Nós somos as flores, os
ninhos, as casas,
O nascer do sol, as janelas,
as asas,
As ervas do prado e as algas
do mar,
O beijo da mãe, a canção de embalar.
Nós somos as cigarras que cantam no verão,
E o gelo do lago quando o
inverno arrefece,
As conchas na praia e na
palma da mão,
A brisa que sopra e a chama da prece.
Nós somos o caminho já feito
E o que está por fazer,
A barriga que cresce e o
fruto maduro,
As vides da vida que o
destino entrança,
Os troncos de fé e a escada da esperança.
Nós somos o grito de que o mundo se espanta,
A touca de longe descobre a
garganta,
O amor que dá rosas no cetim
das faces,
A criança que chora enquanto
o pai não vem,
A carta rasgada que o coração
repete,
As rimas sem rima que a saudade promete.
Nós somos os pingos da chuva e as mãos à lareira,
O primeiro dente e o primeiro
desgosto,
As fases da lua e o ardente
sol-posto,
As primeiras letras o último suspiro.
Nós estamos em tudo aquilo que existe,
No orvalho limpo no sorriso
triste,
No segredo escondido e na
porta aberta,
No milagre da vida, no arco e
na seta,
Na chegada ao cais e na
despedida,
No livro e no chá talvez de
cidreira,
No velho café na caneca
partida,
No primeiro beijo para o resto da vida.
(Publicação de lado.a.lado)*
*Sem referência ao autor ou à
autora de tão belo poema.

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