quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Um vigarista hábil



(Adaptação de Gibi)

Num bairro elegante de Sidney, Austrália, vivia Garret Ponsonley, homem de boa situação financeira, que todos julgavam bastante rico. Realmente a suposição era acertada, mas as fontes de renda de Ponsonley é que não eram muito normais.

Garret era um refinado vigarista que, sempre com habilidade, conseguia escapar à ação da polícia.

Vejamos um de seus golpes.

Num sábado, pouco depois do meio-dia, Ponsonley, impecavelmente vestido, entrou numa joalheria da rua Hunter. Queria comprar um anel para presente e escolheu um de 300 libras. Não tinha na hora a quantia necessária e, como era sábado, os bancos já estavam fechados. Diante disso, a loja aceitou um cheque.

Minutos depois, Garret entrou num restaurante próximo e pediu um almoço.

Quando o garçom veio com a comida, Ponsonley lhe fez a seguinte proposta:

– Ouça, – disse-lhe, mostrando o anel. Comprei este anel da Joalheria Safires há dez minutos por 300 libras e paguei com um cheque. Preciso de dinheiro imediatamente e vendo a você por 50 libras.

E botou a joia na mão do garçom.

– Examine. Veja se vale ou não o dinheiro.

O garçom compreendeu logo que o anel valia várias vezes a quantia que o freguês pedia.

– Como é? – insistiu Garret. – Eu preciso do dinheiro com urgência. Me dê 40 libras e fique com o anel.

– Já dou a resposta, – replicou o garçom, indo até a cozinha,

Lá, contou a história ao dono do restaurante, que imaginou logo tratar-se de um vigarista que tinha pago o anel com um cheque sem fundos. Resolveu imediatamente telefonar para a joalheria.

O joalheiro, alarmado com a possibilidade de perder a joia ou o dinheiro, comunicou-se com a polícia.

Quando chegou o detetive, o dono da joalheria, Senhor Parkinson, levou-o apressadamente ao restaurante onde Ponsonley almoçava. Acompanhados do garçom, dirigiram-se resolutamente à mesa onde ele continuava comendo tranquilamente.

– É esse o homem? – perguntou Parkinson exaltadíssimo ao garçom. – É este o homem que lhe quis vender por 40 libras o anel que comprou por 300, na minha joalheria, pagando com um cheque sem fundos?

– É este mesmo, - confirmou o garçom. – E tem o anel no bolso.

– Passe o anel para cá! – disse severamente Parkinson, dirigindo-se a Ponsonley.

Este, a princípio, ficou indignado, mas depois, parecendo perceber a inutilidade dos protestos e vendo-se apanhado em flagrante, na presença de testemunhas, não teve outro remédio. Tirou o anel do bolso e colocou-o na toalha.

– É este mesmo! – disse o proprietário da joalheria, entregando-o ao detetive.

O detetive voltou-se então para Ponsonley:

– O senhor nega o que disse ao garçom?

– Que foi que eu disse?

– Que comprou este anel por 300 libras na Joalheria Safires e lhe ofereceu à venda por 40.

– Claro que sim! – disse calmamente Garret. – Não nego isso.

– Então, perfeitamente! – declarou o Sr. Parkinson com firmeza. E virando-se para o detetive:

– Prenda este homem sob minha queixa e responsabilidade!

– Mas, prender por quê? – interrompeu Ponsonley. – Que foi que eu fiz?

– Você saberá na delegacia, – disse Parkinson.

Na chefatura, o dono da loja registrou a queixa e Ponsonley foi detido para ser levado ao tribunal na segunda-feira seguinte.

Na manhã desse dia, o proprietário da joalheria esperava seu advogado na sala do tribunal, quando Ponsonley pediu ao detetive que o deixasse falar com ele.

– Senhor Parkinson, lembrei-me agora de lhe fazer uma pequena pergunta, – disse Garret.

– Que é? – respondeu secamente o joalheiro.

– Uma coisa bem simples, – murmurou Ponsonley com um sorriso. – O senhor já mandou descontar o cheque?

– Não! – foi a resposta de Parkinson.

– Então?! Qual o motivo da minha prisão?

