sábado, 9 de dezembro de 2017

Sentença inusitada de um juiz, poeta e realista



Esta aconteceu em Minas Gerais (Carmo da Cachoeira), em 2014. O juiz Ronaldo Tovani, 31 anos, substituto da comarca de Varginha, ex-promotor de justiça, concedeu liberdade provisória a um sujeito preso em flagrante por ter furtado duas galinhas e ter perguntado ao delegado: “Desde quando furto é crime neste Brasil de bandidos?” O magistrado lavrou então sua sentença em versos: 

No dia cinco de outubro
Do ano ainda fluente
Em Carmo da Cachoeira
Terra de boa gente
Ocorreu um fato inédito
Que me deixou descontente.

O jovem Alceu da Costa
Conhecido por "Rolinha"
Aproveitando a madrugada
Resolveu sair da linha
Subtraindo de outrem
Duas saborosas galinhas.

Apanhando um saco plástico
Que ali mesmo encontrou
O agente muito esperto
Escondeu o que furtou
Deixando o local do crime
Da maneira como entrou.

O senhor Gabriel Osório
Homem de muito tato
Notando que havia sido
A vítima do grave ato
Procurou a autoridade
Para relatar-lhe o fato.

Ante a notícia do crime
A polícia diligente
Tomou as dores de Osório
E formou seu contingente
Um cabo e dois soldados
E quem sabe até um tenente.

Assim é que o aparato
Da Polícia Militar
Atendendo a ordem expressa
Do Delegado titular
Não pensou em outra coisa
Senão em capturar.

E
depois de algum trabalho
O larápio foi encontrado
Num bar foi capturado
Não esboçou reação
Sendo conduzido então
À frente do Delegado.

Perguntado pelo furto
Que havia cometido
Respondeu Alceu da Costa
Bastante extrovertido
Desde quando furto é crime
Neste Brasil de bandidos?

Ante tão forte argumento
Calou-se o delegado
Mas por dever do seu cargo
O flagrante foi lavrado
Recolhendo à cadeia
Aquele pobre coitado.

E hoje passado um mês
De ocorrida a prisão
Chega-me às mãos o inquérito
Que me parte o coração
Solto ou deixo preso
Esse mísero ladrão?

Soltá-lo é decisão
Que a nossa lei refuta
Pois todos sabem que a lei
É pra pobre, preto e puta...
Por isso peço a Deus
Que norteie minha conduta.

É muito justa a lição
Do pai destas Alterosas.
Não deve ficar na prisão
Quem furtou duas penosas,
Se lá também não estão presos
Pessoas bem mais charmosas.

Afinal não é tão grave
Aquilo que Alceu fez
Pois nunca foi do governo
Nem sequestrou o Martinez
E muito menos do gás
Participou alguma vez.

Desta forma é que concedo
A esse homem da simplória
Com base no CPP
Liberdade provisória
Para que volte para casa
E passe a viver na glória.

Se virar homem honesto
E sair dessa sua trilha
Permaneça em Cachoeira
Ao
lado de sua família
Devendo, se ao contrário,
Mudar-se para Brasília!

Hitchcock corpo presente

As aparições do mestre Alfred Hitchcock em seus filmes, se tornaram uma espécie de assinatura.


Alfred Hitchcock
(13.08.1899 – 20.04.1980)

Durante as filmagens de seu quarto filme, O Inquilino Sinistro (The Lodger), rodado na Inglaterra em 1926, Hitchcock descobriu, de repente, que precisava aumentar a figuração de uma cena. Sem tempo para contratar um extra, ele próprio sentou-se à mesa de uma redação de jornal, fingindo-se de repórter. Três anos e oito filmes depois, voltou a aparecer rapidamente numa cena de Chantagem e Confissão (Blackmail), lendo jornal no metrô, ao lado de um garoto irrequieto. Foi aí que tomou gosto pela brincadeira, transformando suas fugazes aparições numa espécie de assinatura, de marca registrada, cuidadosamente programadas para as primeiras cenas, a fim de evitar que os espectadores se distraíssem durante a projeção, à espera de sua passagem diante da câmera.

Hitchcock passa por uma rua em Assassinato (Murder, 1930). Os 39 degraus, Festim Diabólico (Rope, 1948), Um Corpo que Cai e Intriga Internacional. Faz um fotógrafo desajeitado em Jovem e Inocente (Young and Innocent, 1937). Desfila por uma estação de trem em A Dama Oculta (The Lady Vanishes, 1938) e atrás de uma cabine de telefone em Rebeca, a Mulher Inesquecível. É visto jogando bridge num trem em A Sombra de uma Dúvida, saindo de um elevador em Quando Fala o Coração, bebendo champanhe em Interlúdio, ouvindo um discurso em Sob o Signo de Capricórnio (Under Crapicorn, 1949) e carregando um violoncelo em Agonia de Amor (The Paradine Case, 1947) e um contrabaixo em Pacto Sinistro.

