segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Um pouco de cultura

Olhe essas expressões usadas freqentemente...



01. Planos ou projetos para o futuro. 

→ Você conhece alguém que faz planos para o passado? Só se for o Michael Fox no filme "De volta para o Futuro".

02. Criar novos empregos. 

→ Ora, bolas, alguém consegue criar algo velho?

03. Hábitat natural.

→ Todo hábitat é natural; consulte um dicionário.

04. Prefeitura Municipal.

→ No Brasil só existem prefeituras nos municípios.

05. Conviver junto.

→ É possível conviver separadamente?

06. Sua autobiografia.

→ Se é autobiografia, já é sua.

07. Sorriso nos lábios.

→ Já viu sorriso no umbigo?

08. Goteira no teto.

→ No chão é impossível!

09. Estrelas do céu.

→ Paramos à noite para contemplar o lindo brilho das estrelas do mar?

10. General do Exército.

→ Só existem generais no Exército.

11. Brigadeiro da Aeronáutica.

→ Só existem brigadeiros na Aeronáutica.

12. Almirante da Marinha.

→ Só existem almirantes na Marinha.

13. Manter o mesmo time.

→ Pode-se manter outro time? Nem o Felipão consegue!

14. Labaredas de fogo.

→ De que mais as labaredas poderiam ser? De água?

15. Pequenos detalhes.

→ Se é detalhe, então já é pequeno. Existem grandes detalhes?

16. Erário público.

→ O dicionário ensina que erário é o tesouro público, por isso, erário só basta!

17. Despesas com gastos.

→ Despesas e gastos são sinônimos!

18. Encarar de frente.

→ Você conhece alguém que encara de costas ou de lado?

19. Monopólio exclusivo.

→ Ora, se é monopólio, já é total ou exclusivo...

20. Ganhar grátis.

→ Alguém ganha pagando?

21. Países do mundo.

→ E de onde mais podem ser os países?

22. Viúva do falecido.

→ Até prova em contrário, não pode haver viúva se não houver um falecido...





Frases e poemas de Álvaro Moreyra

(1888 – 1964)


“Para fazer um céu basta uma estrela...”

“Saudade de ser embalado. Insônia é isso.”

“Sereno... orvalho... relento... Os mortos choram por nós nas noites claras.”

“A eternidade é a vida de cada um. Na vida de cada um quantas eternidades!”

“O meu maior prazer é mudar de opinião. Com esse prazer, vou evitando a velhice.”

“Só nos jardins há amores perfeitos. Só nos jardins os cravos não são para crucificar ou para ferrar. E as rosas, que sinceridade!”

“Eu tenho pena é do meu anjo da guarda. Coitado! Teve que vir comigo...”

“As minhas rosas se esqueceram de que tinham espinhos. As minhas abelhas se esqueceram de que tinham ferrões.”

“Não é a Lua que importa... É o luar...”

“As lembranças são estrelas. A memória é uma noite bonita. Não faz mal que essas estrelas tenham morrido há muitos anos. A luz delas ainda me acaricia.”

“O perfume da rosa volta em todas as rosas.”

“... A hora dos sinos, quando cada um de nós é um pouco de Deus em sombra errante...”

“Felicidade... És do mundo e do céu. Tens um gosto de adeus...”

Poemas


Quando eu morrer com certeza vou
pro céu.
O céu é uma cidade de férias, férias
boas que não acabam mais.
Chegando, pergunto pela
minha gente que foi na frente.
Dou beijos, dou abraços, pergunto
uma porção de coisas e depois,
depois quero ir na casa de
São Francisco de Assis, ficar amigo dele,
tão amigo, tão amigo, que ele
há de me chamar: 
− Alvinho! e
eu hei de lhe chamar:
− Chiquinho!...

Naquele dia você estava com uma curiosidade!
Fez tanta pergunta.
Quanta coisa você quis saber.
O que era o mundo e a vida,
as estrelas do céu,
os animais da floresta,
o Polo Norte, Hollywood...
Eu respondi tudo, não foi?
Bem direitinho.
Falei, falei, falei...
Mas quando você me perguntou o que era o amor,
tirei os óculos,
passei o lenço nos vidros,
não respondi.
Fiquei com vergonha...

Aspiração

– Papai, se eu te pedisse uma nuvem, tu me dava?
– Dava...
– E o sol?
– Dava...
– Não vê!...
– Dava, sim...
– E aquela árvore, lá em cima do morro?
– Dava...
– E todos os vapores que andam no mar?
– Dava...
– Ah!
– Que é?
– Eu só queria um tostão pra comprá um pirulito...

Puzzle

– Podes formar uma estrela, uma casa, uma mulher...
Quanta coisa tu podes formular com esses pedacinhos coloridos.
Mas, não tens paciência.
Queres acertar depressa. Misturas tudo. Erras. Erras. Erras...
Devagar, menino. Imagina quando fores grande, se fizeres o mesmo
com as horas da tua vida.
Foi assim que eu comecei...

