terça-feira, 27 de outubro de 2015

Tirar o pai da forca



A origem da expressão que tem Santo Antônio o seu padroeiro

Por Márcio Cotrim

Como se sabe, é estar com muita pressa. Mas, para entender a origem da expressão, melhor apelar para a “metafísica” e contar um pouquinho da história de Santo Antônio, conhecido como santo casamenteiro – tão festejado na deliciosa canção junina de Lamartine Babo que começa assim: “Eu pedi numa oração / ao querido São João / que desse um matrimônio / São João disse que não / São João disse que não / isso é lá com Santo Antônio”.

Nascido em Lisboa em 1195, Antônio viveu grande parte da vida no convento de Arcella, em Pádua, na Itália. Segundo consta, lá ocorreu o maior de seus milagres. Fazia ele um sermão quando, sobrenaturalmente, soube que seu pai havia sido condenado e já estava a caminho da forca. Antônio pôs a mão na fronte, transportou-se espiritualmente para Lisboa, defendeu o pai perante o tribunal e conseguiu absolvê-lo.

Para seus ouvintes em Pádua, a impressão foi apenas de um instante de silêncio em que o pregador parecia buscar palavras e ideias. Mal sabiam eles que acabara de ocorrer miraculoso desdobramento de personalidade. Anos depois, o episódio serviria como prova para a canonização de Antônio.

É, não se fazem mais milagres como antigamente...

Revista “Língua Portuguesa” – número 21 – 2007

P.S. Na Basílica de Santo Antônio, em Pádua, na Itália, num relicário, está a língua do santo. A língua de Santo Antônio não se decompôs, apenas mudou de cor, ficando um pouco marrom, mesmo depois de oito séculos. É uma das relíquias mais conhecidas e veneradas da Igreja Católica.



Sérgio Buarque de Holanda



“Não creio que o brasileiro seja fundamentalmente bom.
Quem lê meus livros de história percebe isso.”

Sérgio Buarque de Holanda

→ Sérgio Buarque de Holanda nasceu em São Paulo a 11 de julho de 1902, filho de Cristóvão Buarque de Holanda e de Heloísa Buarque de Holanda.

→ Estudou no Ginásio S. Bento e na Escola Modelo Caetano de Campos, onde compôs a valsa "Vitória Régia", publicada na revista Tico-Tico dois anos depois, e onde foi aluno do Afonso de E. Taunay.

→ Em 1921, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro.

 → Participou do movimento Modernista de 22, tendo sido nomeado por Mário e Oswald de Andrade representante da revista Klaxon no Rio de Janeiro.

 → Em 1925, bacharelou-se em Direito pela Universidade do Brasil.

→ Em 1926, transferiu-se para Cacheiro do Itapemirim, no Espírito Santo, atendendo o convite para dirigir o jornal "O Progresso", também neste mesmo ano, fundou, juntamente com Prudente de Morais Neto, a revista "Estética".

→ Retornou ao Rio de Janeiro, em 1927 e passou a trabalhar na imprensa carioca como colunista do "Jornal do Brasil" e funcionário da Agência United Press.

→ Viajou para a Europa, em 1929, como correspondente dos Diários Associados e fixou residência em Berlim, onde entrou em contato com a obra de Max Weber e assistiu aos seminários de Friedrich Meinecke.

→ Passou a colaborar, em 1930, na revista "Brasilianische Rundschau" do Conselho do Comércio Brasileiro de Hamburgo. Em 1936, já de volta ao Brasil, ingressou na Universidade do Distrito Federal como professor-assistente de Henri Hauser na cadeira de história moderna e contemporânea e leciona literatura comparada como assistente do professor Trouchon.

→ Foi também em 1936 que Sérgio Buarque de Holanda lançou seu livro "Raízes do Brasil", considerado por muitos, um dos livros mais importantes já produzidos no Brasil.

→ Em 1939, quando do fechamento da Universidade do Distrito Federal, Sergio Buarque de Holanda foi convidado por Augusto Meyer a dirigir a seção de publicações do Instituto Nacional do Livro. A convite da seção de Relações Internacionais do Departamento de Estado, viajou, em 1941, para os Estados Unidos.

→ Três anos depois, em 1944, assumiu o cargo de diretor da Divisão de Consulta da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Em 1945, participou da fundação da Esquerda Democrática e viajou para São Paulo a fim de participar do Congresso de Escritores. Foi eleito presidente da seção do Distrito Federal da Associação Brasileira de Escritores.

→ Em 1946, transferiu-se para São Paulo, onde substitui seu antigo professor Afonso de E. Taunay no cargo de diretor do Museu Paulista.

→ No ano seguinte, filiou-se ao Partido Socialista e assumiu a vaga de professor História Econômica do Brasil, na Escola de Sociologia e Política, em substituição a Roberto Simonsen.

→ Viajou a Paris para uma série de três conferências na Sorbonne, em 1949.

→ Em 1952, mudou-se com a família para Itália, onde permaneceu por dois anos como professor convidado junto à cadeira de Estudos Brasileiros da Universidade de Roma.

→ Em 1957, recebeu o prêmio Edgard Cavalheiro do Instituto Nacional do Livro pela publicação de Caminhos e Fronteiras. Conquistou em concurso publico feito em 1958, a cadeira de História da Civilização Brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, com a tese Visão do Paraíso - os motivos edênicos no descobrimento e na colonização do Brasil.

→ Foi o primeiro diretor do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), eleito em 1962. De 1963 a 1967, viajou como professor-visitante para as universidades do Chile e dos Estados Unidos e participou de missões culturais pela Unesco no Peru e na Costa Rica.

→ Em 1969, requereu sua aposentaria do cargo de catedrático da USP em solidariedade aos colegas afastados de suas funções pelo AI-5. Recebeu o prêmio Governador do Estado, em 1967, na seção de literatura.

