segunda-feira, 13 de julho de 2026

Nossa reserva moral e o prazer edificante

Fernando Dourado Filho

Acompanhado do assecla Gil Cebola, eis que ontem a imprensa estadunidense registrou uma presença ilustre num torneio de carteado no deserto de Nevada. Há menos de uma semana, o personagem em questão protagonizou a cena mais feia da Copa do Mundo ‒ onde o deixaram participar. Com o Brasil de cara no chão, lancetado de morte por dois gols no fim do jogo, eis que ele resolveu sair com quizílias para cima do goleiro norueguês. Como se uma conduta acintosa e provocadora de última hora fosse reverter o resultado, e não tão somente nos subtrair uns minutos valiosos para tentar o impossível. Foi nessa entidade do baixo espiritismo que eu pensava enquanto via Messi jogar 120 minutos contra os suíços, na última madrugada, que venderam caro a derrota. Não que eu queira comparar ambos. Nosso representante nesse embate está para o oponente como um siri sob a pata de um elefante. Mas não deixa de ser este um contraste tão marcante que nos convida a fazer as últimas reflexões comparativas da temporada sobre a atitude dos jogadores do Brasil e da Argentina. E isso começa pelo momento em que eles aparecem pela primeira vez para o público, ao desembarcar do ônibus. 

Naquele trajeto de cem metros que eles percorrem para se dirigir ao vestiário sob o olho das câmeras, temos dois mundos. Os argentinos descem serenos e concentrados. Um está sempre dando uma palavra ao outro. Alguns desembarcam com uma espécie de nécessaire embaixo do braço. Outros trazem uma garrafa térmica pequena e uma cuia de chimarrão para o mate. Eles não se fotografam, não ficam fazendo careta para a televisão. Na maioria dos casos, os penteados são os mais básicos. O goleiro é o único que faz uma graça, com duas pequenas mechas albicelestes. Os nossos saem do ônibus com as orelhas abafadas por imensos headphones e sumidos por trás de óculos de sol. Teriam fotofobia? Imagino que os fones estejam desligados. Se ligados, lhes estourariam os tímpanos. Olham para os jornalistas com olhar esgazeado, fazem mungangas ou, quando falam, dizem só platitudes e lapalissadas. Os argentinos treinam compenetradamente; os brasileiros amorcegam um carrinho de golfe e, como crianças, ficam dando esguichadas de água uns nos outros, ao som estridente do sorriso debiloide do líder. É o riso das hienas. 

Casemiro, o xerife que perdeu as insígnias e mostrou quem era, começou a temporada dando entradas desleais em Endrick. Para completar o desabafo de quem já não vale nada no futebol, disse que o atacante “não fazia parte do grupo”. Será que Ancelotti o chamou às favas por isso? Coisa nenhuma. Talvez Modric fizesse isso no lugar dele em outras casas. Isso foi já nas primeiras semanas. Imaginem. No centro de treinamento do Brasil, pululavam fotógrafos pessoais para alimentar as redes sociais de uma geração de “brain rots” ‒ totalmente tomada e povoada pelo digital. Já nem falo dos cabeleireiros. Nunca vi aquele Rafinha jogar uma partida boa. Mas como pode achar tempo para fazer aquele penteado de trancinhas sobre a nuca raspada? Além das vontade inexcedível de ser feio ‒ o que consegue com raro louvor ‒, eis que o ex-xerife foi flagrado exercitando coreografias para o caso de fazer um gol. Imagine-se Tostão com essa frescura, Clodoaldo, Rivaldo. Dia desses botaram uma garrafa de Coca Cola na frente de Cristiano Ronaldo. Ele descartou-a na coletiva e se serviu de água. As ações da empresa caíram na Bolsa. Neymar se deixa fotografar diante de uma lata de cafeína concentrada, que só dá asas a quem é um rematado idiota ‒ jamais um esportista, mesmo sucateado, reduzido a ferro velho. 

Temos mais quatro jogos pela frente nesta Copa. Apesar de acreditar no Mal, como disse aqui ontem, ainda creio que Trump cairá antes do fim do mandato. Nessa onda, e por razões diversas, não vejo Ancelotti no Brasil em 2030. E os jogadores? Narcisistas, mimados, desfibrados, medrosos e burocráticos. É assim que enxergo essa seleção. É merecido termos quatro ex-campeões do mundo nos páreos finais. Não havia mesmo lugar para nós. 

