sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Gaudério

Por Eduardo Bueno


Gaúcho, gravura de Francisco Stockinger

Todo mundo sabe o que significa “gaúcho”, mas ninguém sabe o que “gaúcho” quer dizer. A palavra evoca aventura, nostalgia, romance; recende a sangue, suor e poeira; ecoa o tropel de cavalos, o brado dos bravos, e o retinir de metais. Tem algo de épico e grandiloquente – mas arrasta para um turbilhão de imagens cambiantes e origens indeterminadas.

De onde surgiu o gaúcho? Os historiadores continuam atolados na areia movediça das polêmicas vãs. O gaúcho é berbere, árabe, oriental ou andaluz? O gaúcho é charrua, quíchua ou araucano? Ninguém sabe. O mais provável é que todas as opções sejam mais ou menos verdadeiras: o gaúcho é um mestiço forjado na fronteira – mescla elementos de várias nações indígenas com a complexa tradição luso-castelhana, por sua vez repleta de influência moura. No esforço para conjurar esse mosaico, já houve os que arriscassem uma definição, com mais ou menos felicidade: gaúcho, o centauro dos pampas, é meio touro, meio galo, quase uma mistura de índio com cavalo.

Mas o que, afinal, quer dizer gaúcho? A palavra, escrita pela primeira vez em 1743, vem do persa, do árabe, do sânscrito, do quíchua, do araucano ou do guarani? Ninguém sabe ao certo. De certo mesmo, só que surgiu quase como palavrão. Gaudério, changador, garrucho ou haragano – todos sinônimos de ‘gaúcho” – eram também sinônimos de vagabundo, vagamundo, ou “bagamundo”. Ladrões de gado, “guascas”, sem lei nem rei, que viviam dentro de suas camisas, debaixo de seus chapéus e em cima de seus cavalos.

Dentre as ervas daninhas que vingaram na selva das palavras, a flor mais bela foi colhida por Aurélio Porto, em 1946: “guaú”, do guarani “cantar tristemente”, mais “che”, do quíchua “gente, homem”; ou seja: “homem que canta triste”. Definição linda e poética – pena que errada. A origem mais provável remete ao araucano: “huagchu”, que virou “guacho” e quer dizer “filho que não conhece o pai”, ou “órfão”. Ou seja: o bendito fruto de uma união fugaz entre um aventureiro que passava com uma mãe indígena que se deixou seduzir. Um mestiço em um mundo em mutação.

Só que a lenda sempre importou mais do que a realidade: a transformação do gaúcho em peão (“peão”: aquele que anda a pé), o empenho dos estancieiros em suprimir o estilo de vida independente, a substituição da indumentária feita à mão por peças industriais, a opressão e a desordem – nada disso aparece na obra dos poetas e prosadores que cantaram o gaúcho.

Seja como for, lá está o gaúcho – só, altivo, melancólico. A cena toda tingida em tom crepuscular: um homem a cavalo, metido num poncho e sorvendo o mate, silhuetado no entardecer que se derrama sobre a vastidão do pampa. Gaúchos são sombras numa correnteza de grama na planície sem cercas nem porteiras, com o pé no estribo e o pé na estrada.

Ser gaúcho é um estado de espírito. Ser gaúcho é ser gauche na vida. Ser gaúcho é um destino – e quem disse foi Jorge Luis Borges.

(Texto de Zero Hora, setembro de 2018)

Glossário

Charrua: indivíduo dos charruas, uma das três grandes tribos indígenas, que habitavam parte do território do Rio Grande do Sul. Eram bravos guerreiros e nunca se submeteram à civilização e muito menos aos conquistadores.

Changador: aquele que faz changas ou carretos, carregador, changueiro.

Gaudério: aquele que acompanha qualquer pessoa, abandonando-a logo para seguir outra.

Haragano ou aragano: diz-se do cavalo que dificilmente se deixa agarrar. Mandrião, velhaco, vagabundo.

Guasca: nome que se dá ao gaúcho do campo, criado no interior, longe dos grandes centros. Sinônimo de valente, corajoso, bravo, forte e, sobretudo, rústico e de pouca cultura.