→ Em 1979, recebeu, como o intelectual do ano, o prêmio Juca Pato.

→ Foi membro-fundador do Partido dos Trabalhadores, em 1980.

→ Sérgio Buarque de Holanda morreu em São Paulo, a 24 de abril de 1982. Entre suas obras mais famosas estão: "Raízes do Brasil" (1936), "Cobra de Vidro" (1944), "Caminhos e Fronteiras" (1957) e "Visão do Paraíso" (1959). Sérgio Buarque de Holanda escreveu regulamente para a Folha entre 1950 e 1953.

Renato Roschel do Banco de Dados da Folha

Sérgio Buarque de Holanda, o pai fodão do mestre Chico

Em entrevista à Folha, o pensador brasileiro Raymundo Faoro contou que Sérgio Buarque de Holanda era um homem que gostava muito de sair com a esposa e seu círculo de amigos para conversar aos sábados ou aos domingos. O problema é que a noite carioca, em especial nos finais de semana, sempre fora muito badalada e concorrida. Assim, o velho Sérgio tinha um truque para conseguir uma boa mesa. Chamava o maître de canto e dizia:

“Sou pai do Chico Buarque.”

Apesar de alguns desconfiarem da credencial, isto costumava assegurar bons lugares para si e seus convivas. Ainda que se divertisse com a situação toda, Sérgio Buarque de Holanda sempre foi muito mais que “o pai do Chico Buarque”.


Humor Judaico



A mãe da 1ª Presidente judia dos EUA

Pela primeira vez, uma mulher judia é eleita presidente dos EUA. Ela liga para sua mãe e diz:
– Mamãe... ganhei as eleições! Sou Presidente dos EUA!!! Quero que estejas presente à minha posse.
– Mas, filha minha, não tenho o que vestir.
– Não se preocupe, Christian Dior está desenhando um vestido especial para você.
– Mas, filha, o que vou comer. Só como comida "kasher".
– Não se preocupe, mamãe, o Rabino está vindo para santificar toda a Casa Branca e tudo será "Kasher".
– Mas, filha, como vou chegar até aí?
– Um avião da Força Aérea Americana irá buscá-la.
– E onde vou dormir.
– No dormitório que pertenceu ao Presidente Lincoln. Mandei fazer uma "mikve" (banho de purificação) só para você.
– Está bem, se vai fazê-la feliz, eu vou sim.
Chega o grande dia!
A mãe está sentada de frente ao público, entre os dois principais senadores do governo. Ela se dirige ao senador sentado à sua esquerda e pergunta:
– O senhor está vendo aquela moça fazendo um juramento com sua mão sobre um livro?
– Sim, responde o senador.
E, ela olhando com orgulho diz:
– O irmão dela é MÉDICO.

O empregado de mesa judeu

Um homem chega a um restaurante judaico em Manhatan.
Senta-se à mesa, pega o cardápio, decide o que vai comer, e, quando ergue a cabeça, lá está o "garçom", que é... chinês!
O empregado pergunta:
– Vos vilt ibr essen? (O que vai comer?) – Iídiche perfeito!
O freguês fica espantado, mas vai em frente e faz o pedido, e, a cada prato que chega, o chinês diz que espera que tenha gostado daquilo, e tudo em iídiche perfeito.
Quando acaba a refeição, o freguês pega a conta e vai à caixa registradora, onde está o dono (judeu).
O dono pergunta ao freguês:
– Foi tudo bem? Foi bem atendido?
E o freguês, em êxtase:
– Foi perfeito, tudo sensacional, e o garçom é a coisa mais espantosa, o garçom é chinês, no entanto fala iídiche absolutamente perfeito!
 – Pssssss, não fala alto – ele pensa que está a aprender inglês!...

O homem da casa

Jacob tinha acabado de ler o livro “O Homem da Casa” e dirigiu-se à cozinha, indo direto até a sua esposa a Sara.
Colocou o dedo em riste no seu nariz e disse:
– Daqui em diante eu quero que você saiba que eu sou o homem da casa e minha palavra é lei! Eu quero que me prepares uma janta de gourmet e, quando eu tiver terminado de comer, me sirva uma sobremesa divina. Então, depois do jantar, eu quero que me prepares meu banho para que eu possa relaxar. E, quando eu terminar meu banho, adivinhe quem vai me vestir e pentear meus cabelos?
A Sara respondeu:
– A Chevra Kadisha!*

*Chevra kadisha é o nome dado à sociedade de homens e mulheres judeus dedicados que executam as preparações dos corpos dos mortos de acordo com a halachá.

Sogra judia

A sogra chega à casa da filha e encontra o genro saindo, furioso.
– O que aconteceu, meu filho? – ela pergunta.
– O que aconteceu? Aconteceu o seguinte, minha sogra! Fui viajar e mandei um telegrama para sua filha avisando que voltaria hoje. Chego em casa e o que eu encontro? Ela com um sujeito! Nem mandando um telegrama ela me respeita mais! É o fim, estou indo embora para sempre, minha sogra!
– Calma – pede a sogra – Deve haver algo errado nessa história, minha filha jamais faria uma bobagem dessas. Espere um pouco, genro querido, que vou verificar o que aconteceu.
Alguns momentos depois volta a sogra, sorridente:
– Eu não disse que havia alguma coisa errada, querido? Minha filha não recebeu o seu telegrama...

O filho convertido

O judeu chega ao céu, e tem um encontro com Deus:
– O que houve com você? Parece triste...
– Tive problemas na vida.
– O que foi?
– Um filho meu se converteu...
– Sei bem o que é isso. Um filho meu também se converteu.
– E o que você fez?
– Um novo testamento...

Brincadeira de crianças

Jacozinho propõe à priminha brincar de papai e mamãe.
– Como é que a gente faz? - Pergunta Sarinha.
– Primeiro, a gente entra no quarto do papai e da mamãe.
– E depois?
– A gente tranca a porta.
– E depois?
– Depois tiramos a roupa.
– E depois?
– A gente apaga a luz.
– E aí?
– Aí a gente começa a falar em iídiche para as crianças não entenderem..


