quinta-feira, 30 de julho de 2015

A mania das perguntas (Humor)

Por George Auriol*

Se o leitor é da minha opinião, seremos bons amigos, mas se, por azar, pertence a seita que vou vituperar nesta história, com certeza passa a classificar-me como o último dos miseráveis. Em todo caso eu fico a ganhar contando a história porque amigos que concordem conosco não há muitos, e porque será dito também que os últimos serão os primeiros.

Eis sobre o que vou consultá-los: “francamente não acham, como eu, insuportável a terrível que tem algumas pessoas de fazer perguntas sobre as coisas mais ociosas?”

Suponhamos que a fatalidade vos obriga dizer que o vosso tio fez uma asneira. “Perdão – interrompem eles – o senhor vosso tio não é um cavalheiro trigueiro que usa óculos?"

“Não; é um ruivo que usa boa vista.”

“De cabelos crescidos?”

“Pelo contrário, completamente calvo!”
E se, para encurtar razoes, explicais que o vosso tio comprou um cão, é preciso descrever o animal, dizer-lhes quanto custou o bicho, e se foi comprado a fulano ou sicrano. E ainda por cima sois imperiosamente solicitados para avisar o vosso tio (do lado materno, não é?) que na rua do Conservatório, ao fundo de pátio há uma pequena oficina, onde, por preços baratíssimos, fabricam coleiras para cães, como não se usam em todo o mundo.

Estas perguntas, além de poderem provocar a apoplexia ou a dança de Saint-Guy, têm outros inconvenientes. Excitam o burguês mais assomadiço a proferir palavras mal soantes e expõem o inquiridor a registrar revelações chocantes para os seus princípios honestos.

O caso da Letapir parece-me edificante para provar estes inconvenientes.

Madame Letapir, que eu conheço intimamente, é inspetora das escolas, e em vez de interrogar as crianças sobre a idade de Matusalém, entretém-se a tirar delas toda a série de informações que pode, acerca das suas famílias.

Ainda há pouco tempo, fora ela a uma pequena terra do litoral, com porto de mar, em visita a escola maternal, quando chegou, já bastante depois da aula começar, o pequeno Martinho que trazia um bilhete da mãe a desculpá-lo de ter chegado tarde, porque fora ele a causadora da demora.

– E por que é que a tua mãezinha te demorou até tão tarde?

– Porque está doente...

– Ah! Coitadinha... Será tuberculose!

– Não, minha senhora. Está deitado porque teve um menino... E eu tive que fazer o serviço de casa.

– Ah! que graça. Está contente por ter um mano?

– Estou, sim senhora.

– É menino ou menina?

– Isso é que eu não sei – disse o garoto rindo – ainda não lhe vi senão a cabeça.

A esta resposta, a professora fez-se corada como um tomate, e a Madame Letapir também corou um pouco. Quis reparar a sua gafe, mas, infelizmente, pelo método homeopático; quero dizer recorrendo a um processo favorito:

– E o teu pai? – continuou ela disfarçadamente – o que faz ele?

– É marinheiro.

– Ah! E está contente também por ter um novo bebê, não é verdade?

– Isso é que eu não sei, minha senhora – respondeu Martinho coçando a cabeça – há dois anos que anda em viagem...


A professora ia chegando ao rubro, e Madame Letapir, verificou, de repente, que eram já 10 horas e era melhor acabar a aula e a inspeção.


*George Auriol, nasceu Jean-George Huyot (26 de abril de 1863, Beauvais (Oise) - fevereiro de 1938, (Paris), foi um escritor, poeta, compositor francês e designer gráfico.

Os irmãos siameses (Humor)

Por Tristan Bernard*



Todo mundo conhece aquela fábula de La Fontaine, em que um ancião em seu leito de morte aconselha aos seus familiares que se mantenham unidos, se quiserem progredir na vida. E a quem melhor poder-se-ia dirigir essa recomendação do que a dois irmãos siameses, os quais, enquanto se acharem unidos, poderiam ganhar até cento e cinquenta francos em um dia, ao passo que, se se separarem, ganhariam apenas três francos diários, subscritando envelopes?

