domingo, 15 de março de 2026

Elegância insultuosa

 ou o Palavrão alternativo

Presença de espírito e sutileza transformam injúrias cabeludas em tiradas memoráveis. 

Fisiológico: 

Você é um esteatopígico. ► Cidadão que tem a bunda grande. 

Você está muito graveolento. ► Fedorento. 

Você é um ozostômico. ► Pessoa com mau hálito. 

Linguagem: 

Você é um enxacoco. ► Não fala bem uma língua estrangeira, inserindo palavras do próprio idioma numa frase em outra língua. 

Ele escreve bem, apesar de ser um epígono. ► Autor de obra sem inovações, que dilui ou copias outros autores. 

Não aguento mais esse vaníloquo. ► Que fala pelos cotovelos e não diz nada. 

Desvios de caráter

Ele é um tremendo ancípite. ► Que tem duas caras, falso, inconstante. 

Há muitos políticos ímprobos. ► Que não é probo. Desonesto. 

Para mim, você não passa de um janicéfalo. ► Pessoa de duas caras, pouco confiável. 

Na política há muito sicofanta. ► Delator, difamador. 

Todo milionário é um somítico. ► Avarento, sovina. 

Ele, no fundo no fundo, é um valdevino. ► Oportunista que vive à custa dos outros. 

Incompetência: 

Ele não faz nada certo, é um ababelado. ► Quem nunca termina o que começa, como os construtores da Torre de Babel. 

Não devia dizer, mas você é um acárpico. ► Pessoa incapaz de gerar frutos e produzir. 

Por ser jovem, ele ainda é um catecúmeno. ►- Funcionário recente e despreparado para as armadilhas do ambiente d trabalho. 

Burrice

Pelo que ele faz, para mim ele um acrânio. ► Sem cérebro. 

Essa loura é uma apedeuta. ► Ignorante. 

No fundo, todo eleitor é um patego. ► Pessoa simplória, simples. 

Aquele professor é um saberete. ►– Sabe-tudo, pretensioso. 

Na internet há muitos urumbebas. ► Otários. 

Equilíbrio mental: 

Acusam o ex-presidente de ser um abléptico. ► Que perdeu a visão das coisas, desequilibrado. 

Há muitos jovens destraquês por aí. ► Amalucados. 

Recebo muitos e-mails de pessoas presbiofrênicas. ► caducas que inventam histórias sem fundamentos. 

Pior é o internauta zuruó. ► Biruta. 

Chatice: 

Como você é acatruzo. ► Pentelho, chato, amolador. 

Também pudera, é filho de um acataléptico. ► Sujeito vacilante, burro.

E o irmão, então, não passava de um anopluro. ► Piolho. 

A irmã tinha pensamento anelídeo. ► Da família das minhocas e sanguessugas. 

Mas o avô, esse é era um cambrião. ► Um chato em alto grau. 

Vaidade: 

Elegante, sim, mas não passava de um especioso. ► Bonito por fora, feio por dentro. 

Ela quer parecer simples, mas no fundo é uma jactanciosa. ► Pessoa vaidosa. 

Rompi com ela, pois percebi que ela era inane. ► Pessoa frívola, vazia. 

Puxa-saquismo: 

Eu tinha um colega que era um grande janízaro. ► Protetor dos tiranos, que morre defendo o chefe. 

O ruim mesmo é o colega súcubo. ► Dominado, subalterno lambe-botas, o que se deita sob o outro. 

Mas o pior de todos é o colega tesserário. ► Aquele que fica entre o chefe e os subalternos, leva-e-traz que não manda, não decide, mas faz o que mandam. 