Em Tortura do Silêncio (I Confess, 1952), ele cruza o alto de uma escada no Quebec, e em Janela Indiscreta dá corda num relógio. Surge sentado num ônibus da Côte d´Azur, ao lado de Cary Grant, em Ladrão de Casaca (To Catch a Thief, 1955), apreciando acrobatas marroquinos em O Homem que Sabia Demais (1956), parado numa calçada (com um chapéu de caubói) em Psicose (1960), passeando com dois cachorrinhos em Os Pássaros (The Birds, 1963), perambulando pelo corredor de um hotel em Marnie, com bebê no colo em Cortina Rasgada (Torn Curtain, 1966), numa cadeira de rodas em Topázio e misturado aos circunstantes à beira do Tâmisa na abertura de Frenesi. Em seu último filme, Relíquia Macabra (Family Plot), 1976), é apenas uma silhueta, atrás de um vidro fosco de um cartório.

Por duas vezes apareceu apenas em fotografia: de uma festa de formatura, em Disque M para Matar (Dial M for Murder, 1954), e no anúncio de um remédio para emagrecimento, em Um Barco e Nove Destinos (Lifeboat, 1943).*

Sérgio Augusto em “Fantástico – O show da vida em revista”

* Sobre o filme “Um Barco e Nove Destinos” há um detalhe interessante. O diretor queria aparecer no filme, como sempre, mas como fazer isso num barco com apenas nove pessoas? Alguém, talvez ele mesmo, teve a ideia: Um dos nove lia um jornal onde aparecia um anúncio de remédio para emagrecer. Era do tipo: “Eu era assim e fiquei assim”. Eram duas fotos, mas a da frase “Eu era assim” tinha a foto de Hitckcock.

                                                               (Clarival Vilaça)

Contas a pagar dos Pablos



Contam que Pablo Neruda nunca tinha dinheiro nos bolsos. Quando ele acabava de jantar num restaurante, o dono aproximava-se da mesa com a conta, esperançoso e perguntava:

- O senhor vai pagar a conta ou assinar?


Pablo Picasso fazia uma mímica de procurar dinheiro nos bolsos e acabava assinando a nota, que o dono do restaurante mandava emoldurar e depois vendia como um Picasso autêntico, por muito mais do que o valor do jantar.

Quando a comida estava especialmente boa ou quando o grupo de Picasso era maior, ele, em vez de assinar a nota, fazia uma rápida pomba ou odalisca na toalha, que, mesmo com manchas de molho e vinho, passava a valer uma fortuna. Ou então improvisava uma escultura com rolhas, miolo de pão e palitos e a presenteava ao dono eufórico.

Certa vez, Picasso mandou a empregada fazer o rancho e lhe deu um desenho para pagar a conta. Um bico de pena razoavelmente bem acabado, pois a conta seria grande. Paga a conta, a empregada voltou com as compras e com um desenho horroroso feito num papel de embrulho, que entregou ao seu patrão. Embaixo, estava a assinatura: “Pinot”.

- O Monsieur Pinot, do armazém, mandou.

- Por quê?

- Ele disse que é o troco.

Naquele mesmo dia, Picasso fez questão de passar pelo armazém do Monsieur Pinot e o olhou com admiração. Finalmente, encontrara um ego maior do que o seu. 

Carta de Manuel Bandeira a Guimarães Rosa



Uma joia rara esta carta do Bandeira (acima) para o Rosa (abaixo) comentando sobre o Grande Sertão: Veredas.


Amigo meu, J. Guimarães Rosa, mano-velho, muito saudar! Me desculpe, mas só agora pude campear tempo para ler o romance de Riobaldo. Como que pudesse antes? Compromisso daqui, obrigação dacolá... Você sabe: a vida é um Itamarati − viver é muito dificultoso.

