segunda-feira, 23 de março de 2026

O único animal

 (Texto de Luís Fernando Veríssimo)

O homem é o único animal que ri dos outros. O Homem é o único animal que passa por outro e finge que não vê. É o único que fala mais que o papagaio. É o único que gosta de escargot (fora, claro, o escargot). É o único que acha que Deus é parecido com ele. 

E é o único...

que se veste...

que veste o os outros...

que despe os outros...

que faz o que gosta escondido...

que muda de cor quando se envergonha...

que se senta e cruza as pernas...

que sabe que vai morrer...

que pensa que é eterno...

que não tem uma linguagem comum a toda a espécie...

que se tosa voluntariamente...

que lucra com os ovos dos outros...

que pensa que é anfíbio e morre afogado...

que tem bichos...

que joga no bicho...

que aposta nos outros..

que compra antenas...

que se compara com os outros. 

O homem não é o único animal que alimenta e cuida das suas crias, mas é o único que depois usa isso para fazer chantagem emocional. 

Não é o único que mata, mas é o único que vende a pele. 

Não é o único que mata, mas é o único que manda matar. 

E não é o único que voa, mas é o único que paga para isso... 

Que constrói casa, mas é o único que precisa de fechadura... 

Que constrói casa, mas é o único que passa quinze anos pagando... 

Que foge dos outros, mas é o único que chama isso de retirada estratégica... 

Que trai, polui e aterroriza, mas é o único que justifica... 

Que engole sapo, mas é o único não faz isso pelo valor nutritivo... 

Que faz sexo, mas é o único que faz um boneco inflável da fêmea... 

Que faz sexo, mas é o único que precisa de manual de instrução. 

A Linguagem do Amor

 Casa-te

 

Fico triste quando não te vejo. Casa-te, por que não? E vem viver comigo. Eu te farei tão feliz quanto possa. Não precisarás trabalhar muito; e, quando estiveres cansada, poderás recostar em meu colo e eu cantarei para que descanses... Tocarei para ti uma melodia ao violino quantas vezes me pedires e tão bem quanto eu possa; e largarei de fumar, se o quiseres... Creio que eu sempre seria muito bom para ti, porque te amo muito. Não te farei trazer água e madeira, nem alimentar o porco, nem ordenhar a vaca, nem ir aos vizinhos pedir leite emprestado. Queres te casar?

(Carta de um pretendente norte-americano, século XIX) 

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domingo, 22 de março de 2026

O galo operário

 É dura a vida no campo

No poleiro do galinheiro, na pequena propriedade rural de uma cidade do interior gaúcho, uma galinha, veterana, sacode o velho galo que dorme um sono profundo: 

‒ Acorda, homem! Tá na hora do trabalho! Te mexe! 

Ele, então, salta do poleiro cambaleante, com a galinha azucrinando nos seus ouvidos: 

‒ Anda logo, senão tu vais perder a hora! Apura, vamos! 

O galo se empoleira na cerca da casa, e emite um som para acordar toda a família: 

‒ Cócóricóóóó! 

O dono da propriedade comenta com a sua velha esposa: 

‒ Este velho galo não falha nunca! Animal responsável tá aí, sabe sempre a hora de fazer o seu serviço. 

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De uma tirinha de Sávio Moura, no Correio do Povo, março de 2026

A quem quiser me excluir ou me cancelar,

 vou ajudá-lo:

• Sou a favor do apoio social. 

• Bandido bom é bandido ressocializado (para crime hediondo sou a favor da prisão perpétua). 

• Criminosos de colarinho branco também são bandidos (e, talvez, sejam os piores). 

• Pedofilia é crime, e penso que é hediondo. 

• Sou pró-família (independentemente da constituição desta). 

• Sou contra a erotização de crianças, mas a favor da educação sexual. 

• Sou a favor de acabar com todo e qualquer privilégio da classe política, militar e jurídica. 

• Cotas devem existir para pessoas desfavorecidas social e economicamente. 

• Direitos humanos é direito de todos os humanos e, se não fosse por eles, não seríamos uma sociedade. 

• Professores, profissionais da saúde e policiais deveriam receber mais do que deputados e senadores. 

• O Brasil é um país laico e todas as religiões merecem respeito. 

• O feminismo existe para defender e proteger a mulher, e quem acha o contrário é, no mínimo, mal intencionado. 

• Racismo é crime abominável. 

• Sou contra o aborto (mas a favor da sua descriminalização). 

• Somos todos iguais, porém é notório o preconceito ainda enraizado em nossa sociedade. 

• Sou a favor de políticas que beneficiem as minorias. 

• Meritocracia só existe pra quem tem dinheiro (no Brasil). 

• Sobre os gays, não deveria nem ser tema de debate político, porque orientação sexual não define caráter. 

• E essa nova geração está precisando estudar mais, para não cometer erros como a antiga cometeu. 

Marcos Malfatti

Soneto

 

O soneto é uma forma poética que se mantém viva na literatura há quase 800 anos, desde que os poetas da escola siciliana fizeram projeção de sua estrutura ‒ eficaz em termos de comunicação de um conteúdo estético, sonora como poucas no seu ritmo e nas suas rimas. Giacomo Lentini (1210-1260) é tido como seu criador. O estilo fez sucesso e foi seguido no século XIV por Dante (1265-1321) e Petrarca (1304-1374), que o estabilizaram e difundiram. 

