quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Romances



“Minha vida daria um romance...”
Quantas vezes você já ouviu essa frase?

Para os modestos:
− Minha vida daria um conto...

Para os exagerados:
− Minha vida daria um romance russo...
ou
− Minha vida daria uma ópera!

Para os pretensiosos:
− Minha vida daria um ensaio.

Para os misteriosos:
− Minha vida daria uma tese científica...

Para os modernos:
− Minha vida daria uma série de TV.

− Minha vida daria um filme do Antonioni.
− Foi cheia de angústia existencial e sutilezas psicológicas?
− Não. Meio parada.

Para os ambiciosos:
− Minha vida daria um best-seller.

Para os radicais:
− Minha vida daria um panfleto.

Para os hipocondríacos:
− Minha vida daria uma bula.

Para os pessimistas:
−- Minha vida daria um mau romance.

Para os políticos:
− Minha vida daria vários processos.

Para o homem comum:
− Minha vida daria uma nota de roda-pé.

Para os óbvios:
− Minha vida daria uma biografia.

Para os românticos:
− Minha vida daria um bolero.

Para os trágicos:
− Minha vida daria um tango.
  
(Texto de Luís Fernando Veríssimo – Revista Veja, de 26.04.1986)


terça-feira, 23 de outubro de 2018

Para reflexão e ação.



A diferença entre os países pobres e os ricos não é a idade do país. Isto pode ser demonstrado por países como Índia e Egito, que tem mais de 2000 anos e são pobres, apesar da Índia ser a 7ª economia do mundo.

Por outro lado, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, que há 150 anos eram inexpressivos, hoje são países desenvolvidos e ricos. A diferença entre países pobres e ricos também não  reside nos recursos naturais disponíveis.

O Japão possui um território limitado, 80% montanhoso, inadequado para a agricultura e a criação de gado, mas é a terceira  economia mundial. O país é como uma imensa fábrica flutuante, importando matéria-prima do mundo todo e exportando produtos manufaturados.

Outro exemplo é a Suíça, que não planta cacau, mas tem o melhor chocolate o mundo. Em seu pequeno território cria animais e cultiva o solo durante apenas quatro meses no ano. Não obstante, fabrica laticínios da melhor qualidade. É um país pequeno que passa uma imagem de segurança, ordem e trabalho, o que o transformou na caixa forte do mundo.

Executivos de países ricos que se relacionam com seus pares de países pobres mostram que não há diferença intelectual significativa. A raça ou a cor da pele também não é importante: imigrantes rotulados de preguiçosos em seus países de origem são a força produtiva de países europeus ricos.

Qual é então a diferença?

A diferença é a atitude das pessoas, moldada ao longo dos anos pela educação e pela cultura. Ao analisarmos a conduta das pessoas nos países ricos e desenvolvidos, constatamos que a grande maioria segue os seguintes princípios de vida:

01. A ética como princípio básico.
02. A integridade.
03. A responsabilidade.
04. O respeito às leis e regulamentos.
05. O respeito pelo direito dos demais cidadãos.
06. O amor ao trabalho.
07. O esforço pela poupança e pelo investimento.
08. O desejo de superação.
09. A pontualidade.
10. Amor incondicional à pátria em que vivemos.

Nos países pobres apenas uma minoria segue esses princípios básicos em sua vida diária. Não somos pobres porque nos faltam recursos naturais ou porque a natureza foi cruel conosco. Somos pobres porque nos falta atitude. Falta-nos vontade para cumprir e ensinar esses princípios de funcionamento das sociedades ricas e desenvolvidas.

Somos assim, por querer levar vantagens sobre tudo e todos. Somos assim por ver algo de errado e dizer:

“Deixa pra lá”. Devemos ter atitudes e memória viva. Só assim mudaremos o Brasil de hoje, que, apesar de tudo, é a 9ª economia do mundo.

