sábado, 19 de abril de 2025

Humor e lógica gramatical

 

A mulher pede ao marido: 

‒ Amor, vá ao supermercado e compre uma garrafa de leite. Se eles tiverem ovos, traga seis. 

Cinco minutos depois, o marido retorna com seis garrafas de leite. A esposa pergunta: 

‒ Por que diabos você comprou seis garrafas de leite? 

‒ Porque eles tinham ovos, responde o marido. 

Ironia verbal 

‒ Você foi tão bem na prova! Tirou um zero incrível! 

Entendendo o recado 

Meu terapeuta disse: 

‒ Escreva cartas para as pessoas que odeia e as queime. 

‒ Fiz isso, mas agora não sei o que fazer com as cartas... 

Coisa estranha... 

‒ Senhor, algo de muito estranho está acontecendo aqui. Há dois dias eu deixei o meu desodorante em cima da cama e quando eu fui pegá-lo ele tinha sumido. 

Ontem eu deixei as minhas meias no banheiro e elas também sumiram. Estou com uma sensação estranha. Isso está me incomodando demais. Disse o detento. 

‒ Sensação estranha! Qual? Perguntou o agente penitenciário. 

‒ Acho que há ladrões aqui... 

Constatação 

Antes das eleições os candidatos têm muitos predicados, mas é depois que se conhece o sujeito. 

Receita infalível 

‒ Doutor, como eu faço para emagrecer? 

‒ Basta a senhora mover a cabeça da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. 

‒ Quantas vezes, doutor? 

‒ Todas as vezes que lhe oferecerem comida. 

Pedido estranho 

− Fiquei sabendo que você esta fazendo anos? 

− Sim, é verdade. 

− Faz um redondinho e bem fechadinho pra mim! 

Sapo curioso 

O sapo foi consultar uma cartomante e assim que ela distribuiu as cartas sobre a mesa, profetizou: 

− Vejo uma moça loira, muito bonita e inteligente, querendo saber tudo sobre você... 

− Croac! Quando e onde eu vou conhecer essa gatinha? 

− Semestre que vem, na aula prática de Biologia! 

Posição incômoda 

Uma senhora, ao passar por exames de rotina com o ginecologista, fez a seguinte queixa. 

- Doutor, todas as vezes que faço sexo com meu marido, na posição eu ficando de ladinho, não sinto nenhum prazer... 

O médico orientou:

- Pois então, minha senhora, basta não ficar nessa posição!

- Doutor, mas se eu não ficar de ladinho, não consigo digitar meu celular... 

Vizinha safada 

Minha maravilhosa vizinha bateu na minha porta, eu abri e ela me disse: 

- Poxa, cheguei agora de um dia louco no trabalho, estou com uma vontade danada de me divertir, de me embebedar, de fazer sexo a noite toda... Você já está com algum programa para esta noite? 

Respondi, cheio de interesse: 

- Hoje, ainda não! 

- Então, será que você poderia ficar com o meu cachorro?

sexta-feira, 18 de abril de 2025

Uma cena emocionante

 

Fui à padaria agora há pouco, só pra comprar um café e um pão de queijo… e saí de lá com o coração apertado, tentando segurar o choro. 

Na minha frente, na fila, tinha um cara de mochila, roupa simples, bem tranquilo. Mas o que me chamou atenção mesmo foi o senhor ao lado dele… um morador de rua. Estava quietinho, de cabeça baixa, mas o rapaz fazia questão de conversar com ele, olhar nos olhos, como se fossem velhos amigos. 

Quando chegou a vez deles, o cara pediu dois cafés, dois pães de queijo, e ainda escolheu um salgado a mais. Pagou tudo sorrindo, como se fosse a coisa mais normal do mundo. E era, né? Ou pelo menos, deveria ser. 

Foi aí que vi a tatuagem no braço dele, bem visível, em letras fortes: 

“Aprendi a ser homem com meu pai… que é uma mulher.” 

