terça-feira, 5 de julho de 2016

Etiqueta profissional


Lair Ribeiro


Boa aparência é importante, mas não o suficiente para saber viver profissionalmente. As normas de etiqueta profissional devem ser utilizadas do “Olá!” ao “Até logo”.

A etiqueta profissional não difere em muito da etiqueta que norteia o nosso convívio em sociedade, também conhecida como “boa educação”. Portanto, educação, aparência pessoal bem-cuidada, bons modos à mesa e civilidade são premissas básicas. Mas há particularidades que precisam ser conhecidas e respeitadas.

Para os cumprimentos que, em geral, vêm acompanhados de um aperto de mãos, siga estas dicas:

• Se for apresentado a alguém mais importante, espere que a pessoa lhe estenda a mão.

• Se for um homem apresentado a uma mulher, espere que ela lhe estenda a mão.

• O aperto de mãos deve ser sempre curto e firme.

• Beijo no rosto, só no caso de antigos conhecidos.

• Cartões de visita costumam ser trocados no primeiro encontro de negócios, mas sem dobrar a pontinha do cartão!

Algumas coisas são intoleráveis no campo profissional, como:

• Fofocas, palavrões, mau humor e autopromoção.

• Participar de conversa alheia sem ser convidado (apesar da descontração que possa existir, a hierarquia deve ser sempre respeitada para evitar aborrecimentos futuros).

• Criticar colegas ou a concorrentes, principalmente se estiverem ausentes.

• Apresentar-se de maneira desleixada: deixar o paletó nas costas da cadeira, andar com o paletó jogado sobre os ombros ou desabotoar o botão do colarinho e baixar o nó da gravata são sinais de desleixo.

A internet já começa a ter regras próprias de etiqueta. 
Conheça algumas:

• Seja sempre gentil e educado, pois existem pessoas do outro lado da linha.

• Cuidado com o que fala, de quem fala e para quem fala.

• Seja claro e objetivo em seus e-mails; evite o uso excessivo de ícones e abreviaturas.

• Não escreva só em letras maiúsculas (CapsLock). Na internet, isso significa falar alto ou gritar.

• Padronize sua correspondência eletrônica de acordo com sua correspondência impressa.

• Respeite direitos autorais do que estiver na rede.

Mas nenhum comportamento, por mais exemplar que seja,
é capaz de redimir um profissional 
que cometa um dos pecados a seguir,
que são gravíssimos:

• Faltar com o respeito a clientes, fornecedores, superiores e subordinados.

• Dizer uma coisa e fazer outra.

• Utilizar sua influência para contratar ou promover pessoas de seu relacionamento particular sem que haja a qualificação necessária.

• Assediar alguém sexualmente.

• Praticar ou ser conivente com qualquer tipo de discriminação.

• Utilizar meios desonestos para obter informações sobre a concorrência ou sobre a empresa em que trabalha.

• Participar ou ser conivente com a prática de ganhos ilícitos e/ou negociações fraudulentas.


O Diabo, o Azar e a Morte




Diz a lenda que numa cidade haveria uma grande festa e um alfaiate estava encarregado de fazer as roupas das pessoas. O diabo, a morte e o azar também estariam na festa e queriam que o alfaiate fizesse seus trajes. O alfaiate passou todo o tempo que tinha criando as roupas das várias pessoas que o tinha incumbido para a tal festa. Chegado o dia, no começo da rua, todos veem a Morte, o Diabo e o Azar caminhando de mãos dadas até chegarem à porta do alfaiate. Batem na porta e o alfaiate os recebe: “Senhores eu sinto muito, mas não deu para fazer as vestes de todos vocês, só pude terminar a de um”.

Os três se entreolharam e ficaram esperando o alfaiate dizer a veste de qual deles havia escolhido fazer. “Senhores eu só fiz a roupa do Azar. Porque para um homem sem sorte, a morte pode chegar a qualquer momento e levá-lo consigo e o diabo pode fazer-lhe mal”.

A Morte ficou irada, mas como a sorte estava ao lado do alfaiate ela não pode fazer nada a não ser gritar e desaparecer. O Diabo começou a se enfurecer, explodiu e ninguém mais o viu por aquelas essas bandas. A festa correu muito animada e o Azar estava com um dos trajes mais lindos de todos, totalmente enfeitado. Quanto ao alfaiate, pelo que todos comentam, foi um homem de muita sorte durante toda a vida.

