quinta-feira, 17 de julho de 2025

Arroz de Carreteiro

 Jayme Caetano Braun

Nobre cardápio crioulo das primitivas jornadas,

Nascido nas carreteadas do Rio Grande abarbarado,

Por certo nisso inspirado, o xiru velho campeiro

Te batizou “Carreteiro”, meu velho arroz com guisado.

 

Não tem mistério o feitio dessa iguaria bagual,

É charque ‒ arroz ‒ graxa ‒ sal

E água pura em quantidade.

Meta fogo de verdade na panela cascurrenta.

Alho ‒ cebola ou pimenta, isso é conforme a vontade.

 

Não tem luxo ‒ é tudo simples, pra fazer um carreteiro.

Se fica algum “marinheiro” de vereda vem à tona.

Bote ‒ se houver ‒ manjerona, que dá um gostito melhor

Tapeando o amargo do suor que às vezes, vem da carona.

 

Pois em cima desse traste de uso tão abarbarado,

É onde se corta o guisado ligeirito ‒ com destreza.

Prato rude ‒ com certeza,

Mas quando ferve em voz rouca

Deixa com água na boca a mais dengosa princesa.

 

Ah! Que saudades eu tenho

dos tempos em que tropeava

Quando de volta me apeava

Num fogão rumbeando o cheiro

E por ali ‒ tarimbeiro, cansado de bater casco,

Me esquecia do churrasco saboreando um carreteiro.

 

Em quanto pouso cheguei de pingo pelo cabresto,

Na falta de outro pretexto indagando algum atalho,

Mas sempre ao ver o borralho onde a panela fervia

Eu cá comigo dizia: chegou de passar trabalho.

 

Por isso ‒ meu prato xucro, eu me paro acabrunhado

Ao te ver falsificado na cozinha do povoeiro

Desvirtuado por dinheiro a tradição gauchesca,

Guisado de carne fresca, não é arroz de carreteiro.

 

Hoje te matam à míngua, em palácio e restaurante,

Mas não há quem te suplante,

Nem que o mundo se derreta,

Se és feito em panela preta, servido em prato de lata

Bombeando a lua de prata sob a quincha da carreta!

 

Por isso, quando eu chegar,

Nalgum fogão do além-vida,

Se lá não houver comida já pedi a Deus por consolo,

Que junto ao fogão crioulo,

Quando for escurecendo, meu mate amargo sorvendo,

A cavalo nalgum tronco, escute, ao menos, o ronco

Dum “Carreteiro” fervendo. 

******* 

P.S. Escute, na internet, a declamação desse belo poema gauchesco na voz do seu autor: Jayme Caetano Braun.

30.01.1924 - 08.07.1999

Estátua do poeta Jayme Caetano Braun é entregue revitalizada no Parque Harmonia, em Porto Alegre, RS.




As abelhas

 

Os Celtas acreditavam que as abelhas eram intermediárias entre este mundo e o próximo. 

Eles acreditavam que as abelhas poderiam ajudar a levar mensagens deste mundo para o mundo dos mortos, auxiliando assim, na comunicação com seus entes queridos. 

As abelhas eram respeitadas por suas habilidades, tanto que havia até documentos legais criados com o propósito expresso de proteger quaisquer práticas relacionadas com abelhas. 

Você sabia? 

► Existem enzimas vivas no mel. 

► Quando em contacto com uma colher de metal, estas enzimas morrem. 

► A melhor maneira de comer mel é com uma colher de madeira ou plástico. 

► O mel contém uma substância que ajuda o seu cérebro a funcionar melhor. 

► O mel é um dos alimentos raros na Terra que sozinho pode sustentar a vida humana. 

► Uma colher de chá de mel é suficiente para sustentar a vida humana por 24 horas. 

► Própolis, produzido por abelhas, é um dos antibióticos naturais mais poderosos. 

► O mel não tem data de validade. 

►Os corpos dos grandes imperadores foram enterrados em caixões dourados e cobertos de mel para evitar a putrefação. 

► O termo “lua de mel” vem da tradição dos recém-casados consumirem mel para a fertilidade após o casamento. 