Confesso que a curiosidade falou mais alto. Na saída, tomei coragem e perguntei a ele sobre a tatuagem. 

Ele sorriu, olhou pro senhor do lado, e disse com uma voz firme, mas cheia de emoção: 

‒ Foi minha mãe quem me criou. Ela fazia papel de tudo: pai, mãe, herói, amiga… Ensinou-me a respeitar, a cuidar do próximo e a nunca medir ninguém pela aparência. Hoje, ela não está mais aqui, mas tudo que ela plantou em mim… está vivo. E eu só estou retribuindo um pouquinho do que recebi dela. 

Gente… eu saí de lá chorando. 

Num mundo tão apressado e frio, ver esse tipo de amor, de respeito e de humanidade… deu-me um nó na garganta. 

Talvez, a gente não precise de tanto para fazer a diferença na vida de alguém. Às vezes, um pão de queijo, um café quente… e um pouco de empatia já bastam. 

(De Pensamentos, poesia e literatura)


Bolinhas de vidro

 Ivan Carvalho

Meu filho, como todos, teve aquela fase em que a criança pergunta tudo: 

‒ Por que o céu é azul? 

‒ De onde vem o vento? 

‒ O Sol não se molha no mar? 

E por aí vai... Essa fase é longa e as perguntas vão mudando um pouco, entrando em detalhes. Na época era preciso ter paciência. Hoje tenho saudade. 

Certo dia, motivado, talvez, por uma daquelas discussões infantis, tipo meu pai é melhor que teu; o meu é detetive e o teu é despachante, etc... me veio com uma indagação embaraçosa: 

‒ Pai, tu já foi bom no futebol? 

Nessas horas a gente tosse, olha o relógio, espera que o telefone toque, mas nada vai adiantar. O filho não vai sair dali sem uma resposta. 

‒ Bem... Pra ruim eu não servia, joguei no time do bairro, era o segundo ou terceiro a ser escolhido na Educação Física, mas daí a dizer que fui bom... dei pro gasto. 

Você espera que a resposta seja satisfatória e encerre por aí o assunto. Engano. Um filho, empenhado em competir com os colegas, não desiste assim tão fácil. 

‒ Afinal, pai, tu foi bom em alguma coisa? 

É preciso, nessas circunstâncias, uma resposta firme, categórica, toda a tua reputação de pai está em jogo. Tive algum sucesso no vôlei, fui jogador do Grêmio Náutico Gaúcho. Mas era necessário uma afirmação calcada em alguma prova, sabe como é, criança com o perguntador ligado. Súbito tive a lembrança salvadora: 

‒ Bolinha de gude! Cara!...  Eu fui campeão de bolinha de gude! 

Meu filho é de uma geração que ainda conheceu bolinha de gude. Até tinha algumas. Mas me olhou como se aquela fosse uma glória bastante duvidosa: 

‒ Campeão é? Tem taça, faixa, medalha? 

‒ Taça eu não tenho, era jogo de rua, se media o sucesso pelo número de bolinhas ganhas. E eu ganhei um bocado. Mas vamos qualquer dia lá na vó, que eu te mostro um baita saco de bolita, que eu acho que ainda ela tem guardado. 

Pensei que ele esqueceria, mas me cobrou de irmos. O tal saco não existia mais. Restava uma lata de leite ninho, daquelas grandes, cheia. Mesmo assim era uma quantidade considerável que derramei em cima da cama. Pela qualidade, ali estavam as melhores. Talvez eu mesmo tenha feito seleção e guardado aquelas, depois esquecido. Identifiquei as minhas “jogas”, bolinhas especiais usadas pelo jogador. A principal era de osso, com alma de metal e aço suponho. Lembro perfeitamente o dia em que a adquiri, numa troca por 200 bolinhas em bom estado, com um cara que morava na Rua Landell de Moura. Era uma peça perfeita, no tamanho, no peso, na superfície lisa e resistente de cor bege fosco. Joguei com ela desde a aquisição até o que poderíamos chamar de “encerramento de carreira”. 

