Paulo Mendes
Existe um menino de calças curtas que vem todos os dias no início das manhãs me acordar para um novo dia. Ele é bem pequeno, miúdo, franzino, mas tem olhos grandes e vivos, desses que parecem enxergar até nos escuros. Tem uma carinha de ladino, parece que, mesmo novinho como um terneiro recém-desmamado, tem um jeito e um semblante de que já sabe das coisas, das artimanhas do mundo, dos perigos escondidos por detrás das macegas, nos galhos e folhas dos arvoredos, pelos desvãos das portas e venezianas, dos postigos fechados por velhos trincos de ferro carcomidos pelo tempo. Que gurizinho medonho este, cuera que nunca falha, todos os dias, invariavelmente, como um predestinado a cumprir rigorosamente seu fado. Por nos conhecermos já há tantos cansados dias, eu já nem o cumprimento mais, apenas meneio a cabeça e o miro de soslaio, com o canto dos olhos, querendo escapar algum tipo de sorriso que ainda guardo, mas como são poucos, tenho medo de soltá-los e perdê-los todos para sempre. Por isso são poupados como esses caramelos que guardamos nos bolsos fundos das bombachas.
Existe um menino de calças curtas e caniço de taquara ao ombro que todos os dias, no início das tardes longas da primavera, vem me convidar para pescar lambaris prateados numa linda sanga encantada. Esse já guri taludo assobia milongas, canta e conversa solito pelos matos e várzeas, sem medo, livre como um potro reúno e haragano, solto, lépido e feliz. Ele traz anzóis, empates, iscas, uma faquinha de alpaca, um alicate, e até um lanche de pão caseiro com mel enrolado num pano de branco de algodão, bem lavado, mas já desbotado onde ainda dá para enxergar os dizeres bordados em linha vermelha “Feliz Natal”, e uns cordeirinhos saltando uma cerca de pedra. Tudo vem perfeitamente guardado num embornal de lona que ele usa à meia espalda. Anos trás costumava seguir esse guri em suas endiabradas aventuras pelos riachos, banhados e matarias. Agora, preciso trabalhar, ganhar o pão nosso de cada dia, e, neste momento, uma lágrima escapa pelo meu rosto sulcado de rugas enquanto vejo-o se afastar mais uma vez.
Existe um menino de calças curtas, caniço de taquara ao ombro e pés descalços que me aparece todas as noites, quando me deito no catre simples, varões de ferro, tela e colchão de palha de arroz, travesseiro de pena de galinha, estafado, para me contar de seus sonhos, enquanto me mostra seus peixes e conta aquilo que viu pelos campos. Este guri já mais parece um tourito salino recém-relampeando a guampa, todo entonado e pavena. Ele também reclama das lavouras de monocultura, dos agrotóxicos que deixam as perdizes contaminadas, do fim dos matos, da falta de cuidado com o meio ambiente, da extinção das plantas e animais nativos. Conta das terras concentradas em poucos donos e tantos sem onde plantar, vivendo como cães doentes pelos corredores sem fim do pago. Constrangido, adormeço sem dizer-lhe nada.
Existe, ainda, um guri campeiro que me visita nas madrugadas frias, entre os sonhos entreverados, ariscos e inconstante. A criança segura pelo cabresto um lindo pingo já encilhado e me convida a montar. E eu tento explicar que me doem as pernas, que me falta força no braço e até o ar está raro no peito. Enquanto as vistas estão turvas, embaçadas. Ele não se conforma e insiste que eu monte e saia de novo a cavalgar pelas pradarias do Pampa. Depois são todos eles que me rodeiam e me incentivam, com vivas e gritos, alegres e animados, como um bando de pássaros noturnos. Um dia, quem sabe, encho-me de coragem e, num upa, boto o pé no estribo e monto. E sairei ao tranco, depois ao trote, em seguida a galopito, no rumo dos meus horizontes...
Na Coluna “Campereada”, do jornal Correio do Povo,
13.10.2024

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