Eu conheci em Londres dois destes gêmeos ligados, chamados comumente de irmãos siameses e denominados cientificamente de xifópagos.

Eduardo e Edmundo possuíam uma fortuna bastante considerável, que os dispensava de exibir-se como fenômenos. Eduardo havia nascido em Manchester, há vinte e cinco anos. Edmundo havia nascido igualmente em Manchester, pela mesma época. Na adolescência se pareciam de uma forma extraordinária. A ponto de várias pessoas, confundindo a sua direita com a sua esquerda, não conseguirem distinguir um do outro.

No entanto, manifestaram-se neles, com a idade, diferenças morais de grande profundidade. Eduardo tinha gostos serenos e amor aos estudos; Edmundo, instintos plebeus. Este ultimo só se divertia na companhia dos devassos, dos vadios, dos beberrões. O desventurado Eduardo, com seu livro de estudo na mão, via-se na contingência de seguir Edmundo pelas tabernas e bordéis. E quando voltavam, com o rosto vermelho de vergonha, via-se forçado a ziguezaguear com ele, para não romper a membrana.

Eduardo chegou a ser um famoso erudito. Mas não pode ser por muito tempo convidado para os banquetes das corporações científicas, onde o famigerado Edmundo, mal se servia da sopa, começava logo a contar histórias obscenas que as pessoas decentes reservam de ordinário para depois do café.

O ano passado, Eduardo pediu em casamento a mão de uma bela e rica donzela, sendo a cerimônia celebrada com grande pompa e circunstância. Não houve alternativa senão convidar Edmundo que, aliás, se portou admiravelmente bem durante todo o ato. Parecia-lhe que sua cunhada lhe inspirava certo respeito. No cortejo nupcial, a mulher de Eduardo, este e Edmundo, iam, os três, na frente, em meio à admiração geral. Na noite de núpcias, Edmundo portou-se, ainda, com grande correção. Dormira primeiro e, na manhã seguinte, fingiu acordar-se mais tarde do que os outros. Durante a lua-de-mel do seu irmão, entregou-se menos à bebida, cuidou da sua linguagem e vestiu-se com decência, posto que tivesse de sair com uma senhora.

A jovem – já disse, por acaso, que ela se chamava Cecília? –, a jovem exercia sobre Edmundo uma grande influência. Ao cabo de algum tempo, aconteceu o que acontece toda vez que um solteiro penetra em um lar. Estabeleceram-se relações entre Cecília e o malvado Edmundo.

Durante seis meses, Eduardo não desconfiou de dada. Tudo, no entanto, acabou por saber-se. Eduardo encontrou cartas em uma gaveta mal fechada, e apurou de maneira irrespondível que sua mulher e seu irmão traíam-no diariamente.

Que fazer numa situação como esta? Bater-se em duelo com Edmundo não seria permitido pelos costumes ingleses. Temia também os comentários irônicos das testemunhas.

O duelo a pistola, a dez metros de distância, não seria nada fácil, sucedendo o mesmo com o duelo a espada, tendo em vista a habitual proibição do corpo a corpo.

Além disso, que aconteceria se matasse o seu irmão? Poderia continuar a existência comum com sua mulher? E depois, sempre aquele cadáver entre ambos!...

Resolveu chamar Cecília e disse a ela:

– A partir de hoje, não profanarás mais nosso domicílio conjugal. Vai-te embora!

– Está bem! – concordou ela.

– Está bem! – secundou Edmundo. – Mas eu a acompanho.

O marido viu-se obrigado a segui-los.

Edmundo instalou Cecília em um primeiro andar muito confortável. E como tudo acaba por se regularizar entre xifópagos, viveram lá os três, muito felizes.


(Ilustração: autor desconhecido - Chang and Eng Bunker - c. 1836)



Tristan Bernard, pseudônimo de Paul Bernard (Besançon, 7 de setembro de 1866 – 7 de dezembro de 1947) foi dramaturgo, novelista, jornalista e advogado francês. Ficou famoso por suas piadas ou ditos engraçados. Teria inventado o jogo dos cavalinhos.