Mas estavam ali, espalhadas, bolinhas de todos os tipos: Umas de aço inoxidável, de vários tamanhos, normalmente tiradas de rolamentos. As mais bonitas, para mim, eram as de louça ágata (que chamávamos de águida), de cores vivas e superfície brilhante, parecendo uma cobra coral. Existiam as transparentes, com figuras retorcidas e coloridas, como flores suspensas no seu interior. Outras totalmente translúcidas, pequenas bolas de cristal. As mais comuns eram azuis com uma ou duas listras brancas em um dos lados. Também variavam os tamanhos, desde os “piolhinhos”, pouco maiores que uma ervilha, até os “bochões” que podiam ter o tamanho de uma ameixa. 

Não sei que fim levaram essas bolinhas. Levamos para casa, mas acho que a lata se perdeu em uma mudança. Meu filho ficou razoavelmente impressionado, principalmente quando garanti que nunca na minha vida eu havia comprado uma só bolinha, o que era verdade, como atestava meus familiares. Todas eu havia ganho na rua, de pés descalços, com saquinho de pano amarrado na cintura e uma proteção de lã nas juntas inferiores dos dedos da mão direita. 

Pena que a lata tenha se extraviado. Agora que meu filho é pai também e meus netos são as coisas mais lindas do mundo. Certamente não irão se interessar por bolinhas de vidro. Talvez um jogo virtual de caça bolinhas, coisa assim. Mas bem que poderiam apreciar aquelas coisas estranhas, de serventia misteriosa, que seu avô ganhou nas ruas sujando os joelhos, quando, por incrível que pareça, era criança.

quinta-feira, 17 de abril de 2025

De Gramática e de Linguagem

 

E havia uma gramática que dizia assim:

“Substantivo (concreto) é tudo quanto indica

Pessoa, animal ou cousa: João, sabiá, caneta”.

Eu gosto é das cousas. As cousas, sim!...

As pessoas atrapalham. Estão em toda parte. 

Multiplicam-se em excesso.

As cousas são quietas. Bastam-se. 

Não se metem com ninguém.

Uma pedra. Um armário. Um ovo. (Ovo, nem sempre,

Ovo pode estar choco: é inquietante...)

As cousas vivem metidas com as suas cousas.

E não exigem nada.

Apenas que não as tirem do lugar onde estão.

E João pode neste mesmo instante vir bater à nossa porta.

Para quê? não importa: João vem!

E há de estar triste ou alegre, reticente ou falastrão,

Amigo ou adverso... João só será definitivo

Quando esticar a canela. Morre, João...

Mas o bom, mesmo, são os adjetivos,

Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto.

Verde. Macio. Áspero. Rente. Escuro. Luminoso.

Sonoro. Lento. Eu sonho

Com uma linguagem composta unicamente de adjetivos

Como decerto é a linguagem das plantas e dos animais.

Ainda mais: eu sonho com um poema

Cujas palavras sumarentas escorram

Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,

Um poema que te mate de amor

Antes mesmo que tu lhe saibas o misterioso sentido:

Basta provares o seu gosto... 

Mário Quintana 

(1906-1994) 

Em: “Novos Poemas” (1966) 


Como se aprende a estudar?

 (fragmento)*

É importante saber que também se aprende a estudar lendo. No entanto, se buscarmos em nossa memória, dificilmente nos lembraremos de aulas em que nos ensinaram a como fazer. 

Afinal, como grifar um texto, organizar uma anotação, produzir resumos, fichamentos, resenhas, esquemas, ler um gráfico ou um mapa, apreciar uma imagem etc.? Na maioria das vezes, esses procedimentos de estudo são solicitados, mas não são ensinados. Por esse motivo, nem sempre os utilizamos adequadamente ou entendemos sua importância para nossa aprendizagem. 