Isso é apenas uma história, mas todo mundo sempre me diz que “devemos tomar a que decisão certa, que traga a sorte para o nosso lado”, ou seja, temos que criar nossa sorte e como não sou um alfaiate a decisão que devo tomar nunca está muito clara, mas uma coisa está. A indecisão não é nada benéfica. Tenho que escolher sem demora cada passo que devo dar torcendo para que seja um passo de sorte, mas, se não for o jeito, é aceitar e correr atrás do que se pode recuperar.


Descoberto por Tiago Fagner 


Nosso Adão

Montiel Ballesteros

Nós também tivemos nosso Adão, crioulo, de quem Deus pegou uma costela para formar uma Eva que lhe apresentou como companheira.

Depois da china lhe trouxe o pingo, para a lida do trabalha e a diversão do passeio ou das carreiras; e a guitarra, que lhe presenteou para adoçar os pesares e para ensaiar cantares em que extravasasse a poesia de sua alma.

Mais adiante, para defendê-lo da intempérie, lhe apresentou o rancho, com um fogão onde assaria o churrasco para alimentar-se e com um berço para abrigar o filho por nascer.

Depois lhe trouxe o cachorro vigilante e a companhia matinal da calandra para, na aurora, despertá-lo com sua música tão doce.

E o homem, com todos esses tesouros, ainda parecia não estar contente.

E Deus lhe perguntou:

− Que falta?

O paisano lhe respondeu, filosofando:

− Tudo passa, Papai Deus, menos a dor... Minha mulher pode se ir com outro; haverá momentos em que não terei vontade de cantar; quando eu for velho não montarei o pingo, meu filho fará rancho aparte, pode fugir o cachorro, cair a casa... E a mim não restaria nenhum companheiro. Um companheiro a quem contar devagarinho as penas, as tristezas da vida; que me faça sentir sua quente mão de varão, e que seja sério calado e fiel.

Então, Deus lhe presenteou o mate amargo.



Grandes mentiras da humanidade

Marcelo Rubens Paiva


Hoje será ontem. Ontem já foi amanhã. Amanhã se tornará hoje e depois ontem.

São verdades imutáveis. Elas existem. Como a que o Sol nascerá todas as manhãs nos próximos oito bilhões de anos. No entanto, uma verdade hoje pode ter sido uma mentira ontem e vice-versa. Pode ter sido uma mentira resgatada. A não ser que se prove o contrário (sob intenso bombardeio).

Como: “A inteligência detectou grande depósito de armas de destruição em massa.”

A capacidade de mentir é eterna. A necessidade de mentir é inerente à espécie. É darwinista; aquele que só falou a verdade é um fóssil extinto há milênios.

Na infância, é que começamos.

O urro que acorda o quarteirão pode ser por uma mamada, cólica, balanço ou absolutamente nada! Urramos para mantermos nossos pais e toda a tribo em alerta, pois nascemos e sabemos que precisamos sobreviver.

Começamos a falar, começamos a mentir:

“Não fui eu.”
“Ele que começou.”
“Não fiz nada.”
“Não peguei.”
“Não quero!”
“Também quero.”

Mentiras sobrevivem ao ontem, que já foi amanhã. Mentiras universais, provincianas, inocentes e nem tanto. Algumas saem de moda, como ombreira, bobs, laquê e a Teoria do Dominó, que vislumbrou muitos Vietnãs em todos os continentes. Porém, a grande maioria delas é atemporal:

“Não vai doer nada.”
“A Justiça é cega.”
“Eu só cumpro ordens.”
“Sei guardar segredos.”
“Saiu para comprar cigarros e não voltou.”
“Quando se casar, sara.
“Setenta virgens no paraíso só para você.”
“Em ponto.”
“Fiquei preso no trânsito.”
“Dá água com açúcar, que passa.”
“O que não mata, engorda.”

