Luis Fernando Veríssimo
Um telefone toca num fim de tarde, começo de noite...
* Alô?
* Pronto.
Ele: ‒ Voz estranha...
Gripada?
Ela: ‒ Faringite.
Ele: ‒ Deve ser o sereno. No
mínimo tá saindo todas as noites pra badalar.
Ela: ‒ E se estivesse? Algum
problema?
Ele: ‒ Não, imagina! Agora,
você é uma mulher livre.
Ela: ‒ E você? Sua voz também
está diferente. Faringite?
Ele: ‒ Constipado.
Ela: ‒ Constipado? Você nunca
usou esta palavra na vida.
Ele: ‒ A gente aprende.
Ela: ‒ Tá vendo? A separação
serviu para alguma coisa.
Ele: ‒ Viver sozinho é bom. A
gente cresce.
Ela: ‒ Você sempre viveu
sozinho. Até quando casado só fez o que quis.
Ele: ‒ Maldade sua, pois
deixei de lado várias coisas quando a gente se casou.
Ela:
‒ Evidente! Só faltava você continuar rebolando nas discotecas com as amigas.
Ele: ‒ Já você não abriu mão de nada. Não deixou de ver novela, passear no shopping, comprar joias, conversar ao telefone com as amigas durante horas.
...Silêncio...
Ela:
‒ Comprar joias? De onde você tirou essa ideia? A única coisa que comprei em
quinze anos de casamento foi um par de brincos.
Ele: ‒ Quinze anos? Pensei
que fosse bem menos.
Ela: ‒ A memória dos homens é
um caso de polícia!
Ele: ‒ Mas conversar com as
amigas no telefone...
Ela:
‒ Solidão, meu caro, cansaço... Trabalhar fora, cuidar das crianças e ainda preparar
o jantar para o HERÓI que chega à noite... Convenhamos, não chega a ser uma
roda-gigante de emoções...
Ele: ‒ Você nunca reclamou
disso.
Ela: ‒ E você me perguntou
alguma vez?
Ele:
‒ Lá vem você de novo... As poucas coisas que eu achava que estavam certas... Isso
também era errado!?
Ela: ‒ Evidente, a gente não
conversava nunca...
Ele:
‒ Faltou diálogo, é isso? Na hora, ninguém fala nada. Aparece um impasse e as
mulheres não reclamam. Depois, dizem que Faltou diálogo. As mulheres são de
Marte!
Ela: ‒ E vocês são de Saturno!
...Silêncio...
Ele: ‒ E aí, como vai a vida?
Ela:
‒ Nunca estive tão bem. Livre para pensar, ninguém pra me dizer o que devo
fazer...
Ele: ‒ E isso é bom?
Ela: ‒ Pense o que quiser,
mas quinze anos de jornada são de enlouquecer qualquer uma.
Ele: ‒ Eu nunca fui
autoritário!
Ela: ‒ Também nunca foi
compreensivo!
Ele:
‒ Jamais dei a entender que era perfeito. Tenho minhas limitações como qualquer
mortal...
Ela: ‒ Limitado e omisso como
qualquer mortal.
Ele: ‒ Você nunca foi
irônica.
Ela: ‒ Isso a gente aprende
também.
Ele: ‒ Eu sempre te apoiei.
Ela:
‒ Lógico. Se não me engano foi no segundo mês de casamento que você lavou a única
louça da tua vida. Um apoio inestimável... Sinceramente, eu não sei o que faria
sem você? Ou você acha que fazer vinte caipirinhas numa tarde para um bando de
marmanjos que assistem ao jogo da Copa do Mundo era realmente o meu grande
objetivo na vida?
Ele: ‒ Do que você está
falando?
Ela: ‒ Ah, não lembra?
Ele: ‒ Ana, eu detesto
futebol.
Ela: ‒ Ana!? Esqueceu meu
nome também? Alexandre, você ficou louco?
Ele: ‒ Alexandre? Meu nome é Ronaldo!
...Silêncio...
Ele: ‒ De onde está falando?
Ela: ‒ 2578 9922
Ele: ‒ Não é o 2578 9222?
Ela: ‒ Não.
Ele: ‒ Ah, desculpe, foi engano.
Depois de um tempo ambos caem na gargalhada.
Ele: ‒ Quer dizer que você
faz uma ótima caipirinha, hein?
Ela: ‒ Modéstia à parte...
Mas não gosto, prefiro vinho tinto.
Ele: ‒ Mesmo? Vinho é a minha
bebida preferida!
Ela: ‒ E detesta futebol?
Ele: ‒ Deus me livre... 22
caras correndo atrás de uma bola... Acho ridículo!
Ela: ‒ Bem, você me dá
licença, mas eu vou preparar o jantar.
Ele: ‒ Que pena... O meu já
está pronto. Risoto, minha especialidade!
Ela: ‒ Mentira! É o meu prato
predileto...
Ele:
‒ Mesmo! Bem, a porção dá pra dois, e estou abrindo um Chianti também. Você não
gostaria de...
Ela: ‒ Adoraria!
Ele dá o endereço.

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