quarta-feira, 20 de maio de 2026

Desiderata

 

(Do latim “aquilo que se deseja”) 

Max Ehrmann 

Siga tranquilamente entre a pressa e a inquietude, lembrando-se que há sempre paz no silêncio. 

Tanto quanto possível, sem se humilhar, mantenha boas relações com todas as pessoas. 

Fale a sua verdade mansa e claramente e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes, pois eles também têm sua própria história. 

Evite as pessoas escandalosas e agressivas. Elas afligem o nosso espírito. 

Se você se comparar com os outros, tornar-se-á presunçoso e magoado, pois haverá alguém superior e alguém inferior a você. 

Você é filho do Universo, irmão das estrelas e árvores. Você merece estar aqui, e mesmo sem você perceber, a Terra e o Universo vão cumprir o seu destino. 

Desfrute das suas realizações, bem como dos seus planos. Mantenha-se interessado em sua carreira, ainda que humilde, pois ela é um ganho real na fortuna cambiante do tempo. 

Tenha cautela nos negócios, pois o mundo está cheio de astúcias, mas não se torne um cético porque a virtude sempre existirá. 

Muita gente luta por altos ideais e em toda a parte a vida está cheia de heroísmo. Seja você mesmo, principalmente. Não simule afeição. Não seja descrente do amor, porque mesmo diante de tanta aridez e tanto desencanto ele é tão perene quanto a selva. 

 Aceite com carinho o conselho dos mais velhos e seja compreensivo com os arroubos inovadores da juventude. 

Alimente a força do espírito que o protegerá no infortúnio inesperado, mas não se desespere com perigos imaginários. Muitos temores nascem do cansaço e da solidão, e a despeito de uma disciplina rigorosa. Seja gentil para consigo mesmo. 

Portanto, esteja em paz com Deus como quer que você o conceba e quaisquer que sejam seus trabalhos e as aspirações. 

Na fatigante confusão da vida, mantenha-se em paz com sua própria alma, apesar de todas as falsidades, fadigas e desencantos. O mundo ainda é bonito. 

Seja prudente e faça tudo para ser feliz! 

******* 

Os poemas filosóficos em prosa Uma Prece e Desiderata são considerados as obras-primas de Max Ehrmann. Entretanto, foi Desiderata, escrito em 1927, quando ele tinha 55 anos, que se tornou mundialmente conhecido. O poema trata de como podemos alcançar a felicidade nesta vida. 

Max Ehrmann (26 de setembro de 1872 – 9 de setembro de 1945) foi um escritor, poeta e advogado americano de Terre Haute, Indiana , amplamente conhecido por seu poema em prosa de 1927, “Desiderata” (em latim: “coisas desejadas”). Ele frequentemente escrevia sobre temas espirituais.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Regras de acentuação gráfica

 

■ Acentuam-se a palavras oxítonas terminadas em: (O-E-A)oea(s) ‒ emens: com mais de uma sílaba. 

● Exemplos: vovó ‒ café – cajá  vovô ‒ você – Pará ‒ vovó ‒ café – armazém ‒ armazéns. 

■ Acentuam-se as palavras paroxítonas terminadas ► lnrxpsei(s) – i – usumunsononsão(s) – ã(s). 

Macete para decorar: (um xirus não lei on ditongo ps) 

● Exemplos: álbum – ônix – táxi ‒ vírus – hífen ‒ sótão ‒ fácil ‒ amáveis ‒ próton ‒ farmácia* ‒ bíceps. 

■ Acentuam-se todas as palavras proparoxítonas: (reais ou relativas)*, terminadas em:

reais: médico – lâmpada ► relativas: colégio – história (terminadas em ditongos crescentes). 

■ Acentuam-se os monossílabos tônicos (uma só sílaba) terminados em OEA. ► o(s) ‒  e (s) ‒ a (s). 

● Exemplos: pó ‒ só ‒ nó – nós ‒ ré ‒ pé ‒ mês – três ‒ más. 

■ Eliminou-se o acento circunflexo que se usava sobre a primeira vogal dos hiatos ee e oo. 

● Exemplos: abençoo ‒ coo ‒ deem ‒ leem ‒ reveem ‒ descreem ‒ preveem ‒ magoo ‒ perdoo ‒ voo. 

■ Acentua-se o ditongo aberto éi e ói seguidos ou não de s desde que estejam na sílaba tônica de uma palavra oxítona ou monossílabo tônico.