Vinho - o melhor amigo do homem


Jairo Monson de Souza Filho*


Alguns julgam que o melhor amigo do homem é o cão. Eu acho que é o vinho.

O vinho, diferente do cão, lhe proporcionará bons momentos mesmo que você não lhe dispense carinho e atenção. O cão apenas lhe retribui a amizade. Se você for hostil com ele, ele não será seu amigo.

O vinho é uma bebida companheira. Vejam:

Que outra bebida se não o vinho pede a companhia de outra(s) pessoa(s)? Destilado, cerveja ou refrigerante são fáceis de beber sozinho; mas vinho não. O vinho estimula uma boa conversa e sempre valoriza a companhia, o local e a ocasião. Existe mais conhecimento dentro de uma garrafa de vinho do que se pode imaginar. Não é comum e nem agradável abrir uma garrafa de vinho para beber sozinho. Já com outra bebida isso não é tão difícil.

Que outra bebida se não o vinho pede a companhia de uma boa comida? Vinho e comida foram feitos um para o outro. Não é aprazível beber vinho sem comer algo. Já com outras bebidas o alimento pouco importa. O néctar dos deuses é capaz de agregar muito a um prato. Os ingredientes da culinária ganham expressão quando combinados com vinho. Uma comida, quando acompanhada de vinho, ganha mais sabor e nos dá mais prazer. O vinho pede comidas mais saudáveis. Isso ficou evidente em estudos feitos na Dinamarca e França onde se viu que quem tem o hábito de beber vinho, invariavelmente, consome alimentos mais benfazejos.

Que outra bebida se não o vinho se beneficia da companhia da água? Imagine beber refrigerante, cerveja e mesmo destilado com água… O vinho não se incomoda com o acompanhamento da água. Antes pelo contrário. É a única bebida que se completa com a água. E a água (com ou sem gás) ganha importância quando acompanha o vinho. Deixa de ser apenas um líquido composto de hidrogênio e oxigênio, transparente, sem cor, aroma e sabor e se transforma em um componente importante da refeição. A água serve para saciar a sede e lavar as papilas gustativas; o vinho para dar sabor e prazer.

Que outra bebida se não o vinho é capaz de proporcionar tantos benefícios para a saúde? Centenas de milhares de estudos científicos quebraram um paradigma. Até há cerca de 20 anos atrás se dizia que beber vinho (e outras bebidas alcoólicas) era tão prejudicial para a saúde quanto fumar cigarro. Hoje as evidências científicas mostram que o vinho, se bebido com moderação quando não há contraindicação ao seu consumo, faz parte de um estilo de vida saudável.

Que outra bebida se não o vinho pede a companhia da moderação? Vinho só se desfruta com moderação. O abuso é desagradável. Não faz bem nem ao corpo nem ao espírito. É incomum alguém embebedar-se com ele. O vinho também induz moderação nas atitudes. Não é habitual ocorrer discussão ou alteração entre as pessoas que o bebem. Já tudo isso não se pode dizer de outras bebidas alcoólicas.

Que outra bebida se não o vinho se acompanha comumente da alegria? Ele atrai a alegria. Ameniza a tristeza e valoriza os bons momentos. Você já viu alguém que bebeu vinho “curtindo fossa” ou “de baixo astral”? Isso possivelmente porque os vinhos têm um alto teor de triptofânio que é um precursor da serotonina. Esta é o neurotransmissor que está diminuído no cérebro das pessoas que sofrem de depressão. O vinho é um parceiro que traz alegrias.

Que outra bebida se não o vinho agrada a uma heterogeneidade tão grande de pessoas? O vinho é a bebida da diversidade. Os vinhos são ecléticos e por isso mais fáceis de agradar. São bebidas que se desdobram numa multiplicidade de cores, aromas e sabores na ânsia de agradar a muitos.

Como se viu, o vinho é uma bebida companheira. Ele favorece a um estilo de vida mais saudável, prazeroso e induz à sensatez. Todos esses são predicados de um verdadeiro amigo.


*Médico cardiologista e estudioso dos assuntos
relacionados a vinho e saúde.