Com os olhos virados para a querência

Campereada

 Paulo Mendes 

Em um janeiro quente, quando já havia deixado a terra onde me criei, o Tostado descansou seu couro na grama verdejante da Vila Rica. Na verdade, só vi seus ossos, cheguei tarde demais para me despedir do melhor amigo que fiz nesta vida. Mas constatei que morreu com a cabeça virada para sua querência, o rincão do Passo dos Buracos. Disso eu sabia, ele amava o lugar que havia nascido, pois o flagrei muitas vezes com o pescoço pendurado na cerca de arame lá perto da sanga, do fundo de nossa pequena chácara. Ele ficava debaixo de uma caneleira, clamo, reboleando a cola, pateando. Depois me fitava com aqueles seus olhos imensos que pareciam um lagoão de potreiro. 

Foi assim: o pai, seu José Mendes, o comprou ainda potro de um vizinho que, diziam, maltratava ele e sua mãe, uma égua carroceira que nem bem teve o parto foi atrelada de novo na carroça. E o potrinho, a partir daquele dia, aprendeu a correr ao lado. Vendo aquilo, seu Mendes pagou o que o dono pediu e tirou o animal da daquele martírio. O Tostado foi o cavalo mais forte, mais manso, mais companheiro que conheci. Ele fazia de tudo, puxava carroça, era exímio numa lida de campo, excelente tracionando um arado 9, qualquer coisa. O pai dizia que, quando cresceu, o potro não mostrou resistência para doma. Ao contrário, sempre foi dócil e eficiente. “Nasceu manso, um amigo”, dizia o pai. 

Somos parecidos com os cavalos, que quando ficam livres voltam para o lugar onde nasceram. E desde jovens mostram as suas personalidade. Passamos a vida tentando voltar para a querência. Onde ela está, soubemos. Mas o que nunca aprendemos é como encontrá-la. Para onde ela se cambia depois que crescemos, nos bandeamos de tiro rumo ao desafios que se apresentam. E, por vezes, vamos de volta para aquele lugar, mas ele não está mais lá. Chegamos e não reconhecemos as casas, as estradas, o gado que pastava à beira da estrada. Ali, onde se erguia um bolicho, agora viceja um distrito industrial, a estrada de terra virou rodovia asfaltada. Então nos invade a sensação de que assim como nós, a querência se transformou. 

Um vez, contudo, enfrenei o Tostado, acomodei um pelego no lombo, e o levei lá nos Buracos. Era perto. Ele troteava feliz quando ia para aqueles lados. Paramos no arroio, quase debaixo da ponte. Bebeu a água limpa e gelada que corria por entre as pedras. De minha parte, comi umas pitangas e depois voltamos felizes, dois amigos que se respeitavam. Tostado ficou tão feliz com aquele passeio que, ao chegarmos, rolou várias vezes no potreiro onde o soltei. Ele só se rolava na grama para coçar o lombo, quando estava faceiro. 

Noutros pagos, certa vez, me perguntaram o que era a querência. Disse, é o lugar onde nascemos, mas é também mais que isto, é um paraíso idílico que criamos em nossos internos. O lugar de onde lembramos quando estamos felizes, onde passamos nossos dias mais doces. Foi onde lemos o primeiro livro, demos o primeiro beijo em lábios amados, vimos o sol nascer e a se pôr. Onde aprendemos a viver, amar e a sentir saudade. É o lugar que se esconde dentro de nós, mas está sempre distante. 

O lugar que quero que joguem minhas cinzas e, também, o lugar que o Tostado imaginava ser bom de viver quando pateava debaixo da caneleira. Talvez tenha ido em seus pensamentos para lá. Minutos antes de morrer. Quem sabe? 

(Do Correio do Povo, 12 julho de 2026)

domingo, 12 de julho de 2026

Não vai dar certo

Celso Viáfora e Pedro Viáfora 

Sabe a sensação de que nunca essa porra vai dar certo?

A gente até faz direito,

a gente até passa perto,

sai na cara do gol,

a gente mata no peito,

a gente dá nosso show,

e chuta a bola no teto.

A sensação de que sempre o amanhã vai ser punk,

porque a vida tá heavy,

porque o mundo tá Trump,

e, por mais que a gente trampe,

a gente pague o que deve,

os cara vem com uma verve

e tiram a gente do ranking.

A sensação de que sempre vão furar nosso tanque,

expulsar nosso beque,

sabotar nosso arranque,

pisar no nosso breque

e eleger outra gangue pra fazer uma PEC pra sugar nosso sangue. 