● Exemplos: céu – chapéu – réu  – herói – dói. 

■ Acentuam-se o í e o ú quando tônicos; formarem sílaba isolada ou com S; estarem antecedidos por outra vogal: í – is : ú – us. 

● Exemplos: saí – país – saída ‒ saúde – baús – viúva. 

*Obs.: [i u] Não acentuados quando formarem sílabas depois de ditongos: feiura ‒ baiuca e seguidos de:   m  n  r e nh: 

● Exemplos: Saul, ruim, ainda, sair, raiz, rainha, tainha. 

■ O til (~) sobrepõe-se às letras: ã e õ. 

● Exemplos: barões – romãzeira – órfã. 

O trema (¨) Não existe mais: gue ‒ gui ‒ que ‒ qui. 

● Exemplos: aguei ‒ equestre ‒ tranquilo ‒ frequente. 

■ Também foram eliminados o acento agudo derivado da regra do trema: 

● Exemplos: arguem ‒ averigue ‒ oblique. 

■ Os acentos diferenciais foram eliminados, exceção de: 

● Exemplos: pôr (verbo) por preposição ‒ ele pôde (pretérito) ‒  ele pode (presente). 

■ Acentuam-se as formas verbais no plural (monossílabos) em  êm com acento circunflexo (plural). 

● Exemplos: ele tem (singular) ‒ eles têm (plural) ele vem (singular) ‒ eles vêm (plural). 

■ Acentuam-se: émem com mais de uma sílaba troca-se o sinal: ém ‒ em ambos os acentos (ém  =  singular) (êm  =  plural). 

● Exemplos: ele detém ‒ eles detêm ‒ ele provém ‒ eles provêm ‒ ele mantém ‒ eles mantêm. 

* Os termos: proparoxítonas reais ou relativas não são oficiais. São classificadas apenas como proparoxítonas. Vide Lei n ° 5.675, de 18.12.71. 

* Far-má-cia = separação ortográfica ‒ far-má-ci-a = separação fonética, por isso ela é proparoxítona.

domingo, 17 de maio de 2026

Quantos anos eu tenho?

O famoso texto sobre a velhice atribuído a José Saramago, frequentemente intitulado “Quantos anos tenho?”, celebra a maturidade como uma fase de liberdade, experiência e intensidade, onde a idade cronológica é irrelevante frente à idade sentida pelo coração. O poema exalta a serenidade, a realização de sonhos e a sabedoria. 

Tema sobre a Velhice 

José Saramago 

Quantos anos eu tenho?

O que importa isso?

Tenho a idade que escolho e que sinto!

A idade em que posso gritar sem temor o que penso,

fazer o que desejo sem receio de errar,

pois trago comigo a experiência dos anos vividos

e a força inabalável das minhas convicções. 

Não importa quantos anos tenho,

não quero saber disso!

Alguns dizem que estou velho,

outros afirmam que estou no auge.

Mas não são os números que definem a minha vida,

não é o que dizem,

mas sim o que o meu coração sente

e o que a minha mente dita. 

Tenho os anos suficientes para gritar minhas verdades,

fazer o que quero,

reconhecer velhos erros,

corrigir rotas e valorizar vitórias.

Já não preciso ouvir:

“Você é jovem demais, não vai conseguir”,

ou “Você está velho demais, o seu tempo já passou”. 

Tenho a idade em que as coisas são vistas com serenidade,

mas com o desejo incessante de continuar crescendo.

Tenho os anos em que os sonhos

podem ser tocados com os dedos,

e as ilusões se transformam em esperança. 

Tenho os anos em que o amor,

às vezes, é uma chama ardente,

ansiosa para se consumir no fogo de uma paixão.

Outras vezes, é um porto de paz,

como o pôr do sol que se reflete nas águas tranquilas do mar. 

Quantos anos eu tenho?

Não preciso contar,

pois os desejos que alcancei,

os triunfos que obtive,

e as lágrimas que derramei pelas ilusões perdidas,

valem mais do que qualquer número. 

O que importa se fiz cinquenta, sessenta ou mais?

O que realmente importa é a idade que sinto,

a força que tenho para viver sem medo,

seguir meu caminho com a experiência adquirida

e o vigor dos meus sonhos. 

Quantos anos eu tenho?

Isso não importa!

Tenho os anos suficientes para não temer mais nada,

e para fazer o que quero e sinto.