Parkinson ficou meio confuso e saiu à procura de seu advogado. Encontrou-o e contou-lhe a conversa com o acusado. O advogado aconselhou-o a dar um pulinho no banco.

No banco, Parkinson apresentou o cheque ao pagador, que nem foi verificar se o signatário tinha fundos. Perguntou logo:

– O senhor quer receber o dinheiro agora ou prefere que depositemos na sua conta?

– Como?! O cheque tem fundos?

– Claro! O Senhor Ponsonley é um de nossos melhores clientes e sua conta é excelente.

O joalheiro não quis receber o cheque. Colocou-o no bolso e foi falar com o advogado.

– E agora? Que papelão nós fizemos!

O advogado respondeu-lhe:

– Acho que foi tudo um golpe bem dado. E sabe o que pode vir daí? Um processo por detenção ilegal, acusação indevida, prejuízos morais etc. O assunto ainda pode lhe custar um bom dinheiro.

E custou mesmo. Parkinson teve de pagar a Ponsonley nada menos de 5.000 libras de indenização por tê-lo mandado prender.

    
(Texto do livro “Comunicação Interpretação”, de Roberto Augusto Soares Leite, Amaro Ventura Nunes e Rosa Erman – Companhia Edita Nacional)


Eu sou teu livro



"O livro deve ser sentido e cheirado, aberto e lido."

O que é, o que é?

Que te leva para viajar sem sair do lugar.

Que vai contigo à praia, 

ou te acompanha em dias de chuva.

Que envelhece sem perder o encanto.

Que te deixa saudades.

Que cai no chão, mas não quebra.

Que não enguiça.

(Travessa - edição especial)


Nasci na encosta de um outeiro. E fiquei, dentro em pouco, um pinheiro delgado e elegante. Tão elegante que uma senhora, passando com seus filhos por perto de mim, desejou-me para árvore de natal.

– Como ficará lindo carregadinho de presentes e de doces, com as velinhas de cores – exclamou uma das meninas que acompanhavam a senhora.

Estremeci até às raízes, pensando que logo me haviam de arrancar para, no grande e festivo dia das crianças, ir adornar o salão de uma escola ou de uma casa abastada.

Passaram-se, porém, muitos anos e ninguém veio buscar-me para a festa do Natal. Minhas raízes aprofundaram-se mais; meu tronco tornou-se alto e forte; estendi para o céu a ramaria possante, que as tempestades não puderam derribar. Todos os anos as pinhas enfeitavam meus galhos; e, quando amadureciam, aves, animais e homens vinham à minha sombra colher os frutos que se espalhavam pelo chão. Eu era a maior e a mais bela de todas as árvores daquela região.

Mas o dia funesto chegou. Um homem aproximou-se de mim, olhou-me com atenção de alto a baixo, e fez, a facão, um sinal no meu tronco. Vieram depois operários musculosos, de machado em punho; e logo estava eu deitado no solo, com os ramos partidos. Estava reduzido a um simples madeiro? eu, o rei dos vegetais de toda aquela redondeza...

Arrastaram-me, em seguida, para uma fábrica e reduziram-me a uma polpa branca. Nenhum dos meus camaradas me houvera reconhecido, quando, transformado em alvo lençol, sofria a última demão, a fim de aparecer no mercado sob a forma de papel. Que torturas padeci: os golpes mortíferos do machado, o talho agudo das lâminas que me dilaceravam, o aperto horrível de engrenagens que me esmagavam, o atrito áspero de mós que me pulverizavam, o ardor das drogas que me fizeram pálido... Depois de tudo isso, colocaram-me numa prensa, da qual saí para uma longa viagem.

Vendeu-me um negociante a um impressor. Fui para uma tipografia, onde novas angústias me esperavam. Puseram-me num prelo, no qual, em giros vertiginosos, palavras e gravuras eram sobre mim estampadas. Dobraram-me depois. Cortaram-me. Coseram-me. Cobriram-me com duas capas de cartão. E eis-me aqui, agora, meu amigo, para ir contigo à escola.

Não me maltrates nem me desprezes. Muito sofri para trazer-te a sabedoria dos antigos, as lições da experiência, a expressão dos prosadores e poetas, que enriqueceram tua língua materna e fizeram meigo e suave teu idioma.

