segunda-feira, 11 de julho de 2016

A mentira

Luís Anton del Olmet*


Ontem decidi nunca mais mentir.

Acordei muito cedo, ansioso, por ir para meu trabalho. Na rua esbarrei com um amigo.

– Molestei-te?

– Bastante.

– És muito amável.

Pouco depois se aproximou de mim um mendigo.

– Uma esmola, pelo amor de Deus.

Eu lhe respondi claramente:

– Não quero. Poderia dizer-lhe que não tenho trocado, simplesmente que sou tão pobre quanto o senhor. Mas seria mentir. Tenho dinheiro. O que acontece é que não tenho vontade lhe dar esmola.

O pedinte ficou estupefato.

Depois o vi levantar seu garrote, e para não andar às pauladas com um barbudo, tive que fugir.

E por fim me vejo em minha repartição. E vejo-me depois ante um conflito enorme.

– Resolvi favoravelmente aquela informação de que falamos. Que lhe parece?

A pergunta não pode ser mais terminante. E é meu chefe quem exige resposta. E palavra, eu tenho um pobre conceito inconfessado de meu chefe. E como decidi não mentir, exclamo:

– Parece-me muito mal. Conheço o caso. Eu teria resolvido em contrário.

O chefe tira os óculos, consternado.

– Que diz o senhor? Ficou maluco? Atrever-se a dizer-me!... É um insolente, para não o qualificar pior.

Retiro-me. Em minha seção mantendo com meus colegas várias discussões e conquisto bruscas antipatias.

Há em minha seção uma espécie de açoite popular, que diz chistes. E naturalmente, perpetrou um, e como é lógico, abstive-me de rir. Alguém, assombrado, inquiriu:

– Ficaste sério... Não te fez rir a pilheria?

– Exagerando minha sinceridade, choraria. O cretinismo tem a virtude de tornar-se indiferente.

Há em minha seção um grã-fino. E o presumido veio esta manhã estreando uma gravata e um colete. Dirigem-lhe elogios. Eu estou calado. E alguém se aventura a pedir minha opinião.

– Parece um macaco fantasiado.

Há em minha seção um sedutor. Está contando uma bravata que cheira, como todas as suas, a embuste. Os demais, para lhe serem agradáveis, fingem acreditar. E eu, friamente, no uso de meu completo direito, movido por um sadio e exemplar estímulo de justiça, exclamo interrompendo-o:

– Tudo isso que você está contando é um sainete ridículo. Você não conquistou nem a sua porteira.

E não será preciso demonstrar como aquela repartição onde tão bons amigos tive, se transformou em cova de adversários.

Saio, volto à minha casa e almoço. A senhoria, mulher amável e comunicativa, aproxima-se de mim sorrindo e pergunta-me, como sempre:

– Gostou da comida?

– Achei-a simplesmente horrível. Nunca me atrevi a dizer-lho, mas é verdade. Simplesmente detestável.

– Pois dê o fora quando quiser. Grosseirão!

Para não brigar com a senhoria, criadas e demais fúrias, saio à rua.

No bonde um cidadão pisa-me o calinho. Antigamente, quando eu era um consumado embusteiro, responderia ao seu “queira desculpar” com um “de nada”. Mas como sou um homem franco replico:

– Não enxerga, não? Para que tem olhos na cara?

E então o parceiro fica por conta e diz-me uma dúzia de desaforos.

Entro na livraria. Um autor amigo aproxima-se e faz-me uma pergunta insolente:

– Que tal achou meu ultimo romance?

– Que sei eu!... É uma imbecilidade: sabe o amigo? Uma imbecilidade inofensiva. Por exemplo, as do senhor seu pai...

E o escritor pôs-se muito sério e exclamou com indignações sinceras:

– Desde já fique sabendo que vou mandar-lhe meus padrinhos. É duelo de morte. À pistola!

Vou a um café e me disponho a escrever duas cartas para comuns amigos que hão-de servir-me como padrinhos. O empregado me pergunta, solicito:

– Café?

– Quer dizer... chicória!

Trazem-me veneno e material para escrever. Mas ao iniciar minha primeira carta detenho-me perplexo. Permitiria minha sinceridade uma carta de fórmula embusteira como todas, cheia de hipocrisia? E escrevo: “Senhor alheio a qualquer consideração ou respeito: pouco entenderá destas questões, mas como não tenho melhor pessoa de que possa lançar mão, peço-lhe se dê à satisfação de figurar como padrinho num duelo que”... E prossigo nestes termos. Por fim termino assim: “Agradeça-me esta escolha, porque assim verá seu nome nos jornais. Toca-lhe a mão seu conhecido, que não o grama”...