Sabe a sensação de que nunca essa porra vai dar certo?

É feita pra dar defeito,

pra ficar em aberto,

a coisa de dar um jeito,

a edição de um decreto,

a mancha do preconceito,

a falta de um papo reto.

A sensação de que sempre vai ficar meio trash,

falta grana pro lanche,

falta vaga na creche,

a gente paga no cash

e, pra sair do desmanche,

tem que ter muito punsh,

ou rebolar feito a Gretchen.

A sensação de que tudo é feito pra dar um crec,

pra pagar a SELIC,

mais o juro do cheque,

preparar um trambique,

e achar que a gente é moleque,

um acrobata do Cirque,

um ogro feito o Shrek. 

Sabe a sensação de que nunca essa porra vai dar certo?

O cara vende o conceito,

e, quando entrega o projeto,

falta telha no teto um metro de parapeito,

um quilo a mais de cimento pra amarrar o concreto.

A sensação de que sempre vão tirar nosso pique,

vai ter sempre um achaque,

vai ter sempre um aplique,

alguém fazendo um strike,

a bola que sai no quique,

um hacker no nosso site,

um vírus no nosso link.

A sensação de que sempre o salário vai ser curto,

porque teve um desconto,

porque entrou um tributo,

a gente dormiu no ponto,

a gente caiu no conto,

a gente é feito de tonto,

um pouco a cada minuto. 

Sabe a sensação de que nunca essa porra vai dar certo?

Sabe a sensação de que nunca essa porra vai dar certo?

Sabe a sensação de que nunca essa porra vai dar certo?

sábado, 11 de julho de 2026

Zoo da memória

 Carpinejar

Eu recebi um questionário do meu amigo José Klein, no WhatsApp e criei  uma adaptação literária,  ampliando o repertório. 

Você pode determinar a sua idade pelo zoológico da memória. Quanto mais bichos e feras habitarem as suas lembranças, mais velho você é. 

Não percebemos a enormidade de expressões populares que carregam animais. Do Arco da Velha à Arca de Noé. 

Complete: 

01. Não conte que ganhou um dinheirinho a mais: não alerte os ______________. 

02. O inverno promete temperatura abaixo de zero, com um frio de renguear _____ . 

03. Não interfiro nas discussões dos chefes. Guaipeca não se mete em briga de __________ grande. 

04. Os motoristas começaram a se provocar na sinaleira, até que um deles ameaçou descer do carro. Preteou o olho da ____________ . 

05. Ele achava que o concurso seria barbada, não revisou a prova e deu com os ______ n’água. 

06. Eu me espantei com a notícia: ________ me mordam! 

07. Não esperava que ela soltasse a ________ na festa da firma e bebesse que nem um __________ . 

08. Resolvi os problemas com apenas um telefonema: matei dois ________ com uma cajadada só. 

09. O que passou, passou. Não adianta se lamentar, chorar a morte da __________. 

10. No Gre-Nal, a ______ vai fumar. 

11. Minha mãe dançou Macarena no elevador. Paguei _______ ao seu lado. 

12. Meu colega implicava com quem chegava na sala. Acordou com a _________ . 

13. Depois de uma série de derrotas, quando a _______ torce o rabo, sempre é o técnico que paga o _________ . 

14. Não acredito no arrependimento dos envolvidos no caso do Banco Máster, são lágrimas de __________ . 

15. A loja recém-inaugurada não tinha nenhum freguês, estava entregas às _____ . 

16. É incrível como ele se lembra de tudo, tem uma memória de __________ . 

17. Nunca deixe de defender seus interesses em qualquer aproximação: puxe sempre a brasa para a sua ___________ . 

18. Foi enganado pela pressa: comprou _______ por ______ .* 

19. A íris da Mona Lisa é misteriosamente indefinida: parece cor de _______ quando foge. 

20. Eu jurava que a Seleção Brasileira iria mais longe na Copa, mas, diante da Noruega, ela caiu do ________ . 

21. A estreia do filme no cinema foi um fiasco, com alguns _______ pingados. 

22. Suspensórios e gravatas-borboleta são do tempo do ________ . 

23. Não tente pela enésima vez. Tire o _______ da chuva. 

24. Cada um dá um pouco na arrecadação. Que tal fazer uma ________ online? 

25. Ele se enfureceu com a piada: soltou os _________ . 

26. A casa para alugar se encontrava num estado lastimável, largada às ________ . 

27. Mostrou-se desconfiado no rumo da prosa, com a ______ atrás da orelha. 

28. Não se afobe! Tenha calma. Não coloque a carroça na frente dos _________ . 

29. Não me amole! Saia de perto. Vá pentear _________ . 

30. É segredo, não espalhe para ninguém: boca de _____ . 