Ama-me e lê-me: eu sou teu livro!

(Apólogo de Erasmo Braga)*


*Erasmo de Carvalho Braga (Rio Claro, 23 de abril de 1877 – Niterói, 11 de maio de 1932) foi um pastor presbiteriano, educador e intelectual brasileiro.


O dia mais belo... A coisa mais fácil...



Madre Teresa de Calcutá

O dia mais belo: hoje.
A coisa mais fácil: errar.
O maior obstáculo: o medo.
O maior erro: o abandono.
A raiz de todos os males: o egoísmo.
A distração mais bela: o trabalho.
A pior derrota: o desânimo.
Os melhores professores: as crianças.
A primeira necessidade: comunicar-se.
O que traz felicidade: ser útil aos demais.
O pior defeito: o mau humor.
A pessoa mais perigosa: a mentirosa.
O pior sentimento: o rancor.
O presente mais belo: o perdão.
O mais imprescindível: o lar.
A rota mais rápida: o caminho certo.
A sensação mais agradável: a paz interior.
A maior proteção efetiva: o sorriso.
O maior remédio: o otimismo.
A maior satisfação: o dever cumprido.
A força mais potente do mundo: a fé.
As pessoas mais necessárias: os pais ou os filhos.
A mais bela de todas as coisas: o amor!

A vida

A vida é uma oportunidade, aproveita-a.
A vida é beleza, admira-a.
A vida é beatificação, saborei-a.
A vida é sonho, torna-o realidade.
A vida é um desafio, enfrenta-o.
A vida é um dever, cumpre-o.
A vida é um jogo, joga-o.
A vida é preciosa, cuida-a.
A vida é riqueza, conserva-a.
A vida é amor, goza-a.
A vida é um mistério, desvela-o.
A vida é promessa, cumpre-a.
A vida é tristeza, supera-a.
A vida é um hino, canta-o.
A vida é um combate, aceita-o.
A vida é tragédia, domina-a.
A vida é aventura, afronta-a.
A vida é felicidade, merece-a.
A vida é a VIDA, defende-a.

Assim mesmo

Muitas vezes as pessoas são egocêntricas, ilógicas e insensatas.
Perdoe-as assim mesmo.

Se você é gentil, as pessoas podem acusá-lo de egoísta, interesseiro.
Seja gentil, assim mesmo.

Se você é um vencedor, terá alguns falsos amigos e alguns inimigos verdadeiros.
Vença assim mesmo.

Se você é honesto e franco, as pessoas podem enganá-lo.
Seja honesto assim mesmo.

O que você levou anos para construir, alguém pode destruir de uma hora para outra.
Construa assim mesmo.

Se você tem Paz e é Feliz, as pessoas podem sentir inveja.
Seja Feliz assim mesmo.

Dê ao mundo o melhor de você, mas isso pode nunca ser o bastante.
Dê o melhor de você assim mesmo.

Veja que, no final das contas, é entre você e DEUS.

Nunca foi entre você e as outras pessoas.

Se você é...

Se você é um vencedor,
terá alguns falsos amigos
e alguns amigos verdadeiros.
Vença assim mesmo.

Se você é honesto e franco,
as pessoas podem enganá-lo
Seja honesto e franco assim mesmo.

O que você levou anos para construir
Alguém pode destruir de uma hora para outra.
Construa assim mesmo.

Se você tem paz e é feliz,
As pessoas podem sentir inveja.
Seja feliz assim mesmo.

Dê ao mundo o melhor de você,
mas isso pode nunca ser o bastante.
Dê o melhor de você assim mesmo.

Veja você que, no final de tudo,
Será você... e Deus.
E não você... e as pessoas!


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Os três pássaros do Rei Herodes

(Lenda)


Pela triste estrada de Belém, a Virgem Maria, tendo o Menino Jesus ao colo, fugia do rei Herodes.

Aflita e triste ia em meio do caminho quando encontrou um pombo, que lhe perguntou:


– Para onde vais, Maria?

– Fugimos da maldade do rei Herodes, – respondeu ela.

Mas como naquele momento se ouvisse o tropel dos soldados que a perseguiam, o pombo voou assustado.