O famoso gol inclinado



Em 16 de setembro de 1945, no jogo contra o Cruzeiro de Porto Alegre, o atacante Carlitos marcou o famoso gol inclinado. O fato ocorreu no Estádio dos Eucaliptos e ficou eternizado na memória colorada!

O jogo terminou empatado, mas o gol que o jogador marcou entrou para a história do clube e de sua carreira. Fala-se que ao entrar na pequena área para cabecear um cruzamento, Carlitos passou do tempo da bola e atirou seu corpo para trás na intenção de acertar a bola, e não é que acertou, a bola entrou no gol e é lembrado até hoje um dos 100 maiores gols do colorado.

Alberto Zolim Filho, mais conhecido como Carlitos, jogou 13 anos no Internacional e foi 10 vezes Campeão Gaúcho com o clube fazendo parte do maravilhoso time "Rolo Compressor" dos anos 40, nunca defendeu outro clube além do Inter e é o maior goleador do colorado em todos os tempos com 485 gols marcados e nenhum pênalti perdido. Falecido em 2001 Carlitos e sua história no clube gaúcho estão eternizado no museu do Internacional juntamente com outros grandes craques no nosso amado alvi-rubro.

Curiosidades:

Era zagueiro, mas devido a sua rapidez e raça, o colocaram no ataque do Rolo Compressor. Seguidamente entrava em diagonal na área par concluir ao gol. Chutava com os dois pés. Brincalhão, jogava areia nos olhos dos goleiros e prendia a camiseta deles no gancho das redes.

É o maior goleador gaúcho de todos os tempos. Jogou 15 anos ininterruptos no Inter. Fez 485 gols em sua carreira, 315 pelo Inter, 45 só em clássicos Gre-Nal. Ao lado do mítico Tesourinha e do oportunista Adãozinho, formou talvez o maior ataque colorado em todos os tempos: o "Rolo Compressor" dos anos 40. Jamais perdeu um pênalti. Nunca defendeu outra equipe e é o décimo jogador que mais atou pelo Inter: jogou em 384 partidas.

Nome Completo: Alberto Zolim Filho

Apelido: Carlitos

Posição: Ponta-esquerda

Nascimento: 27/11/1921 (Porto Alegre-RS)

Falecimento: 30/10/2001 (Porto Alegre-RS)

Período que jogou pelo Inter: de 1937 até 1951


sábado, 24 de outubro de 2015

Histórias de frases famosas

Deonísio Silva

A ocasião faz o ladrão.

Frase com certa sutileza malvada embutida. Dá conta implicitamente de que, havendo ocasião, surge inevitavelmente o ladrão. Diversos códigos penais basearam-se em tão triste concepção do gênero humano para vazar seus artigos. Segundo tal hipótese, o que garante não haver ladrões é um eficiente sistema de punição. Mas Machado de Assis (1839 − 1908), ainda que tão cínico e mordaz, corrigiu a máxima com muita propriedade para: “Não é a ocasião que faz o ladrão, o provérbio está errado. A forma exata deve ser esta: a ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito”. Pensando bem, é quase pior.

Não perguntem o que a América fará por vocês.

Esta frase tornou-se famosa desde que o então presidente dos Estados Unidos, John Fitzgerald Kennedy (1917 − 1963), a pronunciou em seu discurso de posse, proferido a 20 de janeiro de 1961. O discurso passou a ser muito citado em virtude desta e de outras frases, igualmente memoráveis, pinçadas pelos jornalistas na gigantesca cobertura da mais concorrida posse de um presidente americano. O jovem presidente, então com 45 anos, disse no mesmo discurso: “Não perguntem o que seu país pode fazer por vocês; perguntem o que vocês podem fazer por seu país”. Orador fascinante, de posições firmes em sua política interna e externa, Kennedy morreu assassinado em circunstâncias até hoje misteriosas.

A arte é uma mentira que revela uma verdade.

Frase atribuída a Pablo Ruiz Blasco Picasso (1881 − 1973), célebre pintor e escultor espanhol. Foi um dos mais talentosos artistas de sua época, com uma obra marcada por fases bem distintas: a época azul, o cubismo, o surrealismo, a arte abstrata e o expressionismo. Picasso influenciou consideravelmente a arte moderna. Algumas de suas obras são verdadeiros emblemas de nosso século, como o famoso quadro Guernica. Embora haja controvérsias nas interpretações, os críticos viram no famoso quadro sua inconformidade diante da destruição da cidade de mesmo nome, em 1937, pela aviação alemã, que apoiava as tropas do general Francisco Franco (1892 -1975) durante a Guerra Civil Espanhola.

À beça.

Significando em grande quantidade, a origem desta expressão é atribuída à profusão de argumentos utilizados pelo jurista sergipano Gumercindo Bessa ao enfrentar Rui Barbosa (1849 − 1923) em famosa disputa pela independência do então território do Acre, que seria incorporado ao Estado do Amazonas. Quem primeiro utilizou a expressão foi Francisco de Paula Rodrigues Alves (1848 - 1919), presidente do Brasil de 1902 a 1906, depois reeleito, mas sem poder assumir por motivos de saúde, admirado da eloquência de um cidadão ao expor suas ideias: “O senhor tem argumentos à Bessa”. Com o tempo, o sobrenome famoso perdeu a inicial maiúscula e os dois ‘esses’ foram substituídos pela letra ‘cê’.

A emenda saiu pior do que o soneto.

Querendo uma avaliação, certo candidato a escritor apresentou soneto de sua lavra ao poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765 − 1805) pedindo-lhe que marcasse com cruzes os erros encontrados. O escritor leu tudo, mas não marcou cruz nenhuma, alegando que elas seriam tantas que a emenda ficaria ainda pior do que o soneto. A autoridade do mestre era incontestável. Bocage levou essa forma poética a tal perfeição que fazia o que bem queria com o soneto, tornando-se muito popular, principalmente em improvisos satíricos e espirituosos, pelo quais é conhecido.