Guacho ou guaxo: diz do animal ou criança amamentada com leite que não é o materno.

Peão: trabalhador de estância.

(Do “Dicionário Gaúcho”, de Alberto Juvenal de Oliveira)

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Pequenas histórias de Joel Rufino dos Santos



“O burro falante”

Um fazendeiro vai à feira comprar um burro. Um cigano lhe oferece um burro que fala. Custa uma verdadeira fortuna, mas o fazendeiro nem hesita, leva-o para casa. O burro, porém, não abre a boca para dizer coisa alguma. Desgostoso, o dono resolve devolvê-lo ao cigano.

No caminho, encontra uma cobra. “Vou jogar na cobra”, diz ele, pensando em ficar rico no jogo do bicho. É então que o burro começa a falar e o aconselha a jogar no coelho. O fazendeiro, deslumbrado, aposta tudo o que tem no coelho. Mas dá é cobra mesmo. O homem fica furioso e o burro, despeitado: “Já faço muito em falar. Ainda queria que eu acertasse o bicho?”.

“Mania de trocar”

Um roceiro, irritado porque a seleção do Brasil empata um jogo na Copa do Mundo, põe culpa no rádio e resolve trocá-lo por um burro. Mas o burro é muito burro e ele o troca por um pato que bota moedas de ouro; ou melhor, botou uma vez só e nunca mais.

Vai, de novo, o roceiro fazer suas trocas: o pato por uma viola, a viola por um cavalo e finalmente o cavalo por... um rádio. O seu velho rádio de volta! Mas, esperem: acabam de anunciar que um novo jogo vai começar...

A moça triste e o picareta


Lá por 1915, na terceira classe de um navio de emigrantes para a América do Sul, um russo, Bogoloff, tentou flertar com uma judia, Irma. Irma tinha olhos negros, sonhadores. Contemplando a linha do horizonte, perguntou-lhe:

- Posso saber para onde a senhorita se dirige? 

- Buenos Aires. Quando estiver um pouco estragada, irei para o Rio de Janeiro.

No Rio, começavam a desembarcar os passageiros, pela ordem das classes, quando Bogoloff foi chamado por um oficial:

- Como se chama?

O intérprete traduziu. Bogoloff respondeu em francês que não entendera. O intérprete - um tipo alto, magro, com uma pequena barbicha alourada - se zangou:

- Você não é russo, como não compreende russo? 

Irma, que sabia francês, ajudou. O funcionário pediu que escrevesse. 

- Gregory Petrovich Bogoloff. 

Espiou o papel e perguntou de surpresa: 

- Sua profissão? 

- Professor. 

O homem pareceu não se conformar. 

- Você não é cafetão? 

- Por quê? - fez o russo, indignado.

- Estes nomes em "ich", em "off", em "sky", quase todos são de cafetões. Não falha. Cafetão ou anarquista.

Bogoloff negou com veemência. Foi liberado. Meses depois, um cabo-eleitoral apresentou Bogoloff ao senador Sofônias, que tinha um olhar vidrado de agonizante. Recebeu prazenteiro o russo, como todo brasileiro a quem se solicita alguma coisa. Deu uma carta de apresentação para Xandu, ministro da Agricultura, que o recebeu prontamente:

- Ah, a sua Rússia! O que falta ao Brasil é o frio. Tenho em casa uma câmara frigorífica, oito graus abaixo de zero, onde me meto todas as manhãs. O frio é o elemento essencial às civilizações. Penso em instalar grandes câmaras frigoríficas nas escolas, para dar atividade aos nossos rapazes. Mas, enfim, quais são suas ideias?

- São simples. Por meio de alimentação adequada, consigo porcos do tamanho de bois e bois do tamanho de elefantes.

- Mas como? 

- O grande químico inglês Wells já escreveu algo a respeito. Conhece? 

- Magnífico! E o tempo de crescimento? 

- O comum. E ainda consigo a completa extinção dos ossos. 

- Completa?

- Isto é, quase completa.