§ § § § §

 Adaptado do artigo A injustiça do insulto

de Luiz Costa Pereira Júnior

para a Revista Língua Portuguesa, número 5

sábado, 14 de março de 2026

Os sete pecados do troca-troca de letras

 Dad Squarisi

O número preferido da Bíblia? É o cabalístico sete. Ele representa a completude. Eis por que Deus criou o mundo em sete dias. Definiu sete pecados capitais. Enumerou sete virtudes. Expulsou sete demônios do corpo de Maria Madalena. Mandou que perdoássemos sete vezes 70. E contou a história de amores. É o caso da paixão de Jacob por Raquel. Ele serviu o pai da moça durante sete anos. Passado o tempo de servidão, cadê? Em vez da amada, recebeu a irmã. Não desanimou. Ofereceu outros sete anos de labor para ter a mulher querida. O drama do casal inspirou poetas e pintores. Entre eles, Camões. Eis o soneto:

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: ‒ Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

Entre dois amores

A língua aprendeu a manha de Labão. Oferece duas opções. A gente escolhe uma ou outra. Acerta sempre. É o caso de catorze ou quatorze. Ouro ou oiro. Loiro ou louro. Cota ou quota.

Diabete ou diabetes. Caminhante ou caminheiro. Mas há as que bancam o pai da bela. Fingem ter duas grafias, mas não têm. São sete.

Cinquenta

Desavisados pra lá de confiantes escrevem cincoenta. Bobeiam. A trissílaba, morta de rir, sai por aí cantando: “Enganei o bobo na casca do ovo”. Cruzes! Fuja da gozação. Guarde isto: cinquenta só tem uma forma.

Curinga

Você gosta de um baralhinho? Buraco, pôquer, mata-mata, sete e meio, tanto faz. Mas saiba: a carta de jogar se chama curinga, com u. Muitos, temerosos com a separação das sílabas, escrevem coringa. Ops! Com o, a palavra dá nome à vela de embarcação.

Boteco

Que tal beber umas e outras? Os belo-horizontinos adoram. A paixão é tanta que eles promovem o Festival do Boteco. Assim, com o. Escrever buteco? Nem pensar. Como o vocábulo não tem vez no dicionário, a festa desapareceria. Valha-nos, Baco!

Jabuticaba

Sabia? Jabuticaba só existe no Brasil. A jabuticabeira é generosa que só. Enche o tronco e os galhos com a frutinha gostosa. A gente começa a comer e não consegue parar. Que delícia! Ops! Escrever jaboticaba? Nãooooooooooooooooo! Dá indigestão.

Camundongo

O roedor esperto que faz estragos em armários e despensas? É ele mesmo, o camundongo. Assim, com u.

Tabuada

Aprender a tabuada é como aprender a conjugação verbal. Em ambos os casos, flexionam-se dois verbos. Um: repetir. O outro: decorar. Com um cuidado: tabuada vem de tábua - com u.

Mendigo, reivindicar

Leia as duas palavras em voz alta. Repita-as sete vezes. Guarde a posição do n. Muita gente muda a nasalzinha de lugar. Maltrata mentes e ouvidos. Olho vivo! Língua afiada!

Eureka!

 Martha Medeiros

Cada semana, uma novidade. A última foi que pizza previne câncer do esôfago. Acho a maior graça. Tomate previne isso, cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas não exagere... Diante dessa profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos. Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde. 

Prazer faz muito bem. Dormir me deixa 0 km. Ler um bom livro faz eu me sentir nova em folha. Viajar me deixa tensa antes de embarcar, mas depois eu rejuvenesço uns 5 anos. Voos aéreos não me incham as pernas, me incham o cérebro, volto cheia de ideias. 

Brigar me provoca arritmia cardíaca. Ver pessoas tendo acessos de estupidez me embrulha o estômago. Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano. E telejornais os médicos deveriam proibir ‒ como doem! 

Essa história de que sexo faz bem pra pele acho que é conversa, mas mal tenho certeza de que não faz, então, pode-se abusar. Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo faz muito bem: você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada. 

Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde. E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas, pior ainda. Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há tomate ou mozarela que previnam.

Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser excepcionalmente bom, uau! Cinema é melhor pra saúde do que pipoca. Conversa é melhor do que piada. Beijar é melhor do que fumar. Exercício é melhor do que cirurgia. Humor é melhor do que rancor. Amigos são melhores do que gente influente. Economia é melhor do que dívida. Pergunta é melhor do que dúvida. 

Tomo pouca água, bebo mais de um cálice de vinho por dia, faz dois meses que não piso na academia, mas tenho dormido bem, trabalhado bastante, encontrado meus amigos, ido ao cinema e confiado que tudo isso pode me levar a uma idade avançada. Sonhar é melhor do que nada. 