A maioria dos homens se apaixona por Gilda,
mas acorda comigo.

Esta frase, dita pela primeira vez pela atriz americana Rita Hayworth (1917 − 1987), virou metáfora de relações amorosas baseadas na fantasia e que depois caem na real. Rita construiu uma imagem voluptuosa em seus filmes, sobretudo naqueles rodados na Segunda Guerra Mundial, que serviam de entretenimento aos soldados aliados. Deusa do amor nos anos 40, era suave, sensual e charmosa. Ótima dançarina e intérprete, a atriz encontrou boas razões para proferir a frase famosa. Seus casamentos não davam muito

A mulher é porta do diabo.

Esta famosa frase foi originalmente dita e escrita em latim – mulier janua Diaboli – por Santo Agostinho (354 − 430), bispo de Hipona, na África, doutor da Igreja e um dos pilares da teologia cristã e da filosofia ocidental. Antes de proferi-la, entretanto, levou vida amorosa das mais conturbadas, entregando-se a prazeres que depois condenou. Sua conversão é atribuída às orações de sua mãe, sobre quem escreveu um texto famoso, o Panegírico de Santa Mônica. Para um dialético como Agostinho, nada mais sintomático: sua salvação e perdição foram obras femininas. “A mulher é a porta de Deus” também poderia ser uma frase agostiniana.

A terra lhe seja leve.

Esta frase é a tradução perfeita da sentença latina Sit tibi terra levis, que os romanos inscreviam nos túmulos, às vezes apenas com as iniciais S.T.T.L., por considerarem que aos mortos tudo se deveria perdoar. Machado de Assis (1839 − 1908) faz pequena variação desta frase no romance Dom Casmurro, levando Bentinho, o marido de Capitu, a perdoar a mulher e o amigo Escobar, que conjuntamente o traíram. Apesar de todas as evidências, vários críticos insistem em ignorar um dos adultérios mais comprovados do mundo, o que fez o escritor Otto Lara Rezende (1922 − 1992), entre outros, publicar famoso artigo sobre o tema, vituperando a obtusidade. Que a terra seja leve também para os que interpretam textos de forma equivocada, às vezes até em livros ditos didáticos.

A vida é breve.

Esta frase constitui o primeiro dos célebres aforismos de Hipócrates (460 − 377 a.C.), que o escreveu originalmente em grego, precedido de outra frase; a arte é longa. Tem sido muito citada ao longo dos séculos, e o cantor e compositor Tom Jobim (1927 - 1994) foi um dos que a aproveitaram, inserindo-a nos versos de uma de suas famosas músicas, porém em ordem inversa para fazer a rima: “breve é a vida”. O pai da medicina, ainda praticando uma ciência, reconheceu ser a arte mais duradoura do que a vida, inaugurando assim a linhagem de médicos escritores, presentes em todas as literaturas do mundo, incluindo a brasileira, em que se destacam autores que exerceram a medicina como ofício principal.

A voz do dono.

Tornou-se célebre a figura de um cão ouvindo um fonógrafo, acompanhada desta expressão que foi utilizada por um fabricante de discos e de um aparelho destinado a reproduzir os sons gravados. A frase teria sido pronunciada pela primeira vez por Thomas More (1478 − 1535), depois transformando em santo, quando atuava como juiz de uma causa entre sua esposa e um mendigo. Lady More trouxera para cada casa um cachorrinho extraviado e um dia o mendigo apresentou-se como dono do animal. Querendo ser justo, o famoso humanista inglês pôs sua esposa num dos cantos de sala e o mendigo no outro, ordenando que cada qual chamasse ao mesmo tempo o cachorrinho, que estava no meio dos dois. Sem vacilar, o animal correu para o mendigo, reconhecendo a voz do dono. Para não deixar muito triste sua esposa, o marido pagou uma moeda de ouro pelo cãozinho.

A voz do povo é a voz de deus.

A expressão veio do latim vox populi, vox Dei, traduzida quase literalmente. Há milênios o povo simples considera que o julgamento popular é a voz de Deus. Tal crença tem raízes na cultura das mais diversas procedências. Tudo começou em Acaia, no Peloponeso, onde deus Hermes se manifestava em seu templo do seguinte modo: o consulente entrava, fazia a pergunta ao oráculo, depois do que tapava as orelhas com as mãos e saía do recinto. As palavras errantes ditas pelos primeiros transeuntes seriam as respostas divinas. Perguntava-se a um deus, mas era o povo quem respondia. No Brasil, um instituto de pesquisa de opinião pública chama-se Vox Populi e foi um dos primeiros a prever a vitória de Fernando Collor nas eleições presidências de 1989 por larga margem. Curiosamente, não previu seu afastamento. Teria faltado a vox Dei?

Assim é, se lhe parece.

 Frase de autoria do célebre escritor italiano, prêmio Nobel de literatura em 1934, Luigi Pirandello (1867 − 1936), autor de contos, romances e peças de teatro. Algumas de suas obras foram transpostas para o cinema. Seus livros mais conhecidos são O falecido Matias Pascal, Seis personagens à procura de um autor e Assim é, se lhe parece, comédia em três atos que discute a busca da verdade. Dois dos principais personagens, o senhor e a senhora Ponza, por meio de diálogos, apresentam um espelho da vida provinciana, no estilo habitual do autor, marcado por fina ironia, grande dose de sarcasmo, mas também grande compaixão humana. A frase passou a ser usada para encerrar uma discussão.

Até que a morte os separe.