►Uma abelha vive menos de 40 dias, visita pelo menos 1.000 flores e produz menos de uma colher de chá de mel durante a sua vida. 

► Uma das primeiras moedas tinha um símbolo de abelha. 

► Profunda gratidão à humilde Abelha! 

(Pagan Norse & Heathens II)

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Coloque a vírgula ou ponto-e-vírgula

 Onde for necessário


01.   O homem sonha com a glória ao passo que a mulher acorda para o amor.


02.   Os homens envelhecem mas não se tornam maduros.


03.  Devemos amar as árvores como amamos a nossa existência porque amá-las é viver.


04. Umas dão-lhe flores que encantam a vista perfumam o ar e lhe servem de adorno outras com suas folhas e raízes fornecem-lhe preciosos medicamentos ou madeira para construção dos móveis da casa.


05. Um país sem árvores é um deserto onde a existência se torna difícil insuportável quase impossível.


06. O cavalo sertanejo é esguio sóbrio pequeno rabo compridíssimo crinas grandes capaz de resistir a todas as privações a todos os serviços e a todos os esforços.


07. A juventude embora ninguém a combata acha em si própria o inimigo a combater


08.   O poeta é o homem que dá o rico é o homem que toma.


09.   A prece do pobre é um pedido a do rico um recibo.


10.   Se vossos pais são bons amai-os se são maus aturai-os.


11.  Uma mulher formosa deleita os olhos uma mulher boa deleita o coração. A primeira é uma joia a segunda é um tesouro fabuloso.


12.   O talento se educa na calma o caráter se educa na torrente do mundo.


13.  Antes de partires para a guerra reza uma vez antes de embarcares para o mar reza duas vezes antes de casares reza três vezes.


14.   O homem é ciumento quando ama a mulher o é sem amar.


15.   Fazendo o bem nutres a planta divina da humanidade produzindo o belo espalhas as sementes do que é divino.


16.   Mães sois vós que tendes nas mãos a salvação do mundo.


17.   As árvores os animais os homens parecem renascer na primavera.


18.   Ide correi voai que por vós chama a pátria a honra a glória.


19.   Damon disse o carrasco é hora de seguires.


20.   Falou bem logo nada teremos a argumentar.


21.   A Lua frio planeta não tem luz própria.


22.   Levar uma pedra do Rio a São Paulo uma andorinha só não faz verão.


23. Um fazendeiro tinha um bezerro e a mãe do fazendeiro era também o pai do bezerro.


24.  Meu amigo disse o rapaz eu não te quero mal por isso.


25.  José chegou às 8 horas e Antônio às 10.


26. A partir das 11 horas da manhã quando caía uma garoa na Cidade uma chuva de papel picado começou a inundar as ruas do centro você sabia Ana.


27.   Comprei lápis borracha cadernos canetas tintas.


28.   Porto Seguro 20 de janeiro de 1980.


29.   Ontem Marina aliás Maria convidou-me para jantar.


33.  Internacional grande clube gaúcho conquistou muitos campeonatos.


31.   Maria toma remédio e sua  Mãe diz ela até parece veneno!


32.   Irás voltarás nunca morrerás nas armas!


33.   Irás voltarás nunca morrerás nas armas!

Gabarito

01.   O homem sonha com a glória; ao passo que a mulher acorda para o amor.


02.   Os homens envelhecem, mas não se tornam maduros.


03.   Devemos amar as árvores como amamos a nossa existência, porque amá-las é viver.


04. Umas dão-lhe flores que encantam a vista, perfumam o ar e lhe servem de adorno; outras, com suas folhas e raízes, fornecem-lhe preciosos medicamentos ou madeira para construção dos móveis da casa.


05. Um país sem árvores é um deserto onde a existência se torna difícil, insuportável, quase impossível.


06.  O cavalo sertanejo é esguio, sóbrio, pequeno, rabo compridíssimo, crinas grandes, capaz de resistir a todas as privações, a todos os serviços e a todos os esforços.