Depois vou à casa de minha noiva.

– Amas-me?

– Um pouco.

– Só um pouco?

– Só. Tens alguns defeitos incorrigíveis.

Meu acento é lhano, confidencial. Mas a pequena, que tem da sinceridade um conceito arbitrário, desata a chorar convulsivamente. Sua mãe acode, rancorosa e trágica:

– Que foi?

– Apenas sua filha é uma histérica.

– Uma histérica? É você um paspalhão.

– E a senhora um estafermo. Saiba-o de uma vez.

Vou ao teatro. Como a peça me parece ruim, bato os pés. Acabo na delegacia.

E à noite, quando por fim me soltam e posso chegar a casa, recolho-me a meditar, e exclamo convencido:

– É preciso mentir. Talvez a existência não seja outra coisa senão uma humilde e piedosa mentira.

(Publicado na Folha da Manhã, domingo, 21 de agosto de 1949)

*Luis Antón del Olmet


(Bilbao, 1866 - Madrid, 1923)

Foi um dramaturgo, jornalista, político e escritor de língua castelhana.
Foi assassinado no ano de 1923. 





O Caso dos Dez Negrinhos

Aghata Christie

Várias pessoas são convidadas a irem à mansão situada numa ilha. Lá chegando, percebem que estão à mercê de um desconhecido. Um a um, vão sendo eliminados de diferentes maneiras. E, cada vez que ocorre uma morte, desaparece uma das estatuetas negras que enfeitam a sala do casarão. Quem afinal os convidara e as mantém sob constante ameaça? Por que estão ali e quem parece tê-las condenado à morte?

Apavorados, os sobreviventes de cada crime nada podem fazer. Assistem às cenas terríveis que vão ocorrendo e tecem hipóteses sobe esses fatos que ameaçam suas próprias vidas. É o que acontece depois da noite do general Macarthur, um dos prisioneiros da ilha.

Sinopse

Dez pessoas diferentes recebem um mesmo convite para passar um fim de semana na remota Ilha do Soldado. Na primeira noite, após o jantar, elas ouvem uma voz acusando cada uma de um crime oculto cometido no passado. Mortes inexplicáveis e inescapáveis então se sucedem. E a cada convidado eliminado, também desaparece um dos soldadinhos que enfeitam a mesa de jantar. Quem poderia saber dos dez crimes distintos? Quem se arvoraria em seu juiz e carrasco? Como escapar da próxima execução?

O Gen. Macarthur fora depositado na sua cama.
Depois de fazer um derradeiro exame, Armstrong deixou o quarto e desceu a escada. Encontrou os outros reunidos na sala de estar.
Miss Brent fazia tricô. Vera Claythorne estava junto da porta envidraçada, olhando a chuva que fustigava os vidros. Blore conservava-se teso na sua cadeira, com as mãos pousadas nos joelhos. Lombard caminhava irrequieto de um lado para outro. E, no fundo da peça, o Juiz Wargrave estava sentado numa bergère, com os olhos semicerrados.
Quando o doutor entrou, o juiz abriu os olhos e disse numa voz clara e penetrante:
− Então, doutor? Armstrong estava muito pálido.
− Nada de colapso cardíaco ou coisa parecida − disse ele. − Macarthur foi golpeado na nuca com uma soqueira ou outra arma desse gênero.
Um pequeno murmúrio deu volta à sala, mas a voz clara do juiz impôs-se mais uma vez.
− Achou a arma que foi usada?
− Não.
− Contudo, está seguro do que afirma?
− Seguríssimo.
O Juiz Wargrave falou em tom tranquilo.
− Agora sabemos exatamente onde estamos.
Já não havia dúvida sobre quem tomara conta da situação. Durante a manhã Wargrave ficara encolhido na sua cadeira, no terraço, abstendo-se de toda atividade exterior. Agora, assumia o comando com a facilidade nascida de um longo hábito de autoridade. Passara a presidir francamente os trabalhos do tribunal.
O magistrado compôs o peito e tornou a assumir a palavra.
− Esta manhã, cavalheiros, enquanto ficava sentado no terraço, estive observando as suas atividades. Pouca dúvida podia haver quanto ao propósito que os animava. Revistaram a ilha em busca de um assassino desconhecido?
− Exatamente, senhor − disse Philip Lombard. O juiz continuou:
− Os senhores chegaram, sem dúvida, à mesma conclusão que eu. Isto é, que as mortes de Anthony Marston e da Sra. Rogers não foram acidentais, nem foram suicídios. Sem dúvida também chegaram a uma conclusão positiva quanto ao propósito do Sr. Owen em nos atrair a esta ilha.
Blore exclamou em voz rouca:
− É um louco! Um tarado!
O juiz tossiu.
− Isso é quase certo, mas pouco afeta o caso. Nossa maior preocupação é esta: salvar nossas vidas.
Armstrong atalhou em voz trêmula:
− Não há ninguém nesta ilha, afirmo-lhe. Ninguém! Wargrave afagou o queixo e respondeu com brandura:
− No sentido que tem em mente, não. Cheguei a essa conclusão hoje de manhã. Poderia ter dito aos senhores que sua busca seria infrutífera. Não obstante, inclino-me pela opinião de que o "Sr. Owen" (para lhe dar o nome que ele próprio adotou) está efetivamente na ilha. Muito efetivamente. Dado o plano em apreço, e que não é mais nem menos do que a execução da justiça sobre determinados indivíduos por crimes que estão fora da alçada da lei, só havia um meio de pôr esse plano em prática. O Sr. Owen só podia vir à ilha de um modo.
“A coisa está perfeitamente clara. O Sr. Owen é um de nós...”