O brasileiro é um mentiroso contumaz. Desde a nossa origem, em que se disse que estavam a caminho das Índias, encontraram terra à vista por acaso, e que em se plantando tudo dá (uvas selecionadas para um bom tinto, como carménère, só dão no vizinho), a mentira esteve entre nós:

“Se é para o bem da Nação, diga ao povo que fico.”
“Todo Poder emana do povo.”
“Liberdade de expressão é garantida pela Constituição.”
“Deus é brasileiro.”
“Vamos investigar a fundo todas as denúncias.”
“Parece gato, mas é filé.”
“Não é margarina, é manteiga.”
“Acabou de sair do forno.”
“O preconceito no Brasil é social.”
“Podem quebrar meu sigilo bancário, não encontrarão nada.”
“Se ficar comprovado que outras empresas participaram desse conluio, todas serão processadas, doa a quem doer.”
“A porção é individual.”
“Eu estava justamente indo comprar o talão de Zona Azul.”
“Se acharem alguma conta no estrangeiro em meu nome, dou tudo para a Santa Casa.”
“Eu não sabia de nada.”
“Pode pôr, a pimenta é fraca.”
“Brasileiro é um povo cordial.”
“No meu governo, não haverá privilégios.”
“Posso só experimentar?”
“Não existe racismo no Brasil.”
“Esqueci os documentos lá em casa, seu guarda.”
“Vou acabar com os marajás!”
“Sei que está vencida, mas já renovei, e a nova não chegou.”
“Meu partido não faz alianças escusas.”
“Tenho certeza de que estava abaixo do limite de velocidade.”
“Seu guarda, foi só uma tacinha…”
“Só um minutinho.”
“As alianças foram feitas em nome da governabilidade.”
“Não estou furando fila, só queria uma informaçãozinha.”
“Não ficaremos no poder, vamos organizar eleições e o devolveremos aos civis.”

Porém, existem indícios na mitologia e história antiga de que já se mentia bem antes da primeira missa em Porto Seguro. Ou seria em Cabrália?

“Abram os portões. É apenas um cavalo. Presente dos troianos.”
“A Terra é plana.”
“Vejam, índios! Chegamos na Índia.”
“Vou dar só uma cutucada.”
“Que vença o melhor.”
“Vou dar só uma olhadinha.”
“Está em promoção.”
“Elvis não morreu.”
“Pra você, faço um preçinho camarada.”
“Liquidação!”
“Compre três ao preço de dois.”
“O prato só dá para uma pessoa.”
“Só falando com o meu gerente.”
“Posso provar?”
“O gerente deu uma saída.”
“Não foi eu quem deu as ordens, agiram por conta própria.”
“O senhor fica muito bem com este bigode, meu fürher, dá um ar soberano.”
“O senhor fica muito bem com este vasto bigode, camarada Stalin, dá um ar poderoso.”
“Dali, este bigode é surreal.”
“Chaplin, não está na hora de tirar este bigode?”
“Paul McCartney está morto.”
 “Hitler não quer guerrear contra nós, mas contra os comunistas.”
“Hitler não vai nos invadir, só quer a França e a Inglaterra.”
“Hitler é nosso aliado.”
“Hitler, claro que você pinta direitinho.”
“Marco Antônio, César foi apenas uma aventura.”
“César, Marco Antônio seria apenas uma aventura.”
“Meu povo, César e Marco Antônio são apenas aventuras pelo bem do Egito.”
“Somos mais famosos do que Jesus Cristo.”
“Vim, vi e venci.”
“Acabou de sair do forno.”
“Não fiz sexo com Monica Lewinski.”
“Não me importo com as críticas.”
“Foi feito lá em casa.”
“O Universo gira em torno da Terra.”
“Pode pegar que está fresquinho.”
“Antes do inverno, estaremos marchando sobre Moscou.”
“Esperança é a última que morre.”
“Se eleito, os soldados voltarão para casa antes do inverno.”
“A mentira tem perna curta.”

Um tipo folclórico do Rio antigo

Dr. Jacarandá, um “causídico” de fraque, polaina e monóculo. 


Foto: Dr. Jacarandá por Max Oto para revista A Noite Ilustrada, em 1948.

Nas notícias de seu falecimento, ocorrido a 19 de julho de 1948, as quais, por ser ele “uma figura popular da cidade”, destacaram com foto, seu nome legítimo apareceu divergente. Numas deram-no como Manuel Vicente Alves Palmeira, noutras como Manuel Vicente Alves, apenas. Divergência sem nenhuma importância, pois acima de qualquer dos dois prevalecia a alcunha que ganhou e pela qual todos o tratavam. Era o Doutor Jacarandá, ou glosando a pronúncia de seu linguajar, o Dotô Jacarandá. Tido e havido como “causídico” que “impretava hábis córpis”, na “manitenção de possia”, requeria “sortura” e outros papéis de curso judicial.

