sábado, 21 de dezembro de 2024

Magia

 Meu inesquecível Natal de 1954 

“O brinquedo essencial do homem é a bola.

Quem ganha uma bola descobre dois mundos,

o de dentro e o de fora.” 

(Paulo Mendes Campos em O Gol é necessário – Crônicas Esportivas)

Comecei a entender a Magia do Natal, lá pelos meus nove anos. Não que eu não soubesse da fantasia, da atmosfera grandiosa com que se reveste tudo em torno do Natal, é que, com essa idade, eu entendi que Natal, para uma criança, é o presente que se ganha ao acordar; é o que se espera, com ansiedade, encontrar embaixo da cama ou na árvore enfeitada no dia de Natal. 

Em virtude de eu ser filho de um modesto funcionário público, desde cedo eu entendi as dificuldades da compra de um presente. Geralmente, nos natais, meu pai me presenteava com coisas práticas: um sapato novo, uma calça ou uma camisa. Mas, naquele Natal, aconteceu-me algo diferente. Fui dormir sem nenhuma perspectiva. Sabia que no outro dia seria dia de Natal. A mesa estaria mais farta, ganharia, talvez, uma peça de roupa nova, ou um carrinho qualquer. Mas, no outro dia, algo fantástico aconteceu. Lá estava ela com o meu nome: uma linda bola de couro número 5. Não sei quem a comprou, mas ela foi dada para mim, uma bola novinha, e só quem já foi moleque de bairro sabe o que representa uma bola número 5. Ela representa, para um garoto, o maior sonho que se possa imaginar. Significa ter o mundo a seus pés. Significa ser o dono da maior felicidade do mundo! Poder jogar em qualquer posição. Ser escalado, começar e terminar uma partida, mesmo sendo um perna-de-pau, pois numa pelada de onze contra onze, o dona da bola é o dono do time! 

Dormi abraçado àquela bola. Não deixava que caísse no chão. Passava sebo nas costuras para que ela não se estragasse. Ela era a minha bola. O meu melhor presente de Natal. 

Hoje, adulto, já tive excelentes natais. Aburguesei-me e posso comprar alguma felicidade que o dinheiro pode proporcionar, mas nada é igual. Recebo presentes, dou bons presentes, mas não há magia. Nada, nem de longe, tem aquela alegria e aquela felicidade que uma bola de couro número cinco me proporcionou naquele distante Natal dos meus tenros nove anos. 

(Texto de Nilo da Silva Moraes)


Um comentário:

  1. P.S.: Quem me presenteou com essa bola inesquecível, foi o meu irmão mais velhos, o João, ao 17 anos com o salário de seu primeiro emprego. Por isso sou grato a ele até hoje, fazendo esse reconhecimento através dessa modesta crônica.

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