Bogoloff enrolou Sua Excelência um pouco mais:

- Estudei um método de criar peixes em seco. Procedo artificialmente, isto é, provoco o organismo do peixe a criar para a sua célula um meio salino e térmico igual àquele em que se desenvolveu a vida no mar. Voltou para casa, certo de que continuaria a procurar emprego. Dia seguinte, ao abrir os jornais, fora nomeado diretor da Pecuária Nacional.

E Irma? Não sabemos dela. 

E quem é Joel Rufino dos Santos


Joel Rufino dos Santos (Rio de Janeiro-1941 – Rio de Janeiro 4 de setembro de 2015) foi um historiador, professor e escritor brasileiro. É um dos nomes de referência sobre cultura africana no país.

Nascido no bairro de Cascadura, cresceu apreciando a leitura de histórias em quadrinhos. Já adulto, foi exilado por suas ideias políticas contrárias à ditadura militar então em vigor no país. Morou algum tempo na Bolívia, sendo detido quando de seu retorno ao Brasil (1973).

Doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde lecionou Literatura, como escritor tem extensa obra publicada: livros infantis, didáticos, paradidáticos e outros. Trabalhou como colaborador nas minisséries Abolição, de Walter Avancini, transmitida pela TV Globo (22 a 25 de novembro de 1988) e República (de 14 a 17 de novembro de 1989). Além disso, já ganhou diversas vezes o Prêmio Jabuti de literatura, que é o mais importante no país.

Joel Rufino dos Santos é historiador e é o único professor negro de pós-graduação em Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Aos 70 anos não só é integrante do corpo docente da Universidade Federal, mas diretor de Comunicação do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, autor de literatura infantil e educador. Membro respeitado da comunidade negra do país dedicou sua experiência e competência para desenvolver material didático adequado tanto para estudantes negros e pobres quanto para aqueles que abandonaram a escola.

Atualmente, leciona Literatura Brasileira e História da Comunicação nas faculdades de Letras e Escola de Comunicação da UFRJ. Dentre seus mais de 50 livros publicados, está “Quando eu voltei tive uma Surpresa”, que reúne cartas emocionantes, dele para seu filho, do período em que ficou preso. Na área infanto-juvenil publicou “Uma estranha aventura em talalai” (Prêmio Jaboti , da Câmara Brasileira do Livro), entre outros. Foi ainda coordenador do Projeto da UNESCO “A Rota dos Escravos”. E roteirista das minisséries de TV: “Zumbi – Rei de Palmares” (TV Educativa), “Abolição” e “República” (TV Globo). Ex-presidente da Fundação Palmares, também exerceu o cargo de subsecretário de educação do estado do Rio de Janeiro RJ. Em 1997, recebeu a Medalha de Honra “Rio Branco” do Itamaraty (órgão máximo da diplomacia brasileira). Faleceu no Rio de Janeiro em 4 de setembro de 2015.


Histórias de Crianças...



Um autor e conferencista certa ocasião falou de um concurso em que tinha sido convidado como jurado. O objetivo era escolher a criança mais cuidadosa. Eis alguns dos vencedores:
Um garoto de 4 anos tinha um vizinho idoso ao lado, cuja esposa havia falecido recentemente. Ao vê-lo chorar, o menino foi para o quintal dele, e simplesmente sentou-se ao seu lado. Quando a mãe perguntou a ele o que havia dito ao velhinho, ele respondeu:
- Nada, só o ajudei a chorar.

***

Os alunos de uma professora de primeira série  estavam examinando uma foto de família. Uma das crianças da foto tinha os cabelos de cor bem diferente dos demais. Alguém logo sugeriu que essa criança tivesse sido adotada. Logo uma menina falou:
- Sei tudo sobre adoção, porque eu fui adotada.
Logo outro aluno perguntou-lhe:
- O que significa “ser adotado”?
- Significa - disse a menina - que você cresceu no coração de sua mãe, e não na barriga!

