O
sacristão esperava que o vigário terminasse a sua função, para poder ir embora.
Pouco depois, viu o padre atravessar o templo, ajoelhar-se em frente ao altar e
descer por uma das naves, ainda com a batina.
“O
que estará ele esperando?”, perguntou o sacristão para si mesmo, “Não sabe que
está na hora do seu chá?”
Aquele
vigário (um homem corado e forte, com seus 40 anos) havia sido nomeado
recentemente, e Albert Edward ainda lamentava a partida do predecessor, um
religioso da velha escola que fazia descansados sermões com voz monocórdia e
adorava jantar fora com seus paroquianos mais aristocráticos. Ele gostava que
as coisas na igreja fossem assim, mas nunca aborrecia ninguém; não era como
este novo vigário, que se intrometia em tudo. Albert Edward,
porém, era tolerante.
“Não
sei para que essa bisbilhotice”, dizia Albert Edward, “mas um dia ele
aprenderá.”
O
vigário desceu a nave e dirigiu-se ao sacristão: “Foreman, pode vir à sacristia
por um minuto? Quero lhe dizer uma coisa.” Albert Edward o seguiu até a
sacristia e ficou surpreso ao encontrar lá dois fabriqueiros, homens de idade
que serviam naquela igreja havia quase tanto tempo como ele próprio.
Albert
Edward os encarou e, com ligeiro desconforto, imaginou qual seria o problema.
Seus pensamentos, porém, não transpareceram em suas feições quase
inescrutáveis. Manteve uma atitude não se diria obsequiosa, mas digna. Já
trabalhara em casas de excelentes famílias, antes de ser designado para o
serviço eclesiástico, e sua compostura era irrepreensível. Se não fazia lembrar
um duque, parecia pelo menos um ator dos velhos tempos, habituado a representar
esse papel. Albert Edward possuía tato, firmeza e segurança. Seu caráter era à
prova de dúvida.
O
vigário falou bruscamente. “Foreman, você tem trabalhado aqui há muitos anos, e
acho que tanto Sua Eminência como os fiéis em geral partilham a minha opinião
de que você tem executado o seu trabalho satisfatoriamente.”
Os
dois fabriqueiros assentiram.
“Mas
uma circunstância das mais extraordinárias chegou ao meu conhecimento no outro
dia, e senti ser de meu dever confiá-la aos fabriqueiros. Para enorme espanto
de minha parte, descobri que você não sabe ler nem escrever.”
O
rosto do sacristão não demonstrou qualquer sinal de embaraço.
“O
vigário anterior sabia disso, senhor”, respondeu ele. “Dizia que não fazia
diferença, e, por outro lado, afirmava também que o mundo não precisava de
viver com tanta educação.”
“É
a revelação mais espantosa que já ouvi”, exclamou o vigário. “Você que dizer
que tem sido sacristão desta igreja há 16 anos e nunca aprendeu a ler nem a
escrever?”
“Comecei
a trabalhar aos 12 anos, senhor. A cozinheira da primeira casa onde me
empreguei tentou me ensinar, mas eu não tinha muito jeito para essas coisas, e
depois, com um trabalho e outro, nunca dispus de tempo para aprender. Também
nunca me fez falta. Minha mulher é muito instruída e, quando preciso escrever
uma carta, ela a escreve.”
“Bem,
Foreman”, disse o vigário, “o fato é que, numa igreja como esta, não podemos
manter um sacristão analfabeto. Compreenda-me, pessoalmente não tenho nada
contra você; pelo contrário, tenho grande consideração pelo seu caráter e
capacidade, mas imagine se acontece um acidente provocado pela sua lamentável
ignorância? Não queremos ser injustos, mas tomamos uma decisão. Vamos dar-lhe
três meses, e, se no fim desse tempo não tiver aprendido a ler e a escrever,
você terá que sair.”
Albert
Edward nunca gostara do novo vigário. Desde o começo dissera que fora um engano
designá-lo para aquela igreja. Tentou aprumar-se; conhecia o seu valor e não se
permitiria ser passado para trás.
“Lamento
muito, senhor, mas acho que não adianta. Já estou muito velho para aprender
essas coisas. Pode contar com a minha demissão, assim que tiver encontrado um
substituto.”