Tradução de Leonel Vallandro.
Obra editada pela Editora Globo e pela Abril Cultural

Mas tudo gira envolta de um poema

Dez negrinhos vão jantar enquanto não chove;
Um deles se engasgou e então ficaram nove.
Nove negrinhos sem dormir: não é biscoito!
Um deles cai no sono, e então ficaram oito.
Oito negrinhos vão a Devon de charrete;
Um não quis mais voltar, e então ficaram sete.
Sete negrinhos vão rachar lenha, mas eis
Que um deles se corta, e então ficaram seis.
Seis negrinhos de uma colmeia fazem brinco;
A um pica uma abelha, e então ficaram cinco.
Cinco negrinhos no foro, a tomar os ares;
Um ali foi julgado, e então ficaram dois pares.
Quatro negrinhos no mar; a um tragou de vez.
O arenque defumado, e então ficaram três.
Três negrinhos passeando no Zoo. E depois?
O urso abraçou um, e então ficaram dois.
Dois negrinhos brincando ao sol, sem medo algum;
Um deles se queimou, e então ficou só um.
Um negrinho aqui está a sós, apenas um;
Ele então se enforcou, e não ficou nenhum.


Aghata Christie nasceu na Inglaterra em 1891 e morreu em 1976. Coloca-se entre os mais populares escritores do gênero policial em todo o mundo. Entre seus romances, muitos deles adaptados para o cinema, destacam-se “Assassinato no Expresso Oriente”, “A Morte no Espelho”, “Cai o Pano” e “O Caso dos Dez Negrinhos”.

Histórias de Paraquedistas XX

Mae West e o paraquedismo


(Mae West: 1893-1980)

Por Nilo da Silva Moraes – pqdt 11.779

Entre os acidentes que pode sofrer um paraquedista militar, o mais terrível é o “charuto”, onde o velame desce sem se inflar. A solução é abrir rapidamente o reserva para amortecer a sua queda fatal.

Outro acidente um pouco mais comum é o “Mae West” que todos os recrutas entendiam como “Meio Esse”, que é quando uma linha lateral do velame passa por cima do nylon do paraquedas, foto abaixo, deixando-o em forma de um sutiã gigantesco. Muitos pqdts antigos, principalmente sargentos e oficiais, carregavam junto ao bute uma faca afiadíssima para, em caso do citado acidente, cortar o fio (ou os fios) que passava(m) por cima do velame, dando ao paraquedas a sua forma original.


Vi uma vez, numa manobra, e parece que era um pouco comum, um paraquedista descendo com o “Mae West” numa queda mais rápida, aterrar normalmente e sobreviver sem nenhuma fratura; vi, também, um pqdt descer com os dois paraquedas (principal semiaberto e o reserva aberto), e, pior ainda, os dois paraquedas se enredarem e nenhum abrir normalmente, causando a morte do paraquedista.


