nem opostas, senão uma só figura, que se velava ou descobria voluntariamente, pelo respeito de si mesma e o receio de não parecer sincera, aos olhos dos outros.

A beleza foi a sua inspiradora e guia, a beleza divina, que é a perfeição moral e plástica; repousada para a atitude que forma a estátua e medida para a eternidade contra a ação do tempo, que é como um vento forte – onde lhe embaraçam o caminho com o excessivo, aí tudo ele abate e destrói. Capaz de ser terno, com abundância de coração, Machado de Assis escondeu no escritor a ternura do homem, e na intimidade do afeto reservava a manifestação do seu sentimento à eloquência do gesto sóbrio. Certa maneira de apertar a mão equivalia nele a um grito de alma; o seu olhar sabia suprir toda a piedade e simpatia que a voz temia dizer, fugindo à ênfase de convenção ou à palavra banal. Era por instinto e por estudo um elegante na alma e na inteligência. Jamais lhe surpreendi o gosto da maledicência; mais propenso a dizer e pensar o bem que o mal, não o dizia logo, sem a certeza de o dizer acertado, para não desmoralizar o bem que dissesse. Do mal que pensava, todo ou quase todo provinha da suspicácia, própria de um tímido e de um experimentado que sabe discernir e raciocinar o sofrimento.

Tinha o espírito forrado de uma filosofia forte, que lhe dera a própria vida e a cultura. Sabia que o que é, é porque tem de ser. Compreendia a maldade e a bondade, admirava o idealismo da regeneração humana, entendendo a sua inutilidade e ineficácia; não tinha nenhuma forma de religião e admitia e respeitava todas as religiões. Tudo era expressão humana, e não lhe cabia senão olhar e comentar os homens. Não os acusava, reproduzia-os; e à natureza má opunha o sorriso inteligente, que é o gesto adequado à beleza, melhor que as lágrimas indiscretas. Era um puro, nobre e grande artista, superior às modalidades de escolas. Com o decorrer do tempo, agora que vai acabar a presença corpórea do escritor, crescerá a admiração da sua obra e ficará para sempre. Valeu-lhe sobretudo, para a fazer tão igual, um gosto instintivo que, dirigindo-lhe a cultura, na mesma cultura se apurou e se firmou, evitando-lhe o erro em pontos de arte e estilo.

*****

Mário de Alencar (Mário Cochrane de Alencar), poeta, jornalista, contista e romancista, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 30 de janeiro de 1872, e faleceu na mesma cidade em 8 de dezembro de 1925.
Filho do grande romancista José de Alencar. Fez os primeiros estudos no Colégio Pedro II, obtendo o título de Bacharel em Ciências e Letras, e formou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

O que é o que é

Adivinhações luso-­gauchescas recolhidas por 
Apolinário Porto Alegre


(1844-­1904)

em seu livro Popularium Sul-Rio­-Grandense.

01.­ Doze mortos e cinco vivos; os vivos estão passeando, os mortos estão falando?

02. ­Uma moça formosa entre duas tábuas; chova ou faça sol, ela anda sempre molhada?

03. Uma telha só e quatro esteios?

04. ­Quanto maior, menos se vê; quanto menor, mais se vê?

05.­ É capim e não é capim; é vara e não é vara?

06.­ Subi um morro e avistei o Mar; encontrei um carneiro, dizendo Mé… encontrei um velho, dizendo Lá… encontrei um menino, dizendo Dá…?

07. Branco por fora, escuro por dentro, vermelhinho na ponta?

08. Uma árvore com doze galhos, cada galho com seu ninho, cada ninho com seu nome?

09. Quatro irmãs que correm duas a duas, sem nunca se encontrarem?

10. No mato cresce e no mato floresce, depois vem para casa cantar?

11.­ Não tem braços, nem pernas, vai ao mato e toca o gado para fora?

12. É alta como uma torre, verde como uma couve, amarga como fel, doce como o mel?

13. Águas bem claras, fonte amarela, casa caiada e ninguém nela?

