domingo, 26 de outubro de 2014

As três peneiras

Sócrates


(469 – 399 a.C.)

Augustus procurou Sócrates e disse-lhe:

- Sócrates, preciso contar-lhe algo sobre alguém! Você não imagina o que me contaram a respeito de...

Nem chegou a terminar a frase, quando Sócrates ergueu os olhos do livro que lia e perguntou:

- Espere um pouco, Augustus. O que vai me contar já passou pelo crivo das três peneiras?

- Peneiras? Que peneiras?

- Sim. A primeira, Augustus, é a da verdade. Você tem certeza de que o que vai me contar é absolutamente verdadeiro?

- Não. Como posso saber? O que sei foi o que me contaram!

- Então suas palavras já vazaram a primeira peneira. Vamos então para a segunda peneira: a bondade. O que você vai me contar, gostaria que os outros também dissessem a seu respeito?

- Não, Sócrates! Absolutamente, não!

- Então suas palavras vazaram, também, a segunda peneira. Vamos agora para a terceira peneira: a necessidade. Você acha mesmo necessário contar-me esse fato, ou mesmo passá-lo adiante? Resolve alguma coisa? Ajuda alguém? Melhora alguma coisa?

- Não, Sócrates... Passando pelo crivo das três peneiras, compreendi que nada me resta do que iria contar.

E Sócrates sorrindo concluiu:

- Se passar pelas três peneiras, conte! Tanto eu, quanto você e os outros iremos nos beneficiar. Caso contrário, esqueça e enterre tudo. Será uma coisa a menos para envenenar o ambiente e fomentar a discórdia entre irmãos. Devemos ser sempre a estação terminal de qualquer comentário infeliz! Da próxima vez que ouvir algo, antes de ceder ao impulso de passá-lo adiante, submeta-o ao crivo das três peneiras porque:

Pessoas sábias falam sobre ideias;

Pessoas comuns falam sobre coisas;

Pessoas medíocres falam sobre pessoas.



Aos Filhos:



O QUE POSSO...

Eu lhe dei a vida, mas não posso vivê-la por você.

Eu posso mostrar-lhe os caminhos, mas não posso estar neles para liderar você.

Eu posso levá-lo à Igreja, mas não posso fazer com que tenha Fé.

Eu posso mostrar-lhe a diferença entre o certo e o errado, mas não posso sempre decidir por você.

Eu posso lhe comprar roupas bonitas, mas não posso fazê-lo bonito por dentro.

Eu posso lhe dar conselho, mas não posso segui-lo com você.

Eu posso lhe dar amor, mas não posso impô-lo a você.

Eu posso ensiná-lo a compartilhar, mas não posso fazê-lo generoso.

Eu posso ensinar-lhe o respeito, mas não posso forçá-lo a ser respeitoso.

Eu posso aconselhá-lo sobre amigos, mas não posso escolhê-los por você.

Eu posso alertá-lo sobre sexo seguro, mas não posso mantê-lo puro.

Eu posso informá-lo sobre álcool e drogas, mas não posso dizer “NÃO” por você.

Eu posso falar-lhe sobre o sucesso, mas não posso alcançá-lo por você.

Eu posso ensiná-lo sobre a gentileza, mas não posso forçá-lo a ser gentil.

Eu posso orar por você, mas não posso impor-lhe DEUS.

Eu posso falar-lhe da vida, mas não posso dar-lhe vida eterna.

Eu posso dar-lhe amor incondicional por toda a minha existência...

E isso eu farei a você!

Texto: SaintClair





Dois sonetos de Arthur Azevedo



Arthur Azevedo - 1855-1908

Ao som do Danúbio Azul


“- Valsemos? - O seu nome? - Elisa. - Elisa?
Que lindo nome tem! - Acha? - Pudera!
- Acerte o passo... - Assim? - Mas não precisa
Apertar-me... É formosa! - Ai, que exagera!

- Oh, não cores: eu amo-te! - Quem dera
Fosse verdade... - Tenho-a por divisa...
- Acha-me leve? - Eu? - Vejo que me pisa!
- Parece-me valsar é uma quimera!

- Dá-me esse cravo? - Aqui? - Se lh´o não desse?
- Eu vou tirar-lhe da sedosa trança...
Agora um beijo! - Ai, mau! - Se lhe parece...

- Que fez... Um beijo?! - Agora, uma esperança...
... Mas felizmente a música emudece.
Se alguns momentos mais dura esta dança!...”

Impressões de Teatro

Que dramalhão! Um intrigante ousado,
Vendo chegar da Palestina o conde,
Diz-lhe que a pobre da condessa esconde
No seio o fruto de um amor culpado.

Naturalmente o conde ficou irado.
- O pai quem é? - pergunta. - Eu! - lhe responde
Um pajem que entra. - Um duelo! - Sim. Quando? Onde?
No encontro morre o amante desgraçado.

Folga o intrigante... Porém surge um mano,
E vendo morto o irmão, perde a cabeça:
Crava um punhal no peito do tirano.