Casemiro Scepaniuk, pioneiro 44, foi, provavelmente, o primeiro paraquedista militar brasileiro a sofrer esse tipo de acidente no Brasil. (foto baixo, assinalado no círculo, quase no chão). Isso aconteceu em 1949, em Cumbica-SP. Ele fez todos os procedimentos aprendidos em Fort Bennig-USA, a aterrou com T-7 parcialmente aberto e reserva aberto inteiro.


E por que Mae West? Ela foi uma atriz norte-americana que se caracterizava por ter seios enormes e, na década de quarenta, no auge de sua carreira, era muito famosa, despertando nos soldados americanos uma fantasia erótica muito intensa. Nenhum de nós, os soldados novos de 64, tinham visto um filme da atriz, e nem sabia que “Meio Esse” era, na verdade, corruptela da palavra “Mae West”.

Adendo de Ly Adorno

Nilo, sua história é a expressão da verdade. Em 1951 ouvi do então Sgt Pqdt 42 Luiz de Araújo Nunes, pioneiro do paraquedismo militar no Brasil a confirmação deste seu relato sobre o nosso "meio-esse". Ly Pqdt 503/51-3. Dou fé ao relato.

Relatos de quem sofreu esse tipo de acidente

Descendo com Mae West


Cantarelli

Em 1976, a bruxa estava solta na Brigada Paraquedista. José Alfredo Cantarelli, Pqdt 7127 – 1960/10 vai dar um salto de rotina no Campo dos Afonsos. Treinamento de MS, salto noturno, o que complica um pouco. Sai do avião normalmente, quando constata que está descendo em “Mae West”. Com 16 anos de prática em saltos, resolve fazer tudo como manda o manual. Tira o punho do paraquedas reserva e o coloca no bolso, solta o piloto para poder comandar o velame lentamente, mas o piloto do reserva entra direto no velame do paraquedas principal. Na ânsia de recolhê-lo para evitar maiores problemas, não percebe que o solo se aproxima rapidamente. Aterra com muita violência, chegando a amassar o capacete de aço. Não se feriu mais, pois aterrou numa moita de carqueja. Só vai recobrar a consciência no meio do caminho entre o Campo dos Afonsos e o Hospital Carlos Chagas de Marechal Hermes.


Acidentes em Curso de MS

O que é que a baiana tem?

Jairo Fernando Martins Pacheco, Pqdt 15.812 – 1967/2, o Pachequinho para os amigos do Grafonsos, é dos seres humanos mais tranquilos que conhecemos. Com o seu jeito calmo, tímido, ele e sua esposa formam um casal dos mais assíduos frequentadores de todos os almoços do Grafonsos. Mas o Pacheco tem suas histórias para contar... e muitas.

1970, Itabuna, Bahia, Curso de Mestre de Salto. Em volta da pista, várias barraquinhas para a venda de Acarajé, comida típica baiana. Salto de treinamento com dia de vento forte. Saída e abertura normal do paraquedas, mas aterragem violenta no solo. O nosso amigo Pacheco bate forte no chão e, consequentemente, desmaia. Depois de um tempo, ele acorda no colo de uma baiana toda de branco. Pacheco arregala os olhos e, assustado, deduz:

- Meu Deus, morri e estou no céu!

O Pqdt do abacaxi

Esta história aconteceu em Belém (capital do Estado do Pará) nos idos de 1963, com José Benedito Rodrigues, Pqdt 5113 – 1958/6.

Quando do meu Curso de Mestre de Salto (1963/1 CMS) envolveu as cidades de Manaus e Belém, sendo interrompido em consequência do "movimento" dos Sargentos em Brasília. Deixando o "movimento" de lado, lembrei-me de uma "mancada" - na atual conjuntura, "mico" – quando, em um dos saltos em Belém, ao "aterrar" em cima de uma plantação de abacaxi, comecei a arrancar os tenros pezinhos daquela deliciosa fruta pensando que era na raiz que se encontrava o suculento fruto. Aí, não sei se foi o Luiz ou o Melquíades que me perguntou se eu tinha batido com a cabeça no chão por ocasião da aterragem, considerando-se que abacaxi "dá em cima e não em baixo".

O dia em que o Auxiliar foi Mestre de Salto

O Mestre de salto inspeciona a aeronave, organiza as equipes, fiscaliza a correta colocação dos equipamentos e lança os paraquedistas. O MS lança e o Aux. de MS ajuda.