Ao depois de depois, andaram dizendo que você tinha inventado uma língua nova e eu não gosto de língua inventada. Sempre arreneguei de esperantos e volapuques. Vai-se ver, não é língua nova nenhuma a do Riobaldo. Difícil é, às vezes. Quanta palavra do sertão! A princípio, muito aplicadamente, ia procurar a significação no dicionário. Não encontrava. Pena o título: Grande Sertão: Veredas. Nenhum dicionário dá a palavra “vereda” com o significado que você mesmo define à página 74: “Rio é só o São Francisco, o Rio do Chico. O resto pequeno é vereda.” Tinha vezes que pelo contexto eu inteligia: “ciriri dos grilos”, “gugo da juriti” etc. Mas até agora não sei, me ensine, o que é “arga”, “suscenso”, “lugugem” e um desadoro de outras vozes dos gerais. Tinha vezes que eu nem podia atinar se a palavra era nome de bicho vivente, plantinha ou coisa sem corpo nem cor nem coragem, abstrato que se diz, não é? Ou é? Ou será?

Ainda por cima disso, você fez Riobaldo poeta, como Shakespeare fez Macbeth poeta. Natural: por que um jagunço dos gerais demais do Urucuia não poderá ser poeta? Pode sim. Riobaldo é você se você fosse jagunço. A sua invenção é essa: pôr o jagunço poeta inventando dentro da linguagem habitual dele. O vocabulário dele já é riquíssimo, dá a impressão que não ficou de fora nenhuma dicção de seus pagos e arredores; aumentado com os neologismos, sempre de boa formação lingüística, ficou um potosi, nossa! A gente acaba tendo que entregar os pontos, nem que seja um Gilberto Amado. O diabo é que depois de ler você a gente começa a se sentir e cantar eu sou pobre, pobre, pobre, rema, rema, rema, ré.

Só que acho que não precisava contar de um rojão só, como o Joyce do último capítulo de Ulysses, as 594 páginas da história de Riobaldo. Quantas horas levaria? Eu levei dias para ler. Ainda bem que você virgulou tudo, minudente. E o caso de Diadorim, seria mesmo possível? Você é dos gerais, você é que sabe.

Amigo meu J. Guimarães Rosa, mano-velho, o menino Guirigó e o cego Borromeu são duas criações geniais. Aliás todo esse mundo de gente vive com uma intensidade assombrosa. E o sertão? O sertão é uma espera enorme. E o silêncio? O vento é verde. Aí, no intervalo, o senhor pega o silêncio, põe no colo. Tão deleitável tudo, nem que estar nos braços da linda moça Rosa'uarda, ou de Nhorinhá, de Ana Dazuza filha, ou daquela prostitutriz que proseava gentil sobre as sérias imoralidades. Ah Rosa, mano-velho, invejo é o que você sabe: O diabo não há! Existe é o homem humano.

Soscrevo.

13/03/1957

BANDEIRA, M. “Grande sertão: veredas”.
In: Poesia completa e prosa. 2 ed. Rio de Janeiro:
Aguilar, 1967. p. 590-92.



O Monumento a Júlio de Castilhos

Significado dos elementos do monumento

Altura do monumento: 22,5 m


Ao alto do monumento: Liberdade Republicana: Representada com Marianne, símbolo da República Francesa, para simbolizar a própria República brasileira. Originalmente era dourada.

Um pouco abaixo: Esfera da Bandeira do Brasil: A estátua da Liberdade está sobre a versão tridimensional da esfera celeste da bandeira nacional.

Ainda no alto da estátua: Forma da Bastilha: Forma acastelada para lembrar a queda da fortaleza e presídio da Bastilha, início da Revolução Francesa, 1789.

No meio da estátua, à esquerda: Civismo.

No meio da estátua, à direita: Coragem.

Sentado em um trono: Júlio de Castilhos.

Em pé, à esquerda: Firmeza.

De braços abertos, à direita: Prudência.

Sentado, de mão no queixo, à esquerda: . Saber e Experiência. 

E à direita: Jornal A Federação.


Acima, no meio da foto, um dragão representando o Perigo.

P.S. Os policiais do Palácio Piratini deveriam fazer guarda desse monumento histórico de nossa cidade. Na última vez que fui visitá-lo, estava pichado por vândalos que infernizam a nossa cidade.
Um monumento na Praça da Matriz, defronte ao palácio do governador, do Teatro São Pedro ao lado do Palácio Farroupilha, no coração de Porto Alegre, deveria ser melhor cuidado.

Nilo da Silva Moraes

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Abrir as mãos



Monja Coen

(Da revista Bons Fluidos)









Dois monges caminhavam juntos na Índia antiga. Buda havia recomendado que fossem dois a dois para que não se desviassem do Caminho.

Chegaram à margem de um rio caudaloso. Quando estavam adentrando o rio, uma jovem se aproximou correndo, esbaforida, pedindo que a ajudassem a atravessar. Tratava-se de uma emergência. Precisava ir ao outro lado imediatamente. O caso era de vida ou morte.