14. Está no mato, está cantando; está em casa, está dormindo?

RESPOSTAS:

01.­ É a viola: os doze mortos são as cordas, os cinco vivos são os dedos do tocador.
02. A língua.
03.­ O tatu. 
04.­ A escuridão. 
05. A capivara. 
06.­ Marmelada. 
07­. Cigarro. 
08. O ano e os meses. 
09. As rodas da carreta. 
10. O violino. 
11.­ Pente fino. 
12.­ A bananeira. 
13. O ovo de galinha. 
14. O machado.




O beijo mais longo da história do cinema brasileiro


Cyl Farney & Dóris Monteiro


Cyl  Farney
(Cilênio Dutra e Silva – 1925 – 2003)



Dóris Monteiro
(Adelina Dóris Monteiro – 1934)

Só restava uma questão: por que Dóris nunca fora beijada nos filmes em que aparecera? Seria porque Chateaubriand não queria? A pergunta lhe foi feita diretamente, em 1957, pelo repórter Luiz Fernandes em sua revista Número. Dóris respondeu com tranquilidade: “Não. Era porque aqueles roteiros não previam beijos”. E informou que, no filme que estava prestes a começar e em que faria um pequeno papel – De vento em popa, na Atlântida, com direção de Carlos Manga –, haveria um beijo entre ela e o galã Cyl Farney.

E houve, mesmo. Era a melhor sequência de De vento em popa e uma das melhores do cinema brasileiro. Mostrava Cyl ao piano de uma boate vazia, com os copos no balcão, as luzes pela metade e a fotografia em glorioso preto e branco do turco Özen Sermet, em seu primeiro trabalho no Brasil. Cyl toca a melodia de “Dó-ré-mi”. Surge Dóris, que, até então, interpretava uma garota de coque e óculos, para a qual Cyl nunca tinha olhado. Mas agora, de vestido de alça, sem os óculos e penteada por Renault, ela se tornara uma fabulosa mulher. Começa a cantar: “Eu sou feliz/Tendo você sempre a meu lado...”. Cyl, abestado, não sabe o que pensar, mas continua tocando. Quando ela acaba, ele se levanta, diz que só agora a está enxergando e os dois se abraçam. Beijos em close – três segundos. Corte para beijo à meia distância – dois segundos. Total de beijos na sequência – cinco segundos.

Mas, na vida real, foi um beijo que levou quase uma hora para ser filmado. Carlos Manga nunca parecia satisfeito. Cyl e Dóris, corpos colados, se beijaram pela primeira vez. Um minuto depois, Manga mandou cortar: “Ótimo, mas vamos fazer de novo”. Novo e longo beijo. Outro corte: “Foi a luz que caiu”. Mais um beijo e mais um corte: “Tivemos probleminhas na câmera”. E assim por diante, num total de dez beijos ou mais, nenhum com menos de um minuto. Na altura do terceiro ou quarto beijo, Dóris sentiu uma alteração em Cyl – ele estava tendo uma ereção!

Finalmente, a cena foi dada como boa. “Deve ter sido o beijo mais longo de todos os tempos”, diria Dóris, muitos anos depois. “Não sei por que foi tão complicado de filmar.”

Mas alguns sabiam. Cyl, como todo mundo, era louco por Dóris. Sem chance com ela, pediu a Manga que fizesse daquele beijo o melhor da história do cinema – nem que tivessem de passar o dia inteiro se beijando. Manga entendeu.

(Do livro “A noite do meu bem”, 
de Ruy Castro, páginas 303 e 304)


Lançamento: 17 de março de 1958 (1h45min)
Dirigido por Carlos Manga
Com: Oscarito, Cyll Farney, Sonia Mamede, Margot Louro, Dóris Monteiro e Zezé Macedo
Gênero: Comédia Musical
Nacionalidade: Brasil

Sinopse e detalhes

Chico (Oscarito) e Mara (Sonia Mamede) formam uma dupla sertaneja e desejam fazer um show no transatlântico em que viajam. Sergio (Cyll Farney), recém-formado engenheiro nuclear, organiza uma apresentação no navio e convence Chico e Mara a ajudá-lo numa mentira que, se tudo der certo, possibilitará a realização de seu grande sonho: abrir uma boate.