***

Sempre que estou decepcionado com meu lugar na vida, eu paro e penso no pequeno João.
João estava disputando um papel na peça da escola. Sua mãe me disse que tinha procurado preparar seu coração, mas ela temia que ele não fosse escolhido.
No dia em que os papéis foram escolhidos, eu fui com ela para buscá-lo na escola. João correu para a mãe, com os olhos brilhando de orgulho e emoção:
- Adivinha o quê, mãe!
E disse aquelas palavras que continuariam a ser uma lição para mim:
- Eu fui escolhido para bater palmas e espalhar a alegria!

***

Conta uma testemunha ocular de Nova York:
Num frio dia de dezembro, alguns anos atrás, um rapazinho de cerca de 10 anos, descalço, estava em pé em frente a uma loja de sapatos, olhando a vitrina e tremendo de frio. Uma senhora se aproximou do rapaz e disse:
- Você está com pensamento tão profundo, olhando essa vitrina!
- Eu estava pedindo a Deus para me dar um par de sapatos - respondeu o garoto...
A senhora tomou-o pela mão, entrou na loja e pediu ao atendente para dar meia dúzia de pares de meias para o menino. Ela também perguntou se poderia conseguir-lhe uma bacia com água e uma toalha. O balconista rapidamente atendeu-a e ela levou o garoto para a parte detrás da loja e, tirando as luvas, se ajoelhou e lavou seus pés pequenos e secou-os com a toalha.
Nesse meio tempo, o empregado havia trazido as meias. Calçando-as nos pés do garoto, ela também lhe comprou um par de sapatos. Ela amarrou os outros pares de meias e entregou-lhe. Deu um tapinha carinhoso em sua cabeça e disse:
- Sem dúvida, vai ser mais confortável agora.
Como ela logo se virou para ir, o garoto segurou-lhe a mão, olhou seu rosto diretamente, com lágrimas nos olhos e perguntou:
- Você é a mulher de Deus?

***

A vida é curta. Quebre regras, perdoe rapidamente, beije lentamente, ame de verdade, ria descontrolavelmente, e nunca pare de sorrir, por mais estranho que seja o motivo. E lembre-se que não há prazer sem riscos. A vida pode não ser a festa que esperávamos, mas uma vez que estamos aqui, temos que comemorar!



quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon



Jose Cândido de Carvalho

Lulu Bergantim veio de longe, fez dois discursos, explicou por que não atravessou o Rubicon, coisa que ninguém entendeu, expediu dois socos na Tomada da Bastilha, o que também ninguém entendeu, entrou na política e foi eleito na ponta dos votos de Curralzinho Novo. No dia da posse, depois dos dobrados da Banda Carlos Gomes e dos versos atirados no rosto de Lulu Bergantim pela professora Andrelina Tupinambá, o novo prefeito de Curralzinho sacou do paletó na vista de todo mundo, arregaçou as mangas e disse:

− Já falaram, já comeram biscoitinhos de araruta e licor de jenipapo. Agora é trabalhar!

E sem mais aquela, atravessou a sala da posse, ganhou a porta e caiu de enxada nos matos que infestavam a Rua do Cais. O povo, de boca aberta, não lembrava em cem anos de ter acontecido um prefeito desse porte. Cajuca Viana, presidente da Câmara de Vereadores, para não ficar por baixo, pegou também no instrumento e foi concorrer com Lulu Bergantim nos trabalhos de limpeza. Com pouco mais, toda a cidade de Curralzinho estava no pau da enxada. Era um enxadar de possessos! Até a professora Andrelina Tupinambá, de óculos, entrou no serviço de faxina. E assim, de limpeza em limpeza, as ruas de Curralzinho ficaram novinhas em folha, saltando na ponta das pedras. E uma tarde, de brocha na mão, Lulu caiu em trabalho de caiação. Era assobiando “O teu-cabelo-não-nega, mulata, porque-és-mulata-na-cor” que o ilustre sujeito público comandava as brochas de sua jurisdição. Lambuzada de cal, Curralzinho pulava nos sapatos, branquinha mais que asa de anjo. E de melhoria em melhoria, a cidade foi andando na frente dos safanões de Lulu Bergantim. Às vezes, na sacada do casarão da prefeitura, Lulu ameaçava:

− Ou vai ou racha!