E preso o mano, mata-se a condessa,
Endoidece o marido... e cai o pano,
                      Antes que outra catástrofe aconteça



Histórias da vida



O brinde dos farmacêuticos

A União farmacêutica ofereceu um lauto banquete para a classe médica e farmacêutica. À hora do brinde, levanta-se um farmacêutico e, depois de breves palavras, disse:
- Bebo à saúde de todos!
 - Ooooooooooh!... – lamentou a turma.
Corrigiu, então, o orador:
- Bebo à saúde de todos os presentes!
- Aaaaaaaaaah!... – suspirou a plateia.

Envelhecer

Entra pela velhice com cuidado,
pé ante pé, sem provocar rumores
que despertem lembranças do passado,
sonhos de glória, ilusões de amores...

Do que tiveres no pomar plantado,
apanha as frutas e recolhe as flores,
mas lavra ainda e planta o teu eirado,
que outros virão colher quando te fores.

Não te seja a velhice enfermidade!
Alimenta no espírito a saúde,
luta contra as tibiezas da vontade.

Que a neve caia! O teu ardor não mude!
Mantém-se jovem, pouco importa a idade,
tem cada idade a sua juventude.

Bastos Tigre

Como atravessar uma rua...

Um senhor explica ao seu amigo como atravessar uma rua sem perigo em vários países:

- Na Itália, atravesse a rua de braço com uma loura; 

na Inglaterra, atravesse acompanhado de um cão; 

nos Estados Unidos, leve pelo menos três crianças junto; 

na Alemanha, vista um uniforme de oficial do Exército; 

na França, use barbas postiças e óculos escuros;

 no Brasil... não atravesse.

O Poeta e o Asno

Vicente Cardarelli, o grande poeta italiano, estava fazendo 60 anos e seus admiradores e amigos resolveram fazer-lhe uma grande festa de aniversário. Contam que a certa altura da homenagem, que corria muito alegre, um rapaz, desses que aparecem ninguém sabe como, postou-se diante do poeta e gritou:

- O senhor pode ser um grande poeta, mas eu tenho 20 anos! – Ah, ah, ah!

‒ Meu caro jovem – disse Cardarelli sem se ofender. – Talvez você não saiba que um asno com 20 anos é mais velho que um homem com 60.


Quem espera

          

Somos efêmeros como essas flores de primavera que vicejam no campo. Ventos de novembro que ficam três dias tapeando nossos chapéus e depois cessam. Existem coisas que vêm e voltam, outras que aparecem ou ocorrem só uma vez. Quem pode saber assim no preciso, na exatidão correta do fato, se isso ou aquilo vai voltar ou não? Os sentimentos, que nos movem e fazem girar o mundo, também são mais ou menos assim, vêm, chegam sem pedir licença, se adonam do coração da gente e depois, sem mais nem menos, vão embora. São os desvãos do mundo. Fazem parte daquela parte que ninguém conhece. Povoam o lado escuro da Lua. A terceira margem do rio. Habitam o inexplicável. Entram em cena como atores mascarados e fazem da nossa alma um palco para seu misterioso teatro do absurdo.

Um dia, lá na Vila Rica, Aurora, uma morena com cara de cunhatã guarani, que morava com seus pais e dois irmãos numa olaria do Rincão do Matadouro, se encantou com as milongas e chamamés de um moço chamado Toninho Zorzal, pois cantava mesmo como um sabiá de timbre lindo e triste. Isso cortou o coração romântico daquela flor mimosa de aguapé. O guitarreiro também gostou dela, casaram-se e foram morar numa casinha caiada, com flores no oitão, cheiros de alecrim na cozinha. Aurora se esmerava nos cuidados do rancho, pois sonhava em criar ali os filhos, muitos filhos. Porém, numa véspera de Natal, Zorzal encilhou o baio e disse que ia visitar a mãe. Nunca voltou. A prenda esperou dias e noites, negou-se a voltar para a casa dos pais e envelheceu acompanhada apenas por uma meia dúzia de gatos e um cusco. Todos os dias, ao cair do sol, vestia a saia, calçava as alpargatas e, de pé, fazia estranhas promessas no terreiro.

Nico Juarez também nasceu para esperar. Foi o último gêmeo a deixar o ventre de Casuarina Setecruzes, a Gaga, uma parteira conhecida lá pros lados de Três Mártires. Quando Nico, já homem feito, se apaixonou pela cigana Esmerada de los Santos, em frente à igrejnha de São João do Barro Preto, ela já tinha vivido com cinco homens. O romance foi uma labareda de angico, mas numa manhã de setembro, Nico teve que principiar o mate. Depois fez o café, o almoço e a janta. Foi a rotina pelo resto dos seus anos, pois Esmeralda sumiu no mundo. Deixou apenas dentro dos peçuelos de couro um baralho espanhol, um leque correntino e um pañuelo com cheiro de Cashmere Bouquet.

Meus amigos, em ambos os casos, Toninho Zorzal e Esmeralda de los Santos, simplesmente deixaram de amar. Somos efêmeros. No fim de um poema, Jorge Luis Borges afirma que no coração do homem estão todos os dias, a memória e a eternidade. Para uns, o eterno dura alguns dias, meses, talvez anos. Para outros, é para todo o sempre...