Continuou Maria a desassossegada viagem e, pouco adiante, encontrou uma perdiz que lhe fez a mesma pergunta que o pombo e, tal qual este, inteirada do perigo, tratou de fugir.


Finalmente, encontrou-se com uma cotovia, que, assim que soube do perigo que assustava a Virgem, escondeu-a e ao menino, atrás de cerrado grupo de árvores que ali existia.

Os soldados de Herodes encontraram o pombo e dele souberam o caminho seguido pelos fugitivos.

Mais para frente, a perdiz não hesitou em seguir o exemplo do pombo.

Ao fim de algum tempo de marcha, surgiram à frente da cotovia.

– Viste passar por aqui uma moça com uma criança no regaço?

– Vi, sim - respondeu o pequenino pássaro. Foram por ali. E indicou aos soldados um caminho que se via ao longe. E assim afastou da Virgem e de Jesus os seus malvados perseguidores.

Deus castigou o pombo e a perdiz.

O primeiro, que tinha uma linda voz, passou a emitir, desde então, um eterno queixume.

A segunda passou a voar tão baixo, tão baixo, que se tornou presa fácil de qualquer caçador inexperiente.

E a cotovia recebeu o prêmio de ser a esplêndida anunciadora do sol a cada dia que desponta.



terça-feira, 3 de novembro de 2015

O santo nome da pressa

Santo Expedito nunca existiu,
mas virou alvo de culto 
porque seu nome conquistou a imaginação popular


Santo Expedito é um convite para interessantes questões de linguagem e importantes tópicos suscitados por sua figura. A proximidade de sua festa, 19 de abril, é ocasião para aferir sua popularidade, pois parece que ele anda um pouco sumido. Após anos de sucesso, como campeão das causas urgentes, sua visibilidade anda um tanto em baixa. Há muito que não me oferecem santinhos nem vejo em São Paulo aquelas faixas: “Agradeço a Santo. Expedito pela graça alcançada” (pelo jeito, ele veio na contramão do provérbio: “Quem espera sempre alcança”).

Religiosidade

No auge da devoção ao santo despachante, muitos até se permitiam expressar-se com dizeres mais familiares, como “Valeu, Expedito, te devo mais uma”. Expedito, como veremos, convida ao tratamento descontraído, na linha descrita já em Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda:

“Nosso velho catolicismo, tão característico, que permite tratar os santos com uma intimidade quase desrespeitosa e que deve parecer estranho às almas verdadeiramente religiosas, provém ainda dos mesmos motivos. A popularidade, entre nós, de uma santa Teresa de Lisieux – santa Teresinha – resulta muito do caráter intimista que pode adquirir seu culto, culto amável e quase fraterno, que se acomoda mal às cerimônias e suprime as distâncias. (...) foi justamente o nosso culto sem obrigações e sem rigor, intimista e familiar, a que se poderia chamar, com alguma impropriedade, 'democrático', um culto em que se dispensava no fiel todo esforço, toda diligência, toda tirania sobre si mesmo, o que corrompeu, pela base, o nosso sentimento religioso”.

Culto

O boom de devoção a Expedito no Brasil começou em 1983, quando Eli Corrêa (“oiii geenteee!”), locutor de um programa popular, inicialmente na Rádio América de São Paulo, começou a divulgar diariamente graças alcançadas pela intercessão do santo. Logo juntar-se-ia ao programa o padre João Benedicto Villano, tenente-coronel capelão da Polícia Militar, da qual Expedito é o padroeiro. Na virada de 2000, a revista Veja já o qualificava como santo “da moda” e noticiava que em 1999 foram feitos 72 milhões de santinhos, quadruplicando os 18 milhões do ano anterior. A estratégia de marketing era a de distribuir mil santinhos imediatamente após a obtenção da graça e, assim, em poucos anos, 2 ou 3 santinhos a cada brasileiro.