A idade? Não importa quantos anos ainda tenho,

porque aprendi a valorizar o essencial

e a carregar comigo apenas o que realmente importa!

  

José de Sousa Saramago (16.11.1922 ‒ 18.06.2010) foi um escritor português premiado com o Nobel de Literatura de 1998. Também ganhou, em 1995, o Prêmio Camões, o mais importante prêmio literário da língua portuguesa. Saramago foi considerado o responsável pelo efetivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa.

sábado, 16 de maio de 2026

Paródia “Vorcaro amigo”

A dupla de parodiadores Edu Krieger e Natalia Voss, destaques nas redes sociais por suas paródias musicais hilárias voltadas para críticas sociais e políticas, está bombando com uma nova adaptação da canção “Meu Caro Amigo”, do cantor, compositor, instrumentista, escritor, dramaturgo e ator Chico Buarque de Holanda.

Transcrição da Paródia 

Vorcaro amigo, me perdoe, por favor,

Ajude um senador golpista.

Racha comigo o pagamento de um ator

Pode ser em dinheiro à vista.

Esse filmeco, na verdade, é um besteirol,

Pois só a esquerda tem talento e tem know-how.

Lá na prisão, durante o seu banho de sol,

Vou te levar chocolatinhos, pois então prometa:

Que essa mutreta não vai estar na delação,

E a gente vai ficando em silêncio, meu comparsa,

Se alguém te perguntar se me conhece, cê disfarça,

Libera a grana aí, irmão. 

Vorcaro amigo, nem preciso de Rouanet

Com essa Master de parceria.

Nem rachadinha eu pretendo mais fazer,

Já que você me financia.

Esse filmeco, na verdade, é um besteirol,

Pois só a esquerda tem talento e tem know-how.

Lá na prisão, durante o seu banho de sol,

Vou te levar chocolatinhos, pois então prometa,

Que essa gorjeta vai parar na minha mão.

A grana que eu te peço é para você só um trocado,

É só tirar de um monte de idoso aposentado,

Tá lá no fundo de pensão. 

Vorcaro amigo, nem sei como te dizer,

Meu plano já foi descoberto.

61 milhões na mão, veja você,

É o dobro do ‘O Agente Secreto’.

Papai tá preso e tomando Omeoprazol,

E meu irmão já tá na mira da Interpol.

Eu esculhambo com o PT e com o PSOL,

Mas todo mundo já notou que eu sou um picareta.

E nessa treta, haja reza pra pneus,

Nem banho de Ypê vai me limpar dessa lambança.

O Ciro aproveita e também manda lembrança,

Campanha eleitoral, adeus!

*******

P.S.: Afinal de contas, o filme será de ficção ou de facção?

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Bando de cafonas

 Fernanda Young*

A Amazônia em chamas, a censura voltando, a economia estagnada, e a pessoa quer falar de quê? Dos cafonas. Do império da cafonice que nos domina. Não exatamente nas roupas que vestimos ou nas músicas que escutamos ‒ a pessoa quer falar do mau gosto existencial. Do que há de cafona na vulgaridade das palavras, na deselegância pública, na ignorância por opção, na mentira como tática, no atraso das ideias. 

O cafona fala alto e se orgulha de ser grosseiro e sem compostura. Acha que pode tudo e esfrega sua tosquice na cara dos outros. Não há ética que caiba a ele. Enganar é ok. Agredir é ok. Gentileza, educação, delicadeza, para um convicto e ruidoso cafona, é tudo coisa de maricas. 

O cafona manda cimentar o quintal e ladrilhar o jardim. Quer todo mundo igual, cantando o hino. Gosta de frases de efeito e piadas de bicha. Chuta o cachorro, chicoteia o cavalo e mata passarinho. Despreza a ciência, porque ninguém pode ser mais sabido que ele. É rude na língua e flatulento por todos os seus orifícios. Recorre à religião para ser hipócrita e à brutalidade para ser respeitado. 

A cafonice detesta a arte, pois não quer ter que entender nada. Odeia o diferente, pois não tem um pingo de originalidade em suas veias. Segura de si, acha que a psicologia não tem necessidade e que desculpa não se pede. Fala o que pensa, principalmente quando não pensa. Fura filas, canta pneus e passa sermões. A cafonice não tem vergonha na cara. 