Vejam o que aconteceu com o Pqdt 10.919 – 1963/09 Sérgio de Oliveira Mattos.

“Estava na função de Auxiliar de Mestre de Salto na ZL de Afonsos. Tudo corria bem. As equipes anteriores já tinham saltado, sem problemas. Como sabemos, a última equipe é a do MS do avião. Após os comandos regulamentares do Sgt Lopes (Zarza), MS do avião, a última equipe saiu. Eu seria o último a saltar, pois controlava o fluxo de saída, quando deparei com um incidente: Um soldado enganchou o seu Para-fal no banco entrelaçado do Búffalo e travou os soldados da porta da direita. O Sargento Lopes saltou com a equipe e o soldado parado, tentando desenganchar a sua arma. Quando desenganchou e veio para saltar, eu, numa rapidez de raciocínio, pensei: há uma pedreira no fim da pista. Coloquei-me à frente da porta impedindo-o de saltar. Na hora tocou horror no avião. O Rec-Fitas, Sgt (?), aloprou lá em cima e eu tomei a atitude de “mandar” ele pedir mais uma passagem ao piloto, que nos atendeu. Imediatamente, mandei os soldados restantes da equipe (quatro) trocar de porta, pois o avião não para; fui à porta e lancei a “equipe”. Após o salto, fui à Equipe Prec (Cap Gilseno e Sgt Alcântara) narrei o que houve e ainda fui elogiado verbalmente pela iniciativa.”

 O dia em que o Rec-fitas comandou um lançamento

Era um salto de manobra, pelas portas laterais, uma única passagem, na região de Macaé-RJ. Eu era o Rec-Fitas do avião. Como não notei nenhum movimento dentro da aeronave depois do toque de “20 minutos para a ZL”, procurei o MS do avião (Sgt Pereira) para saber se estava tudo em ordem. Encontrei-o deitado, próximo à cabine do piloto, ao lado dele o Aux MS do avião (?), ambos passando mal, daquele velho e conhecido problema de estômago. Falei com o MS do avião que prosseguiria com o lançamento e ele fez sinal de positivo com o polegar. Após amarrar aos corpos dos militares os pacotes que alguns portavam, fiz os procedimentos regulamentares e executei o lançamento. Até aí tudo bem. Quando fui à porta recolher as fitas, vi que um pacote havia se desprendido do corpo de um militar e caía em queda livre. Recolhi as fitas. Dias depois, recebi duas notícias: a) Dentro do pacote havia uma metralhadora que foi danificada; b) Estava enrolado em uma Sindicância, sob a acusação de não ter amarrado corretamente o pacote ao soldado. (David Alves dos Santos, Pqdt nº 10.935 – 1963/09, na época Sgt Alves ou “Sgt Prego”.

Comentários da redação:

O Sgt Prego esteve em nosso último almoço lá no CSSVM, no dia 18 Julho, pp. Para quem não é operacional, num pelotão de infantaria existem três grupos de combate (8 ou 10 soldados), em cada grupo um soldado é “premiado” para levar uma metralhadora .30 num pacotão que era chamado P2B, que, de tão pesado, o soldado o levava “arrastando” até o avião e lá em cima o MS acoplava “o pacotinho” embaixo do paraquedas reserva. No meu grupo, no salto operacional da ZL Air France, em 1964, Jacarepaguá-RJ, o “premiado” foi o soldado Adilson Stort, hoje com trincheira em Nova-Iguaçu-RJ. O Pimentel e o Ferreira, ambos residindo em Vitória-ES, participaram daquele exercício. O Tenente Gilseno era o Comandante do Pelotão. O Nilo (Moraes), hoje com trincheira em Porto Alegre, que é o nosso compilador do Almanaque do Grafonsos, também teve a honra e o privilégio de saltar naquela ZL, com aquele famoso pacote aterrar com o mesmo grudado no corpo, mas sem nenhum ferimento. Os demais soldados saltavam com um pacote mais leve chamado P2D.