O arquivo verde

Maria Goreti*


Era uma simples secretária. Sabia, no entanto, que seu trabalho era útil: trazia todos os papéis necessários ao setor em sua mesa. Seu chefe não localizaria uma nota de venda (ou compra) sem o seu auxílio. 

Até este momento, fora assim. Agora, tinha a impressão de que seria diferente. Sabia, até mesmo, que haveria uma mudança. Hoje era o dia marcado para a chegada do arquivo, por isso mesmo precisava apressar-se. Deveria estar lá para recebê-lo às 7 horas e 30 minutos. Eram 7. Tomou numa só vez o habitual copo de leite, apanhou sua bolsa e jogou-se, numa corrida louca, pela escada do prédio. Ganhou a porta: 7 e 5. Não chegaria a tempo se apanhasse um ônibus. Tomou um táxi. Quinze minutos depois está na firma.

Quando chega no setor, para sua surpresa, seu chefe já havia chegado. Num tom triunfante, exclama:

– Bom dia, doutor Nei. Pontualíssima, não?

– Bom dia, Mada. São 7 e 20, mas...

– Mas...? – repete Mada intrigada. No entanto não foi preciso muito tempo para que descobrisse o significado daquele mas reticenciado. Ocupando uma boa parte da parede, perto de sua mesa, escondido atrás de uma fina camada de poeira, estava ele. O arquivo já chegara. Não podia distinguir sua cor. Parecia-lhe cinza, ou azulado, não era possível identificar com aquela poeira em cima. Sentia algo estranho, algo que suplantava aquele ar empoeirado do arquivo, algo que lhe marcava mais forte a sensação de mudança que sentira ainda em casa. Mas, sendo uma pessoa capaz de adaptar-se a novas situações, refez-se rapidamente.

– Onde está Naná? Já chegou? – pergunta.

– Não, ainda não. Deixa, quando chegar, ela faz a limpezas. Ah! Ei-la. – voltando-se para a mesma – Dona Naná, o arquivo.

– Mais um móvel pra limpar. Eu precisava ganhar mais um braço também. Um bom dia pra vocês.

Naná começa sua limpeza pelo arquivo. Aos poucos a cor verde vai aparecendo. Verde claro, discreto, arrogância suave.

Mada, que ora olhava para o arquivo, pensando nos papéis a serem arquivados, e ora olhava para os papéis e pensava no arquivo, surpreende-se quando percebe que sua cor não é cinza nem azul, mas verde.

– Não combina com as mesas, nem com coisa alguma aqui. – diz.

O arquivo não foi adquirido para decoração, dona Mada, e sim, para pôr-se or-ga-ni-za-ção.

Mada não responde. Num gesto que revela a aprovação das palavras do chefe, começa a separar os papéis. Primeiro pelo nome, depois pelo valor, pela data, etc. É a ordem que chega.

Depois de separados os papéis dentro de cada letra do alfabeto, de cada dia do mês e ano, década valor existente, Mada começa a arquivar. Abre a primeira gaveta: só para os letra A. A segunda: letra B. C para a terceira, D para a quarta. Depois de uma semana termina.

– Mada, João Sebastião, Cr$ 300,00, dia 30 passado.

– Só um instante, doutor Nei.

Dirige-se ao arquivo com os dados fornecidos badalando em sua cabeça: J S, 300, 30. Depois de João Sebastião vieram os antônios, os carlos, os josés e todas as variantes de identificação possíveis.

Mada não se perdia. Achava tudo no arquivo. na quinta gaveta. Na oitava gaveta.

Cada vez que o Dr. Nei abria a boca para lhe falar, Mada sabia: teria que olhar verde na direção do arquivo, abrir verde as gavetas do arquivo, procurar verde os nomes dos compradores e vendedores no arquivo. A mudança se processara. Mas dependia verdemente do arquivo. Seu comportamento girava em torno do arquivo - verde. Sua função era colocar e retirar fichas do arquivo - verde.

