domingo, 3 de novembro de 2024

Os dez mandamentos para se amar um idoso:

 

01 ► Deixe-o falar do seu passado, porque nele existe um tesouro de verdade, de experiência e de beleza. 

02 ► Deixe-o vencer as discussões, porque ele tem necessidade de sentir-se seguro dele mesmo. 

03 ► Deixe-o visitar ou receber seus velhos amigos, porque entre eles se sente reviver. Junto a eles, será respeitado pela sua história e amizade. 

04 ► Deixe-o contar suas histórias, mesmo repetidas, porque se sente feliz quando o escutamos. 

05 ► Deixe-o viver entre as coisas que ele mais amou, porque sofre sentindo que arrancamos pedaços de sua vida. 

06 ► Deixe-o reclamar quando estiver nervoso, porque os idosos e as crianças têm o direito à tolerância e à compreensão. 

07 ► Deixe-o passear com você, nos fins-de-semana ou nas férias, para que não sinta remorsos se, no próximo ano, ele não estiver contigo. 

08 ► Deixe-o envelhecer com o mesmo e paciente amor com que deixa crescer seus filhos porque tudo isso é parte da natureza. 

09 ► Deixe-o rezar como ele souber e como quiser para descobrir a presença de Deus em seu caminho que falta percorrer. Quando puder reze com ele. 

10 ► Deixe-o morrer nos braços da família e junto com amigos. Mas antes disso, deixe-o viver... como ele quiser... 

Nota: Estes mandamentos foram redigidos por um frade carmelita, italiano e introduzido no português por um confrade da mesma ordem, em Teresópolis ‒ RJ. 

O texto acima foi transcrito e adaptado por Pascoal Nunes. São dele as modificações e adições ao texto original, mas mantendo o mesmo sentido.

sábado, 2 de novembro de 2024

Sobre o amor

 

Então, Almitra disse: “Fala-nos do Amor”. 

E ele ergueu a fronte e olhou para a multidão, e um silêncio caiu sobre todos, e com uma voz forte, ele disse: 

 “Quando o amor vos chamar, segui-o, embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados; e quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe, embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos; e quando ele vos falar acreditai nele, embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos como o vento devasta o jardim. 

Pois, da mesma forma que o amor vos coroa, assim ele vos crucifica. E da mesma forma que ele contribui para vosso crescimento, trabalha para vossa poda. E da mesma forma que ele sobe à vossa altura e acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol, assim também desce até vossas raízes e as sacode no seu apego à terra. 

Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração. Ele vos debulha para expor a vossa nudez. Ele vos peneira para libertar-vos das palhas. Ele vos mói até a extrema brancura. Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis. Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma no pão místico do banquete divino. 

Todas essas coisas, o amor operará em vós para que conheçais os segredos de vossos corações e, com esse conhecimento, vos convertais no pão místico do banquete divino. 

Todavia, se no vosso temor procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor. Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez e abandonásseis a eira do amor. 

Para entrar no mundo sem estações, onde rireis, mas não todos os vossos risos, e chorareis, mas não todas as vossas lágrimas. 

O amor nada dá senão de si próprio e nada recebe senão de si próprio. O amor não possui e não se deixa possuir. Pois se basta a si mesmo. 

Quando um de vós ama, que não diga: “Deus está no meu coração”, mas que diga antes: “Eu estou no coração de Deus”. 

E não imagineis que possais dirigir o curso do amor, pois o amor, se vos achar dignos, determinará ele próprio o vosso curso. O amor não tem outro desejo, senão o de atingir a sua plenitude. 

Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos, sejam estes vossos desejos: 

“De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho que canta sua melodia para a noite; de conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada; de ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor, e de sangrardes de boa vontade e com alegria; de acordardes na aurora com o coração alado e agradecerdes por um novo dia de amor; de descansardes ao meio-dia e meditardes sobre o êxtase do amor; de voltardes para casa à noite com gratidão; e de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado, e nos lábios uma canção de bem-aventurança”. 

(Do livroO Profeta”, de Gibran Khalil Gibran)

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Me acostumei

 

Me acostumei a ocupar toda a cama ao dormir,

A não cozinhar aos domingos

E a voltar na hora que me der na telha. 

Me acostumei

A não dar explicações

E fazer o que eu gosto

Sem que ninguém me critique. 

Me acostumei

A comer à meia-noite

E a ver os meus programas favoritos,

A cantar em voz alta

E dançar por toda a casa. 

Me acostumei

A receber chamadas a cada rolê

E responder mensagens muito tarde,

A sair com amigos

E viajar um ou outro fim de semana. 