E uma noite, trepado no coreto da Praça das Acácias, gritou:

− Agora a gente vai fazer serviço de tatu!

O povo todo, uma picareta só, começou a esburacar ruas e becos de modo a deixar passar encanamento de água. Em um quarto de ano Curralzinho já gozava, como dizia cheio de vírgulas e crases o Sentinela Municipal do “salutar benefício do chamado precioso líquido”. Por força de uma proposta de Cazuza Militão, dentista prático e grão-mestre da Loja Maçônica José Bonifácio, fizeram correr o pires da subscrição de modo a montar Lulu Bergantim em forma de estátua, na Praça das Acácias. E andava o bronze no meio do trabalho de fundição quando Lulu Bergantim, de repente, resolveu deixar o ofício de prefeito. Correu todo mundo com pedidos e apelações. O promotor público Belinho Santos fez discurso. E discurso fez, com a faixa de provedor-mor da Santa Casa no peito, o Major Penelão de Aguiar. E Lulu firme:

− Não abro mão! Vou embora para Ponte Nova. Já remeti telegrama avisativo de minha chegada.

Em verdade Lulu Bergantim não foi por conta própria. Vieram buscar Lulu em viagem especial, uma vez que era fugido do Hospício Santa Isabel de Inhangapi de Lavras. Na despedida de Lulu Bergantim pingava tristeza dos olhos e dos telhados de Curralzinho Novo. E ao dobrar a última rua da cidade, estendeu o braço e afirmou:

− Por essas e por outras é que não atravessei o Rubicon!

Lulu foi embora embarcado em nunca-mais. Sua estátua ficou no melhor pedestal da Praça das Acácias. Lulu em mangas de camisa, de enxada na mão. Para sempre, Lulu Bergantim.




Tipos díspares



Gaúchos na Guerra de Canudos

Tipos díspares: o jagunço e o gaúcho

O gaúcho do Sul, ao encontrá-lo nesse instante, sobreolhá-lo-ia comiserado.

O vaqueiro do Norte é a sua antítese. Na postura, no gesto, na palavra, na índole e nos hábitos não há equipará-los. O primeiro, filho dos plainos sem fins, afeito às correrias fáceis nos pampas e adaptado a uma natureza carinhosa que o encanta, tem, certo, feição mais cavalheirosa e atraente. A luta pela vida não lhe assume o caráter selvagem da dos sertões do Norte. Não conhece os horrores da seca e os combates cruentos com a terra árida e exsicada. Não o entristecem as cenas periódicas da devastação e da miséria, o quadro assombrador da absoluta pobreza do solo calcinado, exaurido pela adustão dos sóis bravios do Equador. Não tem, no meio das horas tranquilas da felicidade, a preocupação do futuro, que é sempre uma ameaça, tornando aquela instável e fugitiva. Desperta para a vida amando a natureza deslumbrante que o aviventa; e passa pela vida, aventureiro, jovial, diserto, valente e fanfarrão, despreocupado, tendo o trabalho como uma diversão que lhe permite as disparadas, domando distâncias, nas pastagens planas, tendo aos ombros, palpitando aos ventos o pala inseparável, como uma flâmula festivamente desdobrada.

As suas vestes são um traje de festa, ante a vestimenta rústica do vaqueiro. As amplas bombachas, adrede talhadas para a movimentação fácil sobre os baguais, no galope fechado ou no corcovear raivoso, não se estragam em espinhos dilaceradores de caatingas. O seu poncho vistoso jamais fica perdido, embaraçado nos esgalhos das árvores garranchentas. E, rompendo pelas coxilhas, arrebatadamente na marcha do redomão desensofrido, calçando as largas botas russilhonas, em que retinem as rosetas das esporas de prata; lenço de seda encarnado, ao pescoço; coberto pelo sombreiro de enormes abas flexíveis, e tendo à cinta, rebrilhando, presas pela guaiaca, a pistola e a faca  é um vitorioso jovial e forte. O cavalo, sócio inseparável desta existência algo romanesca, é quase objeto de luxo. Demonstra-o o arreamento complicado e espetaculoso. O gaúcho andrajoso sobre um “pingo” bem aperado está decente, está corretíssimo. Pode atravessar sem vexames os vilarejos em festa.