A forma breve, fixa, sonora (sonetto em italiano significa pequenos sons, pequena canção) fácil de decorar por seu metro decassílabo e pela musicalidade de suas rimas, atingiu praticamente todos os países e segue firme até hoje. Não cabe aqui historiar a evolução do soneto, mas lembrar que com o seu uso e abuso vieram as variações, que foram muitas, principalmente a partir do Romantismo, Parnasianismo e Simbolismo, com a adoção do verso de 12 sílabas. No Modernismo a liberdade métrica foi atingida com a adoção de versos de métricas variada, e versos livres. Antes disso, já havia acontecido a alteração do soneto dito inglês, popularizado por William Shakespeare (1564-1616), que era composto por três quartetos e um dístico. 

No Brasil o soneto começou a ser utilizado no Barroco, tendo como modelos Petrarca e Camões (1524-1580), e atingiu o Modernismo com Augusto Frederico Schmidt (1906-1965), Vinicius de Moraes (1913-1980), Mário Quintana (1906-1994). Na contemporaneidade muitas foram as transformações do soneto, fiquemos para breve análise com dois exemplos notáveis de transformação lúdica da norma: Paulo Henrique Britto (1951) e Ricardo Silvestrin (1963). 

(...) 

Parte da matéria de José Eduardo Degrazia, poeta, escritor e tradutor, para o Caderno de Sábado, março de 2026, no Correio do Povo. 

Resumindo 

O soneto é uma forma poética fixa de origem italiana (século XIII), composta por 14 versos, geralmente organizados em quatro estrofes: dois quartetos (quatro versos cada) seguidos de dois tercetos (três versos cada). Clássicos, utilizam versos decassílabos (10 sílabas) ou alexandrinos (12 sílabas) com rimas estruturadas, popularizados por Francesco Petrarca e Luis de Camões.

Francesco Petrarca

sábado, 21 de março de 2026

Emprego dos pronomes demonstrativos

 

este, esse, aquele

00. Emprego dos demonstrativos: este – esta ‒ estes – estas – esse – essa – esses ‒ essas e suas variações: aquele ‒ aquela ‒ aqueles – aquelas: isto ‒ (só no singular) ‒ isso (só no singular): aquilo (só no singular).

O emprego dos pronomes demonstrativos e suas variações se efetua a partir dos seguintes critérios:

01. Em relação ao espaço: (= à proximidade ou afastamento das diferentes pessoas gramaticais) (= perto de mim ‒ perto de ti ‒ longe de nós). 

Observe as frases:

a) Balconista, quero comprar este terno que estou admirando. (perto da pessoa que fala = eu/mim) 

b) Dá-me esse açucareiro que está perto de ti, Marina. (perto da pessoa com quem se fala = tu/ti) 

c) Maria, conheces aquele senhor que está do outro lado da rua? (longe da pessoa que fala e da pessoa com que se fala = eu/tu = nós) 

Agora, devemos traçar as normas básicas para o emprego dos pronomes demonstrativos.

Usa-se: 

a) este (a): para algo que está aqui perto de mim (pronome pessoal) eu.

b) esse (a): para algo que está aí perto de ti (pronome pessoal) tu.

c) aquele (a): para algo que esteja lá longe de nós, isto é, de mim e de ti.

02. Em relação ao TEMPO: (presente, passado recente, passado mais afastado)

a) Este ► refere-se ao tempo atual, que está transcorrendo: (este dia ‒ esta semana ‒ este mês ‒ este ano ‒ esta década)

Esta noite de hoje está muito agradável.

Nesta semana irei ao cinema.

b) Esse ► refere-se a um tempo passado e, de preferência, não muito afastado:

Há duas semanas, fui para a fazenda de meus avós; esses dias foram muito felizes.

c) Aquele ► refere-se a um tempo anterior bem mais afastado:

Em 1945, naquele ano terminou a Segunda Guerra Mundial.

03. Em relação aos termos de uma ORAÇÃO ou PERÍODO:

a) Este refere-se ao termo mais próximo, isto é, ao nomeado em segundo lugar; e aquele indica o mais afastado, isto é, o enunciado em primeiro lugar.

Duas criaturas são dignas de admiração; os jovens e os velhos; estes, (os velhos) por sua experiência; aqueles, (os jovens) por seu idealismo.

b) Este indica a ideia que vamos mencionar, e esse se refere a uma ideia já referida.

Prestem muita atenção nesta frase, porque ela exemplifica isso que eu expliquei há pouco.

sexta-feira, 20 de março de 2026

12 Lições de Vida

 de uma Professora Aposentada

01. ► Toda criança difícil está pedindo algo que não sabe nomear. 

02. ► O aluno que mais me deu trabalho é o que mais me visita ainda hoje. 

03. ► Não existe criança burra, temos que incentivar o que ela gostaria mais de aprender. 

04. ► Elogie o esforço do aluno, não o resultado, positivo ou negativo. 

06. ► Incentivar a leitura, desde pequeno, vale mais que brinquedo caro. 

06. ► Não compare: cada semente tem seu tempo para germinar. Assim também é o aluno. 

07. ► Educação que fica para sempre, o aluno só aprende pelo exemplo. 

08. ► Disciplina sem afeto cria medo. 

09. ► O professor que mais o marcou, acreditava muito em você. 

10. ► Errar e admitir que errou ensina mais do que 100 aulas. 

11. ► Ensine os alunos para o mundo que eles irão enfrentar. 

12. ► Eu ainda, até hoje, sinto falta de alunos entrando barulhentos em minha sala de aula. 

(De um desenho feito por IA)