Paulo Mendes in “Camperada”


Quatro sonetos

Saudade

Olegário Mariano

Saudade! Dor silenciosa! Trama
Intangível que o destino tece...
Sombra de dor nos olhos de quem ama,
Voz da garganta de quem não esquece.

Saudade! Mãos em cruz, lábios em prece,
Choro do extinto amor e extinta flama,
Lua de baladas que o céu derrama
Luz que desperta e sonho que adormece.

Cair lento de pálpebra... Grande ânsia
De almas unidas pelo mesmo fado.
Oh! Saudade fiandeira das distâncias!...

Por ti és todo o bem que extasia,
Quisera ter das vezes que hei chorando
A milésima parte em alegria.

Assim seja

Alceu Wamosy

Sonhei o nosso amor num sonho de criança
Com o cérebro a escaldar em febre de loucura
Tu sonhaste-o também na tua alma ingênua e pura
Com um sonho feliz de paz e de bonança.

Na rede astral de luz dessa visão futura
Abençoado porvir, florido de esperança
Ele dorme, a sorrir, de alma serena e mansa,
Como dormem de noite os astros pela altura!

Que nosso santo ideal, o nosso ideal risonho
Seja a existência inteira em nossos corações,
Leve, doce, sutil eternamente sonho...

E que nunca o punhal das realidades frias
Assassine a menor das nossas ilusões,
E mate uma sequer das nossas fantasias...

Soneto

Guilherme de Almeida

Ela veio bater à minha porta
E falou-me, a sorrir, subindo a escada,
Bom-dia, árvore velha e desfolhada,
E eu respondi: - Bom-dia, folha morta.

Entrou. E nunca mais me disse nada
Até que um dia (quando não importa),
Houve canções na ramaria torta
E houve bando de noivos pela estrada.

Então me chamou e disse: vou-me embora.
Sou a felicidade. Vivo agora
Da lembrança do muito que te fiz.

Foi assim que em plena primavera
Só quando ela partiu contou quem era
E nunca mais eu me senti feliz.

Sonho dourado

Aporelly

Se eu fosse rico, casaria contigo...
Na certa, que a proposta aceitarias.
E te juro que em mim encontrarias
Marido fiel e dedicado amigo.

Depois, juntos iríamos viajar
Não na Europa, porque tu lá não me vias,
Mas podíamos fazer todos os dias
Uma volta no bonde Circular.

O mundo todo morreria de inveja
Sozinhos ficaríamos na vida...
Passeando sempre de vestidos novos,

Mas eu sou pobre qual ratão de igreja...
Consola-te comigo; pois, querida,
O homem põe, e o diabo come os ovos.


Cartilha do servidor padrão



Todos os colegas que, como eu, anseiam chegar à inatividade ainda com saúde para gozar a vida (e os colegas que ainda trabalham pra me sustentar) devem seguir estes mandamentos:

01 – Conteste sempre a sua avaliação, a não ser que você já esteja no último nível da carreira, porque aí, ela não vale para nada.

02 
– Não fique alegre quando o Juiz ou o Diretor se aposentarem ou se transferirem; você pode vir a ter saudades deles.

03 – Quando a “maré” estiver tranquila, pense que ela ainda pode melhorar.  Quando estiver ruim, cuidado: pode piorar.

04 – Nunca fique devendo nada ao chefe (a não ser dinheiro, é claro); seja sempre credor de horas, atribuições, e buscar lanche, e peça aquela folga na sexta-feira após o feriado de Corpus Christi, que ele não terá como negar.

05 – Nunca tire férias na “Copa do Mundo”; ninguém trabalha mesmo!

06 – Mantenha-se fora de  qualquer discussão; quando tiver que tomar partido, que seja do lado "certo”.

07 – Quando estiver doente,  vá  trabalhar;  ligue  dizendo  que está “muito” doente, quando tiver que resolver um problema ou for passear. Use protetor solar se for à praia.

08 – Se tiraram os jogos do seu terminal, no do chefe nunca tiram; faça lá o seu relax. 

09 – Cumprimente seus colegas com um sorriso, dizendo: Bom dia, meus amiguinhos.


10 – Deixe  para  dar uma “voada”  quando  o chefe for fazer seu lanche. Mesmo assim, leve consigo um processo de 5 volumes, no mínimo.

11 – Mesmo que não tenha vontade, vá sempre ao banheiro; um dia pode precisar mesmo, e aí ninguém vai estranhar!

12 – Não deixe seus colegas saberem que sobrou dinheiro do mês passado! Certamente vão te pedir emprestado!

13 – Emita sempre sua opinião, mesmo que ninguém peça, ou você nem saiba do que estão falando;  quando  tiverem  que  resolver  um  assunto banal, vão ter que te perguntar: “O que você acha”?.

14 – Nunca falte às reuniões sociais; muita gente é promovida na festa de fim de ano.

15 – Se é solteiro ou descasado, não case com colega; namorar pode; casar nunca!


Cartilha elaborada por um colega aposentado da justiça do trabalho