sábado, 14 de março de 2026

Eureka!

 Martha Medeiros

Cada semana, uma novidade. A última foi que pizza previne câncer do esôfago. Acho a maior graça. Tomate previne isso, cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas não exagere... Diante dessa profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos. Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde. 

Prazer faz muito bem. Dormir me deixa 0 km. Ler um bom livro faz eu me sentir nova em folha. Viajar me deixa tensa antes de embarcar, mas depois eu rejuvenesço uns 5 anos. Voos aéreos não me incham as pernas, me incham o cérebro, volto cheia de ideias. 

Brigar me provoca arritmia cardíaca. Ver pessoas tendo acessos de estupidez me embrulha o estômago. Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano. E telejornais os médicos deveriam proibir ‒ como doem! 

Essa história de que sexo faz bem pra pele acho que é conversa, mas mal tenho certeza de que não faz, então, pode-se abusar. Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo faz muito bem: você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada. 

Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde. E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas, pior ainda. Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há tomate ou mozarela que previnam.

Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser excepcionalmente bom, uau! Cinema é melhor pra saúde do que pipoca. Conversa é melhor do que piada. Beijar é melhor do que fumar. Exercício é melhor do que cirurgia. Humor é melhor do que rancor. Amigos são melhores do que gente influente. Economia é melhor do que dívida. Pergunta é melhor do que dúvida. 

Tomo pouca água, bebo mais de um cálice de vinho por dia, faz dois meses que não piso na academia, mas tenho dormido bem, trabalhado bastante, encontrado meus amigos, ido ao cinema e confiado que tudo isso pode me levar a uma idade avançada. Sonhar é melhor do que nada. 

Montanha-Russa. L&PM Editores ‒ 2003

quinta-feira, 12 de março de 2026

Poema pornossério

 

Quer seja curto ou comprido,
Quer seja fino ou mais grosso,
É um órgão muito querido,
Por não ter espinha, nem osso.

De incalculável valor,
Ninguém tem um a mais,
E desempenha no amor,
Um dos papéis principais.

Quando uma dama lhe toca,
Ei-lo a pular com fervor,
Se for um rapaz, estremece,
Se for velho, tem menos vigor.

O seu nome não é tão feio,
Pois tem sete letrinhas só,
tem um R e um A no meio,
Começa em C e acaba em O.

Nunca se encontra sozinho,
Vive sempre acompanhado,
Por outros dois orgãozinhos,
Bem junto de si, lado a lado.

O nome destes, porém,
Não gera confusões,
Tem sete letras também,
Tem L e acaba em ÕES.

Pra acabar com o embalo,
E com as más impressões,
Os órgãos de que eu falo...
São o coração e os pulmões!
 


Você pensava que era o quê?

Ô, mente poluída!

Vai rezar, vai!

terça-feira, 10 de março de 2026

A maior agressão a um árbitro

 No Rio Grande do Sul

Esta é a imagem de um Gre-nal que foi realizado em 1977, na decisão do Gauchão, realizada no Estádio Olímpico do Grêmio.  O juiz era o Luiz Torres. Faltavam 5 minutos para terminar o jogo, que estava 1x0 para o time da casa. Uma parte da torcida do grêmio e do Internacional invadiu o campo e um torcedor do Inter, de calça de abrigo vermelho* agrediu pelas costas o árbitro** da partida. 

Na foto acima, vemos, de costas, o árbitro do jogo, Luiz Torres; o agressor: um torcedor do Inter, pois está de calça de abrigo vermelho; jogador que fala com o juiz: é atacante Escurinho; à esquerda: o técnico do Inter, Cláudio Duarte e, à direita, o preparador físico do Inter Gilberto Timm (1942-1999), com foto de Armênio Abascal Meireles, que morreu precocemente em um acidente de carro. 

Foto do jornal Zero Hora 

No dia 28 de setembro de 1977, o Grêmio vencia o Internacional no Estádio Olímpico pelo placar de 1 a 0 e, depois de oito anos, retomava a hegemonia do futebol gaúcho conquistando o Estadual. 

*  A foto original, que saiu no jornal, era em preto e branco, a calça do abrigo agressor poderia ter sido colorizada para dar a impressão o ato foi feito por um adversário do time do dono da casa? 

** Por incrível que pareça, o árbitro não saiu ferido dessa covarde agressão. 

O asno e o cavalo

 

Um tropeiro se pôs a caminho levando um cavalo e um asno para suas cargas. Durante o trajeto em estrada plana, o Asno suportou bem o peso que levava. 

Chegando à encosta da montanha, o Asno pediu ao Cavalo: “Se queres que eu sobreviva, toma parte da carga que eu vou levando eu não a suporto na subida”. O Cavalo recusou-se a ajudar. Pouco à frente, o Jumento perdeu o equilíbrio caindo em uma ribanceira e morreu. 