Quando
Albert Edward, com sua habitual educação, fechou a porta da igreja, deixando o
vigário e os dois fabriqueiros, já não conseguia sustentar o ar de
imperscrutável dignidade com que recebera o golpe que lhe fora desferido. Seus
lábios ficaram trêmulos. Voltou lentamente à sacristia e pendurou a opa no
cabide. Guardou todo o resto, vestiu o casaco e, com o chapéu, caminhou pela
nave a descer a praça, perdido em seus pensamentos, sem tomar a rua que o
levaria para casa.
Caminhava
devagar, como se o coração lhe pesasse. Não sabia o que fazer. Conseguira
economizar uns trocados, mas não o bastante para que pudesse viver
descansadamente. Nunca imaginara que passaria por aquilo. Os sacristãos de São
Pedro, como os papas em Roma, eram vitalícios.
Albert
Edward não fumava regularmente, mas, quando se sentia cansado, até que um
cigarro ia bem. Ocorreu-lhe que fumar poderia confortá-lo naquele momento, e
procurou qualquer lugar onde pudesse comprar um maço de cigarros. Era uma rua
comprida, com toda espécie de lojas, mas sem uma única tabacaria.
“Por
que até hoje ninguém pensou em montar aqui uma tabacaria?”, perguntou-se ele.
“Para vender cigarros e balas.”
Este
pensamento o fez parar.
“Hei,
até que não é má ideia! Interessante! Como as ideias vêm quando a gente menos
espera!”
Voltou
para casa e tomou seu chá.
“Você
está muito calado esta tarde, Albert,” comentou a mulher. “Estou pensando.”
No
dia seguinte, voltou àquela rua e, por sorte, encontrou uma pequena loja para
alugar, que lhe convinha perfeitamente. Vinte e quatro horas depois, já a tinha
alugado. Um mês após, deixou a igreja de São Pedro, em Neville Square,
para sempre. Albert Edward Foreman estabeleceu-se no comércio de fumo e
jornais. Sua mulher dissera que, depois de ter sido sacristão, aquilo parecia
uma terrível decadência. Ele respondeu que as pessoas tinham de evoluir com o
tempo.
Albert
Edward se deu muito bem. Tão bem que, em pouco mais de um ano, abriu uma filial
e a confiou a um gerente. Então lhe ocorreu que, se podia ter uma loja, por que
não ter dez de uma vez? Assim, começou a
andar por Londres e, sempre que encontrava uma longa rua sem tabacaria e com
uma loja vaga ele a alugava. No curso de dez anos, já possuía nada menos do que
dez tabacarias. Todas as segundas-feiras, Albert Edward fazia a ronda das
lojas, coletava os lucros da semana e os depositava no banco.
Certa
manhã, quando ele estava no banco, o caixa lhe disse que a gerência gostaria de
falar-lhe. Foi levado ao gabinete, onde o gerente lhe apertou as mãos
calorosamente.
“Senhor
Foreman, sabe quanto dinheiro tem depositado conosco? Mais de 30 mil libras.
Isto é muito dinheiro para se ter em depósito, e pensei que talvez o senhor
gostasse de investi-lo.”
“Preferia
não correr o risco. Ele está seguro no banco.”
“O
senhor não terá a menor preocupação. Nós lhe faremos uma lista das melhores
ações a comprar. Elas lhe renderão mais dividendos do que os juros que
poderíamos pagar-lhe.”
Uma
sombra de preocupação perpassou pelo rosto de Foreman. “Nunca lidei com ações,
senhor, e eu teria que deixar todo o dinheiro em suas mãos.”
O
gerente sorriu. “Nós cuidaremos de tudo. A única coisa que precisará fazer,
quando voltar ao banco, será assinar os papéis de transferência.”
“Isso
eu posso fazer”, disse Albert sem muita certeza, “mas como iria saber o que
estou assinando?”
“Naturalmente
o senhor sabe ler”, arriscou o gerente, um pouco irritado.
Foreman
deu-lhe um sorriso desconcertante. “Aí é que está, senhor! Não sei ler nem
escrever. Apenas assinar o nome, e isso só aprendi quando me tornei
comerciante.”
O
gerente ficou tão surpreso que quase saltou da cadeira. “O senhor quer dizer
que montou o seu negócio e construiu tal fortuna sem saber ler nem escrever?
Homem de Deus, pense no que poderia
ser hoje se soubesse!”
“Isso
é fácil de responder, senhor”, disse Albert Edward, com um modesto sorriso em
suas feições aristocráticas. “Se soubesse ler, hoje seria simplesmente
sacristão.”