domingo, 5 de julho de 2026

Cuidado com as linhas cruzadas...

 

Luis Fernando Veríssimo 

Um telefone toca num fim de tarde, começo de noite... 

* Alô?

* Pronto. 

Ele: ‒ Voz estranha... Gripada?

Ela: ‒ Faringite.

Ele: ‒ Deve ser o sereno. No mínimo tá saindo todas as noites pra badalar.

Ela: ‒ E se estivesse? Algum problema?

Ele: ‒ Não, imagina! Agora, você é uma mulher livre.

Ela: ‒ E você? Sua voz também está diferente. Faringite?

Ele: ‒ Constipado.

Ela: ‒ Constipado? Você nunca usou esta palavra na vida.

Ele: ‒ A gente aprende.

Ela: ‒ Tá vendo? A separação serviu para alguma coisa.

Ele: ‒ Viver sozinho é bom. A gente cresce.

Ela: ‒ Você sempre viveu sozinho. Até quando casado só fez o que quis.

Ele: ‒ Maldade sua, pois deixei de lado várias coisas quando a gente se casou.

Ela: ‒ Evidente! Só faltava você continuar rebolando nas discotecas com as amigas.

Ele: ‒ Já você não abriu mão de nada. Não deixou de ver novela, passear no shopping, comprar joias, conversar ao telefone com as amigas durante horas. 

...Silêncio... 

Ela: ‒ Comprar joias? De onde você tirou essa ideia? A única coisa que comprei em quinze anos de casamento foi um par de brincos.

Ele: ‒ Quinze anos? Pensei que fosse bem menos.

Ela: ‒ A memória dos homens é um caso de polícia!

Ele: ‒ Mas conversar com as amigas no telefone...

Ela: ‒ Solidão, meu caro, cansaço... Trabalhar fora, cuidar das crianças e ainda preparar o jantar para o HERÓI que chega à noite... Convenhamos, não chega a ser uma roda-gigante de emoções...

Ele: ‒ Você nunca reclamou disso.

Ela: ‒ E você me perguntou alguma vez?

Ele: ‒ Lá vem você de novo... As poucas coisas que eu achava que estavam certas... Isso também era errado!?

Ela: ‒ Evidente, a gente não conversava nunca...

Ele: ‒ Faltou diálogo, é isso? Na hora, ninguém fala nada. Aparece um impasse e as mulheres não reclamam. Depois, dizem que Faltou diálogo. As mulheres são de Marte!

Ela: ‒ E vocês são de Saturno! 

...Silêncio... 

Ele: ‒ E aí, como vai a vida?

Ela: ‒ Nunca estive tão bem. Livre para pensar, ninguém pra me dizer o que devo fazer...

Ele: ‒ E isso é bom?

Ela: ‒ Pense o que quiser, mas quinze anos de jornada são de enlouquecer qualquer uma.

Ele: ‒ Eu nunca fui autoritário!

Ela: ‒ Também nunca foi compreensivo!

Ele: ‒ Jamais dei a entender que era perfeito. Tenho minhas limitações como qualquer mortal...

Ela: ‒ Limitado e omisso como qualquer mortal.

Ele: ‒ Você nunca foi irônica.

Ela: ‒ Isso a gente aprende também.

Ele: ‒ Eu sempre te apoiei.

Ela: ‒ Lógico. Se não me engano foi no segundo mês de casamento que você lavou a única louça da tua vida. Um apoio inestimável... Sinceramente, eu não sei o que faria sem você? Ou você acha que fazer vinte caipirinhas numa tarde para um bando de marmanjos que assistem ao jogo da Copa do Mundo era realmente o meu grande objetivo na vida?

Ele: ‒ Do que você está falando?

Ela: ‒ Ah, não lembra?

Ele: ‒ Ana, eu detesto futebol.

Ela: ‒ Ana!? Esqueceu meu nome também? Alexandre, você ficou louco?

Ele: ‒ Alexandre? Meu nome é Ronaldo! 

...Silêncio... 

Ele: ‒ De onde está falando?

Ela: ‒ 2578 9922

Ele: ‒ Não é o 2578 9222?

Ela: ‒ Não.

Ele: ‒ Ah, desculpe, foi engano. 

Depois de um tempo ambos caem na gargalhada. 

Ele: ‒ Quer dizer que você faz uma ótima caipirinha, hein?

Ela: ‒ Modéstia à parte... Mas não gosto, prefiro vinho tinto.

Ele: ‒ Mesmo? Vinho é a minha bebida preferida!

Ela: ‒ E detesta futebol?

Ele: ‒ Deus me livre... 22 caras correndo atrás de uma bola... Acho ridículo!

Ela: ‒ Bem, você me dá licença, mas eu vou preparar o jantar.

Ele: ‒ Que pena... O meu já está pronto. Risoto, minha especialidade!

Ela: ‒ Mentira! É o meu prato predileto...

Ele: ‒ Mesmo! Bem, a porção dá pra dois, e estou abrindo um Chianti também. Você não gostaria de...

Ela: ‒ Adoraria!

Ele dá o endereço.

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