(Do livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha)


A arte da palavra


De todas as artes a mais bela, a mais expressiva, a mais di­fícil, é sem dúvida a arte da palavra.

De todas as mais se entre­tece e se compõe. São as outras como ancilas [1] e ministras: ela soberana universal.

Da estatuária toma as formas, da arquite­tura imita a regrada estrutura de suas fábricas; da pintura copia a cor e o debuxo dos seus quadros; da música aprende a variada sucessão de seus compassos e melodias; e sobre todos estes pre­dicados têm, mais do que as outras artes, a vida, que anima os seus painéis, a paixão, que dá novo esplendor às suas tintas, o mo­vimento, que intima aos que a escutam e admiram, o entusiasmo e a persuasão.

A estátua fala, mas fala como uma interjeição, que apenas expressa um sentimento vago, indefinido, momentâneo.

A pintura fala, mas fala como uma frase breve, em que a elipse houvera [2] suprimido boa parte dos elementos essenciais.

O edi­fício fala, mas fala como uma inscrição abreviada, que desperta a memória do passado, sem particularizar os acontecimentos a que alude.

A música fala, mas fala apenas à sensibilidade, sem que o entendimento a. possa claramente discernir.

Só a palavra nas artes, a que é matéria prima, fala ao mesmo tempo à fanta­sia e à razão, ao sentimento e às paixões. Só ela, Pigmalião; prodigioso, esculpe estátuas que vão saindo vivas e animadas da pedra ou do madeiro, onde as delineia e arredonda o seu buril.

Só a palavra, mais inventiva do que Zêuxis [3], sabe desenhar e colorir figuras e países, com que se ilude e engana a vista inte­lectual. Só a palavra, mais audaz que os Ictinos [4] e os Calícrates, traça, dispõe, exorna e arremessa aos ares monumentos mais nobres e ideais que o Partenon de Atenas.

Só a palavra, mais co­movedora e persuasiva do que o plectro [5] dos Orfeus [6], encadeia à sua, lira mágica estas feras humanas ou desumanas que se cha­mam homens, arrebatados e enfurecidos nas mais truculentas alu­cinações.

Não pedem crescer, medrar, divinizar-se as artes da forma, da proporção, da cor e da harmonia, quando o imaginário tem de afeiçoar os ídolos de uma religião sinistra e humilhante, quando o arquiteto há de erigir os templos de uma sombria divin­dade, quando o pintor tem de ornar com os seus encaustos os paços de um sátrapa oriental, quando o músico há-de ajustar as suas composições às pompas tradicionais de uma civilização imobilizada pela servidão.

(Latino Coelho)


(José Maria Latino Coelho, 1825-1891, escritor português. In: Demóstenes, Oração da Coroa. 2ª edição. Introdução, p. XVII).

[1] Ancila (latinismo) − serva.
[2] houvera por houvesse.
[3] Zêuxis − o mais célebre pintor da antiguidade, natural da Heráclia.
[4] Ictino − arquiteto famoso de Atenas, do século de Péricles; edifi­cou o Partenon em Atenas.
[5] Plectro − instrumento com que se vibravam as cordas da lira.
[6] Orfeu − filho de Calíope, famoso tocador de lira; diz a lenda que, ao som da sua voz e da sua lira, os rios suspendiam o seu curso, as feras se amansavam e o próprio inferno ficava encantado.

Fonte: Seleta em Prosa e Verso dos melhores autores brasileiros e portugueses por Alfredo Clemente Pinto. (1883) 53ª edição. Livraria Selbach.