Mas a concretização real e objetiva da mudança verificara-se nela própria. Sua pele, antes tão clara, desde que abrira a primeira gaveta para arquivar, fora adquirindo uma tonalidade esverdeada. Durante o arquivo sucessivo dos nomes por ordem alfabética, a cor ia se acentuando. E agora já se firmara.

Durante as primeiros dias sua mãe estranhara, mas como a rotina faz o hábito, terminara aceitando como normal.

No ônibus também despertara a atenção, mas alguns já tinham ouvido falar de casos semelhantes (quem sabe, secretárias como Mada, que tivessem ganho também a função de trabalhar com arquivos?).

Mada percebera também que o escuro da pele de Naná estava cedendo lugar ao tom verde. Não tão rapidamente quanto nela. Naná limpava o arquivo uma só vez por dia, ao passo que ela, Mada, colocava seu tempo sentado em cima do arquivo. O Dr. Nei, então, agora é que apresentava os primeiros indícios de esverdeamento.

– Mada – diz ele – a produção está alta, nossos compradores e vendedores aumentam a cada dia que passa. Tu já não te sentas mais, estás sempre em pé diante do arquivo, colocando e retirando fichas. Por isso encontrei uma solução: alguém pra te ajudar.

– Alguém pra me ajudar?

– Sim, Mada.

– Quando chega?

– Amanhã. Está bem assim?

– Sim, Dr Nei. Está muito bem assim. Alguém pra me ajudar...

*****

*Maria Goreti Alves da Costa, professora aposentada da Rede Estadual de Ensino do Rio Grande do Sul. Formando de 1974 no Curso de Letras da FAPA, de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.


Logogrifo

A um amigo


Pedes-me a conta do que eu tenho gasto
hoje que um mês que estou casado faz.
Ei-la, aqui vai, ó solteirão sagaz,
– pobre casar-se sempre foi nesfasto.

Devo primeiro a Salvador Manoel,
dono da casa em que resido agora,
pequena casa sita à rua Aurora,
o quanto dela pago de aluguel.

Devo também na venda ao Braz Garcez,
rico vendeiro que me traz em vista,
esta parcela que vou pôr na lista,
rancho, alimento que comprei há um mês.

Ao alfaiate meu, José Pascal,
que uma sortida loja tem bem rica,
devo a continha que lançada fica,
fazenda para o meu pobre enxoval.

De compras que na mesma loja eu fiz,
rendas, cadarços, fitas, devo ainda
mais um vestido de anos à Benvinda,
nota na pedra, pois, escreve a giz.

Eu devo a Pedro Pinto Badajoz,
famoso boticário, uma avis-rara,
uns bicos que ele ali me debitara,
em remédio, pomadas e alguns pós.

Devo, outrossim, e ponho aqui de lado
esta importância que em seguida vês
de dez visitas que lá em casa fez
doutor Quaresma, o médico afamado.

Ao expedito Juca, meu copeiro,
à Rita cozinheira e à preta Agar,
roupa lavada, idem para engomar,
inda a pagar eu tenho isto em dinheiro.

De carne, frutos, ovos, leite, pão,
e outras viandas de menor valia,
eis o bolo mais grosso, eis a quantia
que hoje à mulher eu fiz entrega em mão.

Falta uma verba ainda e a verba é esta
e que é para meu ver o principal;
vou dar-lhe o lugar de honra no final:
– É o quanto em cobre no meu bolso resta.

Dessas nove importâncias que aí tens,
depois de feita soma e tudo pago,
vê bem com que fiquei, amigo Lago,
Dela abater só pude os dois vinténs.

“Quem fama não quer ter de caloteiro
e quer gozar de crédito na praça
precisa ter no bolso muita massa
que o vulgo diz chamar-se o vil dinheiro.”

Juca Trovisqueira

(Do Almanaque do Correio do Povo de 1919)


Lei Maria da Penha


(Para os machões que batem em mulheres)



Alcione

Comigo não, violão,
Na cara que mamãe beijou
Zé Ruela nenhum bota a mão.
Se tentar me bater,
Vai se arrepender.
Eu tenho cabelo na venta
E o que venta lá, venta cá.