Paulo Fagundes – pqdt 11.372 – 1964/2

Biografia de Mae West

Atriz e argumentista norte-americana, nascida em Brooklin, começou aos cinco anos no teatro em "The Baby Vamp". Fez teatro de revista, a partir de 1911 na Broadway. Divertida e sensual marcou o cinema quando interpretou com desenvoltura a peça de sua autoria "Sexo", que lhe valeu oito dias de prisão. Mae sempre gostou de escandalizar. A Paramount contratou-a a partir de 1928. Os seus mais conhecidos filmes foram "Uma Noiva para Três", 1933; "Não sou um Anjo", 1933; "Annie, Missionária no Klondyke", 1934; "Riquezas da Avó", 1940; e "Myra Breckenridge", 1970. Também atuou em espetáculos em Las Vegas. É uma das mais célebres atrizes de cinema de sempre, pela sua irreverência e sensualidade. Escreveu a autobiografia em 1954. Esteve ausente dos ecrãs mais de trinta anos tendo reaparecido em 1970. Foi a típica "vamp", dos anos 40 e 50. Foi imortalizada pelo pintor Dali na tela com o título "Face de Mae West", como se fosse a decoração de um apartamento.

Em 1959, ela publicou seu livro de memórias: "A Bondade Nada Tem a Ver com Isso". É uma autobiografia como a de tantas outras atrizes. Mas contém uma das marcas registradas de Mae, a franqueza e a ironia. Na qual, por exemplo, diz que não foi ébria durante toda a sua vida: "Meu vício foi outro, ainda é outro - o homem."

A artista conta que, apesar de amar os homens, casou-se apenas uma vez, aos 17 anos. O casamento foi uma decepção e ela nunca mais quis saber de compromissos. Todavia, conheceu homens de todos os tipos, desde grandes milionários até políticos, agentes, atores, produtores, juízes, financistas, etc.

Essas memórias mostram bem as aventuras de Mae, que dizia: "Os melhores homens são os que já passaram dos 40, muito ricos e não muito seguros de si."

Ultimamente vivia mais ou menos refugiada entre suas duas propriedades: uma na região de Los Angeles e outra, um apartamento, em Hollywood. As duas residências mobiliadas no estilo e gosto dos anos 30, cercada por seus dois macacos. Mae West recebia raras visitas e sempre em seu leito: "Todo mundo sabe que onde melhor trabalho é na cama.”. Faleceu em 1980 aos 87 anos de idade.

Frases de Mae West


“Claro que meu amante pode confiar em mim. Eu disse a ele que centenas já confiaram.”

“Subtração aritmética é deixar com 2 dólares um homem que tem uma nota de 100.”

“O casamento é uma grande instituição, mas eu não estou preparada para as instituições.”

“Quando sou boa, sou muito boa, mas quando sou má, sou melhor ainda.”

“Entre dois males, escolho sempre aquele que nunca experimentei.”

“Quando as mulheres erram, os homens vão atrás.”

“Errar é humano, mas faz você se sentir divino.”

“Você nunca será muito velho para ficar mais novo.”

“Garotas boas vão para o céu, as más vão para outro lugar.”

“Geralmente evito tentações, a não ser que eu não possa resistir.”

“Tenha um namorado para um dia chuvoso - e outro, caso não chova.”

“Querido, você está com uma lanterna no bolso, ou isso é uma declaração de amor?”

(Mae West a alguém com quem dançava).


Nem só de barata vive Kafka














Roberval, estranho moço das tardes do bar. Não falava: bebia. Não ficava bêbado, e, se ficava, ninguém via. Só escutava sem sorrir as histórias que tinham graça, sem se emocionar com a morte do nosso Jorge garçom, ontem, quando ele estava embaixo do chuveiro. O Fluminense perdeu um torcedor doente.

Roberval nem era Flamengo, nem Bangu, nem Olaria. Não gostava de futebol. Gostava do seu conhaque lento e de uma lida nas colunas de política do Jornal do Brasil. Também não comentava sobre ela.

Uma dia, Roberval se abriu com Augusto e contou que estava apaixonado por uma barata. Kafka, de novo? Roberval nada sabia sobre Kafka. Resolveu contar por contar ou estava em depressão depois que “ela” o deixara.

Tudo começou de maneira muito simples: chegou em casa naquele porre que só ele via e sabia. Sentou na poltrona, botou conhaque no copo e o copo na mesinha. Foi quando a barata se aproximou, suavemente, junto do copo, subindo e se equilibrando na sua borda, se espichando para alcançar a superfície do líquido. Provou, bebeu e voltou para a mesinha olhando para ele. Ficaram nesse namoro até o sono chegar. Quando acordou, a barata tinha ido embora. Roberval esperou ansiosamente o dia passar no trabalho. À noite foi ao bar e bebeu o que pôde, sempre olhando o relógio. Na hora exata do acontecimento que tanto o perturbara, foi para casa, serviu o conhaque e se debruçou na poltrona. Não demorou, a barata veio vagarosamente e foi se aproximando do copo. Ele ficou só observando. “Ela” fazia a mesma ginástica do dia anterior: subiu no copo, alcançou o líquido, bebeu e ficou de papo para o ar, olhando Roberval. E assim aconteceu durante muitas noites.