José Maria Latino Coelho (Lisboa, 29 de Novembro de 1825 − Sintra, 29 de Agosto de 1891), mais conhecido por Latino Coelho, militar, escritor, jornalista e político português, formado em Engenharia Militar. Seguiu a carreira das armas, tendo atingido o posto de general de brigada do estado-maior de engenharia. Seguindo um percurso político que o levaria do Partido Regenerador, pelo qual foi eleito deputado, ao Partido Republicano Português, com passagem por um governo do Partido Reformista, de que foi fundador e ministro, a sua carreira política percorreu todo o arco partidário da Monarquia Constitucional. Foi várias vezes eleito deputado, foi par do Reino eleito e exerceu as funções de ministro da Marinha e de vogal do Conselho Geral de Instrução Pública. Foi lente na Escola Politécnica de Lisboa e sócio efetivo e secretário perpétuo da Academia Real das Ciências de Lisboa. Como escritor, notabilizou-se com obras de foro histórico e ensaístico. 



terça-feira, 11 de setembro de 2018

Humor das Minas Gerais

Tem podela?

Em Contagem das Abóboras, MG, tem um varejão cujo dono, o seu Toim Kachika, se gabava de ter tudo, qualquer coisa que se pedia no balcão. Se não tinha, fazia questão de encomendar a qualquer custo, só para atender o cliente. Com isso, a fama do estabelecimento corria pela região e vinha gente de toda parte procurar coisas que não se achavam nem na capital da emigê.

Sabendo disso, um Betaniense, quem mora no Bairro Betânia, SP, daqueles bem folgados, que estava passando as férias pelas Minas, decidiu conhecer o tal Toim Kachika do armazém. Chegando lá, pediu uma coisa bem difícil, uma barra de direção para sua pick-up importada. O Toim Kachika foi lá no fundo, caçou, caçou e, passou nem dois minutos, voltou com a tal peça.

O paulista, espantado, pensou: “Não é possível que esse cara tenha tudo aí, vou tirar um barato da cara dele.” Voltou para o hotel e ficou a noite toda pensando em como iria pegar o cara da venda. Pensou bem e no outro dia foi até o armazém e pediu:

Ô Toim Kachika, você tem podela?

− Ãhn! Podela?

O Toim Kachika olhou espantado, coçou a cabeça, craniou... craniou e falou pros seus botões: “Podela? Que diabo é isso? Nunca ouvi falá nesse troço… E agora? Se eu num atendo esse cara aí, todo metido, meu estabelecimento vai perder a fama e os criente vai sumir! Oquecofaço?”

Pensou mais um pouco, coçou a cabeça, suou frio, ficou desinquieto, foi lá fundo, voltou e disse ao paulista:

− Óia aqui, ó: tá em farta, mas vou encomendá e amanhã cedo o senhô passa aqui e pega. É dez o quilo...

O paulista, meio desconsertado com a resposta do Toim, voltou pra pensão pensando: “O que será que esse mineiro vai achar com esse nome?”

O mineiro fez de tudo, ligou pros seus fornecedores lá de Bambuí, de Bel’Zonte e até de Tapiraí, mas ninguém fazia nem ideia do que seria aquele trem. Foi aí que veio aquela coisa no pensamento e ele percebeu que o paulista tava era de sacanagem com ele. Decidiu, então, dar o troco.

No almoço daquele dia, o Zé comeu uma bruta feijoada. À noite não deu outra. Foi ao banheiro e prrrrrrrruhhhh. Fez aquele trem enorme e fedorento. Pegou o troço com uma pazinha e botou no forno por umas 3 horas até que virasse uma pedra bem dura. Aí, colocou tudo na maquininha de moer carne, embalou e deixou em cima do balcão com a devida identificação.

No dia seguinte, chega o paulista todo imponente, com um sorriso no rosto e, já esboçando um ar de vitória, disse:

− E daí, seu Toim, conseguiu encontrar a minha encomenda?

− Craro, uai!… − Disse o mineiro, mostrando o saquinho no balcão. 

Então, o paulista pediu:

− Quero quilo e meio!

− Tão aqui, sô! É quinze mango!

O paulista, curioso, pegou um bocado do pó com dois dedos e experimentou uma pitada. Pediu uma colher, encheu e mandou ver, tentando descobrir o que era aquilo com aquele gosto estranho, depois de comer quase meio quilo.

− Mas isto aqui é bosta!

O Toim Kachika riu amarelo e desdentado, dizendo: 

− Não! É não, sô! Isso é o pó dela.