A história desta frase prende-se às cerimônias dos casamentos, principalmente dos ritos cristãos, que concebem os laços do matrimônio como indissolúveis. Está presente em numerosas narrativas, sejam contos, novelas, romances ou poesias. Integra também a ensaística que trata das relações entre marido e mulher na estrutura familiar. Um de seus mais antigos registros foi feito pelo apóstolo São Paulo (10 − 67) em sua Primeira Epístola aos Coríntios, em que se esforça para demonstrar aos leitores e ouvintes daquela famosa carta que os laços que unem homem e mulher no casamento foram instituídos, não pelos homens, mas por Deus, ainda no paraíso.

Cada povo tem o governo que merece.

Esta frase é proferida quando se quer falar mal do governo, atribuindo-se ao povo a má escolha. É de autoria do filósofo francês Joseph De Maistre (1753 − 1821), crítico da Revolução Francesa, inimigo das repúblicas e defensor das monarquias e do papa. Apesar de a frase ter servido sempre para vituperar todos os governos, os alvos preferidos são aqueles escolhidos por voto popular. Porém, nada se diz quando os eleitores mostram sabedoria nas votações. Assim, contrariando a máxima popular, o filho feio sempre tem por pai o próprio povo. No fundo, a crítica não é aos maus governos, mas aos responsáveis por sua elevação aos cargos.

Com uma mão se lava a outra.

Esta frase resume preceitos de solidariedade, dando conta de que as ajudas devem ser mútuas. Foi originalmente registrada no parágrafo 45 do romance Satyricon, do escritor latino Tito Petrônio Arbiter (século primeiro a.C.), transposto para o cinema pelo famoso cineasta italiano Federico Fellini (1920 − 1994). Em síntese, o romance narra a história de um triângulo amoroso, envolvendo dois rapazes apaixonados por um terceiro, mas livro e filme põem em relevo a decadência dos costumes políticos. Tanto o romancista como o diretor criticam duramente a civilização ocidental, apesar dos 20 séculos que os separam, onde o que mais falta é justamente a solidariedade.

De boas intenções o inferno está cheio.

Esta frase é de autoria de um famoso teólogo e santo francês, São Bernardo de Clairvaux (1090 − 1153). Muito místico, travou grandes polêmicas com o célebre namorado de Heloísa, o também teólogo e filósofo escolástico Pedro Abelardo (1079 − 1142). Conselheiro de reis e papas, São Bernardo pregou a Segunda Cruzada, destacando-se no combate àqueles que eram considerados hereges pó ousarem interpretar de modos plurais a ortodoxia católica. A frase foi brandida, não apenas contra seus desafetos, mas também a seus aliados, e tornou-se proverbial para denunciar que as boas intenções, além de não serem suficientes, podem levar a fins contrários aos esperados.

Deus me defenda dos amigos,
que dos inimigos me defendo eu.

Frase atribuída ao escritor e filósofo francês Voltaire, pseudônimo de François Marie Arquet. Teve desempenho brilhante nas célebres polêmicas do Século das Luzes, com suas idéias claras, temperadas por cáustica ironia, arma verbal que lhe rendeu muitos inimigos entre os obscurantistas, sendo obrigado a retirar-se de Paris após a publicação de seu livro Cartas Filosóficas, em 1734. Foi, porém, apoiado e acolhido pela escritora Madame de Châtelet (1706 − 1749), sua inspiradora e amiga, da qual Deus não precisou defendê-lo.

É de tirar o chapéu.

Foi no reinado de Luís XIV, o Rei Sol, que a França disciplinou as saudações feitas com o chapéu. O costume vinha dos tempos da mais parda das eminências, o cardeal Richelieu, à época de Luís XIII. Os cumprimentos podiam ser feitos com um toque na aba; erguendo-o um pouco, sem retirá-lo da cabeça; tirando-o inteiramente ou fazendo-o roçar o chão, quase como uma vassoura, tudo dependendo da importância social de quem era saudado. Como se sabe, os Luíses XIII e XIV foram reis que se preocuparam muito com chapéus. Logo depois, um dos mais famosos da seqüência, Luís XVI, perdeu muito mais do que o chapéu: a própria cabeça, na Revolução Francesa.

É do tempo do onça.

Foi governador do Rio de Janeiro, de 1725 a 1732, o capitão Luís Vahia Monteiro, apelidado Onça. Em carta que escreveu ao rei Dom João VI, declarou: “Nesta terra todos roubam, só eu não roubo.”. A frase acima foi sempre utilizada para aludir a coisas muito antigas, vigentes naquele tempo. Entretanto, outras autoridades, com o mesmo apelido, podem ter fomentado ainda mais a expressão, homenageando a energia, a coragem e a honestidade do antigo governante. Os novos tempos, infelizmente, não tornaram exceção aquilo que era norma nas práticas dos governantes no tempo do Onça. O pobre homem, a deduzir por sua carta ao rei português, comportava-se como uma virgem num bordel.

É mais fácil enganar a multidão do que um homem só.

Esta frase, de proverbial sabedoria, foi escrita por Heródoto (484 − 420 a.C.), o Pai da História. Poucos historiadores modernos têm a graça de seu estilo, marcado pelos relatos de acontecimentos e lendas que põem em contraste a civilização grega e os bárbaros – egípcios, medos e persas. A frase deve ter-lhe brotado das muitas observações que fez entre esses povos, constatando como os grandes generais, usando a espada e a retórica, submetiam cidades inteiras, mas expunham sua fraqueza num simples diálogo com um filósofo.

Eles que são brancos, que se entendam.

A origem desta frase remonta a uma das primeiras punições que o racismo sofreu no Brasil, ainda no século XVIII. Um capitão do regimento dos pardos queixou-se a seu superior, um português, solicitando punição a um soldado que o desrespeitara. Ouviu em resposta: “vocês que são pardos, que se entendam”. O capitão, inconformado, recorreu à instância superior, o décimo segundo vice-rei do Brasil, Dom Luís de Vasconcelos (1742 − 1807). Este, depois de confirmar o ocorrido, mandou prender o oficial português, que estranhou: “Preso, eu? E por quê? Nós somos brancos, cá nos entendemos”, respondeu o vice-rei. Desde então, tornou-se frase feita, dita de outra forma pelo povo. E está registrada em Locuções tradicionais do Brasil, de Luís da Câmara Cascudo (1898 − 1986).