O namoro seguia firme quando uma desconfiança que podemos chamar de ciúme mordeu Roberval: “Será que era a mesma barata que o visitava todos os dias ou havia inúmeras baratas se revezando para beber o conhaque do otário?” Tentou descobrir comparando a barata de uma noite com a de outra. Concluiu que se elas se revezavam não dava para confiar no método da comparação, pois todas eram rigorosamente iguais. Lá pelas tantas, sentiu-se enganado e planejou vingança. Quando a barata estivesse bêbada e de pernas para o ar, iria matá-la com um punhal que ganhara de um amigo nordestino. Não teve coragem. Deixou que “ela” dormisse e resolveu adiar o plano para o dia seguinte. E assim fez, mas não a matou com punhal. Esperou que “ela” atingisse a borda do copo, empurrou-a e deixou que morresse afogada, tapando a boca do copo com a mão. Mas, quando a amada estava quase morrendo, a bondade de Roberval falou mais alto. Ele a retirou de dentro do copo, limpou seu corpo com cotonete e já pensava em fazer respiração boca a boca quando “ela” começou a mover as patinhas. Só então Roberval percebeu que faltava uma das patinhas, arrancada na ânsia de salvá-la. Chorou de remorso e adormeceu sem perceber que a amada havia ido embora.

A noite seguinte foi a mais longa espera pela amiga quase defunta. Olhava sobre a mesa a patinha decepada, e perguntou a todos os amigos se barata era como caranguejo cujas patas caem e outras nascem. Não havia hipótese. Encheu o copo de conhaque, encheu várias vezes o copo e nada. A noite já ia longe quando percebeu a chegada da amiga que, capengando, tentava subir a borda do copo. Ele a ajudou e resolveu que para “ela” seria mais fácil beber no pires. Todas as noites, na mesma hora, a barata chegava capengando em busca do conhaque, e a certeza de que “ela” era única enchia de prazer a alma de Roberval. Desde então passou a defender a honestidade das baratas, e dizia no Vilariño que, ao contrário das mulheres, todas são honestas. Nós pensávamos que Roberval estava pinel. Não estava: ficou no dia em que a barata não apareceu mais. Morreu afogado em conhaque sem ninguém que lhe trouxesse um cotonete para enxugar-lhe as mágoas. Sabe-se que outras baratas – amigas da amada ausente – visitam-no constantemente no seu túmulo.

(Do livro “À mesa do Vilariño”, de Fernando Lobo)




domingo, 10 de julho de 2016

Um soneto sem verbo e com o verbo divino

Iracema Nunes de Andrade

Filha do Cel. Armando Protásio Vieira de Andrade e D. Otilina Nunes de Andrade, nasceu no ano de 1912, em Rio Pardo-RS. Diplomada em 1930 pela Escola Normal de Porto Alegre-RS, mudou-se para o Rio de Janeiro no ano de 1932. Dedicada à Literatura e às Artes Plásticas, principalmente à Poesia, bico-de-pena e aquarela. Estreou em 1932, com o opúsculo “Oásis” e publicou “Um Pingo de História” (poemas de temas históricos) em 1990 e “Misticismo” (de fundo religioso, com ilustrações a bico-de-pena). Em prosa, publicou “A Campanha de Canudos, segundo Euclides da Cunha”, também ilustrado a bico-de-pena. Colaborou no Almanaque Bertrand, editado em Lisboa sob coordenação de D. Maria Fernandes Costa, com poesias e ilustrações a nanquim – e também em prosa, sob o pseudônimo de Daniel Âncora. Participou no “ANUÁRIO/POETAS DO BRASIL” de Aparício Fernandes, nos anos de 1981 a 1963, 1986 e 1987 – sempre no 1º volume.

Um humilde curral, símbolo da pobreza;
Dentre as virgens da Terra a mais bela e a mais pura;
De um honrado varão a mais nobre figura;
E, numa manjedoura, a própria realeza.

A fuga para o Egito, a paragem segura.
A volta a Nazaré. Trabalho, amor, pureza.
O Batista. Depois, a divinal grandeza
Da doutrina sem par de perdão e ternura.

