segunda-feira, 13 de julho de 2026

Com os olhos virados para a querência

Campereada

 Paulo Mendes 

Em um janeiro quente, quando já havia deixado a terra onde me criei, o Tostado descansou seu couro na grama verdejante da Vila Rica. Na verdade, só vi seus ossos, cheguei tarde demais para me despedir do melhor amigo que fiz nesta vida. Mas constatei que morreu com a cabeça virada para sua querência, o rincão do Passo dos Buracos. Disso eu sabia, ele amava o lugar que havia nascido, pois o flagrei muitas vezes com o pescoço pendurado na cerca de arame lá perto da sanga, do fundo de nossa pequena chácara. Ele ficava debaixo de uma caneleira, clamo, reboleando a cola, pateando. Depois me fitava com aqueles seus olhos imensos que pareciam um lagoão de potreiro. 

Foi assim: o pai, seu José Mendes, o comprou ainda potro de um vizinho que, diziam, maltratava ele e sua mãe, uma égua carroceira que nem bem teve o parto foi atrelada de novo na carroça. E o potrinho, a partir daquele dia, aprendeu a correr ao lado. Vendo aquilo, seu Mendes pagou o que o dono pediu e tirou o animal da daquele martírio. O Tostado foi o cavalo mais forte, mais manso, mais companheiro que conheci. Ele fazia de tudo, puxava carroça, era exímio numa lida de campo, excelente tracionando um arado 9, qualquer coisa. O pai dizia que, quando cresceu, o potro não mostrou resistência para doma. Ao contrário, sempre foi dócil e eficiente. “Nasceu manso, um amigo”, dizia o pai. 

Somos parecidos com os cavalos, que quando ficam livres voltam para o lugar onde nasceram. E desde jovens mostram as suas personalidade. Passamos a vida tentando voltar para a querência. Onde ela está, soubemos. Mas o que nunca aprendemos é como encontrá-la. Para onde ela se cambia depois que crescemos, nos bandeamos de tiro rumo ao desafios que se apresentam. E, por vezes, vamos de volta para aquele lugar, mas ele não está mais lá. Chegamos e não reconhecemos as casas, as estradas, o gado que pastava à beira da estrada. Ali, onde se erguia um bolicho, agora viceja um distrito industrial, a estrada de terra virou rodovia asfaltada. Então nos invade a sensação de que assim como nós, a querência se transformou. 

Um vez, contudo, enfrenei o Tostado, acomodei um pelego no lombo, e o levei lá nos Buracos. Era perto. Ele troteava feliz quando ia para aqueles lados. Paramos no arroio, quase debaixo da ponte. Bebeu a água limpa e gelada que corria por entre as pedras. De minha parte, comi umas pitangas e depois voltamos felizes, dois amigos que se respeitavam. Tostado ficou tão feliz com aquele passeio que, ao chegarmos, rolou várias vezes no potreiro onde o soltei. Ele só se rolava na grama para coçar o lombo, quando estava faceiro. 

Noutros pagos, certa vez, me perguntaram o que era a querência. Disse, é o lugar onde nascemos, mas é também mais que isto, é um paraíso idílico que criamos em nossos internos. O lugar de onde lembramos quando estamos felizes, onde passamos nossos dias mais doces. Foi onde lemos o primeiro livro, demos o primeiro beijo em lábios amados, vimos o sol nascer e a se pôr. Onde aprendemos a viver, amar e a sentir saudade. É o lugar que se esconde dentro de nós, mas está sempre distante. 

O lugar que quero que joguem minhas cinzas e, também, o lugar que o Tostado imaginava ser bom de viver quando pateava debaixo da caneleira. Talvez tenha ido em seus pensamentos para lá. Minutos antes de morrer. Quem sabe? 

(Do Correio do Povo, 12 julho de 2026)

Nenhum comentário:

Postar um comentário