domingo, 19 de julho de 2020

Uma valsa de Mário Lago



(Mário lago – 26.11.1911 a 30.05.2002)

Devolve

Mandaste as velhas cartas comovidas,
Que na febre do amor te enviei.
Mandaste o que ficou de duas vidas:
O romance, uma dor que eu provei...
Mandaste tudo, porém,
Falta o melhor que eu te dei:

Devolve toda a tranquilidade,
toda a felicidade,
que eu te dei e que perdi.

Devolve todos os sonhos loucos,
que eu construí aos poucos
e te ofereci.

Devolve, que eu peço, por favor,
aquele imenso amor,
que nos teus braços esqueci.

Devolve, que eu te devolvo ainda,
esta saudade infinda,
que eu tenho de ti.


P.S. Esta valsa na internet, gravada por Carlos Galhardo. 

Chuang Tzu e o Sonho da Borboleta



Era uma noite fresca na China antiga. Um amigo de Chuang Tzu foi procurá-lo numa estalagem local. Chegando lá, encontrou-o sentado numa mesa, bebericando seu chá com um semblante contemplativo.

– Aí está você! – disse o amigo de Chuang Tzu. – Achei que estivesse contando a todos mais uma de suas histórias. Por que está tão calado?

– Há uma questão em minha mente – disse Chuang Tzu. – Uma questão sobre a existência.

– Entendo. Você quer que eu lhe deixe sozinho com seus pensamentos?

– Não, gostaria de compartilhá-la com você. Talvez você possa me ajudar com sua perspectiva.

– Minha perspectiva é de pouco valor, mas ficarei contente em ouvir – ele puxou uma cadeira.

– Saí para uma caminha no final da tarde –, começou Chuang Tzu. – Fui até um de meus lugares preferidos embaixo de uma grande e frondosa árvore. Ali sentei e comecei a pensar no significado da vida. Estava tão fresco e agradável que logo relaxei e peguei no sono. Comecei então a sonhar que estava sobrevoando um belo campo florido. Olhei para trás e vi que tinha asas. Elas eram grandes e bonitas e se agitavam rapidamente. Eu havia me transformado numa borboleta! Senti uma enorme sensação de liberdade e alegria ao voar suavemente em qualquer direção que quisesse. Tudo nesse sonho parecia completamente real em todos os sentidos, tanto que, depois de um tempo, eu me esqueci por completo que um dia fora Chuang Tzu. Eu era simplesmente uma borboleta e nada mais.

– Eu tive sonhos em que voava, mas nunca como uma borboleta – o amigo respondeu. – Esse sonho me parece uma experiência maravilhosa.

– E foi, mas como todas as coisas, cedo ou tarde tiveram que acabar. Lentamente, acordei e percebi que eu era novamente Chuang Tzu. Isso é que me intriga.

– O que há de tão intrigante? Você teve um belo sonho, só isso.

– E se eu estiver sonhando agora? Essa conversa que estou tendo com você parece real em todos os sentidos, assim como meu sonho. Eu achei que era Chuang Tzu que tivesse sonhado ser uma borboleta. Mas, e se sou uma borboleta que, agora mesmo, está sonhando ser Chuang Tzu?

– Bem, eu posso lhe afirmar que você é realmente Chuang Tzu e não uma borboleta.

Chuang Tzu sorriu:

– Você pode ser simplesmente parte do meu sonho, nem mais nem menos real do que qualquer outra coisa. Assim, não há nada que você possa fazer para me ajudar a identificar a distinção entre Chuang Tzu e a borboleta. Essa, meu amigo, é a questão essencial sobre a transformação da existência.