Ler nas entrelinhas.

Esta frase dá conta de uma das muitas sutilezas da escrita, indicando que num texto até o que não está escrito deve ser lido, pois o sentido vai muito além das palavras, situando-se no contexto, para que não perca o espírito da coisa, expressão criada para identificar uma lacuna de interpretação. Entre os que primeiro registraram a frase está o escritor francês Charles Augustin Saint-Beuve (1804 − 1869) que, depois de publicar vários poemas e apenas um romance, dedicou-se inteiramente à critica literária, gênero em que se consagrou como um dos maiores de todos os tempos, lendo nas entrelinhas os autores que comentou.

Libertas quae sera tamen.

Os escritores envolvidos no primeiro projeto de Independência do Brasil, a Inconfidência Mineira, em 1792, três anos depois da Revolução Francesa, cunharam o lema Libertas quae sera tamen, tirado de um verso da Primeira Égloga, do poeta latino Virgílio: Libertas quae tamen respexit inertem (a liberdade que tardia, todavia, apiedou-se de mim em minha inércia. O lema, como foi adaptado, é esdrúxulo: a liberdade que tardia, todavia... sic). Para o que queriam os inconfidentes, bastava Libertas quae sera. Ainda assim, o lema, com este erro de transcrição e de tradução, continua nas bandeiras de Minas Gerais e do Acre.

Mateus, primeiro aos teus.

Esta frase, mandando aos importunos e chatos que se ocupem primeiro de suas próprias coisas, para só depois nos amolar a paciência, tem sua origem nos Evangelhos. Mateus, antes de tornar-se discípulo de Jesus, era odiado por ser cobrador de impostos de Cafarnaum. A profissão já era hostilizada naquele tempo, e o povo abominava esses funcionários do fisco romano que, conquanto judeus, serviam aos dominadores estrangeiros, além de extorquir taxas pessoais dos contribuintes. Na literatura oral de quase todos os países está fixada esta repulsa, depois recolhida por escritores, como nos versos de uma sátira de Gustavo Barroso (1888 − 1959) no livro Ao som da viola, dando conta de que na vida eterna eles serão condenados.

Noblesse oblige.

Esta frase, nascida de um trecho do filósofo, estadista e poeta latino Anício Mânlio Severino Boethius (480 − 524), mas conhecido como Boécio, está presente em muitas línguas, incluindo a portuguesa, segundo a síntese elaborada pelos franceses, sem alteração da grafia e do significado: nobreza obriga, isto é, aristocracia e a boa educação devem levar o indivíduo a comportar-se como um cavalheiro. Se não a primeira, a segunda. Originalmente, a frase foi escrita em latim e está embutida num período mais longo, usual no estilo de Bécio, de seu livro O consolo da filosofia.

O coração tem razões que a razão desconhece.

A história desta frase não poderia ter origem mais paradoxal, pois foi proferida e escrita por um personagem que deu grande valor à ciência, o célebre matemático, físico, filósofo e escritor francês Blaise Pascal (1623 − 1662). Aos 16 anos já tinha escrito um ensaio científico e aos 18 inventou uma máquina de calcular, base de nossos atuais computadores. Depois que sua irmã Jacqueline entrou para o convento, Pascal retirou-se para a célebre localidade de Port Royal-des-Champs, que deu nome a uma escola de pensadores, e passou a escrever artigos contra os jesuítas. Cuidadoso com a língua francesa, escreveu sempre em estilo irrepreensível. A frase dá grande valor à intuição.

É um nó górdio.

Quando se quer referir-se a uma extraordinária dificuldade em determinada questão, diz-se que se trata nó górdio do assunto. A história desta frase remonta aos tempos de Alexandre, o Grande (356 − 323 a.C.), senhor de um império que incluía quase o mundo inteiro. Segundo a lenda, quem desatasse o nó com que estava atada a canga ao cabeçalho de um carro feito por um camponês frígio dominaria o Oriente. O carro estava no templo de Zeus. Do nó, feito com perfeição, não se viam as portas. Alexandre tentou desamarrar e, não conseguindo, cortou-o com a espada. E desde então esse gesto tem servido de metáfora para designar ações ousadas para resolver problemas.

O homem põe, mas deus dispõe.

Esta frase, tão citada como provérbio, deve sua fama ao enorme sucesso do livro A imitação de Cristo, um best-seller que está na lista dos mais vendidos e, neste caso, também dos mais lidos, há vários séculos. Publicado pela primeira vez em 1441 e só perdendo em traduções para a Bíblia, é de autoria do escritor e asceta alemão Tomás de Kempis, que viveu no século XV. A frase significa que, por mais que o homem planeje meticulosamente sua vida, algo de imponderável pode acontecer e deve ser creditado à intervenção divina. Com o passar dos anos outras variações foram surgindo e uma da mais comuns, no Brasil, é Deus não joga, mas fiscaliza.

Olho por olho, dente por dente.

Esta frase, que consagra a vingança como preceito jurídico, está inscrita num dos 282 artigos do Código de Hamurabi (1792 − 1750 a.C.), o criador do Império Babilônico. Em 1901, arqueólogos franceses descobriram, em território hoje pertencente ao Irã, uma estrela cilíndrica de diorito onde está gravado este célebre conjunto de leis, um dos mais antigos de que se tem notícia. Baseado na lei de talião, presente também num dos livros da Bíblia, o Levítico, prescreve para o transgressor pena igual ao crime que praticou. Ainda é aplicado em várias sociedades do Oriente.

Os fins justificam os meios.