Um dos monges se recusou e atravessou o rio sozinho. O outro deu as mãos à jovem e a levou em segurança até a outra margem. Ali se despediram.

Os dois monges continuaram a caminhando lado a lado. O que havia atravessado sozinho estava furioso. Passada mais de uma hora, o outro monge perguntou ao companheiro por que estava tão mal-humorado, e ele respondeu: “Você deu as mãos àquela jovem. Nossos preceitos monásticos nos proíbem de tocar numa mulher. Você não está envergonhado?”. O outro monge respondeu prontamente: “Eu a ajudei e a deixei à margem do rio. Você a continua carregando até aqui”.

Muitas vezes assim o fazemos. Carregamos conosco nossos apegos e aflições. Nossos amores e aversões. A carga fica pesada e não conseguimos soltar, abrir mão.

Na época que pratiquei no templo Hosshinji, na província de Fukui, descobri, certa manhã, que do outro lado do riacho havia uma casa parecida com um pequenino templo. Aproximei-me. A senhora monja que dali cuidava me abriu as portas e explicou: “Aqui foi a pousada do grande Mestre Harada Sogaku Rôshi. Professor do atual abade de Hosshinji, Harada Sekken Rôshi, e do abade desse templo vizinho. Ambos irmãos do Darma. Ao envelhecer e se aposentar, Harada Rôshi veio morar aqui. Eu era sua assistente pessoal. Ele se foi, mas eu continuo servindo a ele. Todas as manhãs, sirvo o chá de que gostava, no horário em que estava acostumado”.

Aquela conversa me fez sentir um arrepio. A casa era mantida como se o mestre ainda estivesse vivo e por ali andasse, bebendo chá, comendo os alimentos e fazendo entrevistas individuais com os praticantes que o procuravam. Acompanhada pela monja, visitei a morada. Estava intacta – e ela se orgulhava disso. Mantinha a casa em perfeito estado de limpeza e harmonia. Havia pouca luz e, naquela penumbra, parecia sentir a presença do mestre.

Ao sair da casa, ela me deu o ensinamento principal de Harada Rôshi, que até hoje transmito aos meus discípulos e discípulas: “Abra as mãos. Mantenha as mãos abertas e nelas caberá todo o universo. Um pequeno fio que segure, uma pedrinha, uma ideia, um conceito, e estará limitada. Abra as mãos e deixe que o universo as preencha com o tudo-nada”.

Saí de lá tendo a certeza de que encontrara Harada Rôshi e, como se diz nas preces que fazemos para monges e monjas falecidos, repeti mentalmente: “O verdadeiro corpo dos ensinamentos não aparece nem desaparece.”

Assim, novamente me comprometi a levar adiante os ensinamentos de Buda para que todas as pessoas possam se libertar dos apegos e encontrar a grande felicidade.

*****

Monja Coen é fundadora da Comunidade Zen Budista Zendo Brasil e, com suas palavras amorosas, convida à prática do respeito ao próximo. Publicou pela Ed. Planeta A Sabedoria da Transformação: Reflexões e Experiências, de onde extraímos o texto acima.



O Simbolismo do Escudo Rio-grandense



No meio de um troféu de armas e bandeiras, um escudo oval, tendo duas colunas plantadas sobre rochedos, e, no meio delas, um losango com rosáceas às pontas e um quadrado, em que o barrete frígio republicano repousa sobre uma haste, em dois ramos.

“O barrete frígio se encontra entre rosáceas simbólicas, que, mais tarde, se transformarão em estrelas. Essas rosáceas são as do Sephirot da Cabala, como se pode facilmente verificar na gravura colorida que abre o cap. XXI da grande obra de Manly P. Hall, “Encyclopedia of Masonic, Hermetic and Rosicrusian Symbolical Philosophy”. O losango nada mais é do que a representação dos dois triângulos que formam a chamada Estrela de David. Estão unidos pela base e significam o dualismo maniqueu, a igualdade do Bem e do Mal, em luta constante”.

“O rochedo é o que se chama em linguagem maçônica a Pedra Bruta: o homem tal qual o fez a natureza e a sociedade”, ensina Henri Durville, em “Os mistérios da Maçonaria e das sociedades secretas”. O maçom Dario Veloso, em “O Templo maçônico”, considera a Pedra Bruta o "estado primitivo, ignorância, paixões, egoísmo” e, acrescenta: “trabalha com ardor na Pedra Bruta e verás brilhar a Estrela Flamejante”.