O cafona quer ser autoridade, para poder dar carteiradas. Quer vencer, para ver o outro perder. Quer ser convidado, para cuspir no prato. Quer bajular o poderoso e debochar do necessitado. Quer andar armado. Quer tirar vantagem em tudo. Unidos, os cafonas fazem passeatas de apoio e protestos a favor. Atacam como hienas e se escondem como ratos. 

Existe algo mais brega do que um rico roubando? Algo mais chique do que um pobre honesto? É sobre isso que a pessoa quer falar, apesar de tudo que está acontecendo. Porque só o bom gosto pode salvar este país. 

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* Última coluna escrita por Fernanda Young (1970-2019) poucos dias antes de morrer ela fez um pequeno tratado sobre os cafonas e o seu mau gosto existencial no Brasil de hoje. 

A escritora e roteirista Fernanda Young – que faleceu neste domingo (25.08.2019), aos 49 anos – teve um texto póstumo divulgado um dia após sua morte. O jornal O Globo, do qual ela era colunista, publica nesta segunda-feira (26.08.2019) Bando de Cafonas, a última contribuição de Young à imprensa brasileira. Conforme adiantou o site do diário carioca, trata-se de “um pequeno tratado sobre os cafonas e o seu mau gosto existencial no Brasil de hoje”. (2019)

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Cuidado com a ludopatia

 

Ludopatia é o termo médico para o vício em jogos de azar e apostas. Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno mental, a condição transforma o que seria uma diversão em um impulso incontrolável, gerando graves consequências financeiras, emocionais e sociais. 

Como a doença funciona 

Assim como o vício em drogas ou álcool, a ludopatia altera o sistema de recompensa do cérebro. Quando a pessoa aposta, há uma liberação intensa de dopamina (hormônio do prazer). Com o tempo, o cérebro exige doses cada vez maiores para sentir a mesma emoção, o que cria a dependência e a perda de controle. 

Sinais de alerta comuns 

Identificar o problema precocemente é fundamental. Os principais sintomas incluem: 

■ Preocupação constante: Pensar o tempo todo em apostas ou em como conseguir dinheiro para jogar. 

■ Aumento das apostas: Precisar apostar quantias cada vez maiores para sentir a mesma emoção. 

■ Mentiras e isolamento: Esconder dos familiares e amigos a quantia gasta e o tempo dedicado aos jogos. 

■ Busca pelo “prejuízo”: Jogar novamente na tentativa de recuperar o dinheiro que já foi perdido. 

■ Irritabilidade: Ficar ansioso ou agressivo quando tenta reduzir ou parar de jogar. 

Onde buscar ajuda 

A ludopatia tem tratamento e exige acompanhamento profissional, geralmente com psiquiatras e psicólogos (terapia cognitivo-comportamental). 

● Grupos de Apoio: Iniciativas como os Jogadores Anônimos oferecem suporte contínuo para pessoas que buscam a recuperação. 

● Rede Pública: No Brasil, é possível buscar atendimento psicológico e psiquiátrico de forma gratuita através do Sistema Único de Saúde (SUS), procurando uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). 

● Plataforma Meu SUS Digital: Acesse o Portal do Governo Federal para encontrar unidades de saúde e agendar consultas na sua região. 

P.S.: Esse texto é apenas para fins informativos. Para orientação ou diagnóstico médico, consulte um profissional. As respostas da IA podem conter erros.

Os sinais de alerta 

■ necessidade de apostar valores cada vez maiores; 

■ dificuldade de interromper as apostas; 

■ irritação ou ansiedade quando tenta parar; 

■ mentiras sobre o dinheiro gasto; 

■ empréstimos para continuar jogando; 

■ tentativa frequente de recuperar perdas; 

■ prejuízos no trabalho, estudos e relações pessoais; 

■ isolamento social; 

■ sintomas de ansiedade e depressão associados. 

O Sacristão

 W. Somerset Maugham

Tinha havido um batizado naquela tarde na Igreja de São Pedro, em Neville Square e Albert Edward Foreman ainda usava a sua opa de sacristão. Ele a envergava com orgulho, pois sentia que ela era o símbolo dignificante do seu ofício e, quando a tirava para regressar a casa, não conseguia deixar de se sentir insuficientemente vestido. A opa lhe dava trabalho, porque ele pessoalmente a passava a ferro. Durante os 16 anos em que fora sacristão daquela igreja, possuíra várias vestimentas como aquela, mas nunca tivera coragem de jogá-las fora quando se tornavam muito usadas. A coleção completa, cuidadosamente embrulhada em papel pardo, jazia nas últimas gavetas do guarda-roupa de seu quarto. 