Se você não repassar esta mensagem nada vai lhe acontecer. Seu animal de estimação não vai morrer, você não será mandado embora de seu emprego, não vai ter azar por sete anos nem tampouco vai ficar doente. Se você ama o Brasil, faça circular esta mensagem para que a maior quantidade de pessoas reflita sobre isto e mudem de atitude!

Pense nisso...

(Um Brasileiro consciente)

A aguadeira do Riacho



O Arroio Dilúvio da antiga Porto Alegre inspirou poetas com lembranças cheias de ternura, à sobra dos salgueiros, nas curvas e do alto das barrancas.

O Riacho abasteceu os pioneiros da cidade, testemunhou combates e viu os cavalos dos guerreiros bebendo água na represa do Chico da Azenha. Pelo menos duas vezes por ano saía do seu leito à procura de espaço, levando tudo de roldão, desgraçando os ribeirinhos. O excesso de curvas fazia paredes reduzindo a velocidade do fluxo da água depois de uma chuvarada. Lupicínio Rodrigues nasceu no interior de um delta do Dilúvio; sofreu muito e, talvez por isso, nunca fez uma só frase poética lembrando aquela Ilhota. Mas Lunara (Luiz Nascimento Ramos) fotógrafo amador, nas primeiras décadas de 1900, tomou o Arroio Dilúvio como recanto inspirador das mais belas fotografias da periferia da cidade. A cena que mostra a “Aguadeira do Riacho”*, que foi capa da Revista Máscara em 1916, por si só mostra quase tudo, quando a poluição era apenas um vocábulo escondido nos dicionários.

(Texto do livro “Porto Alegre foi assim...”, 
desenhos a nanquim de Helio Ricardo Alves)

*Esta imagem foi reproduzida, a nanquim, pelo artista Hélio Ricardo Alves, no livro mostrado abaixo.



segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Vida de advogado associado



Quando algo toma o seu tempo, você é lento.
Quando algo toma o tempo do titular do escritório, ele é meticuloso.

Quando você não faz, é desidioso.
Quando o titular do escritório não faz, é assoberbado.

Quando você erra, é medíocre.
Quando o titular do escritório erra, é humano.

Quando você faz algo antes que seja instruído, está passando das medidas.
Quando o titular do escritório faz o mesmo, é porque tem iniciativa.

Quando você defende seu ponto de vista, é intransigente.
Quando o titular do escritório defende o ponto de vista dele, é firme nas opiniões.

Quando você transgride uma regra de etiqueta, é mal-educado.
Quando o titular do escritório faz isso, é original.

(Transcrito do livro O advogado que ri,
de Milton Célio de Oliveira Filho e Nelson Lopes de Oliveira Ferreira Jr.,
São Paulo, Matrix, 2005)

A lenda



Reza a lenda que Uoxinton já chutava bastante dentro da barriga da mãe, mas chutava com estilo - nada de força. A mesma lenda também conta que quando ele nasceu sua mãe disse “que lindo!”, o pai disse “meu filho!” e o médico ficou calado. Mas, a verdade é que a mãe pensou “que fofo”, o pai pensou “pelo menos é macho” e médico riu – só que ninguém pôde ver por causa daquela máscara - e pensou que já havia visto piores.

Ela diz que a primeira palavra que ele falou foi gol, que no dia do seu segundo aniversário ganhou a primeira bola, que quando tinha dois anos e um dia já conseguia fazer embaixadinhas e no dia seguinte marcou o seu primeiro gol. Aos sete anos, já conseguia dar todos os dribles que passavam na TV, aos oito começou a inventar os seus próprios e quando ele tinha nove anos três meses e vinte e cinco dias aconteceu o inevitável… Ele deixou de falar na primeira pessoa do singular.

Foi meio confuso no começo, a mãe chegou a pensar que ele tinha algum tipo de amigo imaginário por um tempo, o pai até o pastor chamou, mas foi um tio quem matou a charada. Enquanto ele ouvia a reportagem de um jogador que se dirigia ao vestiário, ele só conseguia ouvir o sobrinho falando. No dia seguinte, ele foi falar qualquer besteira com o garoto pra comprovar a sua teoria.