Primeiro filme fotografado pelo turco Ozen Sermet na Atlântida. Logo na estreia ele já ganhou o prêmio de melhor fotografia no Festival do Distrito Federal (na época o Rio de Janeiro) de 1957.

Prêmios

Crítica do Rio de Janeiro, 1957
Melhor filme brasileiro do ano

V Festival de Cinema do Distrito Federal, 1957
Melhor Produção
Melhor Fotografia

P.S. Esse filme pode ser baixado completo do YouTube


A última visita

Crônica de Euclides da Cunha
(1866­-1909)


Na noite em que faleceu Machado de Assis, quem penetrasse na vivenda do poeta, em Laranjeiras, não acreditaria que estivesse tão próximo o triste desenlace da sua enfermidade. Na sala de jantar, para onde dava o quarto do querido mestre, um grupo de senhoras ­ ontem meninas que ele carregava nos braços carinhosos, hoje nobilíssimas mães de famílias ­– comentavam-­lhe os lances encantadores da vida e reliam-­lhe antigos versos, ainda inéditos, avaramente guardados nos álbuns caprichosos. As vozes eram discretas, as mágoas apenas rebrilhavam nos olhos marejados de lágrimas, e a palidez completa no recinto onde a saudade glorificava uma existência, além da morte.

No salão de visitas viam­-se alguns discípulos dedicados, também aparentemente tranquilos.

E compreendia­-se desde logo a antilogia de corações tão ao parecer tranquilos na iminência de uma catástrofe. Era o contágio da própria serenidade incompatível e emocionante em que ia a pouco e pouco extinguindo­-se o extraordinário escritor. Realmente, na fase aguda de sua moléstia, Machado de Assis, se por acaso traía com um gemido e uma contração mais viva o sofrimento, apressava-­se em pedir desculpas aos que o assistiam, na ânsia e no apuro gentilíssimo de quem corrige um descuido ou involuntário deslize. Timbravam em sua primeira e última dissimualação: a dissimulação da própria agonia, para não nos magoar com o reflexo de sua dor. A sua infinita delicadeza de pensar, de sentir, e de agir, que no trato vulgar dos homens se exteriorizava em timidez embaraçadora e recatado retraimento, transfigurava-­se em fortaleza tranquila e soberana.

E gentilissimamente bom durante a vida, ele se tornava gentilmente heróico na morte...

Mas aquela placidez augusta despertava na sala principal, onde se reuniam Coelho Neto, Graça Aranha, Mário de Alencar, José Veríssimo, Raimundo Correia e Rodrigo Octavio, comentários divergentes. Resumia­ os um amargo desapontamento.

De um modo geral, não se compreendia que uma vida que tanto viveu as outras vidas, assimilando­-as através de análises sutilíssimas, para no-­las transfigurar e ampliar, aformoseadas em sínteses radiosas –, que uma vida de tal porte desaparecesse no meio de tamanha indiferença, num círculo limitadíssimo de corações amigos. Um escritor da estatura de Machado de Assis só devera extinguir-­se dentro de uma grande e nobilitadora comoção nacional.

Era pelo menos desanimador tanto descaso – a cidade inteira, sem a vibração de um abalo, derivando imperturbavelmente na normalidade de uma existência complexa – quando faltavam poucos minutos para que se cerrassem 40 anos de literatura gloriosa...

Neste momento, precisamente ao anunciar­-se esse juízo desalentado, ouviram-­se umas tímidas pancadas na porta principal da entrada.

Abriram-­na. Apareceu um desconhecido: um adolescente, de 16 ou 18 anos, no máximo. Perguntaram-­lhe o nome. Declarou ser desnecessário dizê­-lo: ninguém ali o conhecia; não conhecia por sua vez ninguém; não conhecia o próprio dono da casa, a não ser pela leitura de seus Livros, que o encantavam. Por isso, ao ler nos jornais da tarde que o escritor se achava em estado gravíssimo, tivera o pensamento de visitá­-lo. Relutara contra essa ideia, não tendo quem o apresentasse: mas não lograva vencê­-la. Que o desculpassem, portanto. Se lhe não era dado ver o enfermo, dessem-­lhe ao menos notícias certas de seu estado.