31. Não pegou o guarda-chuva na hora de ir ao trabalho. Acabou molhado como um ________ . 

32. Por que você aguenta ser tão humilhado em público? Pare de engolir ______ . 

33. Já nasci sofrendo bullying na maternidade, era chamado de _______ chupando manga. 

34. Aquele que julga demais os outros costuma ser um _____ em pele de cordeiro. 

35. Não fique feito ______ em carniça, imaginando o pior. 

36. Não mudarei de opinião, nem que a ________ tussa. 

Se você conseguiu preencher todas as lacunas, como eu, parabéns pela longevidade. É um dinossauro. Há uma selva na linguagem, e você é da época em que se assistia ao seriado Tarzan, com Ron Ely, no televisor preto e branco. 

(Do jornal Zero Hora, 10 de julho de 2026) 

Respostas: 

● 1 Gansos ● 2 Cusco ● 3 Cachorro ● 4 Gateada ● 5 Burros ● 6 Macacos ● 7 Franga / Gambá ●  8 Coelhos ● 9 Bezerra ● 10 Cobra ● 11 Mico ● 12 Macaca ● 13 Porca / Pato ● 14 Crocodilo ● 15 Moscas ● 16 Elefante ● 17 Sardinha ● 18 Gato / Lebre ● 19 Burro ● 20 Cavalo ● 21 Gatos ● 22 Onça ● 23 Cavalinho ● 24 Vaquinha ● 25 Cachorros ● 26 Traças ● 27 Pulga ● 28 Bois ● 29 Macacos ● 30 Siri ● 31 Pinto ● 32 Sapos ● 33 Cão ● 34 Lobo ● 35 Urubu ● 36  Vaca 

* O segundo animal da questão 18 (Lebre) foi acrescentado ao texto. 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

A verdade sobre o apelido “Barriga Verde”

 que quase ninguém conhece em Santa Catarina!

Você sabe de onde surgiu o apelido Barriga Verde, símbolo de Santa Catarina? A verdadeira história começa no século XVIII, quando foi criado o lendário Regimento Barriga Verde, responsável por defender o litoral catarinense contra invasões espanholas e corsárias. 

Você vai conhecer como nasceram os soldados Barriga Verde, por que suas fardas tinham o famoso peitilho verde e como eles lutaram em conflitos históricos como a Guerra da Cisplatina, a Revolução Farroupilha e a Guerra do Paraguai, tornando esse apelido um dos maiores símbolos da identidade catarinense. 

Uma história real que explica por que, até hoje, quem nasce em Santa Catarina é chamado, com orgulho, de Barriga Verde. 

O apelido “Barriga Verde” surgiu no século XVIII com os militares do Regimento de Infantaria de Linha da Ilha de Santa Catarina. Os soldados vestiam um uniforme com uma longa faixa verde na altura da barriga. Devido à bravura nas batalhas, a população estendeu o termo para todos os catarinenses. 

O termo, que se tornou um gentílico informal para quem nasce no estado, frequentemente confunde as pessoas, que associam a alcunha a outros mitos, como o consumo excessivo de chimarrão e erva-mate. 

A expressão ganhou grande notoriedade histórica e hoje batiza até a sede do poder legislativo estadual, o Palácio Barriga Verde, que abriga a Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc). Você pode conferir mais detalhes sobre a história e as origens do estado no portal oficial do Brasil Escola. 

Para saber mais consulte as seguintes Fontes: 

Arquivo Público do Estado de Santa Catarina

Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina (IHGSC)

Exército Brasileiro – História Militar do Brasil

Fundação Catarinense de Cultura (FCC)

Obras sobre José da Silva Paes e o Regimento Barriga Verde

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Desencanto

 Filipe Silvello

Imagem da internet

Depois do tetra de 1994, entendendo um pouco melhor dos bastidores do futebol, minha paixão foi arrefecendo. Ainda permaneci com grande entusiasmo até a Libertadores do Grêmio, mas, depois de 1995, algo mudou. Era preciso me esforçar um pouco mais para tentar sentir aquilo que outrora fora natural, e eu só tinha 14 anos. 