O sacristão esperava que o vigário terminasse a sua função, para poder ir embora. Pouco depois, viu o padre atravessar o templo, ajoelhar-se em frente ao altar e descer por uma das naves, ainda com a batina. 

“O que estará ele esperando?”, perguntou o sacristão para si mesmo, “Não sabe que está na hora do seu chá?” 

Aquele vigário (um homem corado e forte, com seus 40 anos) havia sido nomeado recentemente, e Albert Edward ainda lamentava a partida do predecessor, um religioso da velha escola que fazia descansados sermões com voz monocórdia e adorava jantar fora com seus paroquianos mais aristocráticos. Ele gostava que as coisas na igreja fossem assim, mas nunca aborrecia ninguém; não era como este novo vigário, que se intrometia em tudo. Albert Edward, porém, era tolerante. 

“Não sei para que essa bisbilhotice”, dizia Albert Edward, “mas um dia ele aprenderá.” 

O vigário desceu a nave e dirigiu-se ao sacristão: “Foreman, pode vir à sacristia por um minuto? Quero lhe dizer uma coisa.” Albert Edward o seguiu até a sacristia e ficou surpreso ao encontrar lá dois fabriqueiros, homens de idade que serviam naquela igreja havia quase tanto tempo como ele próprio. 

Albert Edward os encarou e, com ligeiro desconforto, imaginou qual seria o problema. Seus pensamentos, porém, não transpareceram em suas feições quase inescrutáveis. Manteve uma atitude não se diria obsequiosa, mas digna. Já trabalhara em casas de excelentes famílias, antes de ser designado para o serviço eclesiástico, e sua compostura era irrepreensível. Se não fazia lembrar um duque, parecia pelo menos um ator dos velhos tempos, habituado a representar esse papel. Albert Edward possuía tato, firmeza e segurança. Seu caráter era à prova de dúvida. 

O vigário falou bruscamente. “Foreman, você tem trabalhado aqui há muitos anos, e acho que tanto Sua Eminência como os fiéis em geral partilham a minha opinião de que você tem executado o seu trabalho satisfatoriamente.” 

Os dois fabriqueiros assentiram. 

“Mas uma circunstância das mais extraordinárias chegou ao meu conhecimento no outro dia, e senti ser de meu dever confiá-la aos fabriqueiros. Para enorme espanto de minha parte, descobri que você não sabe ler nem escrever.” 

O rosto do sacristão não demonstrou qualquer sinal de embaraço. 

“O vigário anterior sabia disso, senhor”, respondeu ele. “Dizia que não fazia diferença, e, por outro lado, afirmava também que o mundo não precisava de viver com tanta educação.” 

“É a revelação mais espantosa que já ouvi”, exclamou o vigário. “Você que dizer que tem sido sacristão desta igreja há 16 anos e nunca aprendeu a ler nem a escrever?” 

“Comecei a trabalhar aos 12 anos, senhor. A cozinheira da primeira casa onde me empreguei tentou me ensinar, mas eu não tinha muito jeito para essas coisas, e depois, com um trabalho e outro, nunca dispus de tempo para aprender. Também nunca me fez falta. Minha mulher é muito instruída e, quando preciso escrever uma carta, ela a escreve.” 

“Bem, Foreman”, disse o vigário, “o fato é que, numa igreja como esta, não podemos manter um sacristão analfabeto. Compreenda-me, pessoalmente não tenho nada contra você; pelo contrário, tenho grande consideração pelo seu caráter e capacidade, mas imagine se acontece um acidente provocado pela sua lamentável ignorância? Não queremos ser injustos, mas tomamos uma decisão. Vamos dar-lhe três meses, e, se no fim desse tempo não tiver aprendido a ler e a escrever, você terá que sair.” 

Albert Edward nunca gostara do novo vigário. Desde o começo dissera que fora um engano designá-lo para aquela igreja. Tentou aprumar-se; conhecia o seu valor e não se permitiria ser passado para trás. 

“Lamento muito, senhor, mas acho que não adianta. Já estou muito velho para aprender essas coisas. Pode contar com a minha demissão, assim que tiver encontrado um substituto.” 