Aprender a estudar nos faz tomar gosto pelo estudo. Quando adquirimos este hábito, a atitude de sentar-se para ler e estudar os textos das mais diferentes disciplinas, a fim de aprimorar os conhecimentos que já temos ou buscar informações, torna-se algo prazeroso e uma forma de realizar novas descobertas. E isso acontece mesmo com os textos mais difíceis, porque sempre é tempo de aprender. 

Na hora de ler para aprender, todas as nossas experiências de vida contam muito, pois elas são sempre o ponto de partida para a construção de novas aprendizagens. Ler amplia nosso vocabulário e ajuda-nos a pensar, falar e escrever melhor. 

Além disso, quanto mais praticamos a leitura e a escrita, desenvolvemos melhor essas capacidades. Para isso, conhecer e utilizar adequadamente diferentes procedimentos de estudo é fundamental. Eles lhe servirão em uma série de situações, dentro e fora da escola, caso você resolva prestar um concurso público, por exemplo, ou mesmo realizar alguma prova de seleção de emprego. 

Por todas essas razões, os procedimentos de estudo e as oportunidades de escrita são priorizados nos materiais, que trazem, inclusive, seções e dois vídeos de Orientação de estudo. 

Por fim, é importante lembrar que todo hábito se desenvolve com a frequência. Assim, é essencial que você leia e escreva diariamente, utilizando os procedimentos de estudo que aprenderá e registrando suas conclusões, observações e dúvidas.

 *******

*Parte do livro “Língua Portuguesa”, CEEJA. 

P.S. No meu tempo de magistério, quando lecionava Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, notava que as melhores redações eram quase sempre de alunas que, casualmente, tinham o costume de registrarem suas emoções em um diário. Ali, sem se preocuparem com a gramática, descreviam, pelas palavras, suas angústias sentimentais. Com o tempo de aprendizado, iam melhorando os aspectos gramaticais. O hábito de escrever era o aspecto fundamental do aprendizado.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Humor político e inteligente

 

Numa reunião de conspiradores, traça-se o plano para a tomada do poder e a salvação nacional. Um dos conspiradores tira um papel do bolso e começa a ler um roteiro para o movimento. 

– Anunciamos para a nação que era preciso dar um basta à anarquia, ao caos econômico, à inflação desenfreada, à corrupção, ao nosso descrédito internacional. 

– Isso. 

– Dizemos que as donas de casa, com suas panelas vazias mostraram o caminho a seguir, com Deus, pela liberdade e a propriedade. 

– Grande. 

– Instalamos um marechal no poder e... 

– Espera aí. Não existem mais marechais. 

– Bom. Isso a gente vê depois. Instalamos um militar na Presidência com o compromisso de sanar as finanças, cassar os direitos políticos de todos que criaram esta situação lamentável, reprimir a subversão, controlar os sindicatos, censurar a imprensa... 

– Espere. Esse programa está me lembrando alguma coisa... Você tem certeza que não está lendo o papel errado? 

– É mesmo! Estou lendo o roteiro para a revolução de 64! 

– Então cancela. Nós sabemos no que deu aquilo. Anarquia, caos econômico, inflação desenfreada, corrupção, descrédito internacional... E panelas vazias. 

– Bem que eu notei que o papel estava meio amarelado.

(Texto de Luis Fernando Veríssimo retirado da revista Veja) 

* E quase aconteceu em 8 de janeiro de 2023... 

“Os cães ladram, e a caravana passa...” 

(Ditado árabe)

terça-feira, 15 de abril de 2025

Contos de Machado de Assis

 

Biografia

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 1839, no morro do Livramento, Rio de Janeiro. De origem humilde, mestiço, começou a ganhar a vida como aprendiz de tipógrafo. Pouco se sabe de sua infância. Acredita-se que tenha frequentado, por algum tempo, a escola pública de primeiras letras. A realidade, porém, é que Machado de Assis foi sempre um autodidata.

Em 1869, casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novaes, que influenciou muito sua carreira. Ocupou vários cargos públicos e, juntamente com outros intelectuais, fundou a Academia Brasileira de Letras, sendo eleito seu presidente. 