(Do blog Consciência é a Resposta)

O taoísmo filosófico, cujo objetivo era alinhar a vida cotidiana do indivíduo ao Tao, está associado aos nomes de Lao Tse e Chuang Tzu. Por isso, as vezes se atribui esse conto a Lao-Tsé outras ao mestre taoísta Chuang Tzu. Segundo o conto, o sábio sonhou que era uma borboleta, voando alegremente aqui e ali. No sonho, ele não tinha mais a mínima consciência de sua individualidade como pessoa. Ele era realmente uma borboleta. Repentinamente, ele acordou e descobriu-se deitado ali, uma pessoa novamente, pensando se agora era uma borboleta sonhando ser um homem.


sábado, 18 de julho de 2020

O Poeta e a Bailarina

O sofrimento de Alcides Gonçalves


Alcides Gonçalves, ao violão, e Lupicínio Rodrigues

(...) Alcides me contou a história de Quem há de dizer, de cujos versos é o inspirador. Ele era pianista na boate Marabá, onde tinha uma mulher, Maria Helena. Enquanto tocava, controlava, pelo espelho em frente ao piano, o movimento do salão. E dali assistia, com infinita tristeza, à sua Maria Helena assediada por mil garanhões. “Um dia, o Lupicínio chegou, olhou pra mim, olhou prum canto onde uns sete ou oito homens disputavam a Maria Helena, ficou debruçado na escada e já martelou”. Depois: “Meu camaradinha, bota uma musiquinha nesta letra aqui”:

Quem há de dizer,
Que quem vocês estão vendo,
Naquela mesa bebendo,
É o meu querido amor.

Reparem bem
Que toda vez que ela fala,
Ilumina mais a sala
Do que a luz do refletor.

O cabaré se inflama
Quando ela dança,
E com a mesma esperança,
Todos lhe põem o olhar.

E eu o dono,
Aqui no meu abandono,
Espero morto de sono
O cabaré terminar.

Rapaz, leva esta mulher contigo,
Disse me uma vez um amigo,
Quando nos viu conversar.
Vocês se amam,
O amor deve ser sagrado,
O resto deixa de lado,
Vai construir o teu lar.

Palavra, quase aceitei o conselho,
O mundo, esse grande espelho,
Foi que me fez pensar assim.
Ela nasceu com o destino da lua,
Pra todos que andam na rua,
Não vai viver só pra mim.

Alcides musicou na hora. E em seguida, tendo que ir a Nova Iorque onde o irmão (Valter Gonçalves, baterista de Glenn Miller) estava morrendo, aproveitou a passagem pelo Rio de Janeiro para procurar o amigo Francisco Alves. Encontrou-o no Jockey Club, cercado de mulheres: “Não, não me mostra agora que eu não quero saber de música!” Alcides, brabo, seguiu viagem, encontrou o irmão já morto e voltou. Corte para alguns meses mais tarde, no teatro Carlos Gomes, no Rio: um cantor da companhia de revistas da Dercy Gonçalves (que atuara há poucos em Porto Alegre) cantando Quem há de dizer. E na plateia, ouvidos atentos, o bem-informado Francisco Alves. A seguir, foi um tal de mandar cartas pro Sul, pedidos suplicantes pela música, que Alcides atendeu, mas só tempos depois: estava assim vingado da esnobação do amigo Chico Viola.

(Do livreto “Lupicínio Rodrigues”, de Mário Goulart)

Alcides Gonçalves:

1º/10/1908, Porto Alegre, RS − 9/1/1987, Porto Alegre, RS.

P.S. Esta música está na internet na voz de Nélson Gonçalves.


quinta-feira, 16 de julho de 2020

Desvendando os medicamentos

Como as duas drogas agem no organismo

Por Larissa Roso


Cloroquina e Hidroxicloroquina

Indicações: Ambas são indicadas para o tratamento da malária, de doenças autoimunes, como lúpus e artrite reumatóide e doenças fotossensíveis.

Contraindicações: São contraindicadas para quem já teve qualquer tipo de arritmia cardíaca (descompasso nos batimentos do coração), crianças, idosos, gestantes, lactantes, alérgicos a compostos da fórmula e doentes hepáticos (hepatites, cirrose). Pessoas que nunca tiveram problemas cardíacos − ou que não sabem que têm − também podem sofrer arritmias.

Por que foram cogitadas contra o coronavírus: Em experimentos laboratoriais, observou-se que vírus não se multiplicava por conta da ação anti-inflamatória dos fármacos, mas estudos com foco no coronavírus não conseguiram demonstrar eficácia.