“As duas colunas são as que estão em todas as Lojas”. “As Colunas do Templo simbolizam - declara Dario Veloso - dois princípios de equilíbrio social: Tolerância e Solidariedade. Na família, representam o Homem e a Mulher, cujo antagonismo se resolve pelo Amor. Analogicamente, representam ainda: a Razão e a Fé; a Ciência e a Religião; o Bem e o Mal; a Luz e as Trevas.” Uma delas, J., é o Espírito, e a outra B., é a Matéria: o Ativo e o Passivo, a Liberdade e a Necessidade.”

(Segundo Gustavo Barroso, in "História Secreta do Brasil",
reproduzido por Morivalde Calvet Fagundes,
na obra "Rocha Negra a Legendária”).

 O Simbolismo da Bandeira segundo o Conde
 Tito Lívio Zambeccari

“Na Bandeira, os triângulos retângulos, de cores verde e amarela, figuras geométricas da perfeição; o quadrilongo central em vermelho, representação do mundo na concepção dos antigos. Assim, na linguagem do pavilhão, o mundo das lutas presentes, tinto de sangue, é a base ao mesmo tempo do progresso material, representado pelo triângulo cor de ouro, e da perfeição moral, pelo triângulo cor da esperança. No Escudo, as Colunas de Hércules, o "nec plus ultra” da marcha aparente do Sol, significando que o Poder e a Sabedoria de Deus estão acima dos julgamentos dos homens; as romãs (não balas de canhão antigo como consta da lei que instituiu a Bandeira atual) que as encimam, imagens da harmonia social; nos triângulos do quadrilátero, as estrelas flamígeras de cinco pontas, designação da quinta essência universal, do espírito animador de todas as coisas; o barrete frígio, emblema da República e da liberdade; a espada (e não o sabre) que o sustenta, símbolo da justiça e da inflexibilidade no cumprimento da lei; os ramos de acácia (e não de fumo e erva-mate), evocação do florescimento das idéias que devem encher de beleza a vida dos homens. O número três, o número místico das idades sagradas, está nas suas cores, nos seus desenhos e, ainda, ao sopé do escudo, no dístico da República, inspirado na Revolução Francesa”.

(Da Peça de Arq. do Irm. Maximiano Pombo Cirne em 19/09/1975
 na A. R. L. S. “Província de São Pedro”,
citando "Garibaldi e a Guerra dos Farrapos", obra de Lindolfo Collor.)

Sobre o dístico "Liberdade, Igualdade e Humanidade"

Sobre o lema “Liberdade, Igualdade e Humanidade” que completa o brasão, uma interpretação pessoal, porém fundamentada: ao contrário do que muitos pensam, o lema da I República, instaurada pela Revolução Francesa em 1789, era “Liberdade, Igualdade ou Morte”. Somente na II República (1848-1852) é que surgiu a “tríplice divisa”, “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, depois adotada pela Maçonaria Francesa. Como a Revolução Farroupilha ocorreu entre as I e II Repúblicas Francesas, acredito que os Maçons Farroupilhas resolveram substituir a palavra “morte" por um conceito mais adequado às elevadas aspirações maçônicas e à própria revolução. Para a Maçonaria, “Humanidade" representa os ideais de fraternidade e amor entre todos os seres humanos, objetivo permanente a ser alcançado.

A Revolução Farroupilha e os Maçons

Entre 20 de setembro de 1835 e 01 de março de 1845 os Gaúchos revoltaram-se contra o Império e fundaram a República Rio-grandense, por não suportarem o descaso da metrópole e a constante sangria de recursos. Foram mais de cem combates nos quais os Farroupilhas, com bravura e honra, mantiveram durante mais de 9 anos “a guerra de uns poucos contra um Império”.

Alguns dos principais líderes do movimento eram maçons, dentre eles: Gen. Bento Gonçalves (33°); Gen. David Canabarro (18°); Gen. Antônio de Souza Netto - que em 11/09/1836 proclamou a Independência da República Rio-grandense; José Mariano de Matos (18°) e Giuseppe Garibaldi, depois Grão-Mestre do Gr. Or. da Itália, imortalizado como “O Herói de Dois Mundos”, por sua luta pela unificação daquele país.

Também era maçom o Marechal Luiz Alves de Lima e Silva, na época Barão de Caxias e comandante militar do Império. Isto certamente facilitou as negociações e o tratado de paz. Demonstrando seu respeito pelos Farrapos, o Irm. Caxias chegou a dizer: “homens como estes não se vence pelas armas”.