07.   A juventude, embora ninguém a combata, acha em si própria o inimigo a combater.


08.   O poeta é o homem que dá; o rico é o homem que toma.


09.   A prece do pobre é um pedido; a do rico, um recibo.


10.   Se vossos pais são bons, amai-os; se são maus, aturai-os.


11.  Uma mulher formosa deleita os olhos; uma mulher boa deleita o coração. A primeira é uma joia; a segunda é um tesouro fabuloso.


12.   O talento se educa na calma; o caráter se educa na torrente do mundo.


13.   Antes de partires para a guerra, reza uma vez; antes de embarcares para o mar, reza duas vezes; antes de casares, reza três vezes.


14.   O homem é ciumento quando ama; a mulher o é sem amar.


15.   Fazendo o bem, nutres a planta divina da humanidade; produzindo o belo, espalhas as sementes do que é divino.


16.   Mães, sois vós que tendes nas mãos a salvação do mundo.


17.   As árvores, os animais, os homens parecem renascer na primavera.


18.   Ide, correi, voai que por vós chama a pátria, a honra, glória.


19.   Damon, disse o carrasco, é hora de seguires.


20.   Falou bem, logo nada teremos a argumentar.


21.   A Lua, frio planeta, não tem luz própria.


22. Levar uma pedra do Rio a São Paulo, uma andorinha só não faz, verão. (do verbo ver)


23. Um fazendeiro tinha um bezerro e a mãe (a vaca); do fazendeiro era também o pai do bezerro (o touro).


24.  Meu amigo, disse o rapaz, eu não te quero mal por isso.


25.   José chegou às 8 horas; e Antônio, às 10.


26. A partir das 11 horas da manhã, quando caía uma garoa na Cidade, uma chuva de papel picado começou a inundar as ruas do centro, você sabia, Ana?


27.   Comprei lápis, borracha, cadernos, canetas, tintas.


28.   Porto Seguro, 20 de janeiro de 1980.


29.   Ontem, Marina, aliás, Maria convidou-me para jantar.


30.  Internacional, grande clube gaúcho, conquistou muitos campeonatos.


31.   Maria toma remédio e sua (do verbo suar). Mãe, diz ela, até parece veneno!


32.    Irás, voltarás, nunca morrerás nas armas! (volta vivo)


33.   Irás, voltarás nunca, morrerás nas armas! (volta morto)


Recado a um jovem marginal

 Mano 

Composição de Rosil Soares

Mano! Onde você anda com essa cabeça?

Melhor parar antes que algo lhe aconteça.

Estatistacamente, eu sei no que vai dar.

É por isso eu vim lhe aconselhar:

 

Mano! Larga esse fuzil e vem falar comigo.

Eu não queria que levasse vida de bandido.

Pra que tanta pistola, granada e AK?

Tô com uma vontade de chorar...

 

Meu mano! Minha mãe mandou um recado pra você,

Está morrendo de saudade

E pediu pra lembrar que aos 10 anos de idade,

Você prometeu que nunca iria nos magoar...

 

O morro respeita sua condição,

Mas aqui quem fala é a voz do coração!

Você pode estar do lado errado, discriminado.

Mas é meu mano!

 

Pode ser bandido e esquecer do seu passado.

Mas é meu mano!

Pode ser taxado de malandro, inconsequente,

Mas é meu mano!

Sangue do meu sangue vacilou, me trouxe a dor,

Mas é meu mano... 

P.S. Escute essa música na internet na voz de Reinaldo.


segunda-feira, 14 de julho de 2025

Alma de pirilampo

 Paulo Mendes

Éramos poucos, mas éramos muitos. Uns cinco ou seis, por vezes mais alguns, mas hoje, passado tanto tempo, parece que era um batalhão. Vivíamos juntos embora nossas casas não ficassem próximas naquele rincão de fim de mundo, sem energia elétrica, sem água tratada, sem escolas, sem saneamento básico. Quem olhasse de longe para aqueles guris diria “não vão longe”. Porém, desafiamos o impossível, crescemos estudando em livros velhos, jornais descartados, nas ondas do rádio. Havia algo mágico, passávamos tudo que sabíamos uns aos outros, irmanados, quando um aprendia, ensinava o vizinho, o colega, um outro “repolho” como nos chamavam. Depois crescemos e, pasmem, todos se formaram ou aprenderam profissões. Alguns associaram a milagre, mas eu sei bem o que foi. Éramos sonhadores e lutamos muito, dando faconaços no escuro. 