Sem “papel passado”, sem ter penetrado em salas de qualquer aula de Direito, fez-se um autodidata audacioso, isento a chacotas, a gozações. Sem inibição, sentindo-se “adevogado”, visitava as varas, os cartórios, os tabelionatos. Trajando fraque preto bastante surrado, polainas e monóculo ostentava lampeiro um cravo vermelho na lapela e, logicamente, um anel em que a pedra vermelha alardeava seu “doutorado”. Percorria com amplo desembaraço o Foro da rua D. Manuel, onde conhecia toda a gente e até mesmo alguns magistrados. Sempre tratados por ele “sinhô dotô meretismo”, lhe davam atenção, embora com devidas reservas.

Circulando pelas ruas do Rio, desde 1904, quando aqui chegou vindo das Alagoas, onde nasceu em Palmeiras dos Índios, no ano de 1873, o preto Doutor Jacarandá, de vestimenta exótica, cabeleira branca, encarapinhada, com a ajuda de escrivães e funcionários do Foro, encaminhava papéis de rotina, tirava certidões. Não hesitou, assim, em avocar o doutorado. Um doutorado de araque, de motu proprio, que ele usava compenetrado, crente de sua validade. Chegou mesmo a montar um “escriptório” (com placa grafada corretamente) no 1° andar da rua do Núncio n° 33 onde atendia as “parties”, os seus clientes, dando-lhes conta da “marcha dos papé”.

Aceitando a galhofa que o cercava, doutor por achincalhe por convicção, chegou até a participar de carros de críticas nos préstimos carnavalescos. E foi nestes termos que os alunos da Escola de Engenharia fizeram-no, por unanimidade, “paraninfo perpétuo”. Distinção que, cheio de orgulho, desfrutava envaidecido. Do mesmo modo, não hesitou, em 1922, a se candidatar deputado e tornar pública sua plataforma na qual destacou que, sendo “inleito”, defenderia os “direitu das sinhora meretrizias”. Morreu pobre num leito do Hospital Carlos Chagas, em Marechal Hermes, aos 75 anos, e foi sepultado às expensas de seu filho José Januário que, vindo das Alagoas, lhe deu sepultura condigna no cemitério da estação Ricardo de Albuquerque.

Fazendo, principalmente, a advocacia criminal, a designada de “porta de xadrez”, tinha que visitar seus clientes em alguns distritos policiais e também na Casa de Detenção, o que lhe era permitido sem direito certo, mas por benevolência. Houve, porém, um diretor da Casa de Detenção, o dr Meira Lima, que determinou fosse proibida sua entrada naquele presídio com a prerrogativa que a lei concedia aos advogados verdadeiros, de fato. A aceitação do “doutorado” de Jacarandá, fora, em consequência, invalidada.

Não aceitando essa proibição, o “causídico”, tido e havido como tal, recorreu ao ministro da Justiça que, prontamente, em despacho lacônico, indeferiu o requerido. Assim, no Diário Oficial de 20 de janeiro de 1928, página 2.192, era publicado: “Manuel Alves Jacarandá: mantenho o ato do diretor, baseado no artigo 123 do regulamento em vigor”. Magoado com essa decisão, dias antes de seu falecimento, confiou-a a um jornalista, que o visitou no hospital. Nessa ocasião, o repórter, descrevendo sua figura, fixou assim o Jacarandá: “barba de conselheiro, bigode de comendador e pera de mosqueteiro”. Ostentava, ainda, mesmo de pijama, o monóculo.

O Globo, 20.07.77, 2° Caderno.

(Do livro “Meninos, eu vi”, de Jota Efegê)

Manoel Vicente Alves, o doutor Jacarandá

(1873-1948)

O jornalista Orestes Barbosa, escrevendo em “A Folha”, de 31 de março de 1921, referiu-se ao rábula negro Manoel Vicente Alves, o dr. Jacarandá, especializado em modestas causas de despejo:

“Alto, metido no seu ʽfrackʼ empoeirado e na sua ʽjacaʼ à antiga, ostentando o seu ʽcavaignacʼ grisalho, que parece feito de arame, lá vai quase sempre, vagarosamente, o preto, afinal de contas, inteligente, que a cidade inteira conhece”.

O escritor Carlos Didier, biografando Orestes Barbosa, evocou a sua figura folclórica.

