Qualquer pessoa pode redigir desde que tente para valer. O difícil é reler até nada mais ter para cortar ou acrescentar. A mensagem deve permanecer clara.
Primeiro, é preciso saber que o universo reservou um lugar certo para cada palavra e só ali ela faz sentido. Como disse Voltaire, uma palavra posta fora do lugar estraga o pensamento mais bonito.
Mas ninguém nasce com esta clarividência. Um texto se constrói, às vezes lentamente, muitas vezes penosamente, raras vezes facilmente. Depende do esforço do construtor. E de sua persistência para refazer a obra quando ela desabar, seja por insuficiência de alicerce cultural, seja por causa de desvios temáticos ou de implosões gramaticais.
Qualquer pessoa consegue escrever, desde que tente para valer. Talento natural existe e ajuda, mas não é tudo.
Uma boa maneira de começar é selecionar o que se tem a dizer e para quem. A partir daí, da forma mais simples e direta possível, narra-se o fato. Com as palavras que vierem à cabeça. Até que se esgotem. Depois, sim, começa a tarefa mais trabalhosa: reler uma, duas, tantas vezes quantas forem necessárias. E ir retirando, sem autocomiseração, tudo o que parecer duvidoso, exagerado, sem graça nem sentido. Se não sobrar nada, começa-se de novo. Se sobrar muito, talvez seja melhor fazer outra leitura.
Quando não houver mais nada para acrescentar ou tirar, e a mensagem principal permanecer clara, o texto está pronto.
Parece
simples, mas dói um bocado. Só que não tem outro jeito.
Nilson Souza
(Zero Hora, 31-12-1990)

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