E o anônimo juvenil – vindo da noite – foi conduzido ao quarto do doente.

Chegou. Não disse uma palavra. Ajoelhou-­se. Tomou a mão do mestre, beijou­-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-­o depois por algum tempo ao peito. Levantou-­se e, sem dizer palavra, saiu.

À porta, José Veríssimo perguntou-­lhe o nome. Disse-­lho.

Mas deve ficar anônimo. Qualquer que seja o destino desta criança, ela nunca mais subirá tanto na vida. Naquele momento o seu coração bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade. Naquele meio segundo – no meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis, aquele menino foi o maior homem de sua terra.

Ele saiu – e houve na sala, há pouco invadida de desalentos, uma transfiguração.

No fastígio de certos estados morais concretizam­-se às vezes as maiores idealizações. Pelos nossos olhos passara a impressão visual da Posteridade...

30 de setembro de 1908
Jornal do Commercio


 Enterro de Machado de Assis - 1908

Visita ao Bruxo

Admirador de Machado de Assis desde adolescente, o crítico marxista Astrojildo Pereira deixou alguns dos estudos mais argutos, originais e reveladores sobre a obra do escritor.

Hélio de Lena Júnior

Nos dias 30 de setembro e 1º de outubro de 1908, o Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, publicou uma crônica de Euclides da Cunha intitulada “A última visita”, sobre a agonia e morte de um dos maiores romancistas brasileiros de todos os tempos, Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908). O texto de Euclides, também ele um de nossos grandes escritores, não seria tão instigante se não mencionasse a visita misteriosa que o autor de Dom Casmurro recebeu nos seus momentos derradeiros.

Tratava-se de um rapaz de 18 anos que, no meio da noite, foi à casa de Machado, no bairro carioca do Cosme Velho, e pediu licença para ver o velho mestre. A residência estava repleta de figuras importantes do meio literário da época, silenciosas e consternadas, enquanto Machado, no quarto, agonizava. Mesmo assim, o jovem e desconhecido visitante não se inibiu diante de todos aqueles medalhões e conseguiu ser conduzido até o leito do escritor. “Chegou. Não disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre; beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-o depois por algum tempo ao peito. Levantou-se e, sem dizer palavra, saiu.”

Na sua crônica, Euclides não diz o nome do “anônimo juvenil”, porque, segundo ele, isso importava pouco. “Qualquer que seja o destino dessa criança, ela nunca mais subirá tanto na vida. Naquele momento, o seu coração bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade. Naquele meio segundo – no meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis –, aquele menino foi o maior homem de sua Terra”. A identidade do admirador precoce do “Bruxo do Cosme Velho” permaneceria envolta em mistério por muitos anos, até ser revelada pela grande biógrafa de Machado, Lúcia Miguel Pereira. Quanto ao prognóstico de Euclides, de que o jovem visitante noturno “nunca mais subirá tanto na vida”, este se revelou equivocado. Astrojildo Pereira Duarte da Silva, o rapaz que reverenciou Machado no seu leito de morte, se tornaria na maturidade um importante intelectual, além de respeitado propagador do pensamento marxista no Brasil.

Astrojildo Pereira nasceu em Rio Bonito, no interior fluminense, em 1890. Muito jovem, tornou-se ativista político, frequentando organizações operárias de orientação anarquista. Em 1918, redigiu, publicou e distribuiu, praticamente sozinho, o jornal Crônica Subversiva. Nesse mesmo ano, participou ativamente dos preparativos de uma frustrada insurreição anarquista e, por conta disso, foi preso pela primeira vez. Libertado em 1919, distanciou-se do anarquismo e, influenciado pelas idéias bolcheviques, passou a defender aqui os rumos tomados pela Revolução Russa.

Do Blog Revista de História.com.br


Astrojildo Pereira

*Astrojildo Pereira Duarte Silva (Rio Bonito, 8 de novembro de 1890Rio de Janeiro, 21 de novembro de 1965) foi um ex-anarquista, escritor, jornalista, crítico literário e político brasileiro, fundador do Partido Comunista Brasileiro, em 1922.