Homem Calado

Ele tinha um ar de papagaio tristonho.
Andava sempre de fraque.
Não falava.
Pensava.
Pensava.
Um dia, afinal, deu um suspiro e disse:
– Depois que a gente se casa, é que vê como as outras mulheres são interessantes.

História tão pequena

Naquela manhã de inverno um floco de neve e um cabelo branco caíram juntos na terra.
O cabelo branco perguntou:
– De onde vieste?
– Do céu. E tu?
– Da cabeça de uma mulher bonita.
O floco de neve curvou-se:
– Passa na frente.
Não é linda esta história tão pequena?

Preto Velho

– Pai Adão, conta uma história do tempo da escravidão.
– Pai Adão olha com os olhos tristes os netos de Sinhô Moço.
– Pai Adão, conta uma história do tempo da escravidão.
– Pai Adão baixa a cabeça.




A cura contra o infortúnio

Conto budista





          Certa vez, uma mãe jovem e bela viu adoecer e definhar seu filhinho. A mãe enlouqueceu. Apertou ao peito o filho morto e saiu de casa em casa, pedindo um remédio que lhe restituísse a vida. Um monge, tomado de piedade, disse-lhe:
          -  Minha pobre filha, eu não tenho o remédio; mas sei de alguém que o tem. É o Buda.
         Ela, então, correu ao Gautama.
         - Sim, conheço o remédio eficaz, disse ele. É a semente da mostarda.
         Mas quando a mulher já se regozijava por ser o remédio tão comum, o profeta continuou:
         - Tens de obtê-la numa casa onde nunca haja morrido nenhum filho, marido, pai ou escravo.
        A jovem mãe partiu a procura do remédio. As pessoas se mostravam solícitas em dar-lhe a semente pedida. Mas a mulher perguntava:
        - Esta casa nunca foi atingida pela morte de nenhum filho, marido ou escravo?
        Respondiam-lhe tristemente:
        − Tal casa não existe. Os mortos são muitos; os vivos, poucos.
        Então, mergulhada em profunda cisma, foi à floresta e enterrou a criança.
        Quando voltou para junto do Gautama, este perguntou:
        - Encontraste a semente da mostarda?
        A mulher respondeu:
      − Não, meu mestre, mas encontrei a cura. Sepultei a minha dor na floresta E agora estou pronta para seguir-te em paz.



F E B E M

Reynaldo Jardim

Desempregue um pai,
deixe-o na lona.
A mãe abandone
no estado de coma.
Jogue na sarjeta
o filho indigente,
será, se viver,
mais um sobrevivente.
Na rua terá
que buscar sustento,
esmolando o pão,
dormindo ao relento,
até que a miséria
converta o menino
em ladrão safado
ou cruel assassino.
Agora o espanque,
com seu cassetete,
mais um brasileiro
que virou pivete.
Para o bem de todos,
pro seu próprio bem,
já está escrito:
vai para a Febem.
O que é bom pra tosse
aprende na marra.
Com muita pauleira
afie sua garra.
E na bandidagem
ele não se aperta.
Enturme o garoto
numa gangue esperta.
Instigue a revolta
e a paixão funesta.
Na primeira volta
ele faz a festa:
mete o estilete
na barriga magra
de um desafeto
que seu pé não larga.
Jurado de morte,
estende sua teia,
junta sua tribo
 e o fogo ateia.
Você que o matou
na revolta insana,
 não corre perigo
 de entrar em cana.
Você que aprendeu
a arte e a manha
de fazer miséria
repita a façanha.
Desempregue um pai,
que um país sofrido
sabe muito bem,
fabricar mais um bandido.





domingo, 2 de novembro de 2014

Ipê dos Colhudos

               

Galpão de estância do extinto deputado e médico Aramy Silva, na divisa dos municípios de São Borja e Santiago, no rincão da Encruzilhada. O assunto, naquela manhã invernosa de chuva, era tamanho de árvore: altura, diâmetro, galharia. principalmente altura.

- No mato do meu finado avô – que o Senhor o tenha a seu lado -, havia uma timbaúva que quando era manhã de cerração a gente não enxergava a galharia, olhando cá de baixo. Quando serraram ela e a bruta se veio abaixo, abriu um boqueirão no mato. Dois laços de quinze braças, acolherados, não deram pra medir o tamanho do tronco...

- Deve ser a timbaúva onde os paraguaios, quando invadiram São Borja, acamparam tudo debaixo dela. E ainda sobrou sombra.

- Não te fresqueia, rapaz. Meu pai quase enricou vendendo gamela da dita cuja. Deu mais de duzentas, das grandes...

- Meu pai comprou uma. Das melhor. Serviu pra cama de três dos meus irmãos menor...

- Não te fresqueia, aborto de égua véia. Arrespeita os que têm mais vida do que tu. Tu tá me horrorizando a história...

- Ironizando, seu Pulchério. Horrorizar é outra coisa.