Montanha-Russa. L&PM Editores ‒ 2003

quinta-feira, 12 de março de 2026

Poema pornossério

 

Quer seja curto ou comprido,
Quer seja fino ou mais grosso,
É um órgão muito querido,
Por não ter espinha, nem osso.

De incalculável valor,
Ninguém tem um a mais,
E desempenha no amor,
Um dos papéis principais.

Quando uma dama lhe toca,
Ei-lo a pular com fervor,
Se for um rapaz, estremece,
Se for velho, tem menos vigor.

O seu nome não é tão feio,
Pois tem sete letrinhas só,
tem um R e um A no meio,
Começa em C e acaba em O.

Nunca se encontra sozinho,
Vive sempre acompanhado,
Por outros dois orgãozinhos,
Bem junto de si, lado a lado.

O nome destes, porém,
Não gera confusões,
Tem sete letras também,
Tem L e acaba em ÕES.

Pra acabar com o embalo,
E com as más impressões,
Os órgãos de que eu falo...
São o coração e os pulmões!
 


Você pensava que era o quê?

Ô, mente poluída!

Vai rezar, vai!

terça-feira, 10 de março de 2026

A maior agressão a um árbitro

 No Rio Grande do Sul

Esta é a imagem de um Gre-nal que foi realizado em 1977, na decisão do Gauchão, realizada no Estádio Olímpico do Grêmio.  O juiz era o Luiz Torres. Faltavam 5 minutos para terminar o jogo, que estava 1x0 para o time da casa. Uma parte da torcida do grêmio e do Internacional invadiu o campo e um torcedor do Inter, de calça de abrigo vermelho* agrediu pelas costas o árbitro** da partida. 

Na foto acima, vemos, de costas, o árbitro do jogo, Luiz Torres; o agressor: um torcedor do Inter, pois está de calça de abrigo vermelho; jogador que fala com o juiz: é atacante Escurinho; à esquerda: o técnico do Inter, Cláudio Duarte e, à direita, o preparador físico do Inter Gilberto Timm (1942-1999), com foto de Armênio Abascal Meireles, que morreu precocemente em um acidente de carro. 

Foto do jornal Zero Hora 

No dia 28 de setembro de 1977, o Grêmio vencia o Internacional no Estádio Olímpico pelo placar de 1 a 0 e, depois de oito anos, retomava a hegemonia do futebol gaúcho conquistando o Estadual. 

*  A foto original, que saiu no jornal, era em preto e branco, a calça do abrigo agressor poderia ter sido colorizada para dar a impressão o ato foi feito por um adversário do time do dono da casa? 

** Por incrível que pareça, o árbitro não saiu ferido dessa covarde agressão. 

O asno e o cavalo

 

Um tropeiro se pôs a caminho levando um cavalo e um asno para suas cargas. Durante o trajeto em estrada plana, o Asno suportou bem o peso que levava. 

Chegando à encosta da montanha, o Asno pediu ao Cavalo: “Se queres que eu sobreviva, toma parte da carga que eu vou levando eu não a suporto na subida”. O Cavalo recusou-se a ajudar. Pouco à frente, o Jumento perdeu o equilíbrio caindo em uma ribanceira e morreu. 

O tropeiro recolheu a carga do Asno mais a pele que retirou do mesmo e carregou tudo nas costas do Cavalo, seu único carregador. O Cavalo se lamentou: “Bem mereço o castigo. Se houvesse ajudado o Asno, estaria com a metade desta carga apenas”. 

A moral é evidente: Os egoísmos geralmente levam a prejuízos muito maiores do que se formos solidários enquanto é tempo. 

Das fábulas de Esopo

O cavalo e o asno 

Um homem tinha um cavalo e um asno. Um dia, quando caminhavam juntos por uma estrada, o asno disse ao cavalo: 

‒ Se a minha vida te importa, leva um pouco de meu fardo. 

Mas o cavalo não se deixou levar pela conversa e o asno caiu morto. O dono, então, pôs toda a carga nas costas do cavalo, inclusive os despojos do asno morto. 