- E aí, Uoxinton? Como vai na escola?

- Bem, tio… Não é fácil, mas a gente vem trabalhando duro e se Deus quiser vamos sair com o resultado.

Não havia dúvidas: ou moleque tinha enlouquecido e pensava ser um jogador de futebol ou tinha sido possuído pelo espírito de algum jogador morto. O tio contou à mãe, a mãe contou ao pai, o pai tentou resolver na base do cinturão. Não deu certo, ele ficava choramingando ‘a gente não fez nada’. Ninguém sabia ao certo o que fazer, mas um vizinho teve uma ideia que mudou a vida do nosso herói, levá-lo ao Seu Bill, o treinador do glorioso Bode. Se o problema do garoto tinha algo remotamente relacionado à bola, Bill saberia como dar um jeito. Chegando lá, o coroa olhou pro garoto, falou umas besteiras que ninguém entendeu e o garoto respondeu outras besteiras que o pessoal igualmente não entendeu. Então Bill, muito calmamente, se dirigiu ao pai e disse saber do que o garoto estava sofrendo, mas que precisava fazer um simples teste para confirmar o diagnóstico. Mas antes, seu Bill fez os pais de Uoxinton prometerem que se a suspeita se confirmasse, ele seria o responsável pela cura do garoto. Os pais não entenderam bem, mas prontamente concordaram.

Bill pegou uma bola velha, fez umas mungangas com ela e tocou pro garoto, o pirralho matou no peito, deu de coxa, parou na testa, passou pro nariz, voltou pra testa, rolou pra nuca, voltou pro peito e deu de volta pra Bill. Bill sorriu e disse pro pai que o diagnóstico fora confirmado: craque de nascença. E o detalhe da fala seria consertado com algumas tardes de treino no campinho de barro do Bode. Naquele dia Uoxinton ganhou seu primeiro par de chuteiras.

Israel Duarte in: Contos: Humor negro de um crioulo



Paisagem de Interior

Por Jessier Quirino


Matuto no mêi da pista
menino chorando nu
rolo de fumo e beiju
colchão de palha listrado
um par de bêbo agarrado
preto véio rezador
jumento jipe e trator
lençol voando estendido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.

Três moleque fedorento
morcegando um caminhão
chapéu de couro e gibão
bodega com surtimento
poeira no pé de vento
tabulêro de cocada
banguela dando risada
das prosa do cantador
buchuda sentindo dor
com o filho quase parido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.

Bêbo lascando a canela
escorregando na fruta
num batente, uma matuta
areando uma panela
cachorro numa cadela
se livrando das pedrada
ciscador corda e enxada
na mão do agricultor
no jardim, um beija-flor
num pé de planta florido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.

Mastruz e erva-cidreira
debaixo dum jatobá
menino querendo olhar
as calça da lavadeira
um chiado de porteira
um fole de oito baixo
pitomba boa no cacho
um canário cantador
caminhão de eleitor
com os voto tudo vendido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.

Um motorista cangueiro
um jipe chêi de batata
um balai de alpercata
porca gorda no chiqueiro
um camelô trambiqueiro
avelós e lagartixa
bode véio de barbicha
bisaco de caçador
um vaqueiro aboiador
bodegueiro adormecido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.

Meninas na cirandinha
um pula corda e um toca
varredeira na fofoca
uma saca de farinha
cacarejo de galinha
novena no mês de maio
vira-lata e papagaio
carroça de amolador
fachada de toda cor
um bruguelim desnutrido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.

Uma jumenta viçando
jumento correndo atrás
um candeeiro de gás
véi na cadeira bufando
radio de pilha tocando
um choriço, um manguzá
um galho de trapiá
carregado de fulô
fogareiro abanador
um matador destemido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.

Um soldador de panela
debaixo da gameleira
sovaqueira, balinheira
uma maleta amarela
rapariga na janela
casa de taipa e latada
nuvilha dando mijada
na calçada do doutor
toalha no aquarador
um terreiro bem varrido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.