O tropeiro recolheu a carga do Asno mais a pele que retirou do mesmo e carregou tudo nas costas do Cavalo, seu único carregador. O Cavalo se lamentou: “Bem mereço o castigo. Se houvesse ajudado o Asno, estaria com a metade desta carga apenas”. 

A moral é evidente: Os egoísmos geralmente levam a prejuízos muito maiores do que se formos solidários enquanto é tempo. 

Das fábulas de Esopo

O cavalo e o asno 

Um homem tinha um cavalo e um asno. Um dia, quando caminhavam juntos por uma estrada, o asno disse ao cavalo: 

‒ Se a minha vida te importa, leva um pouco de meu fardo. 

Mas o cavalo não se deixou levar pela conversa e o asno caiu morto. O dono, então, pôs toda a carga nas costas do cavalo, inclusive os despojos do asno morto. 

E o cavalo pôs-se a lamentar seu destino aos brados: 

‒ Como sou infeliz! Que triste destino o meu! Não quis levar uma parte da carga do asno e agora estou levando tudo em dobro, e como prêmio a pele do outro. 

Então, ajudar os outros é uma forma de ajudar-se. Dividir o peso da vida pode fazê-la mais leve por mais tempo para si e para o outro.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Um grito às mulheres sem voz do Rio Grande

 Campereada 

Paulo Mendes

Vi mulheres campeiras andando a cavalo pelos corredores, a pé, conduzindo carroções de quatro rodas, e carretas toldadas. Andavam de calças largas, bombachas velhas arremangadas, camisas puídas, carregando os filhos do jeito que podiam. Da maneira que dava. Nada mais e nada menos do que isso. Sobreviviam. Enxerguei suas mãos grossas e calosas, os sulcos que riscavam no rosto desenhos de dor e sofrimentos. Tinham a pele morena, indiática, os cabelos negros escorregadios, geralmente atados por um trapo. Na cabeça umas boinas, chapéus furados, desses que encontravam abandonados pelos galpões. Soube de seus sonhos frustrados, muitos despedaçados, estilhaçados, vários juntados e, mesmo assim, não davam nem a metade de um 

Conheci mulheres colonas, de chapéus de palha na cabeça, olhar perdido nas serras, também com mãos calejadas, com olhos de vidro fosco, onde as lágrimas nem tinham mais onde morar. Eram mulheres duras, que carpiam, plantavam, seguravam arados, colhiam e esperavam. Aguardavam por dias melhores, por melhores colheitas, esperavam em vão por maridos e companheiros que nunca mais voltaram. Mulheres de pele branca que enrugou debaixo das soalheiras de janeiro, de sol a sol temperando as tristezas que brotavam debaixo dos parreirais, das lavouras de arroz, os braços tapados por cicatrizes de arames farpados, sinais da lida bruta, dos dias e das noites que se sucediam. 

Vi mulheres negras carregando trouxas nos ombros ou nas cabeças, de cabelos quase raspados, trabalhando como seus ancestrais arrancados da África. Eu vi mulheres guaranis vendendo cestas de vime ao lado das rodovias, mães com seus pequenos rebentos ao lado, quase nus, vivendo à míngua, eles os verdadeiros donos da terra, vilipendiados, corridos a mango e espada das aldeias, dos Sete Povos, de todo o lado. Vislumbrei, de relance, seus olhares acabrunhados, como a pedir desculpas, solicitando apenas compaixão. Vi suas pinturas na cara, ouvi seus gritos, e enxerguei seus curumins seguirem destinos iguais. 

Vi mulheres gaudérias, gringas, pretas e indígenas. Vi todas elas, as nossas mães, as formadoras do Rio Grande, e garanto-lhes, temos para com elas uma dívida histórica e impagável. Ao contrário dos livros, das lendas contadas nas casas das cidades, ns escolas e nos centros de tradicionalismo, essas mães choraram e ainda choram pelo descaso e desprezo aos humildes, os que não têm voz, dinheiro, e, às vezes, nem um rancho para morar. 

Sofro todos os dias quando ainda as vejo, as queridas e sofredoras mulheres gaúchas, de tantas peles e mais outro tanto de olhos de tons variados, as que trabalham, suam e esperam. Mulheres do campo, dos corredores sem fim do Pampa, moradoras dos descampados que choram porque não podem dar um futuro digno a seus filhos. Eu as conheci, as desafortunadas mulheres que sofriam agressões físicas e psicológicas e, mesmo assim, seguiam.