- Mas entenderam, pois não é? Pois vão à puta que os pariu, com licença das mães de vocês...

Coqueiro de trinta metros. Canafístula de quarenta. Pau-ferro de quarenta e cinco. A reunião estava animada, a cana corria frouxa, a altura das árvores aumentava como barriga de prenha.

Tio Xerembe cuspiu pela janela do galpão. Coçou a carapinha branca, soprou as caspas que lhe ficaram nas unhas encardidas e se meteu na conversa:

- Vão se cagá tudo vancês com essas arvezinhas miserável. Com estes óios que a terra há de comer eu vi, no Cerro do Ouro, quase na costa do Uruguai, um ipê que seu eu contar o tamanho vão me chamar de mentiroso. Agora, se me chamarem de mentiroso eu capo o fiadaputa que me afrontar.

- Conte no más, tio Xerembe.

- Conto e juro pelos ossos da finada. O tal ipê era tão alto, mas tão alto, que bugio pra chegar na última galhada tinha que levar fiambre para sestear na subida...




(Do livro “Rapa de Tacho” Casos Gauchescos, de Aparício Silva Rillo)
Tchê Editora de Bombacha


sábado, 1 de novembro de 2014

Partida e Chegada



O rabino Henry Sobel, por ocasião da morte de Mário Covas, 
contou a seguinte parábola:

Quando observamos, da praia, um veleiro a afastar-se da costa, navegando mar adentro, impelido pela brisa matinal, estamos diante de um espetáculo de beleza rara. O barco, impulsionado pela força dos ventos, vai ganhando o mar azul e nos parece cada vez menor. Não demora muito e só podemos contemplar um pequeno ponto branco na linha remota e indecisa, onde o mar e o céu se encontram. Quem observa o veleiro sumir na linha do horizonte, certamente exclamará: “Já se Foi! Terá sumido? Evaporado?”. Não, certamente. Apenas o perdemos de vista. O barco continua do mesmo tamanho e com a mesma capacidade que tinha quando estava próximo de nós. Continua tão capaz quanto antes de levar ao porto de destino as cargas recebidas. O veleiro não evaporou, apenas não o podemos mais ver. Mas ele continua o mesmo. E, talvez, no exato instante em que alguém diz: “Já se foi”, haverá outras vozes, mais além, a afirmar: “Lá vem o veleiro!”... Assim é a morte.

Quando o veleiro parte, levando a preciosa carga de um amor que nos foi caro, e o vemos sumir na linha que separa o visível do invisível dizemos: “Já se foi!. Terá sumido? Evaporado?”. Não, certamente. Apenas o perdemos de vista. O ser que amamos continua o mesmo, suas conquistas persistem dentro do mistério divino. Nada se perde, a não ser o corpo físico de que não mais necessita. E é assim que, no mesmo instante em que dizemos: “Já se foi.”, no além, outro alguém dirá: “Já está chegando!”. Chegou ao destino levando consigo as aquisições feitas durante a vida. Na vida, cada um leva sua carga de vícios e virtudes, de afetos e desafetos, até que se resolva por desfazer-se do que julgar desnecessário.

A vida é feita de partidas e chegadas. De idas e vindas. Assim, o que para uns parece ser a partida, para outros é a chegada. Assim, um dia, todos nós partimos como seres imortais que somos todos nós ao encontro Daquele que nos criou.


A passagem estreita

Dom Dadeus Grings*


São Paulo, há dois mil anos, garantia que se fosse só para este mundo que tivéssemos colocado nossa esperança em Jesus Cristo, seríamos de todos os homens os mais dignos de lástima. A morte constitui o último baluarte da vida. Cristo garante uma morada eterna no céu.

Para entrar nesta morada é preciso desvencilhar-se de muitos apegos. Jesus garantiu ser mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha que um rico entrar no Reino dos céus. Na sua época as cidades tinham portões bem guarnecidos. Fechavam à noite e em tempos de guerra. Ficava então disponível para os cidadãos apenas uma pequena porta, chamada de “buraco da agulha”. Não conseguindo passar pelo portão, era necessário passar por este “buraco”, o que requeria certos cuidados.

Como o “buraco” era pequeno, tornava-se difícil passar com um camelo, que era o veículo daquela época. Em primeiro lugar tinha que se apear. Além disso descarregar tudo o que se tinha em cima. Depois era preciso baixar o camelo: sua cabeça e dobrar os joelhos. Era necessário que alguém o puxasse e outro o empurrasse, para assim atravessar o orifício das muralhas da cidade. Este trabalho levava bastante tempo e exigia muito esforço. É o símbolo que Cristo encontrou para ensinar como entrar no Reino de Deus: apear do orgulho, descarregar os fardos da vida e contar com a ajuda dos outros: de Maria, dos santos e amigos que, com sua oração, possibilitarão atravessar esta porta apertada para ingressar no céu.


*Dom Dadeus Grings (Nova Petrópolis, 7 de setembro de 1936) é um bispo católico, arcebispo-emérito de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.