E o cavalo pôs-se a lamentar seu destino aos brados: 

‒ Como sou infeliz! Que triste destino o meu! Não quis levar uma parte da carga do asno e agora estou levando tudo em dobro, e como prêmio a pele do outro. 

Então, ajudar os outros é uma forma de ajudar-se. Dividir o peso da vida pode fazê-la mais leve por mais tempo para si e para o outro.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Um grito às mulheres sem voz do Rio Grande

 Campereada 

Paulo Mendes

Vi mulheres campeiras andando a cavalo pelos corredores, a pé, conduzindo carroções de quatro rodas, e carretas toldadas. Andavam de calças largas, bombachas velhas arremangadas, camisas puídas, carregando os filhos do jeito que podiam. Da maneira que dava. Nada mais e nada menos do que isso. Sobreviviam. Enxerguei suas mãos grossas e calosas, os sulcos que riscavam no rosto desenhos de dor e sofrimentos. Tinham a pele morena, indiática, os cabelos negros escorregadios, geralmente atados por um trapo. Na cabeça umas boinas, chapéus furados, desses que encontravam abandonados pelos galpões. Soube de seus sonhos frustrados, muitos despedaçados, estilhaçados, vários juntados e, mesmo assim, não davam nem a metade de um 

Conheci mulheres colonas, de chapéus de palha na cabeça, olhar perdido nas serras, também com mãos calejadas, com olhos de vidro fosco, onde as lágrimas nem tinham mais onde morar. Eram mulheres duras, que carpiam, plantavam, seguravam arados, colhiam e esperavam. Aguardavam por dias melhores, por melhores colheitas, esperavam em vão por maridos e companheiros que nunca mais voltaram. Mulheres de pele branca que enrugou debaixo das soalheiras de janeiro, de sol a sol temperando as tristezas que brotavam debaixo dos parreirais, das lavouras de arroz, os braços tapados por cicatrizes de arames farpados, sinais da lida bruta, dos dias e das noites que se sucediam. 

Vi mulheres negras carregando trouxas nos ombros ou nas cabeças, de cabelos quase raspados, trabalhando como seus ancestrais arrancados da África. Eu vi mulheres guaranis vendendo cestas de vime ao lado das rodovias, mães com seus pequenos rebentos ao lado, quase nus, vivendo à míngua, eles os verdadeiros donos da terra, vilipendiados, corridos a mango e espada das aldeias, dos Sete Povos, de todo o lado. Vislumbrei, de relance, seus olhares acabrunhados, como a pedir desculpas, solicitando apenas compaixão. Vi suas pinturas na cara, ouvi seus gritos, e enxerguei seus curumins seguirem destinos iguais. 

Vi mulheres gaudérias, gringas, pretas e indígenas. Vi todas elas, as nossas mães, as formadoras do Rio Grande, e garanto-lhes, temos para com elas uma dívida histórica e impagável. Ao contrário dos livros, das lendas contadas nas casas das cidades, ns escolas e nos centros de tradicionalismo, essas mães choraram e ainda choram pelo descaso e desprezo aos humildes, os que não têm voz, dinheiro, e, às vezes, nem um rancho para morar. 

Sofro todos os dias quando ainda as vejo, as queridas e sofredoras mulheres gaúchas, de tantas peles e mais outro tanto de olhos de tons variados, as que trabalham, suam e esperam. Mulheres do campo, dos corredores sem fim do Pampa, moradoras dos descampados que choram porque não podem dar um futuro digno a seus filhos. Eu as conheci, as desafortunadas mulheres que sofriam agressões físicas e psicológicas e, mesmo assim, seguiam.

Mães das periferias de pequenas, médias e grandes cidades, mães das estradas, mães que se acotovelam em coletivos e trens desde a madrugada, trabalham o dia inteiro em casas alheias e quando chegam em seus casebres, já é noite de novo, estão exaustas até para beijar os filhos. Tenham piedade delas, leitores e leitoras. São trabalhadoras, são guerreiras e são merecedoras de nosso respeito eterno.  

Crônica do Correio do Povo, 8 de março de 2026.