“O negro Manoel Vicente Alves, o doutor Jacarandá, nasceu em Palmeira dos Índios e cresceu em São Miguel dos Campos, Alagoas. Cultiva um cavanhaque repartido em duas pontas. Usa monóculo, fraque velho e cravo vermelho na lapela. Debaixo do braço, transporta uma pasta cheia de papéis. Foi dono de botequim na esquina das ruas Evaristo da Veiga e Senador Dantas.

Na primeira década do século, passou a dedicar-se à advocacia e, em suas causas, maltratava o vernáculo. Para ele, juiz é “sinhô dotô meretismo”. E assim por diante: “atendê as parties”, “marcha dos papé”, “impetrá hábis corpis” e “manutenção de póssia”.

Quando encontrou o doutor Jacarandá, em 1920, o jornalista Orestes Barbosa, a serviço de “A Folha”, seguiu a recomendação de Olavo Bilac: não zombou de seu modo de falar.

Entrevistou-o no recinto do Tribunal do Júri, durante o julgamento do tenente Arthur Guedes de Abreu, em cuja defesa atuaram Evaristo de Moares e Eliseu César.

Ao perguntar pela previsão do resultado, em 21 de julho de 1920, o jornalista apenas ironizou a lógica do causídico popular:

− Que pensa do “veredictum”?

− Não se pode dizer nada, quem resolve é o conselho de sentença − afirmou luminosamente o dr. Jacarandá.

O velho rábula contou ao repórter como se tornou advogado.

− Eu fui procurado por um homem que não sabia como receber a quantia de 700$000. Eu achei que aquilo devia ser fácil e, atendendo ao legítimo direito do meu primeiro constituinte, tratei da causa e consegui vencer.

− Há quantos anos?

− Há 14 anos. Daí para cá, tenho tratado de inúmeras causas e quase sempre com êxito.

− Qual a sua especialidade?

− Minha especialidade é o despejo. Eu esqueci de apresentar há pouco, que essa minha primeira causa ainda não acabou. Porque o devedor tem pago aos poucos e ainda ontem o meu constituinte recebeu " “alguma coisa”.

− Mas, há 14 anos?

− Sim, senhor. Há 14 anos.

Três anos mais tarde − escreveu Carlos...


Dr. Jacarandá atendendo uma cliente


Seu escritório de advocacia



O tesouro de Bresa



Resumo de um conto de Malba Tahan

Houve, outrora, na Babilônia, um pobre e modesto alfaiate chamado Enedim, homem inteligente e trabalhador, que não perdia a esperança de vir a ser riquíssimo. Como e onde, no entanto, encontrar um tesouro fabuloso e tornar-se, assim, rico e poderoso? Um dia, parou na porta de sua humilde casa um velho mercador da Fenícia, que vendia uma infinidade de objetos extravagantes. Por curiosidade, Enedim começou a examinar as bugigangas oferecidas, quando descobriu, entre elas, uma espécie de livro de muitas folhas, onde se viam caracteres estranhos e desconhecidos. Era uma preciosidade aquele livro, afirmava o mercador, e custava apenas três dinares.

Era muito dinheiro para o pobre alfaiate, razão pela qual o mercador concordou em vender-lhe o livro por apenas dois dinares.

Logo que ficou sozinho, Enedim tratou de examinar, sem demora, o bem que havia adquirido. E qual não foi sua surpresa quando conseguiu decifrar, na primeira página, a seguinte legenda: “O segredo do tesouro de Bresa”. Que tesouro seria esse? Enedim recordava, vagamente, de já ter ouvido qualquer referência a ele, mas não se lembrava onde, nem quando. Mais adiante decifrou: “O tesouro de Bresa, enterrado pelo gênio do mesmo nome entre as montanhas do Harbatol, foi ali esquecido, e ali se acha ainda, até que algum homem esforçado venha encontrá-lo”. Muito interessado, o esforçado tecelão dispôs-se a decifrar todas as páginas daquele livro, para apoderar-se de tão fabuloso tesouro. Mas, as primeiras páginas eram escritas em caracteres de vários povos, o que fez com que Enedim estudasse os hieróglifos egípcios, a língua dos gregos, os dialetos persas e o idioma dos judeus. Em função disso, ao final de três anos, Enedim deixava a profissão de alfaiate e passava a ser o intérprete do rei, pois não havia na região ninguém que soubesse tantos idiomas estrangeiros.