Estudos: As duas drogas têm sido motivos de acirrada disputa cientifica desde que o coronavírus começou a se alastrar a partir da China, em dezembro passado. Até agora, não há uma pesquisa robusta e respeitável que sustente a indicação para utilização dessas substâncias tanto para casos leves quanto para quadros graves de covid-19. Diversas investigações foram interrompidas porque não estavam se mostrando promissoras. A Organização Mundial da Saúde (OMS) decidiu suspender seus testes em diversos países.

Ivermectina

Indicações: É usado para combater lombriga, piolho, sarna e estrongiloidíase, uma infecção por parasitas intestinal que pode causar quadros bem graves, inclusive com comprometimento pulmonar. Também se aplica à oncocercose, conhecida como cegueira do rio, comum em certas regiões da África.

Contraindicações: São poucas, uma vez que se trata de um remédio considerado seguro quando ingerido nas doses adequadas. Doentes hepáticos graves (com cirrose, por exemplo) precisam ser bem orientados.

Por que foi cogitada para combater o coronavírus: Depois de descoberta, a droga ficou anos em stand by. Quando constado seu efeito sobre os vermes, passou a ser utilizada mais intensamente. Com o avanço das pesquisas com cultivo de vírus, testaram-se inúmeros medicamentos na tentativa de se descobrir quais seriam eficazes no combate a eles − aí se constatou que a ivermectina conseguia inibir o avanço e a multiplicação desses micro-organismos.

Estudos: Idealizado pela Universidade Federal de Pernambuco, um ensaio clínico randonizado (estudo em que os participantes são sorteados pelos pesquisadores) será realizado em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. Serão acompanhados pacientes infectados pelo coronavírus, com diferentes níveis de gravidade, em Recife, no Rio de Janeiro e em Porto Alegre. Um grupo será medicado com ivermectina, e outro receberá placebo. A partir dos resultados, será possível determinar se o medicamento é eficaz contra a covid-19 ou não.

Fontes: Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
e infectologista Cláudio Stadnik

(Do jornal Zero Hora, 16 de julho de 2020)


Poemas satíricos de Lisindo Coppoli



Política em versos. Sonetos humorísticos. São Paulo: Livraria Editora Antonio de Carvalho, s.d. 160 p. 14x19 cm. Capa do caricaturista Manolo. Poemas datados entre 1950 e 1953. Col. A.M.

No escritório

− Eu não suporto mais esta opressão!
Sou comunista revolucionário
Gosto da liberdade e sou adversário
Daquele que se diz chefe ou patrão.

Isto aqui não é vida: é escravidão.
E assim não pôde ser! O proletário
Não se espezinha mais! Pelo contrário,
(E nisso chega o chefe da seção).

− Pois é, como eu dizia, neste mundo
A disciplina é tudo, e no trabalho
Quem costuma queixar-se é o vagabundo.

E nosso chefe, um homem tão abnegado...
Oh, bom dia! Está aqui, senhor Carvalho?
Peço perdão... não tinha reparado.

“Cautela e caldo de galinha...”

Já desaparecida a agitação:
Que a escolha de um governo sempre encerra.
Está-se inaugurando em nossa terra
Uma era de paz e compreensão.

Getúlio, o novo chefe da Nação,
A quem o povo em pânico se aferra,
Não mostra ter propósitos de guerra;
E os chefes dos Estados também não.

Estes, segundo informam os jornais,
Com palavras abertas e leais
Hipotecam apoio ao Presidente;

Tão espontâneas manifestações;
Demonstram que não há mais dissensões;
E, também, que mais vale; ser prudente.

Feitos à máquina

A nossa situação vai melhorar.
Se é verdade o que dizem os jornais,
Daqui por diante não teremos mais
Nenhum motivo pra nos lastimar.

Informa a imprensa que para votar
Vão ser usadas máquinas, as quais
Irão cuidar dos nossos ideais
Poupando-nos o esforço de pensar.

Tais aparelhos foram inventados
Pra se obter em pouquíssimos instantes
Bons vereadores e hábeis deputados.