Um forró de pé de serra
fogueira milho e balão
um tum-tum-tum de pilão
um cabritinho que berra
uma manteiga da terra
zoada no mêi da feira
facada na gafieira
matuto respeitador
padre, prefeito e doutor
os home mais entendido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.

domingo, 21 de outubro de 2018

Duas trágicas crônicas gaúchas

A liberdade (1)


(Gravura de Voldinei Burkert Lucas)

Vinha fugindo havia dois dias, escapulindo, negaceando, aqui e ali, varando vaus, praticamente sem dormir, o tordilho cansado, magro, só os osso, mas resistindo. Resistiram ambos, não podiam fraquejar, era isso ou a morte. E os inimigos, eram quantos? Ah, nem sabia, mas vários. Desde a refrega que tiveram na Serrinha sobraram ele e mais alguns parceiros, se dividiram, mas os inimigos vinham no encalço. Eram implacáveis. Ah, que guerra estranha de irmãos contra irmãos. Onde iriam para? Salustiano havia dito alguns anos antes, se a revolução* viesse ia ser cruel. “Guerra civil é assim, violenta, famílias se matam, irmãos se matam, tudo é vingança, jorro de sangue, cruz, credo, tomara que não vingue”. Mas vingou. Lá longe vislumbrou um caponete e cutucou o tordilho, coitado, que ia de cabeça baixa, babando. Na sanga, o cavalo caiu, tremendo. Puxou a adaga e degolou o amigo num upa, não queria que os inimigos o fizessem. O tordilho abriu os olhos grandes ainda mais e fitou a esmo o infinito. Ele pegou um naco de charque que trazia de baixo dos arreios e seguiu a pé para o capão. As botas pesavam, as roupas sujas fediam, tudo cheirava mal, como aquela guerra. Quando chegou nas moitas, sentiu medo, um receio de que talvez estivesse no fim, a enxergar os últimos clarões da vida.

A espada estava irremediavelmente perdida, restava-lhe a adaga e agora talvez ainda pudesse improvisar uma lança no capão. Arma de fogo? Nada. Eles tinham, era quase uma certeza. Quanto tempo tirara de vantagem? Quinze minutos, um a hora, duas? Agora não escutava mais os malditos gritos, nem o tropel dos cavalos. Por que essa raiva toda acumulada? Por que não desistiam? Caramba, o que um homem vale numa hora dessas, por que essa sede de vingança? Sim, as degolas eram de parte a parte. Como tudo havia começado nem ele mais sabia. Ninguém. Só queria chegar em casa, rever a mulher, os filhos, retomar a vida lavrando a terra, plantando e colhendo, como sempre fizera. Tentou correr para achar um ponto de melhor observação, mas foi perdendo as forças, devagar. Escureceu. Começou a sonhar...

O trigo maduro. Ele, Mariana, os tios, a família da esposa, os amigos. Ao longe, as filhas brincando com os cachorros. Uma manhã radiante. Depois de trabalharem muito, descansavam debaixo dos eucaliptos e ficavam observando a farta colheita. Prenúncio de farinha, cheiro de pão no forno, sabor de casa. Ah, como eram bonitos aqueles mutirões de vizinhos para colher o grão que brotava da terra. Depois viriam as lavouras das outras famílias. E o rancho? Caiado, as tambeiras, o tordilho solto no piquete, o pomar das laranjeiras, o chiqueiro, o poço de água fresca, isso tudo parecia tão lindo lá no Rincão do Meio, onde levantara morada e agora descobria que tinha sido feliz.

Então, o frio da lâmina. Algo lhe rasgou a goela, o extermínio, o ódio, a barbárie. Seguiu dormindo. Sonho, imaginação ou realidade? Não compreendia. Experimentou uma leveza se espalhando pelo corpo magro. Já não era dor, não era fome, não era sede. Por ausência, um vazio. Como um pássaro, bateu as asas e foi subindo por entre as nuvens tristes. Do alto vislumbrou seu corpo espichado na grama perdida do Pampa. Era, enfim, a liberdade...