Passou a ganhar muito mais e a viver em uma confortável casa. Continuando a ler o livro, encontrou várias páginas cheias de cálculos, números e figuras. Para entender o que lia, estudou matemática com os calculistas da cidade e, em pouco tempo, tornou-se grande conhecedor das transformações aritméticas. Graças aos novos conhecimentos, calculou, desenhou e construiu uma grande ponte sobre o rio Eufrates, o que fez com que o rei o nomeasse prefeito.

Ainda por força da leitura do livro, Enedim estudou profundamente as leis e princípios religiosos de seu país, sendo nomeado primeiro-ministro daquele reino, em decorrência de seu vasto conhecimento. Passou a viver em suntuoso palácio e recebia visitas dos príncipes mais ricos e poderosos do mundo. Graças ao seu trabalho e ao seu conhecimento, o reino progrediu rapidamente, trazendo riquezas e alegria para todo seu povo. No entanto, ainda não conhecia o segredo de Bresa, apesar de ter lido e relido todas as páginas do livro.

Certa vez, então, teve a oportunidade de questionar um venerando sacerdote a respeito daquele mistério, que sorrindo esclareceu:

– O tesouro de Bresa já está em seu poder, pois graças ao livro você adquiriu grande saber, que lhe proporcionou os invejáveis bens que possui. Afinal, Bresa significa “saber”...

Com estudo e trabalho pode o homem conquistar tesouros inimagináveis. O tesouro de Bresa é o saber, que qualquer homem esforçado pode alcançar, por meio dos bons livros, que possibilitam “tesouros encantados” àqueles que se dedicam aos estudos com amor e tenacidade.



segunda-feira, 4 de julho de 2016

Histórias de Paraquedistas XXV


Um inusitado acidente paraquedista

Em 13 de junho de 1955, o soldado Pedro Antônio Pestana, quando daria o seu primeiro salto de uma aeronave em voo, desenganchou-se no momento do salto, foi levado pelo restante da equipe, não acionando o paraquedas reserva.*

A circunstância determinante da morte – salto desenganchado – originou a criação e introdução do pino de travamento no gancho, que passou a ser conhecido como “Chipanique”, em homenagem ao seu idealizador, o hoje capitão Casemiro Scepaniuk, pioneiro 44, já falecido.

*  Fato citado no livro “Memória Histórica da Brigada de Infantaria Paraquedista”, do Cap Domingos Ferreira Gonçalves, Pqdt 2696 – do Turno do 1956/8 – MS 563.

*****

O coronel Lício Augusto Ribeiro Maciel, Pqdt 1412 do 1954/4 – MS 273, Prec 27, FE 12 e Comando 3, conta-nos uma interessante história, que está no livro “O coronel rompe o silêncio”, de Luiz Maklouf Carvalho:

– Já como capitão e instrutor do curso de paraquedismo, eu reprovei duas vezes um soldado da minha bateria de artilharia, o soldado Peçanha**. Ele chorou na minha frente. “Peçanha, eu estou te fazendo um bem. Você não tem condição psicológica pra saltar.” O exame final pro cara poder saltar de uma aeronave é uma torre de 12, 15 metros de altura. Você vai para a torre todo equipado como se estivesse no avião. É pior do que saltar do avião. Você salta conectado com um cabo de aço. O sargento joga o cabo. “Já!” O cara pula. Quando o Peçanha saltava, ele se abria todo. Já imaginou um cabo daquele enrolar no braço dele, como acontecia? Aconteceu uma vez com o chefe da Escola de Paraquedistas. O cabo pegou no joelho dele e dobrou ao contrário, o joelho virou para a frente. É uma coisa tremenda. Quebrou a perna dele no ar, e ele bateu no chão com aquela perna quebrada. O cara urrava de dor...

** Nesse capítulo, o coronel denomina, erroneamente, o soldado Pestana, de Peçanha.


A torre do pavor

– E o Peçanha?

