quarta-feira, 20 de abril de 2016

O difamador



Otto Lara Rezende me conta uma história que ouviu do saudoso poeta Augusto Frederico Schmidt. Schimidt conhecia um rapaz que vivia na maior pobreza e, depois de muitos esforços, conseguiu arranjar um emprego em uma certa repartição federal – digamos , a Cexim*. Meses depois, o poeta o encontra muito bem vestido e com todos os sinais de uma prosperidade súbita que seu minguado ordenado não justificava de modo algum.

– Então, que tal seu emprego?

– Ótimo, doutor, ótimo!

Passa-se mais algum tempo, e Schimidt volta a encontrar o moço. Já o seu aspecto não era tão próspero, e ele se queixava da vida.

– Ganho muito pouco, doutor. E o pior é que aquele emprego não tem futuro...

– Mas você estava tão satisfeito lá! Lembro-me que você disse que o lugar era ótimo...

– Era, doutor, era. Eu estava me defendendo muito bem. Mas tenho um inimigo lá, e ele fez a minha caveira...

– Fez alguma denúncia contra você?

– Muito pior, doutor. De denúncia eu não tenho medo, porque, modéstia à parte, quando eu fazia alguma coisa para ajudar um camarada – o senhor sabe, uma mão lava a outra – eu fazia tudo legal e não deixava rabo.

– Mas, então, o que é que ele fez?

– Ele me desmoralizou, doutor. Ele é mais antigo lá, conhece todas as firmas que lidam com a repartição, e fez minha caveira...

– Mas como, rapaz?

– Ele inventou que eu tinha dito:

“O primeiro sujeito que vier com conversa mole pra cima de mim achando que eu sou desses que engole bola, eu parto a cara!”


Rubem Braga – nO Pasquim)



Rubem Braga
(1913-1990)

*Nome fictício, é claro, mas poderia ser qualquer órgão federal que trata com contratos de empresas que prestam serviços ao governo.


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