Sou brasileira, guerreira,
Não tô de bobeira,
Não pague pra ver,
Porque vai ficar quente a chapa.
Você não vai ter sossego na vida, seu moço,
Se me der um tapa,
Da dona “Maria da Penha”
Você não escapa.

O bicho pegou, não tem mais a banca
De dar cesta básica, amor,
Vacilou, tá na tranca.
Respeito, afinal, é bom e eu gosto,
Saia do meu pé
Ou eu te mando a lei na lata, seu Mané.

Bater em mulher é onda de otário,
Não gosta do artigo, meu bem,
Sai logo do armário.
Não vem que eu não sou
Mulher de ficar escutando esculacho,
Aqui o buraco é mais embaixo.

A nossa paixão já foi tarde,
Cantou pra subir, Deus a tenha,
Se der mais um passo,
Eu te passo a “Maria da Penha”.

Você quer voltar pro meu mundo,
Mas eu já troquei minha senha
Dá linha, malandro,
Que eu te mando a “Maria da Penha”.

Não quer se dar mal, se contenha,
Sou fogo onde você é lenha.
Não manda o seu casco
Que eu te tasco a “Maria da Penha”

Se quer um conselho, não venha
Com essa arrogância ferrenha,
Vai dar com a cara
Bem na mão da “Maria da Penha”.

Lei Maria da Penha

Lei sancionada pelo ex-presidente Luiz Ignácio Lula da Silva em 7 de agosto de 2006, dentre as várias mudanças promovidas pela lei está o aumento no rigor das punições das agressões contra a mulher quando ocorrido no âmbito doméstico ou familiar. A lei entrou em vigor no dia 22 de setembro de 2006, e já no dia seguinte, o primeiro agressor foi preso, no Rio de Janeiro, após tentar estrangular a ex-esposa.

A introdução da lei diz:

“Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e dá outras providências.”

O nome

A farmacêutica Maria da Penha, 
que dá nome à lei contra a violência doméstica.

O caso nº 12.051/OEA, de Maria da Penha Maia Fernandes, foi o caso homenagem à lei 11.340. Ela foi espancada de forma brutal e violenta diariamente pelo marido durante seis anos de casamento. Em 1983, por duas vezes, ele tentou assassiná-la, tamanho o ciúme doentio que ele sentia. Na primeira vez, com arma de fogo, deixando-a paraplégica, e, na segunda, por eletrocussão e afogamento. Após essa tentativa de homicídio, ela tomou coragem e o denunciou. O marido de Maria da Penha só foi punido depois de 19 anos de julgamento e ficou apenas dois anos em regime fechado, para revolta de Maria com o poder público.

Em razão desse fato, o Centro pela Justiça pelo Direito Internacional e o Comitê Latino-Americano de Defesa dos Direitos da Mulher (Cladem), juntamente com a vítima, formalizaram uma denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, que é um órgão internacional responsável pelo arquivamento de comunicações decorrentes de violação desses acordos internacionais.

Essa lei foi criada com os objetivos de impedir que os homens assassinem ou batam nas suas esposas, e proteger os direitos da mulher. Segundo a relatora da lei Jandira Feghali “Lei é lei. Da mesma forma que decisão judicial não se discute e se cumpre, essa lei é para que a gente levante um estandarte dizendo: Cumpra-se! A Lei Maria da Penha é para ser cumprida. Ela não é uma lei que responde por crimes de menor potencial ofensivo. Não é uma lei que se restringe a uma agressão física. Ela é muito mais abrangente e, por isso, hoje, vemos que vários tipos de violência são denunciados e as respostas da Justiça têm sido mais ágeis.


Humor de Raul Solnado


Texto que Raul Solnado escreveu
e que foi colocado sábado junto à sua urna.

Raul Augusto Almeida Solnado (Lisboa, 19 de Outubro de 1929 - Lisboa, 8 de Agosto de 2009) foi um humorista, apresentador de televisão e ator português.É pai de Alexandra Solnado, José Renato Solnado e de Mikkel Solnado, além da atriz Joana Solnado.
       