Em outubro de 1964, foi preso em decorrência do golpe militar e permaneceu na prisão por três meses, já em estado de saúde precário. Morreu no Rio de Janeiro, em 1965.



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Mais um pouco de nostalgia



Provocar boas recordações nos leitores sempre rende uma segunda investida no mesmo assunto. Foram tantas as manifestações dos leitores que a obrigação do colunista é a de se recuperar diante deles trazendo outras que foram esquecidas, muito mais por falta de arquivo e por contar apenas com as primeiras lembranças que foram surgindo à medida que o texto ia sendo produzido. Como fui esquecer, por exemplo, dos tradicionais encontros matinais sabatinos em frente à Livraria do Globo? Ou os de segunda à sexta, à tarde, defronte a Loja Krahe, um pouco mais adiante da Globo, na Rua da Praia? Na frente da Livraria do Globo (mas era livraria mesmo!), políticos e jornalistas. Na frente do Krahe (era no masculino quando não tinha a palavra loja), a paquera nas gatinhas. Elas ainda não usavam o termo "gato" quando se interessavam por algum paquerador. O garoto bonitão tinha uma definição curiosa: era sempre um "pão". A Rua da Praia foi o nosso Google, pois a gente ficava sabendo de tudo o que se passava na cidade e, até mesmo, dos lançamentos que iam do novo perfume ao novo toca-discos que se podia comprar na Casa Victor ou na Casa Coates, mais acima, na Dr. Flores. Claro, tinha a Mesbla, a nossa loja de departamentos, mas mais para longe um pouco: Coronel Vicente com Voluntários. Perfumes tinham na Masson, na Casa Lyra e na Sloper e roupas finas femininas na Cecília Louro, antes de ser Casa Louro. Para a moda masculina: Camisarias Aliança, Taft e Senador. Joias e relógios, além da Masson, a Scarpini. Ferragens sofisticadas, no Bromberg e lista de presentes de casamento, nas Lojas Renner (do aparelho de chá ao refrigerador, tinha tudo para noivos). Eu usava dois perfumes (a gente andava perfumado); Lancaster e Azzaro. O Lancaster vinha da Argentina e o Azzaro quem me deu a dica foi o deputado Octávio Germano (pai do Zé Octávio, um garotinho que andava pela mão dele). Tinha um mulato simpático que vendia na Assembleia para todos os deputados e jornalistas que frequentavam o Palácio Farroupilha. Houve um tempo na Assembleia que o perfumista francês Lóris Azzaro faturava os tubos conosco. Não cheguei a pegar esse tempo, mas na frente da Globo havia um fotógrafo que flagrava casais em seu footing tradicional. Ele de terno, gravata e chapéu e a dama mais bem vestida ainda. Minha irmã, Marta, ainda guarda uma foto dessas dos meus pais. Perdão, pelo esquecimento de outras tradições, mas o e-mail está aí para mais lembranças.

O conto do cigarro

O jornalista Políbio Braga e eu trabalhávamos na sucursal do Correio da Manhã. Pegamos a mania de fumar cigarros americanos que comprávamos no Cais do Porto. Um dia, apareceu um fornecedor que recebera um carregamento novo de um navio que chegara na noite anterior. Fomos com ele buscar pacotes de Pall Mall. Ele nos pediu o dinheiro para pagar o seu contrabandista. Ficamos esperando pelos cigarros. Estaríamos lá, numa porta da galeria Frederico Mentz, até hoje...

Balas Ruth

Na mesma época apareceram, em todos os armazéns, as Balas Ruth que distribuíam prêmios para quem as colecionasse. Tinha álbum e troca de figurinhas. Antonio Carlos Madalena Carvalho (desembargador já falecido), era da nossa turma e, além de tirar a figurinha mais difícil -, o Nabo Branco - ganhou um relógio de pulso, uma joia para todos os seus amigos.

Chicletes-balão

Os primeiros chicletes-balão eram importados e vendidos nas Lojas Americanas, os bubbles gum, todos na cor rosa se transformaram na guloseima da moda. Quem não estourasse o balão no próprio rosto não estava com nada.