A ideia de que não importa que os meios sejam ilícitos quando os fins são nobres consolidou-se nesta frase, atribuída, entre outros, aos jesuítas e aos autores italianos Niccolò Machiavelli (1469 − 1527) e Francesco Guicciardini (1483 − 1540), dois filósofos que se preocuparam com o poder e a ética dos governadores, o último dos quais é autor das célebres Ricordi  – em italiano, advertências, conselhos – somente agora traduzidas para o português com o título de Reflexões, mais de acordo com os temas do livro.



Quinteto de gênios



Escritores da geração realista

Escritores lusitanos posaram para uma foto, divulgada pela “A Ilustração”, “revista universal impressa em Paris”, como rezava o subtítulo. Os cinco luminares da literatura portuguesa são, da esquerda para a direita: Eça de Queiroz, com duas mãos no chapéu, Oliveira Martins, Antero de Quental, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro.

→ José Maria de Eça de Queirós (Póvoa de Varzim, 25 de novembro de 1845Paris, 16 de agosto de 1900) é um dos mais importantes escritores portugueses de sempre. Foi autor, entre outros romances de reconhecida importância, de O Primo Basílio, Os Maias e O Crime do Padre Amaro; este último é considerado por muitos o melhor romance realista português do século XIX.

→ Joaquim Pedro de Oliveira Martins (Lisboa, 30 de Abril de 1845Lisboa, 24 de Agosto de 1894) foi um político e cientista social português. Oliveira Martins é uma das figuras-chave da história portuguesa contemporânea. As suas obras marcaram sucessivas gerações de portugueses, tendo influenciado vários escritores do século XX, como António Sérgio, Eduardo Lourenço ou António Sardinha.

Antero Tarquínio de Quental (Ponta Delgada, 18 de abril de 1842Ponta Delgada, 11 de setembro de 1911 foi um escritor e poeta português do século XIX que teve um papel importante no movimento da Geração de 70.

→ José Duarte Ramalho Ortigão (Porto, 24 de outubro de 1836Lisboa, 27 de setembro de 1915) foi um escritor português.

→ Abílio Manuel Guerra Junqueiro (Freixo de Espada à Cinta, 15 de setembro de 1850Lisboa, 7 de julho de 1923) foi alto funcionário administrativo, político, deputado, jornalista, escritor e poeta. Foi o poeta mais popular da sua época e o mais típico representante da chamada “Escola Nova”. Poeta panfletário, a sua poesia ajudou a criar o ambiente revolucionário que conduziu à implantação da República. Foi, entre 1911 e 1914, o embaixador de Portugal na Suíça (o título era “ministro de Portugal na Suíça”). Guerra Junqueiro formou-se em direito na Universidade de Coimbra.


Geraldo Pereira encontra Madame Satã



Geraldo Pereira

Geraldo Pereira era um sambista fabuloso que nasceu em Juiz de Fora (MG), mas foi pro Rio ainda moleque. Mudou para a Mangueira em 1930, logo se enturmando nas rodas de samba. Seu canto, como o de muitos sambistas que não frequentavam o rádio, era natural, chamando a atenção de João Gilberto. Pois o pai da bossa nova colou no malandro por algum tempo, falando pouco e aprendendo muito, com a segurança de que Geraldo, bom de briga, não deixava ninguém folgar com o baiano, tímido e pacato. Geraldo levava João Gilberto para as quebradas. Posteriormente, João gravaria temas de Geraldo Pereira como Bolinha de papel e Falsa baiana. Mas o mangueirense tinha outros tão famosos quanto, como Cabritada mal sucedida, Escurinha (gravada por Cartola), Escurinho, Você está sumindo. Foi gravado por Cyro Monteiro, Roberto Silva, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Cauby Peixoto, Gal Costa, Zimbo Trio. Era da verve de Noel Rosa, cronista, com uma compreensão de ritmo tão melódica quanto sincopada.


Madame Satã

Tenho a impressão de que a mania de usar diminutivo, corrente na bossa nova, tem influência dele, embora Vinícius de Moraes fosse um adepto em sua constante busca de intimidade.

O fato é que Geraldo, mesmo esquentado, mantinha bons amigos. Entre eles, Klecius Caldas e Billy Blanco. Quando Klecius resolveu se casar, Geraldo apareceu na cerimônia sem terno. Acostumado às poucas firulas da malandragem, ficou constrangido ao ver todo mundo na estica.

Chegou para o noivo e se desculpou: “Se eu soubesse que o negócio era assim, eu tinha jogado um pano legal em cima”, reclamou, segundo depoimento do próprio Billy Blanco ao programa Ensaio (1973), de Fernando Faro.

Bamba do samba e do violão, Billy Blanco, paraense radicado no Rio, não perdoou. Fez Samba de Doutor: “Se eu soubesse como era o ambiente/ Decente/ Jogava um pano legal/ Por cima de mim”.

O triste da história é que Geraldo bebia demais e, num dia, entrou em discussão com Madame Satã, conhecido malandro da Lapa. Por causa de um copo de cerveja. Homossexual assumido, craque da navalha, Satã era alto* e valente. Exigia respeito.

* ... Mas Geraldo Pereira era muito mais alto que Madame Satã. Só que este brigava muito mais.

Em entrevista ao jornal O Pasquim, em maio de 1971, Madame Satã conta a briga:

Eu fui acusado de matar Geraldo Pereira com um soco. Mas o caso foi o seguinte: eu entrei no [bar] Capela* e estava sentado tomando um chope. Ele chegou com uma amante dele, pediu dois chopes e sentou ao meu lado. Aí tomou uns goles do chope dele e cismou que eu tinha que tomar o dele e ele tinha que tomar o meu. Ele pegou meu copo e eu disse: “Olha, esse chope aí é meu”. Aí ele achou que o chope era dele e não o meu. Então eu peguei meu copo e levei para a minha mesa. Aí ele se levantou e me chamou para a briga. Disse uma porção de desaforos, uma porção de palavras obscenas, eu não sei nem dizer essas coisas. Aí eu perdi a paciência, dei um soco nele, ele caiu com a cabeça no meio-fio e morreu. Mas ele morreu por desleixo do médico, porque foi para a assistência vivo.