Os Doze. Uma traição. O cenáculo. O Mestre,
Divino Salvador da pobre grei terrestre.
Pilatos e Caifás. Barrabás ou Jesus?

O cimo do Calvário. O mau e o bom ladrão.
O Cristo Redentor no dia da Paixão,
Por amor dos mortais, pregado numa cruz.




Duas histórias humorísticas



A velhinha e o alcoólatra

Um alcoólatra está viajando de trem. O bar está fechado; o trem não para nunca e ele se esqueceu de levar um trago extra. O desespero está tomando conta dele. O cara sua frio, treme as mãos, está quase ficando louco.

No vagão onde ele se encontra, viaja, também, uma velhinha que está tricotando calmamente um sapatinho de bebê. O bebum, então, nota que a velhinha tem uma garrafinha debaixo do banco. De quinze em quinze minutos, a velhinha leva a garrafinha aos lábios. O bêbado troca de lugar e se senta defronte da velhinha, na esperança que ela lhe dê, pelo menos, um golinho da sua bebida. A velhinha não se manca e continua tricotando sem notar a sua presença.

Depois de duas horas de viagem, a velhinha resolve ir ao banheiro. Quando a velhinha fecha a porta, o bêbado aproveita e pega a garrafinha da velhota e entorna todo o seu conteúdo de uma só vez, jogando a garrafa vazia pela janela do trem. Volta para o seu lugar e finge que está dormindo. A anciã retorna ao seu lugar e volta a tricotar. Daí a quinze minutos, a velhinha procura debaixo do banco a sua garrafinha e pergunta em voz alta:

- Onde será que eu coloquei a garrafinha que eu uso para cuspir dentro?

A visita do Ministro

O Ministro da Cultura, um político brasileiro, foi visitar uma cidade no interior do Brasil para conhecer um manicômio qualquer. Chegando lá, o ministro só ouvia o que os médicos falavam a respeito dos pacientes. Um louco, que estava bem-vestido e com uma pose de intelectual, sussurrou ao ouvido do ministro:

– “Preciso, em particular, falar urgentemente com senhor”.

O ministro se fez de desentendido e continuou a sua vista. Mais tarde, o diretor do hospício disse ao ministro que ele podia perguntar o que quisesse aos doentes, bem como falar com qualquer um deles. O ministro, então, apontou para o paciente que lhe falara ao ouvido e disse que gostaria de conversar com ele em particular. Os dois foram para uma sala isolada. O maluco trouxe consigo um enorme livro e foi logo dizendo para o ministro:

– Eu era um famoso professor universitário, por um esgotamento nervoso, fui colocado aqui pela minha família, mas eu não sou maluco não. E para provar que eu não sou louco, vou passar às suas mãos este livro que vai provar a Sua Excelência que o que eu estou dizendo é a pura verdade.

Dizendo isso, o paciente entregou um grosso livro ao senhor ministro, prometendo que, assim que chegasse em Brasília, leria o livro e, dependendo da sua leitura, providenciaria para que o paciente tivesse alta e voltasse a lecionar.

No primeiro fim-de-semana de folga, o ministro sentou-se numa poltrona e leu na capa do livro: “Marcha para o Oeste”. Um livro volumoso de capa dura, com um lindo desenho de um homem a cavalo. O ministro o abriu na primeira página. Lá estava em destaque:

“Capítulo 1” e a palavra “ploc”. Ele pula para a segunda pagina: “Capítulo 2 – ploc, ploc”. Passa mais uma página: “capítulo 3 – ploc, ploc, ploc”. Vai direto para a página 10 e lá estava: “Capítulo 10 – ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc, ploc”. Emputecido, o ministro foi direto para a última página e lá estava escrito: “Hôôôôôô!!!” 

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sexta-feira, 8 de julho de 2016

O menor soneto brasileiro

O menor soneto* brasileiro

Oracy Dornelles

Ah
é...
lá.

É
a
ré:

E

Se
o
é!

* Soneto é caracterizado por ter 14 versos,
sendo dois quartetos e dois tercetos.

Canção do Exílio Facilitada

Lá?
Ah!

Sabiá...
Papá...
Maná...
Sofá...
Sinhá...

Cá?
Bah!

José Paulo Paes

Serenata sintética

Lua
morta

Rua
torta

Tua
porta

Cassiano Ricardo