Um vazio no tempo

“Numa das últimas vezes que estive na Expo de Lisboa descobri estranhamente uma pequena sala completamente despojada, apenas com meia dúzia de bancos corridos. Nada mais tinha. Não existia qualquer sinal religioso e por essa razão pensei que aquele espaço se tratava dum templo grandioso.

Quase como um espanto senti uma sensação que nunca sentira antes e de repente uma enorme vontade de rezar não sei a quê ou a quem. Fechei os olhos, apertei as mãos, entrelacei os dedos e comecei a sentir uma emoção rara, um silêncio absoluto e tudo o que pensava só podia ser trazido por um Deus que ali deveria viver e que me ia envolvendo no meu corpo adormecido. O meu pensamento aquietou-se naquele pasmo deslumbrante, naquela serenidade, naquela paz.

Quando os meus olhos se abriram, aquele meu Deus tinha desaparecido em qualquer canto que só ele conhece, um canto que nunca ninguém conheceu e quando saí daquela porta corri para a beira do Tejo para dar um berro de gratidão com a minha alma e sorri para o Universo.

Aquela vírgula no tempo foi o mais belo minuto de silêncio que iluminou a minha vida, que me fez reencontrar e que me deu a esperança de que num tempo que seja breve, me volte a acontecer.

Que esse Deus assim queira!

Raul Solnado”

Do arquivo morto

Importante bilhete que meu tio me deixou, antes de morrer,
esclarecendo um caso que esteve envolvido como testemunha.

Sou obrigado a relatar o que aconteceu, com objetividade e sem grandes preocupações literárias, visto que este é o último papel que me resta e, além disso, a fita da máquina está demasiadamente gasta e temo que para o final da história muitas letras estejam imperceptíveis, podendo resultar, para quem lê, numa interpretação incorreta dos fatos, prejudicando não só as pessoas que, de uma maneira ou de outra, estiveram envolvidas num caso repugnante e altamente escandaloso e cujos nomes mencionarei sem dúvida alguma assim que for chegado o momento. O terrível incidente em questão, além de macular o nome de duas grandes famílias, distorce a imagem do país no estrangeiro e envergonha a raça humana. A necessidade de contar tudo de maneira correta é aumentada agora pelo fato de minha sobrinha ter fechado os meus óculos à chave, e o natural cansaço dos meus olhos faz com que az litras danzem, o que poderá ter como consequência as palivras ficarem com latras traçadas, e qualquer truca de um nome poderá não só ilobar o cukpado como incrumynar om onicente.

Retas difer que suo o ínico pestemunha que koja msmoseghirei pêra o canyte poque n’o qiero omu nme ecolvido nets escavdio. Vou cojtra tudo com onetidade e onetidade polque o ppel está acabando: Ama Res desmofaba do cavalo, para beber aqgaú, seu pymt netysui e seus jetys priugdi, estavam escoj dioheh nsty nety, e seguidamente difama memsm covrdemente, atacaram pelas costradas terba sdnet asdiru dijah osd.

Psiinnd b bsuiftzz ççsm hdh oi crime çah no foi.

(Texto de Raul Solnado, humorista português)

Pensamentos de Raul Solnado

“Nós demos aos brasileiros a terra, o povo e a língua - e nós é que temos sotaque!”

“Tá lá? É da maternidade? Olhe minha senhora, já nasceu o meu filho? Como? Cesariana? Não minha senhora, é um rapaz e nem sequer tem nome!”

“Quando o médico me deu uma palmada no rabo, em vez de chorar, dei uma gargalhada.”

“Façam o favor de ser felizes”…


Este retrato de Raul Solnado, da autoria de André Carrilho, abria as páginas especiais dedicadas pelo Diário de Notícias (09.08.2009 ) a Raul Solnado.

Raul Solnado, que morreu esta manhã (9.8.2009), deixou gravado um último trabalho para a televisão: "As Divinas Comédias", uma série de quatro programas produzida pelas Produções Fictícias e pela Até ao Fim do Mundo, para a RTP 1, apresentada por Bruno Nogueira e Raul Solnado – a mais jovem e a mais antiga gerações do humor em Portugal. O primeiro irá já hoje para o ar, logo a seguir ao Telejornal.