Balas Brocoió

Brocoió era simplesmente o marinheiro Popeye. As Balas Brocoió também tinham álbum e prêmios. Meu primo, Breno Pacheco (administrador da CEEE, aposentado), abriu uma bala (grudenta pelo açúcar) e ganhou um liquidificador. Uma festa em casa.

Inesquecível

O Bar Líder, na Independência com Barros Cassal, foi imperdoavelmente esquecido na semana passada. A cobrança veio através do Guilherme, filho do general cavalariano Gastão Pereira dos Santos, irmão de outro general cavalariano, vice-presidente da República, Adalberto Pereira dos Santos. O líder e seus filés! Como esquecê-los? Mas há uma resistência admirável: na Rua da Ladeira, está lá firme, e com seus sabores, o Tuím.

Os cinemas

Na Rua da Praia e zona Central localizavam-se os principais cinemas de Porto Alegre: Cacique e Scala (na sobreloja), Guarany, Imperial, Central, Ópera. Na Sete de Setembro, o Rex e o Rívoli. Na Borges de Medeiros, Vitória, Continente e Capitólio. Na Coronel Genuíno, o Marabá. Na Salgado Filho, o São João e na Vigário José Inácio, o Carlos Gomes.

Texto de Rogério Mendelski – no Correio do Povo 
de Porto Alegre-RS

O Carnaval era assim...

(...em Porto Alegre)


Bem no início, o nosso Carnaval era chamado de Entrudo, palavra que veio de Portugal, onde designava os grandes bonecos de madeira que faziam parte das brincadeiras. Na Porto Alegre antiga, sem bonecos, os foliões, nas ruas, lançavam entre si limões de cheiro, água de seringas e até farinha. Com o aumento da população, o que era simples diversão tornou-se causa de desavenças e mesmo de ferimentos entre participantes e passantes.

Conforme Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite, pesquisador do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa, além desse Carnaval vivenciado pelo povo e reprimido pela polícia, existiam os blocos e corsos das grandes sociedades, que representavam a elite da cidade. A passagem do Entrudo para o Carnaval dito “bem-comportado” ocorreu dentro de um modelo que reproduzia a festa europeia.

Os festejos de momo, nos seus primórdios, eram praticados pelas classes média e alta em cafés, teatros, confeitarias, clubes e associações. Nas ruas, junto com o corso de automóveis, ocorriam jogos de confete, batalhas de flores e muito lança-perfume. As camadas mais pobres da população eram excluídas dos festejos, embora houvesse circulação de mascarados que tocavam tambores e zabumbas  de origem africana em diversos pontos da cidade.

Com o tempo, o nosso Carnaval de rua, como acentua o pesquisador Costa Leite, “passou a aglutinar tradições populares de origem europeia e africana, fundindo práticas a hábitos que se misturavam nos espaços de resistência cultural da população afrodescendente, considerados o berço do samba, a exemplo da Colônia Africana, Areal da Baronesa e Ilhota, onde surgiu uma série de blocos carnavalescos”.

Algumas figuras conhecidas fizeram parte da fase inicial do Carnaval porto-alegrense. Osmar Fortes Barcellos, o popular Tesourinha, participava do bloco Os Tesouras (de onde se originou o apelido), oriundo da Colônia Africana, assim como os Embaixadores do Ritmo, Aí Vem a Marinha, Namorados da Lua e Prediletos. Para este último, Lupicínio Rodrigues, aos 14 anos, compôs sua primeira música: Carnaval.

Enquanto isso, no Areal da Baronesa, em 1949, era coroado o primeiro Rei Momo negro da Capital, Adão Alves de Oliveira, o seu Lelé (1925-2013). Ainda no século 19, antes dos blocos surgidos posteriormente, havia as tradicionais sociedades carnavalescas, como a Esmeralda Porto-Alegrense, a Sociedade Venezianos, a Germânia, fundada por alemães, e a Sociedade Floresta Aurora, ainda em atividade.

(Do Almanaque Gaúcho de Zero Hora)