Em 2004, St. Expeditus ganhou até a primeira página do Wall Street Journal: “Jobless Brazilians Needing Fast Action Call on St. Expeditus”. Mas, em 2001, a Vejinha já noticiava que Expedito havia ocupado o primeiro lugar na devoção dos paulistanos (evidentemente, pressa é para paulistano; na Bahia, de Dorival Caimmy, Expedito não tem devotos à altura...) desbancando o trio antiaperto: são Judas Tadeu (das causas impossíveis), santa Rita de Cássia (dos desesperados) e Edwiges (a dos inadimplentes). Claro que, na época, arrumar emprego, sair do cheque especial, pagar as prestações das Casas Bahia – causas impossíveis, geradoras de desespero e inadimplência – foram encampadas por nosso santo, a título de urgentes, com a vantagem de que Expedito resolve na hora...

Predestinado

Nunca existiu um santo Expeditus: seu nome advém da característica do personagem (como nos esquetes dos programas de humor, nos quais o marido traído se chama “Cornélio”...). É que Expedito, em latim e português, significa: rápido, desembaraçado, o homem que vai e resolve, sem burocracias (não por acaso, sua igreja fica nos fundos do quartel da Rota: seus devotos originais...) ou, como ensina Pasquale Cipro Neto:

“Expedito' é o particípio do verbo latino expedire ('desembaraçar os pés', 'pôr os pés para fora', ou seja, pô-los para andar, para correr). Em 'expedir' há os elementos latinos ex-('movimento para fora') e 'pede', 'pedis' ('pé'). É por isso que, como adjetivo, 'expedito' significa 'ágil', 'rápido', 'desembaraçado'. O verbo 'impedir' é da mesma família de 'expedir'. Temos aí o elemento latino in-, de valor negativo. Literalmente, 'impedir' significa 'não deixar andar', travar'".

Valor simbólico

O fato é que não há base histórica que avalize sua existência... Na verdade, para o povão devoto, isso não faz diferença - se ele existiu ou não, é detalhe -, o que conta é seu valor simbólico. Nesse sentido, André Comte-Sponville, em O Espírito do Ateísmo, lembra a história:
“Dois rabinos jantam juntos. São amigos. Discutem até tarde da noite sobre a existência de Deus. E concluem que, afinal de contas, Deus não existe. Os dois rabinos vão dormir. Nasce o dia. Um dos dois rabinos acorda, procura seu amigo dentro de casa, não o encontra, vai procurá-lo fora, no jardim, onde por fim o encontra, fazendo as preces rituais da manhã. Surpreso, pergunta-lhe:
“Ué, o que você está fazendo?”
“Não está vendo? Minhas preces rituais da manhã.”
“Pois é isso mesmo que me espanta. Conversamos boa parte da noite e chegamos à conclusão de que Deus não existe, e você agora faz as suas preces rituais da manhã!”
O outro lhe responde:
“E o que Deus tem a ver com isso?”.

Lenda

A lenda diz que Expedito era comandante militar do início do século 4 – veio a sofrer o martírio por não renegar a fé cristã –, que ficava adiando sua conversão ao cristianismo. Quem observar o santinho, verá que Expedito segura uma cruz na qual está escrito hodie (em latim, "hoje") e esmaga com o pé um corvo que diz "cras", que em latim significa "amanhã" (daí o nosso "procrastinar"); "cras" é a onomatopeia do corvo (como "miau" é a do gato).

Os padres da Igreja comentam esse jogo de palavras (hodie/cras) sem mencionar nenhum protagonista. Para eles, trata-se só de um sugestivo modo de catequese. Se tivesse havido um mártir com esse enredo, Santo Agostinho (354-430), São Cesário de Arles (470-543) e outros que pregam sobre o abominável corvo do "cras", certamente não teriam ficado só na análise das palavras. Teriam exaltado o herói cristão, que venceu o diabo (alegorizado no corvo) e seus adiamentos. Aliás, os padres costumam fazer trocadilhos e jogos de palavras com os mártires, como no caso das santas mártires Felicidade e Perpétua (“foram para o Céu para gozar da felicidade perpétua”).

(Revista da Língua Portuguesa)





O mestre da arte guerreira



Durante a “Idade dos Reinos Guerreiros”, vivia na China um filósofo que conhecia mais a arte da guerra do que qualquer outro homem de seu tempo: era o grande Sun-Tzu.

Os reis da época disputavam a honra de conservar nas suas cortes o mestre guerreiro, para ouvir seus sábios ensinamentos de como conduzir um exército à vitória.