Me acostumei

Ao cheiro do café de manhã

E a andar descalça pelo jardim,

A demorar quando quero me arrumar

E cancelar encontros no último momento.

Só porque sim. 

Me acostumei

A mim,

Às minhas coisas,

Para a minha vida,

A ficar sozinha... 

Relacionamentos são para fazê-la aprender a não mais sofrer

E saber que você pode e deve ser feliz também sozinha

E é simplesmente maravilhoso...

 

Autor(a) desconhecido(a)

Machado de Assis ‒ Boca do Mato, 59

 Martinho da Vila

Machado de Assis por Marc Ferrez ‒ 1890 

Um grande escritor do meu país
Está sendo homenageado,
Joaquim Maria Machado de Assis,
Romancista consagrado.
Nascido em 1839,
Lá no Morro do Livramento,
A sua lembrança nos comove,
Seu nome jamais cairá no esquecimento.
 

Já faz tantos anos faleceu,
O filho de uma humilde lavadeira,
Que no cenário das letras escreveu
O nome da literatura brasileira. (bis)
 

De Dom Casmurro foi autor,
Da Academia de Letras
Foi sócio-fundador.
Depois ocupou a presidência,
Tendo demonstrado
Grande competência.
Ele foi o literato-mor,
Suas obras lhe deram reputação:
Quincas Borba, Esaú e Jacó,
A Mão e a Luva,
A Ressurreição.
 

Ele tinha
Inspiração absoluta,
Escrevia com singeleza e graça.
Foi sempre uma figura impoluta
De caráter sem jaça.
Foi sempre uma figura impoluta
De caráter sem jaça.
 

P.S. Esta música está na internet cantada pelo próprio autor: Martinho da Vila.


Um conto de metalinguagem

 (E põe meta linguagem nisso...)

Era a terceira vez que aquele substantivo comum e aquele artigo definido se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural e com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era novinha, coisa mais lindinha de diminutivo, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingênua, monossilábica, um pouco átona, ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos. 

O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos num lugar sem ninguém para ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar... e outros infinitivos impessoais. O artigo feminino deixou as reticências de lado... e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador para só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, (já estavam bem entre parênteses), quando o elevador recomeçou a se movimentar: só que, ao invés de descer, subiu e parou justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal e entrou com ela em seu aposto. 

Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, brincando, sorrindo, tudo em gerúndio, sentados, ó leitor, num vocativo, entre vírgulas, quando ele começou, outra vez, redundantemente, a se insinuar. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e, rapidamente, chegaram a um imperativo. Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto. Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocábulos, e, ele, um pronome pessoal, sentido que seu ditongo ia ficando que vez mais crescente, se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois. Estar-se-iam até agora nessa mesóclise, se ela não confessasse que ainda era vírgula: ele não perdeu o ritmo e sugeriu um longo ditongo oral, e, quem sabe, uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. 

É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para um comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva. Entre beijos, carícias e outros substantivos, ele foi se avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo seu predicativo do objeto, ia tomando conta dela por um longo período composto. Estavam nessa posição de primeiras e segundas pessoas do singular; ela era um perfeito agente da passiva, e ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício reclamando das altas interjeições que se ouviam por todo o prédio, dando conjunções e adjetivos fazendo com que os dois se encolhessem cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar começou a ficar anômalo, diminuindo seus advérbios e declarou o seu particípio na história. Os dois se olharam e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício, pois além do verbo auxiliar, havia, acima dele, o período absoluto que mandava em toda a oração. O verbo auxiliar se entusiasmou e mostrou o seu adjunto adnominal, apesar de ser um termo acessório, dava para quebrar o verso. 

Oh! que loucura, minha gente vocativa, aquilo não era nenhum demonstrativo do seu caráter, mas um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois com aquela maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, segurando numa mão o travessão e, na outra, os dois pontos, propondo claramente uma mesóclise-a-trois, que galicismo do mau caráter! 

Só que as condições eram estas, enquanto um abusava do ditongo oral; o outro penetrava no gerúndio, culminado com um complemento verbal no artigo feminino. O substantivo, vendo esta oração intercalada, reagiu, pois poderia se transformar num artigo indefinido com um til na cabeça, ou mesmo a cabeça entre duas “aspas”. Achando que o período estava por demais composto e, com mais uma oração coordenada sindética aditiva, resolveu pôr um ponto final na história. Agarrou o verbo auxiliar pelos dois pontos e, com ao auxílio de um conetivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à Língua Portuguesa. O artigo feminino, que estava na voz passiva, pronta para receber a conjunção coordenada aditiva, relaxou...

Logo depois, os dois, unidos num aposto, chegaram, finalmente, apesar deste adjunto adverbial deslocado, juntos, exaustos e felizes até o final do texto, pondo um ponto final nesta história fictícia. 