Sem adentrar em demasia no passado, vejo no presente a cena que explica o meu atual ranço. Um jogador mimado, chamado Menino Ney, sem pensar numa nação que ainda mantinha acesa a chama da fé pela seleção, foi lá rir, debochar, dar mais um demonstração de imaturidade e desrespeito, justo no momento em que o time estava SENDO ELIMINADO! Apesar do gol dele, só um milagre faria o Brasil empatar! Não havia tempo para mais nada! 

Mas o menino, mimado, moleque, achou tempo para sambar, quando o momento era de tentar reagir, antes do luto! E ele não sambou na cara do goleiro, que riu desacreditado do que via e ouvia, mas sambou na nossa cara, mostrando que pra ele, e pra muitos outros, nós não importamos! Mostrando ignorar o fato de que a grande massa miserável desse país ainda tem no futebol o seu refúgio, mas isso, para os Neymares da vida, não tem a menor importância. 

Pudemos observar a entrega dos jogadores de outros países, mas os brasileiros estavam a passeio, uma excursão de grife, com direito à família, jantares, tudo para tirar o foco de apenas alguns dias de copa! ALGUNS DIAS! Milionários como são, podem escolher o quê, quando, aonde ir, e com quem quiser, mas precisaram fazer isso no momento que exigia concentração e dedicação. Nós não importamos! 

Eu me deixei levar pela onda, consegui vibrar com alguns gols, sentir uma pontinha de esperança, mas tudo foi ilusão, novamente. E não falo isso pela eliminação, mas pelo contexto, pela vergonha e pela exposição ao ridículo que o menino nos submeteu. Ver crianças se espelhando em Neymares e Virgínias é ver um futuro cada vez mais decadente. Ver adultos tendo eles como referência, então, é acreditar que o fundo do poço já chegou! 

Pra frente, Brasil, não salve a seleção, salve a gente!

segunda-feira, 6 de julho de 2026

O último

 

Borg estava frente a frente com o inimigo.  Lembrou-se, em velocidade superior à da luz, do que dissera o Líder: “É preciso destruí-los a todos. São seres inferiores, um desperdício de energia.  Entretanto, possuem inteligência suficiente para saber que não há convivência possível: (ou nós os aniquilamos, ou somos aniquilados por eles. Como somos os melhores, venceremos com facilidade). Não acredite quando afirmarem que são nossos criadores.  É ridículo: (como poderiam nos criar, sendo tão ignorantes, tão lentos, tão incapazes e tão primitivos?). Nossa raça criou-se por si mesma,  porque é a memória do tempo,  que possui a mesma idade do universo  e por isso é capaz de produzir matéria de um espaço sem energia alguma.   Portanto,  não vacile,  em hipótese alguma: quando encontrar um deles, destrua-os imediatamente”. 

Borg olhou então o inimigo, para examiná-lo cuidadosamente.  Primeiro, o interior do corpo: um organismo frágil, pouco resistente e pouco evoluído.  A mente era das mais primitivas: sua velocidade operacional equivalia apenas à da luz e não era capaz de cálculos mais complexos. Depois, as camadas externas: um amontoado de matéria balofa, que não respondia rápido aos estímulos da mente. Com efeito, um ser bastante inferior.   O inimigo, consciente do caráter mortal do confronto, quis atacar primeiro.   Mas Borg, com incrível rapidez, pressentiu sua intenção e, antes que o adversário concluísse um terço da mais elementar operação mental, acionou o raio gama que levava ao peito.  Mirou na cabeça.  Enquanto controlava a descarga energética, de modo a gastar exata e somente o necessário para aniquilar a mente inimiga, Borg pensou:  “Além de inferior,  é ridiculamente pretensioso. Como se atreve a enfrentar-me?”  Borg viu então o inimigo alçar voo ao impacto da poderosa descarga e cair 1,9² metros adiante, já então simples massa sem vida. 

Tudo, desde o instante em que se viram frente a frente, não durou mais que dois segundos. Borg pensou: “Esse foi o último, agora está tudo solucionado”.   Levantou então a placa de fibras de carbono que cobria o ápice de seu crânio, de modo a expor as baterias internas à luz solar e recuperar a energia gasta no combate.  Ao mesmo tempo, transmitiu teleionicamente a seu Líder  a informação de que o último dos humanos estava exterminado. 

Agora era preciso voltar ao Centro de Controle. E estranho: embora Borg soubesse exatamente como chegar lá, por um momento seus sensores indicaram a perda total dos sistemas de referência. 

(In Shell em Revista ‒ n° 26)