E assim podermos, com satisfação,
Dizer: − “O quê !... nossos representantes?
Todos feitos à máquina eles são!”



quarta-feira, 15 de julho de 2020

O buraco do tatu

Sérgio Caparelli


O tatu cava um buraco
à procura de uma lebre,
quando sai pra se coçar,
já está em Porto Alegre.

O tatu cava um buraco,
e fura a terra com gana
quando sai pra respirar
já está em Copacabana.

O tatu cava um buraco
e retira a terra aos montes,
quando sai pra beber água
já está em Belo Horizonte.

O tatu cava um buraco,
dia e noite, noite e dia,
quando sai pra descansar,
já está lá na Bahia.

O tatu cava um buraco,
tira terra, muita terra,
quando sai por falta de ar,
já está na Inglaterra.

O tatu cava um buraco
e some dentro do chão,
quando sai pra respirar,
já está lá no Japão.

O tatu cava um buraco
com as garras muito fortes,
quando quer se refrescar
já está no Polo Norte.

0 tatu cave um buraco,
um buraco muito fundo,
quando sai pra descansar
já está no fim do mundo.

O tatu cava um buraco,
perde o fôlego, geme, sua,
quando quer voltar atrás,
leva um susto, está na lua.

*****

terça-feira, 14 de julho de 2020

Entrevista com o Coronavírus



(...) O Sensacionalista conseguiu, enfim, uma conversa exclusiva com o Novo Coronavírus de 2019, o causador da doença. No Brasil, ele também é conhecido como Corona ou, ainda, pelo apelido de Coronga.

O que você está achando do Brasil?

Quando disseram que este era um povo hospitaleiro, eu não imaginava que seria tanto. Na Alemanha, por exemplo, foi bem ruim. Que povo estranho, organizado, disciplinado. Governado por mulher, né?

Pretende ir embora quando?

Nem tão cedo. Eu tô me sentindo em casa aqui. O Brasil me adotou. Não volto para Wuhan jamais. É muito bom encontrar o seu lugar no mundo, descobrir onde você pode desenvolver todo o seu potencial.

O que você tem feito?

Eu me divirto tanto no fim de semana por aqui que até me esqueço do trabalho! Repara como sábado e domingo os meus números são menores? Já fiz coisas tipicamente brasileiras, como ir ao Maracanã, ficar num barzinho com os amigos e ofender pessoas menosprezando a classe social delas. Imagina que outro dia um fiscalzinho veio me chamar de cidadão. Falei: “Cidadão, não. Sars-CoV-2,  muito melhor do que você”. Maneiro, né? Em nenhum outro lugar do mundo se faz isso. É como diziam naquela campanha: “O melhor do Brasil é o brasileiro”.

O que você tem a declarar a quem diz que você e só uma gripezinha?

Minha obra fala por mim. Não preciso ficar mentindo no currículo, não.

Como você entrou no corpo do presidente Jair Bolsonaro? Pulou o muro? Entrou voando?

A verdade é que hesitei bastante antes. Também tenho meus limites sobre os lugares onde quero ficar. Mas vocês perceberam que fiquei em volta, né? Um ministro aqui, um colaborador ali... Como o próprio presidente gosta de dizer, tivemos uma longa fase de namoro até oficializar o casamento.

E como é estar no corpo dele?

É diferente dos outros. Na cabeça não tem nada, só um foto do Olavo de Carvalho fazendo arminha com a mão. E no lugar do coração tem uma pedra de nióbio.

Que recado você manda para os gafanhotos, os ciclones bomba e outras pragas?

Apenas parem. Esperem a vez de vocês. Mas dou uma dica: venham para o Brasil. O governo aqui é muito solidário com a gente.

Você tem medo de que descubram a vacina?

Um pouco. Mas por isso mesmo vou continuar no Brasil. Aqui muita gente é contra vacina. Eu me dou bem.

É verdade que a cloroquina é boa pra você?

É ótima. Ela não me faz nada.

(Da coluna “Sensacionalista”, revista Veja, julho de 2020)