Sim, no escuro. No verão, brincávamos sob o luar, na frente do bolicho, e, por isso, fomos aprendendo a ter olhos de cavalo, de enxergar até no escuro. Cegados pela escuridão, ampliamos a visão das coisas e dos fatos. Nas noites sem claridade corríamos atrás dos vagalumes, colocávamos os insetos em garrafas vazias e criávamos lanternas. E brincamos muito. Sonhamos com antigas campereadas, entreveros, tropeadas e rondas sob o luar. Uma vez inventamos uma aventura com cavalos de taquara, com lanternas na mão. Gente da cidade viu isso e começou a dizer que éramos pirilampos. Talvez, mas uma coisa é certa, éramos corajosos e a coragem é uma coisa que a vida pede para a gente. “Os vagaluma”, brincava seu Turíbio, o velho rabugento que vivia no bolicho reclamando de tudo. 

Tínhamos coração de pandorga e alma de pirilampo, tínhamos sentimentos e ações arrojadas para uns guris de uma campanha esquecida. Hoje, aqui onde estou, morando tão longe, recordo com saudade sentida daqueles dias e noites em que nada era ruim, nada nos preocupava, éramos tão aventureiros e destemidos porque éramos jovens. Éramos poucos, mas parecia sermos vários. Fazíamos campeonatos de pescaria, de pandorgas, de pealar terneiros, de caçadas de preás. Impressionante como mantínhamos uma organização em uma época sem celular. Mandávamos mensagens em todo lugar que fosse possível, recados uns aos outros, uma malha informativa que envolvia cachaceiros, tropeiros, motoristas, changueiros, irmãos, irmãs e primos. E tudo dava certo ao fim e ao cabo. Por vezes, iam bilhetes curtos e objetivos ou então uma visita para acertar uma atividade importante. 

Naquela época a impressão era de que os dias, noites e anos se demoravam a passar. As coisas escorriam lentamente como água da sanga, gelada, gambeteando entre pedras com musgo. Porém as coisas mudam. Teve um ano que veio tão ligeiro que nos levou para o quartel. Tínhamos ficado “de maior”, adultos. Foi quando nos dispersamos, um para cada lado, como vagalumes vagando na escuridão, fazendo novos amigos e vivendo a vida que continuava. Mas nunca foi a mesma. O tempo, um verdugo sem escrúpulos, nos afastou do rincão, mas quando nos víamos era uma festa. Aquele grupo se espatifou, uns morreram, outros sumiram na poeira da estrada, mas a luz dos pirilampos seguiu acesa. Esse lume nunca se extingue porque permanece em nosso âmago, nos internos do corpo, nas veias, couro e ossos. 

Seguiremos pirilampos, antigos luzeiros iluminando a estrada, a noite escura do povo do Sul. Ficaram gravados no meu coração alguns nomes, o Juca do Cerrito, o Clécio, o Lebrão, o Chupim, o Valter, o Botinha, o Mudinho, o Bibo, o Lampião, o Mamute, o Bila, o Chibo, o Carlinhos, o Marcelo, o Dado, o Luiz, o Aranha. 

Nas noites longas e frias desse inverno onde entardeço aos poucos, às vezes acordo sobressaltado, trançando recuerdos extraviados em algum socavão da memória. Lá estamos nós, de novo, de calças curtas e pés descalços, escaramuçando nas travessuras e traquinagens da infância. Nunca saberão nossos nomes, de onde éramos, mas estaremos voando na eternidade com fogueiras no peito. Por certo, misturados para sempre entre as estrelas. 