Bibliografia

Poesia: Crisálidas (1864); Falenas (1870); Americanas (1875); Poesias Completas (1901).

Romance: Ressurreição (1872); A Mão e a Luva (1874); Helena (1871); Iaiá Garcia (1878); Memórias Póstumas de Brás Cubas  (1881); Quincas Borba (1891); Dom Casmurro (1900); Esaú e Jacó (1904); Memorial de Aires (1908). 

Conto: Contos Fluminenses (1870); Histórias da Meia-noite (1873); Papéis Avulsos (1882); Histórias Sem Data (1884); Várias Histórias (1896); Páginas Recolhidas (1899); Relíquias da Casa Velha (1906). 

Escreveu ainda teatro, crônica e crítica. 

O Conto Machadiano

Machado de Assis é autor de quase duzentos contos, o que o situa – pela quantidade do que escreveu – entre os melhores contistas mundiais. Houve também uma evolução do escritor a partir de suas histórias românticas, leves, para histórias mais densas, mais intrigantes.

A construção de um conto é, com certeza, muito mais difícil do que a construção de um romance, porque o conto: 

► é uma narrativa curta e deve prender a atenção do leitor; 

► deve ter um só conflito e este tem de ser muito interessante; 

► deve conduzir o leitor para um único efeito, provocando-lhe tensão na leitura; 

► deve manter um perfeito equilíbrio narrativo sempre; 

► trabalha com poucas personagens, em tempo exíguo, em pequenos espaços. 

Nesse sentido, Machado de Assis foi um contista extraordinário, pois soube manejar as regras do conto como ninguém. 

Estrutura dos Contos

 Foco Narrativo 

Dos sete contos selecionados abaixo, um deles apresenta foco narrativo de primeira pessoa, técnica em que Machado de Assis sempre se revelou exímio: Missa do Galo.  Outro, não há narrador: Teoria do Medalhão. Os demais apresentam foco narrativo de terceira pessoa: A Cartomante, Pai contra Mãe, Um Homem Célebre, Cantiga de Esponsais e O Espelho; embora nesse último, a partir do momento em que se insere a narrativa encaixada de Jacobina, prevalece o discurso em primeira pessoa. 

Tempo 

Vale-se do tempo cronológico (uma noite, dia do aniversário do filho, época da escravidão,...). No entanto, em O Espelho, encontramos um trabalho interessante sobre o tempo. A narrativa apresenta a sequência de ações cronologicamente, mas fundamenta com arte como se processa no indivíduo a ocorrência e a sensação do tempo psicológico. 

Espaço 

Machado, na construção do espaço em seus contos, age como se fosse um cenógrafo moderno, que apenas sugere o cenário com poucos elementos, somente aqueles indispensáveis para a ação e para que o espectador possa imaginar o local físico em que ela acontece. 

Personagens 

É na construção das personagens que o escritor dedica sua maior atenção, reunindo um a um seus pequenos gestos, seus mínimos pensamentos, suas contradições até que seu retrato seja patenteado ao leitor. 

Estilo de Época

Entre as mais notáveis características desse estilo de época podemos mencionar a não idealização das personagens. Agora, podemos em uma narrativa encontrar personagens vulgares, com defeitos e imperfeições que estamos acostumados a ver nas pessoas que nos rodeiam. O materialismo e o anticlericalismo são comuns na maioria dos escritores. A temática é sempre contemporânea, evitando-se o medievalismo, o passado histórico. Em vez de valorizar as peripécias, a ação exterior, o escritor realista desenvolve uma maior preocupação com a ação interior, com a análise psicológica. O enredo torna-se moroso, mas é valorizado por uma grande preocupação formal.