*O bar Capela existe até hoje na rua Mem de Sá, na Lapa, com o nome de Novo Capela.

Já o Dicionário de MPB, do pesquisador Cravo Albin, garante que Geraldo morreu de hemorragia intestinal, após a briga com Madame Satã.

Por outro crime, o malandro da Lapa cumpriu 27 anos de pena. Na entrevista ao Pasquim, Madame Satã afirmou que foi condenado “injustamente” por matar um guarda.
Sérgio Cabral (o pai, jornalista e pesquisador) pergunta:
‒ Mas você não deu o tiro no guarda?
Madame Satã:
‒ Não, o revólver é que disparou na minha mão. Casualmente.
Sérgio:
‒ Foi a bala que matou?
Madame Satã:
‒ A bala fez o buraco. Quem matou foi Deus.

Geraldo Pereira morreu em 1955, aos 37 anos. Deixou mais de 300 sambas. Pelo menos 100 foram gravados.

Do site Máquina do Som

Outra versão

Uma das versões conta que sua morte aconteceu logo depois de uma briga de bar – por causa de um copo de chope – com Satã, que, como vimos, ostentava a fama de valente. Depois da discussão no Restaurante Capela, na Lapa, Satã teria acertado um soco no rosto de Geraldo Pereira, que, bêbado, perde o equilíbrio e cai na calçada, na porta do bar. Com a queda, bate com a cabeça no meio-fio, ficando desacordado, sendo carregado para o Hospital dos Servidores, onde morreu dois dias depois de “hemorragia intestinal reincidente”. Muitos de seus amigos, porém, garantem que ele morreu de câncer.

A briga na visão de Mário Lago

Não, era um outro tipo de vida... A única coisa violenta que eu vi foram duas: a prisão do Madame Satã, que não era fácil pra prender. Nunca foi preso por menos de seis guardas, jogava muito com a perna, né?... E a briga dele com Geraldo Pereira. O Madame Satã era uma moça e o Geraldo Pereira também era uma moça, quando não estava de porre. Quando estava de porre, ele saía procurando briga. E lá na Lapa ele cismou com o Madame Satã, cismou... ficava dizendo “Você é viado!...”, “Tá bem, seu Geraldo...”. Até que o Geraldo disse: “Vou lhe dar uma porrada...”. Aí ele disse: “Ah, não vai não...”. E o Madame Satã só dava rabo de arraia na barriga do Geraldo, que tinha um câncer no intestino.. Estourou o cano. Porque quando ele foi dar uma porrada: “Ah, não vai não, seu Geraldo...”. O Madame Satã era difícil de pegar, chinelinho de salto alto, tamanquinho todo florido e tal...

Sobre a ética de Geraldo Pereira

“Chegando ao hospital, fui encontrar o Geraldo Pereira numa cama de enfermaria coletiva e soube que estava com hemorragia interna. Seu chamado tinha por objetivo pedir que eu não permitisse qualquer investigação caso ele morresse.

Não demorou para que isso acontecesse, e, durante muitos anos, fiquei com uma interrogação angustiante a respeito dos motivos de tão estranho pedido. Só há pouco tempo, lendo o depoimento de alguém que viveu na Lapa, soube que havia a suspeita de que o Geraldo tivesse morrido em consequência de um soco no estômago dado pelo travesti Madame Satã, um homossexual perigoso que botava a polícia para correr. Se isso for verdade, dá para entender a preocupação dele, que sobrepunha o código de honra da malandragem ao natural pavor da morte.”

Do livro:

“Pelas Esquinas do Rio - Tempos Idos e Jamais Esquecidos”, 

de Klecius Caldas

A notícia nos Jornais:

Morre o sambista Geraldo Pereira

Depois de uma semana internado no Hospital dos Servidores da Prefeitura, morreu ontem o cantor e compositor Geraldo Theodoro Pereira, mais conhecido como Geraldo Pereira.

Geraldo Pereira foi hospitalizado depois de uma briga no Bar Capela envolvendo o famoso boêmio carioca Joaquim Francisco dos Santos o Madame Satã. O estado de saúde de Geraldo Pereira não era bom. Antes mesmo do acontecido o sambista vinha sofrendo havia algum tempo de cólicas intestinais, evacuando sangue e com crises sistemáticas de vômito.

Segundo frequentadores do bar situado na Lapa, Geraldo e Madame Satã discutiam muito. “Depois de muito discutir, os dois começaram a brigar, aí meu amigo, ninguém nem tentou entrar no meio. O Pereira daquele tamanho todo, e Madame Satã capoeira como ele é... Foi soco e pé pra tudo enquanto é lado, até que o Satã acertou um soco muito do bem dado no Pereira, ele caiu e bateu com a cabeça no meio fio” afirmou Fininho, garçom do bar Capela.

O fim de Madame Satã

O ano de 1976 marca a despedida de Madame Satã. Magro e adoentado, em fevereiro, ele dá entrada num hospital como indigente. Logo, Jaguar e o pessoal do Pasquim ficam sabendo de seu estado e providenciam sua transferência para o hospital do INPS de Ipanema. Diagnosticado com câncer de pulmão em estágio avançado, dessa vez ele não brigou. Faleceu em 12 de abril. O cortejo foi acompanhado por uma de suas filhas e seu corpo, sepultado no cemitério da Vila do Abraão, em Ilha Grande, a mesma que abrigou o presídio por onde Satã passou diversas vezes.


João Francisco dos Santos (Madame Satã) 25 de fevereiro de 1900  Glória do Goitá-PE, 11 de abril de 1976  Rio de Janeiro.