Paulo Mendes, em Campereada, Correio do Povo, outubro de 2018.

*O autor se refere à Revolução Federalista de fevereiro de 1893 a agosto de 1895.

A liberdade (2)


(Pinheiro Machado e tropa de pica-paus)

Eram quatro homens. Guerreiros, gaúchos, “pica-paus”, mas agora, olhando aquele corpo ensanguentado nem sabiam mais o que eram. Foi Latorra, um cuera lá do rincão dos Mulatos, que cortou a garganta do fugitivo. O maragato fora valente, isso foi, mas o haviam capturado. Eles também arrebentaram os cavalos, foi exaustivo, depois de ultrapassarem banhados, coxilhas, cortarem cercas, mas enfim, assunto acabado. O mais novo deles, Locrécio, ainda um rapazote, barba rala, quase albino, de melenas compridas, foi quem sugeriu que o enterrassem. “Não”, gritara Cabo Antunes, que abandonara o serviço militar por desacato e ameaça de prisão. Era uma espécie de chefes deles. Enquanto arrumava os arreios, Chico Osório concordou. Este, por sua vez, funcionava no grupo como um ajudante de ordens do chefe e com tudo concordava. “Essa gente morre e fica ao relento, pros corvo cumê...”, sentenciou.

Depois retornaram, ao trote batido, do meio para o fim da tarde. No início, chegaram a trocar algumas impressões, mas depois se calaram e, por fim, emudeceram por completo. Era apenas o barulho dos cascos dos cavalos nas várzeas, depois um longo corredor perto do Caverá, iam transpondo rios, várzeas, fazendas abandonadas. Estavam famintos, nem lembravam mais o que era uma refeição decente. Dias atrás haviam jantado uma galinha com arroz, com muita “pementa”, num bolicho improvisado numa carreta abandonada. Pagaram com algumas facas, um par de estribo e um freio. O Rio Grande estava devastado, diziam, e parecia ser verdade. Desde a Guerra dos Farrapos, os campos não se enchiam mais de gado. Cavalos, poucos, as guerras terminavam com tudo. E eles ali, no meio de outra. E os chefes, qual chefes, não se importavam com eles... Mas matavam porque senão morriam. Nem sabiam por que entraram, recrutados à moda da época, atenderam chamados e aprenderam a guerrear no calor dos entreveros. Haviam perdido tantos amigos, familiares, uns degolados, outros vilipendiados, humilhados antes de morrer. Então era preciso a vingança.

Como essa infâmia havia começado ninguém sabia, assim no precisar do fato. Era um diz-que-me-diz-que. Onde morava a verdade inteira? Não, nem adiantava campear. Locrécio agora não falava nada, mas a imagem do fugitivo degolado não lhe saía da cabeça, nem sabia se um dia aquilo ia sair. Que loucura, os olhos esbugalhados, o corte aberto de orelha a orelha e o sangue a jorrar. Devia ter família, filhos, sim, era possível. Ele não tinha filhos, mas havia dona Mirta, lá no Espinilho Grande, que lhe esperava. Era uma boa mãe. Havia dito: “Não vá, meu filho, para que morrer por algo que nem sabemos o que é?” Mas ele foi. Agora engolia horizontes, varava noites, cruzava dias, arriscando a vida, fugindo e peleando. Sim, tinha certeza que, mesmo advindo a paz, nunca mais seria livre, seria sempre prisioneiro. “Livre” mesmo, para sempre, só o fugitivo, aquele que prenderam e mataram.

*****

*A Revolução Federalista de 1893 a 1895 foi uma das maiores carnificinas que Rio Grande do Sul presenciou. Ao fim da guerra civil, havia 10 mil mortos. A prática da degola manchou nossa história. É preciso olhar para trás para que os grandes erros não se repitam.

(Paulo Mendes, em Campereada, Correio do Povo, outubro de 2018)