Mães das periferias de pequenas, médias e grandes cidades, mães das estradas, mães que se acotovelam em coletivos e trens desde a madrugada, trabalham o dia inteiro em casas alheias e quando chegam em seus casebres, já é noite de novo, estão exaustas até para beijar os filhos. Tenham piedade delas, leitores e leitoras. São trabalhadoras, são guerreiras e são merecedoras de nosso respeito eterno.  

Crônica do Correio do Povo, 8 de março de 2026. 

domingo, 8 de março de 2026

A fibra de uma mulher

Há um trend* rolando por aí de “poste você e suas versões sendo mulher”, e eu resolvi entrar nessa também.

Eu, como mulher 

Aline A. Moraes

A “única” filha rejeitada pelo genitor. Parte da estatística de certidões sem o nome do pai. 

A menina de 5 meses que passou a noite com a mãe, sem ter para onde ir, dormindo em um banco da nossa famosa Redenção. 

Cresci um pouco e virei a filha mais velha. 

A que cuida. 

A que protege. 

A que assume responsabilidades cedo demais. 

A que aprende, desde cedo, a tomar decisões difíceis e firmes. 

Tenho tantas versões que talvez desse um livro. 

Não sei se motivacional, mas, com certeza, real. 

Sou muitas: 

Filha de uma mulher forte, irmã, neta, sobrinha, tia, afilhada, amiga, esposa... 

Sou psicóloga, escutando diariamente histórias de dor, coragem e reconstrução de outras mulheres. 

Sou a mulher que ama os animais. 

Que acredita na luta coletiva. 

Que ocupa as ruas. 

Que acredita no feminismo e na transformação social. 

Ser mulher, para mim, nunca foi simples. 

Ser mulher também é isso: carregar muitas histórias dentro de si e, ainda assim, seguir se reconstruindo todos os dias. 

Sou potência! 

******* 

P.S.: Aline A. Moraes é minha querida sobrinha-neta. 

NSM

* Trend é o nome dado a um conteúdo que ganha um destaque enorme e vira uma espécie de “corrente” nas redes sociais, sendo reproduzido por várias pessoas.

A história de uma folha

 Leo Buscaglia

Era uma vez uma folha, que crescera muito. Surgira na primavera, como um pequeno broto num galho grande, perto do topo de uma árvore alta. 

A folha estava cercada por centenas de outras folhas, iguais a ela. Ou pelo menos parecia. Mas não demorou muito pra que descobrisse que não havia duas folhas iguais, apesar de estarem na mesma árvore. 

Todas haviam crescido juntas. Aprenderam a dançar à brisa da primavera, a se esquentar ao sol de verão, a se lavar na chuva fresca… 

Os passarinhos vinham pousar nos galhos e cantar, havia sol, lua, estrelas, tudo…

As pessoas íam ao parque, sentar à sombra da árvore, no verão. E esse é o propósito da árvore – uma razão para existir! 

Tornar as coisas mais agradáveis para os outros é uma razão de existir. Proporcionar sombra aos velhinhos, oferecer um lugar fresco para as crianças brincarem. Abanar as folhas como brisa… 

E assim o verão foi passando. A folha admirava tudo, olhava tudo… 

E chegou o frio. A folha ficou assustada, nunca sentira frio, e todas as outras folhas estremeceram com o frio, ficaram todas cobertas por uma camada fina de branco, que num instante derreteu e deixou-as encharcadas de orvalho, faiscando ao sol. Foi a primeira geada… O inverno viria em breve. 

Quase que imediatamente, toda a árvore se transformou num esplendor de cores. Quase não restava nenhuma folha verde. Amarelo, laranja intenso, vermelho ardente, dourada. Um arco íris de folhas! 

E porque ficaram diferentes? Por que tiveram experiências diferentes, receberam o sol de maneira diferente, projetaram sombras de maneira diferente. Era o outono chegando… 

E a mesma brisa que, no passado as fazia dançar, começou a empurrar e puxar suas hastes, quase como se estivesse zangada. Isso fez com que algumas folhas fossem arrancadas de seus galhos e levadas pela brisa, reviradas pelo ar, antes de caírem suavemente ao solo. E é isso que acontece no outono, algumas pessoas chamam de morrer… 

E a cada folha que caía, a árvore ía ficando despida. Como se cada folha fosse morrendo… E elas voltam na outra primavera? Mistério… Talvez não, mas a vida volta. E qual a razão para tudo isso? 

A razão das folhas é dar sombra, brisa… e quando caem, elas dão força para as árvores, como se entrassem em suas raízes. As folhas “voltam” dando vida novamente. 

A folha caiu… não sabia que se juntaria com a água e serviria para tornar a árvore mais forte. E, principalmente, não sabia, que ali, na árvore e no solo, já havia planos para novas folhas na primavera.