Certo dia, Sun-Tzu chegou à corte do Rei Wu e ali foi honrado com uma grande festa. Durante o banquete, o rei pediu ao ilustre hóspede que lhe desse um exemplo concreto de sua maravilhosa tática de guerra.

E Sun-Tzu respondeu:

– Irei explicar minha teoria de emprego dos exércitos usando simbolicamente cavalos. Tomai, ó Rei, três dos melhores cavalos da real cavalariça, enquanto eu escolherei outros três. Os vossos cavalos medirão forças com os meus cavalos, de cada vez um contra um, em três corridas sucessivas.

Assim foi feito e o Rei, como era natural, mandou que corresse primeiro o melhor cavalo dos três que havia escolhido. Mas Sun-Tzu usou, nesta carreira, o mais fraco dos seus cavalos, perdendo, assim, intencionalmente, a primeira corrida para o Rei.

Na segunda corrida, o Rei, já tendo usado seu melhor cavalo, mandou que corresse um outro, que lhe era ligeiramente inferior. Desta vez, Sun-Tzu fez correr seu mais rápido corcel e ganhou facilmente a segunda carreira das três em disputa.

 Chegou a vez da terceira e última corrida. O rei, nervoso, só tinha o mais fraco de seus cavalos para a carreira, enquanto Sun-Tzu havia astuciosamente reservado o cavalo ligeiramente inferior ao seu melhor. E a terceira corrida foi ganha outra vez pelo filósofo.

 Desse modo, das três carreiras disputadas, Sun-Tzu havia ganho duas, incluindo aquela que, nas guerras, é sempre a mais importante: a última.

Sorrindo, ele concluiu para o seu real hospedeiro:

 – Ó Rei, nas três corridas que acabamos de disputar, encontrareis a estratégia do melhor emprego de vossos exércitos!

Sun-Tzu (Filósofo e General chinês)



domingo, 1 de novembro de 2015

A origem do nome Jesus Cristo



Passada a Semana Santa, gostaria de fazer um comentário sobre o nome do principal personagem dessa comemoração: Jesus Cristo.

Quando eu era criança, achava que Cristo era o sobrenome de Jesus, algo assim como Jesus da Silva ou Jesus Pereira. Mais tarde, aprendi que “Cristo” é um epíteto dado a Jesus e significa “ungidoem grego. Mas qual era o verdadeiro nome de Jesus? Como judeu que era, ele tinha um nome aramaico (o aramaico, derivado do hebraico, era a língua falada pelos judeus do século 1º da nossa era): Yehoshua (ou Yeshua) ben Youssef, isto é, Josué, filho de José.

Mas Jesus também era conhecido como Jesus de Nazaré, ou Jesus o Nazareno, em razão de sua cidade de origem. Ao ter sido batizado no rio Jordão e reconhecido como o mensageiro de Javé que viera libertar o povo judeu da opressão romana (Yehoshua significa “Javé salva”), Jesus recebeu o epíteto de Mashiach (“Messias”), que em hebraico quer dizer “ungido”. Como o Novo Testamento foi redigido num grego tardio chamado koiné, o nome Yeshua Mashiach foi traduzido para Iesoûs ho Khristós, literalmente “Jesus o Ungido”.

À medida que o Cristianismo se disseminou por Roma, chegando ao ponto de assumir o latim como sua língua oficial, o nome grego de Jesus foi latinizado para Iesus Christus (o latim não tem artigos), donde o português Jesus Cristo, o espanhol Jesucristo, o inglês Jesus Christ, e assim por diante. Mas, se “ungido” em latim é unctus, por que Jesus não ficou conhecido em Roma como Iesus Unctus? É que o prestígio da língua grega em Roma era muito grande, e o fato de os Evangelhos terem sido escritos em grego pesou decisivamente para que o epíteto grego Khristós não fosse traduzido, mas apenas adaptado para Christus. Por essa razão, mesmo os cristãos falantes do latim chamavam seu mestre de Christus e não de Unctus, o que, diga-se de passagem, foi ótimo. Já pensaram se a figura central do Cristianismo se chamasse Jesus Unto?

(Do Blog do Aldo Bizzocchi)