Quando Albert Edward, com sua habitual educação, fechou a porta da igreja, deixando o vigário e os dois fabriqueiros, já não conseguia sustentar o ar de imperscrutável dignidade com que recebera o golpe que lhe fora desferido. Seus lábios ficaram trêmulos. Voltou lentamente à sacristia e pendurou a opa no cabide. Guardou todo o resto, vestiu o casaco e, com o chapéu, caminhou pela nave a descer a praça, perdido em seus pensamentos, sem tomar a rua que o levaria para casa. 

Caminhava devagar, como se o coração lhe pesasse. Não sabia o que fazer. Conseguira economizar uns trocados, mas não o bastante para que pudesse viver descansadamente. Nunca imaginara que passaria por aquilo. Os sacristãos de São Pedro, como os papas em Roma, eram vitalícios. 

Albert Edward não fumava regularmente, mas, quando se sentia cansado, até que um cigarro ia bem. Ocorreu-lhe que fumar poderia confortá-lo naquele momento, e procurou qualquer lugar onde pudesse comprar um maço de cigarros. Era uma rua comprida, com toda espécie de lojas, mas sem uma única tabacaria. 

“Por que até hoje ninguém pensou em montar aqui uma tabacaria?”, perguntou-se ele. “Para vender cigarros e balas.” 

Este pensamento o fez parar. 

“Hei, até que não é má ideia! Interessante! Como as ideias vêm quando a gente menos espera!” 

Voltou para casa e tomou seu chá. 

“Você está muito calado esta tarde, Albert,” comentou a mulher.  “Estou pensando.” 

No dia seguinte, voltou àquela rua e, por sorte, encontrou uma pequena loja para alugar, que lhe convinha perfeitamente. Vinte e quatro horas depois, já a tinha alugado. Um mês após, deixou a igreja de São Pedro, em Neville Square, para sempre. Albert Edward Foreman estabeleceu-se no comércio de fumo e jornais. Sua mulher dissera que, depois de ter sido sacristão, aquilo parecia uma terrível decadência. Ele respondeu que as pessoas tinham de evoluir com o tempo. 

Albert Edward se deu muito bem. Tão bem que, em pouco mais de um ano, abriu uma filial e a confiou a um gerente. Então lhe ocorreu que, se podia ter uma loja, por que não ter dez de uma vez?  Assim, começou a andar por Londres e, sempre que encontrava uma longa rua sem tabacaria e com uma loja vaga ele a alugava. No curso de dez anos, já possuía nada menos do que dez tabacarias. Todas as segundas-feiras, Albert Edward fazia a ronda das lojas, coletava os lucros da semana e os depositava no banco. 

Certa manhã, quando ele estava no banco, o caixa lhe disse que a gerência gostaria de falar-lhe. Foi levado ao gabinete, onde o gerente lhe apertou as mãos calorosamente. 

“Senhor Foreman, sabe quanto dinheiro tem depositado conosco? Mais de 30 mil libras. Isto é muito dinheiro para se ter em depósito, e pensei que talvez o senhor gostasse de investi-lo.” 

“Preferia não correr o risco. Ele está seguro no banco.” 

“O senhor não terá a menor preocupação. Nós lhe faremos uma lista das melhores ações a comprar. Elas lhe renderão mais dividendos do que os juros que poderíamos pagar-lhe.” 

Uma sombra de preocupação perpassou pelo rosto de Foreman. “Nunca lidei com ações, senhor, e eu teria que deixar todo o dinheiro em suas mãos.” 

O gerente sorriu. “Nós cuidaremos de tudo. A única coisa que precisará fazer, quando voltar ao banco, será assinar os papéis de transferência.” 

“Isso eu posso fazer”, disse Albert sem muita certeza, “mas como iria saber o que estou assinando?” 

“Naturalmente o senhor sabe ler”, arriscou o gerente, um pouco irritado. 

Foreman deu-lhe um sorriso desconcertante. “Aí é que está, senhor! Não sei ler nem escrever. Apenas assinar o nome, e isso só aprendi quando me tornei comerciante.” 

O gerente ficou tão surpreso que quase saltou da cadeira. “O senhor quer dizer que montou o seu negócio e construiu tal fortuna sem saber ler nem escrever? Homem de Deus, pense no que poderia ser hoje se soubesse!” 

“Isso é fácil de responder, senhor”, disse Albert Edward, com um modesto sorriso em suas feições aristocráticas. “Se soubesse ler, hoje seria simplesmente sacristão.”