Nílson Souza
Então a gente furava o fundo de duas latas velhas e aproveitava os pregos enferrujados para amarrar o barbante que ligaria uma à outra. Era o nosso telefone móvel. Enquanto um gritava numa das extremidades do aparato improvisado, o outro apurava o ouvido para ouvir aquela ligação exclusiva que qualquer pessoa próxima ouviria igual:
‒ Alô? Quem fala? Tá ouvindo? ‒ Dizia o emissor.
E rapidamente o receptor movia sua lata da orelha para própria boca e respondia:
‒ Tô!
Para muito mais do que isso não havia repertório no vocabulário infantil daqueles meninos de periferia. Depois de algumas tentativas de diálogo, entremeadas por silêncios e risos, um dos interlocutores jogava a lata no chão e propunha:
‒ Vamos jogar bolita?
As bolitas também habitavam latas, às vezes um saco de pano guardado numa gaveta ou num cantinho escondido debaixo da cama. Eram preciosidades aquelas bolinhas de vidro, principalmente as que chamávamos de “águidas”, com desenho interno colorido, conhecidas em outras paragens como águias ou olho de gato.
As regras do jogo eram de conhecimento geral: riscava-se um círculo ou triângulo no chão de terra e uma linha reta a determinada distância. Cada competidor colocava as suas bolinhas dentro da área demarcada, todos lançavam alternadamente suas “jôgas” até o risco para estabelecer a primazia das jogadas. Quem ficasse mais próximo era o primeiro e poderia, com um movimento formado pelo polegar e pelo indicador, lançar a sua bolinha nas demais, com o objetivo de tirá-las do círculo e delas se apropriar.
‒ Não vale facão! ‒ gritavam os jogadores para aqueles que impulsionavam o lançamento com um movimento de braço, por ter “inhaque” fraco ou armar o arremesso com aquele constrangedor posicionamento de dedos que lembravam não sei o quê* da galinha. Claro que a expressão era outra. Brincávamos também de ovo podre, de mocinho e bandido, de pular corda, de corrida do saco, de soltar pandorga, de lançar pião...
(...)
“Eu quero os meus brinquedos novamente! Sou um pobre menino... acreditai... que envelheceu, um dia, de repente!”. (Mário quintana)
(Do jornal zero hora, 21 de julho de 2026)
* Cu de galinha.

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