Racionalismo, objetividade, visão crítica são posturas fundamentais para todo artista que pretenda ser realista

Problemática e Principais Temas

O conto machadiano segue a tendência dos romances, mantém aquilo que chamamos de microrrealismo, ou seja, uma tendência à observação das minúcias psicológicas das personagens, uma constante tentativa de desvendar a alma humana, uma busca incansável de revelar o âmago dos gestos e atitudes que produzem essas criaturas dentro da sociedade. Por essa trilha desfilam certas figuras recorrentes, tais como o avaro, o enganador ou parlapatão, ou a mulher indecisa. Seu intuito não é aceitar qualquer idealização ou sentimentalismo, mas revelar o âmago, o íntimo mais opaco. Assim a verdade transparece, os defeitos se revelam, transparentes e dolorosos, como marcas de sua escritura pessimista. É a partir desses humanos defeitos que retiramos alguns dos principais temas que cercam alguns dos sete contos escolhidos abaixo.

A sedução amorosa e a insegurança dos envolvidos, marcados estes pelo clima de dúvida e de suspeita, ficam patentes no conto que pode ser considerado uma de suas obras-primas: Missa do Galo. 

Em O Espelho, que pode ser considerado como um conto-teoria, Machado discorre sobre a influência do exterior (no caso um cargo) na alma de um indivíduo. Sem dúvida, é a representação do mundo da aparência (alma exterior) interferindo no mundo íntimo da personagem (alma interior). 

Adultério torna-se temática única no conto tradicional: A Cartomante.

Pai contra Mãe 

Narrado em 3° pessoa, personagens: Cândido Neves, Clara e Arminda. Época da escravidão. Temática: Cândido Neves era caçador de escravos fugitivos e estava sem dinheiro para sustentar a esposa e o filho pequeno. Decide entregar a criança à Roda dos Enjeitados, mas encontra uma escrava grávida, Arminda, e consegue prendê-la. Cândido agora pode sustentar os seus, mas a escrava é espancada pelo seu senhor e sofre um aborto. 

Teoria do Medalhão 

Não há narrador, personagens: Pai e filho.  No dia do aniversário de maioridade do filho, o pai aconselha o filho a adotar a profissão de Medalhão, repetindo o que todos já sabem, fugindo a tudo o que possa cheirar reflexão e originalidade. 

Um Homem Célebre 

Narrado em 3° pessoa, personagem: Pestana, cidade: Rio de Janeiro, Imperial. Temática: Pestana era um grande compositor de polcas, mas almejava ser compositor de um gênero musical mais nobre. Não se contentando com sua condição, termina a vida na miséria. 

A Cartomante 

Narrado em 3° pessoa. Personagens: Vilela, Rita e Camilo, cidade: Rio de Janeiro, Imperial. Temática: Focaliza um triângulo amoroso entre dois amigos e a esposa de um deles. A cartomante determina a tensão existente na relação. A traição é descoberta a despeito das “premonições” da cartomante. 

Cantiga de Esponsais 

Narrado em 3° pessoa. Personagem: Mestre Romão, cidade: Rio de Janeiro, final do século XIX. Temática: Mestre Romão, apesar de bom conhecedor, era incapaz de compor alguma peça, por menor que fosse. Ele sentia o impulso interior, mas não conseguia exprimi-lo em linguagem musical. 

Missa do Galo 

Narrado em 1° pessoa. Personagens: Nogueira e Conceição. Cidade: Rio de Janeiro, Imperial. Sala da casa de Conceição, próximo à meia-noite de Natal. Temática: O narrador (Nogueira) lembra, muitos anos mais tarde, uma conversa que teve com Conceição. O clima é, aparentemente, de sedução. Nogueira não sabe se Conceição pretendia seduzi-lo ou queria apenas conversar. 

O Espelho 

Narrado em 1° e 3° pessoa. Personagem: Jacobina, o alferes. Local: se passa no Rio de Janeiro, no bairro de Santa Teresa, e narra um acontecimento do passado. O cenário do conto é a casa do sítio da tia Marcolina, que fica “a muitas léguas” da vila onde Jacobina vive.  Temática: Mostra o confronto aparência (alma exterior) versus essência (alma interior). Jacobina, o alferes, somente vê seu reflexo no espelho quando está fardado.