– Então, eu reprovei o Peçanha. Ele se matriculou novamente, dentro do regulamento, no curso de um capitão, meu companheiro. Ele veio falar comigo: “Você reprovou o Peçanha, mas dá pra ele saltar.” Eu disse; “Não faça isso, não leve o Peçanha pro salto.” Pois bem, ele levou. Por falta de sorte, eu estava de precursor, no dia, indo na equipe de terra. Conversava com o capitão Victório***, capelão, grande paraquedista. Ele sentado no capacete, no Gramacho. Então eu vi e disse: “Capelão, sai correndo lá, pra essa direção, que tem um cara que não abriu o paraquedas.” Ele vinha descendo. Era o Peçanha. Nós saímos correndo. No meio da carreira, eu senti aquele tremor da batida. O Gramacho era muito pouco. O cara bateu no chão do jeito que saltou. Quando eu cheguei, o braço dele era uma geleia, de tão quebrado que estava. Morreu na hora. Na queda livre, ele estava a 60 metros por segundo. É uma porrada. Quebra o cara todo. E houve várias outras coisas.

*** Cap Victório Darós (Capelão paraquedista) → Pqdt 1542, do 1954/5 – MS 299,  gaúcho da cidade de Faxinal do Sorturno, RS, além da atividade religiosa e social que executava com grande eficiência e dedicação, foi o responsável pela documentação para casamento de grande número de militares e seus familiares.

... Mas segundo relato do Cel Lício, ao transcrever do gravador para texto, o jornalista Luiz Maklouf Carvalho, autor do livro, colocou Peçanha em vez de Pestana, não sendo, portanto, erro de quem deu a entrevista, mas sim de quem transcreveu o fato que originou o livro citado acima.

...Gostaríamos de saber a versão do jornalista para saber quem, neste episódio, está com a razão.

*****

Adendo do Almanaque Cultural Brasileiro:

Para esse acidente há duas interpretações:

→ A primeira, que levou o Sgt Scepaniuk a inventar o pino de segurança, achando que o gancho, ao bater no final do cabo de ancoragem, abriu acidentalmente, não inflando o paraquedas do Sd Pestana (Peçanha), que, por estar apagado no ar, não abriu seu paraquedas reserva.

→ A segunda interpretação é que o Sd Pestana, por insucessos anteriores: reprovação de salto na torre e aconselhamento de que não tinha condição psicológica para saltar, no momento do seu primeiro salto, acordou para a sua realidade, tentando, no momento mais crucial de sua vida, abortar o seu salto na hora errada, desenganchando-se dentro do avião, no instante em que sua equipe saía pela porta, sendo levado de roldão por outros alunos, que também estavam dando seu primeiro salto.

Conclusão final:

De qualquer forma, ao presumir que o Sd Pestana tenha sofrido um acidente pela abertura do gancho que vai no cabo de ancoragem, Scepaniuk foi para o falso avião, na Área de Estágios, jogando várias vezes um falso cabo para o fundo do citado avião, até que um deles se abriu. Se isso acontecesse num salto real, e se o aluno fosse inexperiente, ele não teria lucidez suficiente para acionar o punho do seu paraquedas reserva, ocasionando, por isso, sua morte.


O falso avião onde Scepaniuk provou que
o gancho poderia abrir ao bater no fundo de uma aeronave.

Soldado Pedro Antônio Pestana, sua morte não foi em vão, pois, de maneira estranha, ela contribuiu para que fosse adotada uma norma de segurança no gancho da fita de abertura para que se salvassem vidas em possíveis acidentes num salto de paraquedas semiautomáticos.

A única pessoa que teve um contacto real com o Sd Pestana, que no livro acima citado é chamado de Peçanha, foi o então capitão Lício, em 1955, na Área de Estágios, quando o julgou incapaz de saltar de uma aeronave em voo. Hoje, sabemos que ele muito bem poderia ter se desenganchado na hora do salto, pelo juízo que capitão fazia das suas condições psicológicas. Mas o mistério das duas versões ficará para sempre no julgamento de todos nós, paraquedistas militares de todas as épocas.

Nilo da Silva Moraes



Acima, uma foto rara, do início dos anos 50, na ZL de Gramacho-RJ,
de um gancho sem pino de segurança.


Acima, o Cap Casemiro Scepaniuk. Pioneiro 44,
e, abaixo, o seu invento: o pino “Chipanique”,
a cordinha que evitava a abertura do gancho.


Nesta foto, à esquerda, o gancho no cabo de ancoragem,
a fita que vai extrair o velame da bolsa que está
às costas do paraquedista na rampa do avião.


Gancho no cabo, paraquedistas no espaço,
bolsas ao vento...


No cabo de ancoragem, um gancho ainda sem o Pino Chipanique