Pontuação com humor

 Vamos pontuar certo

Não vejo a hora de comer mulher! 

(Não vejo a hora de comer, mulher!) 

Minha boca na sua rola? 

(Minha boca na sua, rola?) 

Políticos brasileiros se agrotóxico nos rios não faz mal então bebe porra! 

(Políticos brasileiros, se agrotóxico nos rios não faz mal, então bebe, porra!) 

O gordo só pensa em comer comer comer merda! 

(O gordo só pensa em comer, comer, comer, merda!) 

Tô vendendo barato meu filho não usa mais. 

(Tô vendendo barato, meu filho não usa mais.) 

Vendo meninas aceito cartão. 

(Vendo, meninas, aceito cartão.) 

O que eu faço pra comer gente. Deem uma sugestão aí? 

(O que eu faço pra comer, gente. Deem uma sugestão aí?) 

Não vejo a hora de comer Maria! 

(Não vejo a hora de comer, Maria!) 

Estupro não é crime! 

(Estupro não, é crime!) 

Não vamos ganhar o jogo de hoje! 

(Não, vamos ganhar o jogo de hoje!) 

Pai segurando um bebê, gritando cheio de ternura à esposa: 

‒ Ele está vomitando amor! 

Pai segurando um bebê, gritando cheio de rancor à esposa: 

‒ Ele está vomitando, amor!

Um homem tinha um cão e a mãe do homem era também o pai do cão. 

(Um homem tinha um cão e a mãe, do homem era também o pai do cão.)* 

******* 

*O homem tinha um cão filhote e a cadela sua mãe, pois pertencia ao homem também o cão pai do filhote.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

P R O S Ó D I A

 

Prosódia é a parte da fonética que tem por objeto a exata acentuação tônica das palavras.

Há inúmeros vocábulos que pessoas menos familiarizadas com a norma lingüística proferem mal, deslocando-lhes o acento prosódico, cometendo, como se diz, silabadas.

Consignamos aqui algumas dessas palavras, com a respectiva classificação tônica:

1) São oxítonas: ► (acento tônico na última sílaba)

algoz(ôz), ondor, Gibraltar, masseter, mister, bagdali, Nobel, novel, novéis, obus, recém, refém, reféns, ruim, sutil, sutis, ureter, hangar, tambor, caqui, cateter, Eifel (fél), Parati, indez (ê), belveder (dér), Somali, transistor.

2) São paroxítonas: ► (acento tônico na penúltima sílaba)

ambrosia, assecla, austero, avaro, avito, aziago, batavo, boêmia (ê) ,Bolívar, caracteres, celtiberos, ciclope (cló) , cupido, decano, díspar, edito, clitóris, Epicuro, efebo (fê), erudito, filantropo, fortuito (túi), gratuito (túi), homizio, ibero, imbele, impudico, inaudito, látex, libido, luzidio, Madagáscar, maquinaria (rí) , misantropo, necromancia, nenúfar, ônix, opimo, pegadas, penedia, poliglota, primata, pudico (dí), recorde, refrega, rocio (cí), rubrica (brí), dúplex, réquiem, taquicardia, têxtil, tulipa, necropsia (psí), quásar, Quéops.

3) São proparoxítonas: ► (acento tônico na antepenúltima sílaba)

aeróstato, ágata, âmago, azáfama, Êmerson, Cleópatra, abóbada, ádvena, aeródromo, aerólito, álacre, alcíone, alcoólatra, apóstata, antídoto, areópago, arquétipo, aríete, anátema, bímano, brâmane, biótipo, cérbero, crisântemo, década, êxodo, édito (ordem judicial), elétrodo, Espártaco, espécime, êxito, fagócito, férula, gárrulo, hégira (ou héjira), Hélade, indômito, ícone, ímprobo, ínclito, ínterim, lêvedo, leucócito, munícipe, notívago (ou noctívago), Pégaso, plêiade, pólipo, protótipo, quadrúmano, revérbero, sátrapa, Semíramis, Tâmisa, trânsfuga, escâncaras, réprobo, ventríloquo, vermífugo, xifópago, zênite.

Observação:

Existem não poucas palavras cujo acento prosódico é incerto, oscilante, mesmo na língua culta. Registramos, entre outras, as seguintes, dando, em primeiro lugar, a pronúncia que se vai impondo na língua atual:

acrobata e acróbata, amnésia e amnesia, hieróglifo e hieroglifo, homilia e homília, Oceânia e Oceania, ortoépia e ortoepia, projétil e projetil, réptil e reptil, safári e safari, sóror e soror,  xérox e xerox.