De Campereadas, Correio do Povo, 13 de julho de 2025.

domingo, 13 de julho de 2025

Dentro do carro

 Martha Medeiros

Conversa entre amigas íntimas sempre nos leva às farras dos nossos tempos de colégio. Daí que, dia desses, veio o assunto dos primeiros beijos: onde aconteciam? Existia uma situação recorrente? Várias. Durante uma caminhada na beira da praia. Numa festa que acabou dentro da piscina. Na porta do elevador. Na cozinha da mãe de alguém, durante um trabalho em grupo. Dificilmente se fugia ao clichê. Durante uma obturação dentária, na fila da comunhão e durante um assalto é que não ia rolar. Caso eu esteja sendo inocente, me conte tudo, quero detalhes. 

Então entrávamos na maturidade e, a partir daí, o primeiro beijo quase sempre acontecia dentro do carro, ao ser deixada em casa depois de um jantar, de um show ou onde quer que o casal estivesse antes. Perfeito: ambos pertinho um do outro, ninguém olhando, música tocando, enfim, passamos a vida assistindo a este momento-chave nas novelas, quase dá para imaginar as câmeras em volta e o diretor gritando: ação! 

Uma das cenas geniais de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, filme de Woody Allen, é quando ele convida a personagem de Diane Keaton para sair e, enquanto caminham pela calçada, durante um papo aceleradíssimo, ele estanca de repente e diz a ela: “Que tal se a gente se beijasse de uma vez para terminar com a tensão?”. Ela concorda, ele a beija por alguns segundos e então voltam a caminhar, prosseguindo a conversa do ponto onde haviam parado. Resolvido. 

O que pode ser mais potente do que um primeiro beijo? Há um clima no ar, mas vá saber, pode ser apenas delírio de uma das partes. Nada parece estar acontecendo, mas se estiver mesmo acontecendo, só passará a valer a partir do primeiro beijo. É o que irá transfigurar a cena. Se antes as vozes eram graves, suavizam. Se antes havia cerimônia, ela se desfaz assim que os lábios se desgrudam. Se antes eram apenas amigos, agora se instalou a indefinição. O primeiro beijo remete ao inicio de uma nova fase ‒ ou de fase nenhuma, pois tem isso também: se o beijo decepcionar, a fantasia termina ali mesmo. 

Quando se está no meio da rua, no meio da pista, no meio de um bloco de Carnaval, não dá tempo de pensar nisso tudo. Mas dentro de um carro, motor desligado, coração disparado, vem tudo à cabeça em um segundo: que lingerie estou usando? Quando foi a última depilação? Estarei preparada para mais um turning pont? Só conferindo. É fechar os olhos e se entregar ao desfecho habitual dos encontros às escuras. Poderá acontecer de tudo depois, inclusive nada. Não é assinatura de contrato. É só a vida amenizando o peso dos dias e lembrando que toda a relação adulta, não importa a idade que se tenha, sempre inicia com resgate adorável da adolescência. 

Do caderno donna de Zero Hora, julho de 2025. 


sábado, 12 de julho de 2025

Só não se fala de futebol-futebol

 Plínio Marcos

1 ‒ Lendo notícias, crônicas, reportagens, entrevistas com craques, técnicos e cartolas, assistindo a teipes pela televisão, ou escutando transmissões de futebol pelo rádio, a toda hora deparo com cronistas, narradores e repórteres conceituados, que, sem a mínima cerimônia, falam em futebol-competitivo, futebol-força, futebol-solidário, futebol-colorido, futebol-alegre, futebol-carrossel, futebol-sanfona, futebol-humilde, futebol-espetáculo, máquina de jogar futebol e até escutei, pálido de espanto, um locutor berrando com toda as forças de sua caixa de catarro, que estava vendo dois times que jogavam o futebol-rocambole. Por essa luz que me ilumina, até agora só não escutei ninguém dizer que assistimos ou que os clubes jogaram o futebol-futebol. 

(...) 

******* 

P.S. Parte da crônica de Plínio Marcos, na revista Veja, de 3 de dezembro de 1975.

Plínio Marcos de Barros (29.09.1935 - 19.11.1999) foi um escritor, autor, ator, diretor de teatro e jornalista brasileiro. Escreveu inúmeras peças de teatro, especialmente durante o regime militar.